domingo, setembro 27, 2026

O fundo que não visitaria

 


Há viagens que se fazem por procuração, e esta é uma delas. Sei, com a certeza tranquila que a idade traz a certas renúncias, que nunca descerei a um abismo.

Não chega a ser fobia, que esta tem qualquer coisa de dramático e eu não gosto de dramatizar os limites, mas é uma recusa do corpo que a razão subscreve sem discutir.

Imagino a corda, a pedra húmida, a escuridão que não é noite porque esta tem sempre um céu por cima, e sobretudo imagino o instante em que a passagem se estreita, o capacete raspa no teto, os ombros procuram um ângulo que talvez não exista, e o pensamento, que até ali se portara bem, formula a única pergunta que importa: e se eu ficar aqui?

Foi com esse corpo relutante que vi Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e talvez por isso o filme me incomodou.

Em agosto de 1961, um grupo de jovens espeleólogos do Piemonte atravessou a Itália para explorar o Abisso del Bifurto, no maciço do Pollino, na Calábria. Chegaram a cerca de 680 metros, uma das maiores profundidades então conhecidas.

É tudo o que é preciso saber, e é quase tudo o que o filme diz, porque Frammartino recusa a palavra como quem recusa um atalho. Não há diálogos que expliquem, nem heróis que confessem o medo, nem uma música que diga quando devemos suster a respiração. Há o som da água a escorrer, o eco de uma voz que chama lá em cima, o tilintar metálico do equipamento, e sobretudo o silêncio, que não é ausência de som, mas uma substância.

A fotografia de Renato Berta merece um parágrafo inteiro. Lá em baixo, a única luz é a que os homens levam consigo: lanternas de capacete, e folhas de papel acesas que deixam cair no vazio para medir a profundidade do poço seguinte. Essas chamas que descem, oscilando, iluminando por instantes paredes que nenhum olho humano vira antes, e depois se apagam no fundo que não conseguimos ver, são imagens sugestivas. O escuro não é o negro chapado de um ecrã avariado: tem textura, profundidade, graus. Berta filma a escuridão como outros filmam a paisagem, e percebemos que a gruta é uma paisagem que se recusa a ser vista por inteiro.

E é aqui que o medo encontra o seu lugar. Frammartino não filma a claustrofobia, que seria o caminho fácil do cinema de género, com a câmara colada ao rosto em pânico e a respiração ofegante na banda sonora. Testemunha a exploração com planos longos, fixos, pacientes, e é precisamente essa calma que inquieta.

Os espeleólogos esgueiram-se por passagens onde eu não passaria, e o filme não sublinha nada, não pede aplauso, não pede sequer que tenhamos medo por eles. Deixa-nos sozinhos com o nosso. Descobri, a ver Il Buco, que o medo de ficar preso não precisa de ser encenado para ser sentido; basta que a câmara não dê a saída.

Lá em cima, entretanto, corre outro filme por outro caminho. Um velho pastor, que Frammartino foi buscar à própria região e que não é ator, observa os forasteiros de longe, chama o gado pelo vale com gritos que ecoam como se a montanha lhe respondesse, e adoece. A morte aproxima-se ao mesmo ritmo a que os jovens se afundam nas profundezas. As duas linhas nunca se tocam de forma explícita, e a montagem tem a inteligência de não as forçar. Uma desce ao fundo da terra, a outra desce ao fundo da vida, e nenhuma delas é comentada.

O pastor morre como viveu, sem testemunhas que lhe deem importância histórica. Os espeleólogos cartografam um abismo que ninguém lhes pedira para medir. Ambos os movimentos são, à sua maneira, inúteis, mas também essenciais.

Há, logo no início, um momento que funciona como chave. Na aldeia, os habitantes veem na televisão imagens do arranha-céus Pirelli, acabado de erguer em Milão. É a Itália do milagre económico, a que sobe, a que se mostra, a que olha para o futuro de baixo para cima. E os rapazes do Norte industrial vêm ao Sul pobre não para construir, mas para descer. Frammartino não faz disto uma tese, deixa a imagem da torre pousada no filme como uma pedra no caminho, e cabe-nos a nós tropeçar nela.

Pergunto o que diz este filme ao nosso tempo, e a resposta parece clara. Vivemos numa época que só concede valor ao que se vê, se partilha e se mede em números de visualizações. Tudo sobe: torres, gráficos, vozes.

Il Buco propõe o gesto inverso, o de descer ao que não se vê, sem plateia, sem transmissão em direto, pelo simples desejo de saber o que está lá em baixo. E propõe também uma atenção ao que morre em silêncio nesse mundo rural que continua a esvaziar-se no Sul de Itália - como no interior português -, sem que nenhuma câmara lhe preste a homenagem de um plano demorado. O filme é essa homenagem.

Não descerei nunca a um abismo, mas passei hora e meia dentro de um, guiado por homens que não conheço e por uma luz que eles próprios carregavam E conclui-o com a sensação estranha de ter estado muito fundo e regressado inteiro. É o que o cinema às vezes faz por nós: leva o corpo que temos aonde ele não quer ir. 

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