quarta-feira, setembro 30, 2026

Espreitar o que nos é estranho

 


O cinema permite a identificação com corpos, numa idade e experiência que não são as nossas, e provavelmente nunca poderiam ser.

Três curtas-metragens portuguesas, premiadas em festivais internacionais entre 2023 e 2024, colocam uma questão pertinente: o que fazer perante realidades que nos são estranhas, e o cinema permite espreitar sem as reduzir a curiosidades turísticas ou distanciamentos condescendentes?

Corpos Cintilantes, de Inês Teixeira aborda o corpo sem nostalgia ou desconforto: uma rapariga de dezasseis anos  descobre, num fim de semana em Leiria, que o olhar sobre um colega mudou de natureza sem aviso prévio.

Na estreia em ficção, ela filma esse território com uma discrição notável: quase tudo acontece em close-up, em luz natural, no que Mariana sente e imagina mais do que no que efetivamente sucede.

É um cinema que recusa a explicitação, entendendo que a adolescência não se define pelo acontecimento mas pela incerteza que o precede — a dúvida sobre se um convite é amizade, desejo, ou qualquer coisa entre as duas, e até que ponto aceitar esse convite é um gesto de autonomia ou vulnerabilidade.

O interesse do filme assenta na forma como a realizadora consegue tornar universalmente legível algo que é, por definição, intransmissível: a sensação de que o corpo, de um dia para o outro, passou a significar outra coisa.

É um filme que pede ao espectador mais velho a atenção genuína a um estado que só se pode observar de fora, precisamente porque, de dentro, já não temos acesso a ele.

Dildotectónica, de Paula Tomás Marques aborda uma distância de outra natureza — não etária, mas de experiência e identidade. Para tal cruza dois tempos: o de Rebeca, ceramista contemporânea a tentar a desconstrução do objeto que fabrica — como criar um dildo que não reproduza a forma fálica que estrutura, mesmo no prazer queer, uma lógica patriarcal? —, e o de Josefa, mulher perseguida pela Inquisição por "motivos incertos de resistência e insurreição", cujos amores ilícitos com Maria passavam também por um objeto de cerâmica semelhante.

A ponte entre as duas mulheres separadas por séculos é literal — o material, a forma, o gesto artesanal — mas é também uma reivindicação: a de que existiu sempre, mesmo quando a História oficial se recusou a registá-la, uma vida erótica dissidente que a Inquisição perseguiu e o cinema pode agora restituir, com humor e sem melancolia forçada.

Este é, dos três filmes, aquele em que a distância é mais estrutural na experiência do desejo que ali se representa. E é exatamente por isso que o encontro com o filme se torna mais instrutivo: não cabe validar nem julgar aquilo que Rebeca e Josefa procuram, apenas reconhecer, que a História é sempre incompleta, escrita a partir de exclusões que só agora começam a ser reparadas.

E com Quando M'eu For Desta Terra, de Francisco Moura Relvas e Rita Senra temos o corpo da terra que se esvazia.

Na aldeia de Dine, em Trás-os-Montes, Judite Lopes é uma das últimas habitantes de um lugar que se esvazia — e o acontecimento que perturba as suas noites, a ocupação de uma gruta próxima, funciona como metáfora de algo maior: a desertificação do interior português, a solidão de quem fica quando todos os outros partiram, o modo como os lugares e as suas histórias vão sendo tomados, um a um, pelo silêncio.

É o tempo que passa e deixa, atrás de si, cada vez menos gente para testemunhar aquilo que passou. É talvez essa a distância mais universal das três, porque é a única que, mais cedo ou mais tarde, se torna comum a todos — a de ficar, um dia, como Judite Lopes, a ouvir os cães ladrar no escuro, sozinho perante um mundo que se retirou.

O que estas três curtas têm em comum, para além do ano de produção e do reconhecimento em festivais internacionais, é a recusa de transformarem em espetáculo aquilo que filmam. Nenhuma delas precisa de gritar para que a sua realidade específica seja tomada a sério — o corpo adolescente que descobre o desejo, o corpo queer que a História tentou silenciar, o corpo de uma aldeia que se apaga devagar.

Perante elas não faz sentido fingir uma proximidade que não existe, mas reconhecer a dignidade de serem vistas com atenção e sem condescendência.



Sem comentários: