O cinema
permite a identificação com corpos, numa idade e experiência que não são as
nossas, e provavelmente nunca poderiam ser.
Três
curtas-metragens portuguesas, premiadas em festivais internacionais entre 2023
e 2024, colocam uma questão pertinente: o que fazer perante realidades que nos
são estranhas, e o cinema permite espreitar sem as reduzir a curiosidades
turísticas ou distanciamentos condescendentes?
Corpos
Cintilantes,
de Inês Teixeira aborda o corpo sem nostalgia ou desconforto: uma rapariga de
dezasseis anos descobre, num fim de
semana em Leiria, que o olhar sobre um colega mudou de natureza sem aviso
prévio.
É um
cinema que recusa a explicitação, entendendo que a adolescência não se define
pelo acontecimento mas pela incerteza que o precede — a dúvida sobre se um
convite é amizade, desejo, ou qualquer coisa entre as duas, e até que ponto
aceitar esse convite é um gesto de autonomia ou vulnerabilidade.
O interesse
do filme assenta na forma como a realizadora consegue tornar universalmente
legível algo que é, por definição, intransmissível: a sensação de que o corpo,
de um dia para o outro, passou a significar outra coisa.
É um
filme que pede ao espectador mais velho a atenção genuína a um estado que só se
pode observar de fora, precisamente porque, de dentro, já não temos acesso a
ele.
Dildotectónica, de Paula Tomás Marques aborda uma distância
de outra natureza — não etária, mas de experiência e identidade. Para tal cruza
dois tempos: o de Rebeca, ceramista contemporânea a tentar a desconstrução do
objeto que fabrica — como criar um dildo que não reproduza a forma fálica que
estrutura, mesmo no prazer queer, uma lógica patriarcal? —, e o de Josefa,
mulher perseguida pela Inquisição por "motivos incertos de resistência e
insurreição", cujos amores ilícitos com Maria passavam também por um
objeto de cerâmica semelhante.
A ponte
entre as duas mulheres separadas por séculos é literal — o material, a forma, o
gesto artesanal — mas é também uma reivindicação: a de que existiu sempre,
mesmo quando a História oficial se recusou a registá-la, uma vida erótica
dissidente que a Inquisição perseguiu e o cinema pode agora restituir, com
humor e sem melancolia forçada.
Este é,
dos três filmes, aquele em que a distância é mais estrutural na experiência do
desejo que ali se representa. E é exatamente por isso que o encontro com o
filme se torna mais instrutivo: não cabe validar nem julgar aquilo que Rebeca e
Josefa procuram, apenas reconhecer, que a História é sempre incompleta, escrita
a partir de exclusões que só agora começam a ser reparadas.
E com Quando
M'eu For Desta Terra, de Francisco Moura Relvas e Rita Senra temos o corpo
da terra que se esvazia.
Na aldeia
de Dine, em Trás-os-Montes, Judite Lopes é uma das últimas habitantes de um
lugar que se esvazia — e o acontecimento que perturba as suas noites, a
ocupação de uma gruta próxima, funciona como metáfora de algo maior: a
desertificação do interior português, a solidão de quem fica quando todos os
outros partiram, o modo como os lugares e as suas histórias vão sendo tomados,
um a um, pelo silêncio.
É o tempo
que passa e deixa, atrás de si, cada vez menos gente para testemunhar aquilo
que passou. É talvez essa a distância mais universal das três, porque é a única
que, mais cedo ou mais tarde, se torna comum a todos — a de ficar, um dia, como
Judite Lopes, a ouvir os cães ladrar no escuro, sozinho perante um mundo que se
retirou.
O que
estas três curtas têm em comum, para além do ano de produção e do
reconhecimento em festivais internacionais, é a recusa de transformarem em espetáculo
aquilo que filmam. Nenhuma delas precisa de gritar para que a sua realidade
específica seja tomada a sério — o corpo adolescente que descobre o desejo, o
corpo queer que a História tentou silenciar, o corpo de uma aldeia que se apaga
devagar.
Perante
elas não faz sentido fingir uma proximidade que não existe, mas reconhecer a dignidade
de serem vistas com atenção e sem condescendência.

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