sexta-feira, maio 06, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Há redenções surpreendentes

Há vinte anos, se me dissessem que iria escrever um texto encomiástico a respeito de Vincent Lindon, eu ficaria seriamente espantado. Na época, mais do que os seus papéis no cinema, o que lhe garantia a notoriedade era a condição de marido oficioso de Caroline do Mónaco, com capas frequentes na Paris-Match.
Ora, nas minhas firmes convicções republicanas colocava-o logicamente naquele índex destinado a quem servia de cartaz publicitário para instituições tão equívocas como é o caso do Principado situado no sul da França.
Mas, no entretanto, Lindon regenerou-se e, em sucessivos papéis dos últimos anos, tem-se revelado um ator muito respeitável, até não cobrando o cachet devido, quando se trata de filmes sobre questões, que lhe passaram a dizer muito. Como é o caso deste «A Lei do Mercado», um dos filmes mais apetecíveis de quantos andam pelos ecrãs lisboetas.
No filme ele é Thierry, um quinquagenário a contas com o desemprego e a terrível perspetiva de não voltar a encontrar alternativa capaz de lhe assegurar a sobrevivência e a dignidade.
Reciclado em segurança de um hipermercado não tarda a confrontar-se com um terrível dilema moral: manter o emprego ou recusar-se ao papel pretendido pela direção de delator das falhas das empregadas das caixas, assim sujeitas ao despedimento.
Num artigo do «Público», Vasco Câmara aponta Lindon como o ator francês mais credível em personagens classificáveis nos níveis mais baixos da escala social. Só não concordo, porque há Jean-Pierre Darroussin, mas ele está-lhe logo a seguir, porque, apesar de provir de um ambiente burguês, Lindon soube olhar para o mundo à sua volta e compreender as injustiças de que ele é feito. Por isso, num filme recente igualmente memorável - «Welcome», ele ajudava um jovem curdo a tentar a travessia do Canal do Suez para romper com os obstáculos colocados à livre circulação dos refugiados.
Mais do que um filme de denúncia quanto a uma situação de injustiça, o filme de Brizé é revelador quanto aos mecanismos de que se serve o sistema capitalista para fazer dos desfavorecidos os maiores inimigos dos seus iguais. Porque cria competitividades estéreis, fomenta os piores instintos e incentiva o conformismo dos que tendem a ser empurrados para a marginalização.
Em nome dos valores da decência, os que se recusam a fazer esse jogo - a respeitar a “lei do mercado” - estão condenados à solidão de quem se vê obrigado a ponderar nas consequências de uma decisão, que faz depender a preservação de um emprego precário do remorso do mal que se pode praticar.
Nesse sentido a ética, quer tenha a ver com valores republicanos, judaico-cristãos ou quaisquer outras matrizes dependentes do respeito pelos Direitos Humanos, não se coaduna em nada com esse tal mercado, cujas leis devem ser definitivamente proscritas. A solidariedade e a igualdade são valores, que valem a pena ser reintroduzidos no nosso quotidiano. 


quarta-feira, maio 04, 2016

COSMOS: Os astrocitos são a explicação para a nossa inteligência?

Para resolver um problema recorremos a várias regiões do cérebro interligadas, que também competem entre si. Mas como é feita essa comunicação?
No Instituto Nacional da Saúde, em Washington, o prof. Douglas Fields tenta responder a essa pergunta. Segundo descreve, o cérebro é constituído por duas espécies de tecidos: a matéria cinzenta, mais superficial, de que toda gente ouviu falar e onde se encontram os neurónios, e a matéria branca, que fica no interior e por onde passam as diversas ligações entre as várias zonas em comunicação. E é branca porque constituída de mielina, uma membrana que rodeia ao axónios, permitindo à informação uma transmissão rápida e eficaz no cérebro.
Ao nascer o bebé só tem funções mínimas no seu cérebro imaturo. Não consegue alimentar-se sozinho, quase não vê, não consegue pôr-se de pé, nem endireitar a cabeça. A explicação decorre de termos o cérebro permanentemente em reconstrução em função do que nos envolve. E o que é interessante com a mielina está no facto de só se começar a formar depois do nascimento.
A mielina é fundamental para que a informação se transmita eficazmente no cérebro. É, por isso mesmo, essencial à inteligência. Mas hoje a formação da mielina é perturbada pela poluição. Onde quer que nos encontremos no mundo atual, o nosso cérebro é continuamente afetado por um conjunto de produtos químicos, que resultam da atividade humana e afetam a tiroide. Ora este órgão é fundamental para o desenvolvimento do cérebro, desde a fase de feto até idades avançadas, para assegurar a manutenção das suas funções como é o caso da mielinização.
Segundo um dos institutos dependentes da Comissão Europeia, mais de uma centena de pesticidas utilizados no território da União, afetam a tiroide. E os estudos dos efeitos nas crianças a eles expostas mostram que, nos casos mais graves, elas ficam com menos 5 ou 6 pontos no seu QI, o que faz toda a diferença em ambiente escolar.
A inteligência permitiu-nos construir um mundo complexo agora ameaçado pelos efeitos dessa evolução. E podemos pagar um preço muito elevado se a degradação do meio ambiente prejudicar consideravelmente o desenvolvimento do cérebro das crianças que vão nascer. Afetando a mielina, por exemplo…
A confirmar-se tal cenário, como o poderemos gerir? Durante mais de um século pensou-se que todos os nossos processos mentais mais não eram do que o efeito do comportamento elétrico dos neurónios, mas, atualmente, os neurobiólogos começaram a explorar um novo continente: só 15% das células cerebrais são neurónios. O resto não comunica entre si graças a esse tipo de transmissão.
Hoje a investigação mais avançada está a ter constantes surpresas à medida, que vai descobrindo a forma como o cérebro efetivamente funciona.
As células gliais, bem mais numerosas do que os neurónios. Algumas fabricam a mielina, outras protegem-nos: são os astrocitos, que desempenham um papel fundamental na inteligência.
Em 1956, um médico legista que estava a proceder à autópsia de Einstein decidiu roubar-lhe o cérebro para, estudando-o, descobrir a explicação para a sua inteligência: embora contasse com o mesmo número de neurónios do que qualquer outro ser humano, o cérebro de Einstein possuía um número invulgar de astrocitos, que controlam as sinapses, o fluxo sanguíneo no cérebro, reagem às lesões. Mas agora sabe-se que os astrocitos controlam os neurónios …
Mais: os astrocitos ajudam a conservar a memória e a favorecer os processos de aprendizagem. Desempenham um papel fundamental na nossa inteligência.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Secret State», muito mais do que uma série engenhosa

Não será a melhor das séries televisivas, que vi este ano, mas «Secret State», cujos quatro episódios passaram recentemente no Sundance Channel, levanta questões muito interessantes sobre a forma como os oligopólios, nomeadamente os da banca, controlam a ação dos governos e desprezam os mais elementares conceitos de Democracia.
Gabriel Byrne interpreta o papel de Tom Dawkins, um político conservador, que ascende a primeiro-ministro na sequência da morte do titular do cargo, Charles Flyte, que fora aos Estados Unidos negociar com a Petrofex uma indemnização para as vítimas da explosão verificada numa refinaria no Norte da Escócia.
Dando razão a Churchill, que afirmava contar com adversários na bancada oposta, porque os verdadeiros inimigos estavam nas suas costas, ou seja na sua própria bancada, Tom depressa se apercebe de tal afirmação constituir mais do que uma boutade engraçada do célebre antecessor. De facto dois dos seus principais ministros conspiram abertamente para o derrubarem e o substituírem.
Na imprensa discute-se quem terá atentado contra o primeiro-ministro, cujo avião desaparecera no voo transatlântico durante uma tempestade. Os militares apressam-se a divulgar a fotografia de um iraniano, que poderia ser um agente a soldo do governo de Teerão e estaria a bordo para cumprir uma missão suicida. E mostram-se muito interessados em emboscar Tom ao levá-lo a autorizar um atentado contra um conhecido terrorista sem lhe dizerem que, ao contrário do que julgava, o jipe em causa estava em território iraniano e não afegão. O drone foi assim entendido como um ato de guerra contra os alucinados ayatollahs.
Há, igualmente, a convergência desses militares com a administração do Royal Bank of Scotland, que boicota ativamente as orientações do primeiro-ministro - apesar de 88% do capital pertencer ao Estado - transferindo milhões de libras para outras paragens.  Ademais manobram para desvalorizar a libra e causar tensões sociais no setor dos transportes.
Mas ainda outra força clandestina está comprometida na mesma conspiração: o MI6, que tem escutas nas comunicações do primeiro-ministro. Pode assim agir preventivamente, assassinando-lhe um amigo próximo, que se preparava para lhe dar a verdadeira explicação para o sucedido ao avião de Charles Flyte, e depois prendendo a agente que conseguira chegar à fala com ele para lhe dar a conhecer o que Tony Fossett não conseguira. Uma versão dos acontecimentos, que retirava qualquer justificação para qualquer ataque contra o Irão.
Em desespero de causa, e incapaz de ter sucesso contra tantos opositores, Dawkins lança a única bomba, que lhe resta: pedir a moção de censura contra o seu próprio governo.
Uma jornalista, que ele escolhera como sua principal confidente para as notícias oficiosas sobre o governo, acredita na capacidade dele para mudar um mundo onde os eleitores nada podem contra o poder dos banqueiros e das grandes empresas. Mas aparentemente, num final em aberto, são eles quem parecem sair vencedores de toda esta sucessão de crises políticas.

terça-feira, maio 03, 2016

ARTES: Paul Klee: os anos na Bauhaus

Após uma longa maturação pessoal, Paul Klee irá exigir um maior apuramento teórico da sua prática artística durante a Primeira Guerra Mundial. Demonstra-o o «Diário» e o seu «Credo Criador», que publica em 1920. Nele Klee regista um conjunto de aforismos relacionados com a génese da obra artística, a abstração e a polifonia pictórica.
Em outubro de 1920 aceita o convite de Walter Gropius para ensinar na Bauhaus, que acabara de ser fundada em Weimar.
Os efeitos dessa atividade docente aparecem nas séries organizadas em torno de um esquema plástico claramente enunciado. A súmula dessa estratégia artística é explicitada na conferência «Sobre a Arte Moderna», que apresenta em Iena em 1924 e nos textos publicados por essa altura: «Vias do estudo da natureza» (1923), «Livro de esboços pedagógicos» (1925) e «Investigações exatas no domínio da arte» (1928).
Nesses anos decisivos a atividade criativa de Klee mantém a sua autonomia não só em relação à Bauhaus, mas também às demais tendências da vanguarda europeia. Ainda assim, em 1925, participa na exposição parisiense do grupo Pintura Surrealista, com quem sentia alguma convergência devido às afinidades com o Manifesto de André Breton publicado no ano anterior.
Quando a Bauhaus muda para Dessau, ele acompanha-a, mas acaba por romper com a escola em 1931 em nome de progressivas tensões estéticas e ideológicas. Torna-se, então, professor na Academia das Belas Artes de Dusseldorf.



COSMOS: O que é um cérebro eficaz?

As ferramentas de medição do Quociente de Inteligência (QI) são ambíguas, porque se dermos o mesmo teste a um indivíduo em dois dias seguidos, ele melhorará o seu desempenho por causa do efeito de aprendizagem.
Há cientistas que defendem uma explicação para a melhoria progressiva dos resultados do QI de geração em geração: as melhorias verificadas no meio ambiente, na alimentação e, sobretudo, nos níveis de escolaridade. Cada ano suplementar na escola tende a aumentar 2 a 3 pontos nesse tipo de teste. Hoje, nos países industrializados passou-se de uma média de seis anos de escolaridade obrigatória no início do século XX  para onze atualmente. Ora, todos esses efeitos conjugados permitiram aumentar os resultados de QI.
Com a inteligência é melhor, porém, que não nos fiarmos nas aparências: QI’s mais elevados podem não significar maior inteligência, mas melhor preparação para responder a esse tipo de provas.
A nossa inteligência é uma espécie de músculo, que devemos treinar para dela obter o máximo de potencial. Mas, à força de nos treinarmos, talvez já tenhamos chegado ao seu limite máximo. Os gráficos comparativos demonstram-no: depois de uma subida muito rápida nos anos 60, a curva média de resultados desde então tende a estabilizar em torno do QI de 108. Em certos países, como a Inglaterra, a Dinamarca e a Noruega até desce ligeiramente.
Essa estabilização do índice de QI explica-se por a escola ter desempenhado o papel que lhe cabia ao facultar aos indivíduos a capacidade de formular pensamentos abstratos.
Temos, pois um QI que estagna, um cérebro mais lento e pequeno.  Sendo assim, para onde nos conduz a evolução da inteligência humana?
Hoje, mais do que medir o que a inteligência produz, vale a pena inverter a questão e interessarmo-nos pelo órgão que produz a inteligência. E, sobretudo, identificar o que possa ser um cérebro inteligente.
Graças aos avanços da imagiologia procuram-se identificar as zonas do cérebro onde essa inteligência se manifesta.
Richard Haier, neurólogo da Califórnia, rejeita a ideia de uma localização precisa no cérebro onde se localizaria a inteligência. Ao contrário do que se chegou a pensar, ela não se localiza na parte dianteira do cérebro, mas resulta de uma interligação permanente entre várias zonas, quer anteriores, quer posteriores, desse órgão.
Durante a realização de testes de inteligência, Haier conseguiu identificar zonas cerebrais que despertavam, mas a surpresa foi verificar que, quanto mais ativas elas se mostravam, piores eram os resultados. Concluiu, assim, que um cérebro inteligente não é o que parece funcionar mais ativamente, mas o seu contrário, Foi assim descoberto o conceito de neuroeficácia: ser inteligente equivale a resolver um problema com o mínimo esforço possível.
O cérebro equivale, pois, a uma grande orquestra em que as várias secções se conjugam de acordo com uma direção, que ainda não se sabe muito bem como e onde se manifesta. Mas em que a música é a inteligência.
Olivier Houdé, psicólogo da Sorbonne, procura esse chefe da orquestra e suspeita da necessidade de desarticular as interferências, que distraem a inteligência durante o processo de resolução de um problema e que carecem da intervenção de diferentes zonas cerebrais, que tanto se entreajudam como competem entre si.

FESTIVAL INDIE: «Flotel Europa» de Vladmir Tomic

No trailer do filme vemos uma mulher bósnia a falar para a câmara, porque foi essa a melhor alternativa para dar a ver à família as condições em que ela e os dois filhos se encontravam enquanto refugiados da guerra ainda em curso nos Balcãs.
Essa carta em forma de filme seria uma das que Vladimir Tomic utilizaria para evocar esse tempo de estagnação num espaço exíguo na periferia da cidade de Copenhaga. O governo dinamarquês enfiara então centenas de pessoas num antigo navio, atracado num dos muitos canais em torno da cidade.
É evidente que, olhando para as condições então propiciadas aos que fugiam ao conflito e as agora garantidas aos que provém da Síria ou do Iraque, a discrepância é abissal. Mas, mais do que um filme sobre a receção europeia a quem se vê obrigado a procurar alhures a segurança, que lhe falta na sua terra, «Flotel Europa» é, sobretudo, um documentário sobre a lenta degradação do ambiente entre os próprios exilados. A pouco e pouco as rivalidades, que tinham criado as hostilidades na Bósnia, são as mesmas que levam católicos, muçulmanos ou ortodoxos a olharem-se ali com desconfiança, se não mesmo com agressividade.
Vladimir tinha então doze anos e é um dos filhos dessa mulher, que testemunha os seus dias à família por imagens. Quase um quarto de século entretanto decorrido, o projeto de pegar em todas as imagens então recolhidas no Flotel Europa e dar-lhes uma progressão dramática, suscitada pela longa espera sem perspetiva para o seu fim, acaba por transformar aquele espaço num universo concentracionário onde passam a compreender-se todas as manifestações de frustração: alcoolismo, droga, suicídio, violência doméstica, etc.
Quando Vladmir, a mãe e o irmão saem do navio e são realojados num pequeno apartamento, onde possam usufruir finalmente de alguma privacidade, a guerra ainda está longe do fim. Mas o filme acaba nessa altura, porque o seu objeto, o de uma estrutura flutuante transformada em campo de refugiados, foi solução abandonada pelo próprio governo dinamarquês, ciente das disfuncionalidades suscitadas por um ambiente (socialmente) tão insalubre...

segunda-feira, maio 02, 2016

PALAVRAS DITAS: duas traduções distintas de «Aos que virão depois» de Bertolt Brecht



Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

(Tradução de Manuel da Bandeira)




FESTIVAL INDIE: «L’Avenir» de Mia Hansen-Love

Jean Jacques Rousseau abordou frequentemente o tema da felicidade nos seus escritos. Por isso mesmo não admira, que seja bastante citado neste filme de Mia Hansen-Love, que tem uma professora de Filosofia como protagonista.
Nathalie, interpretada por Isabelle Huppert, vive a felicidade tranquila, que lhe é garantida pela estabilidade conjugal: há um quarto de século que vive com Heinz, também ele professor da mesma disciplina.
Os tempos são, porém, de turbulência: alguns dos estudantes de ambos fazem greve às aulas porque a sociedade atual já não lhes garante qualquer perspetiva de felicidade, com o desemprego ou a precariedade em perspetiva. No entanto, Nathalie, que em jovem militara no Partido Comunista, só se interessa por dar as aulas e nelas suscitar nos alunos a apetência por tudo questionarem.
Mas, de repente, essa estabilidade fica posta em causa com a notícia de Heinz, quanto à intenção de ir viver com outra mulher. É a sua ideia de felicidade, que é reequacionada até porque todos à sua volta acabam por denunciar um desvio entre o que aspiravam e o que as circunstâncias lhes permitem: a mãe gostaria de ser por ela cuidada a tempo inteiro e morre desesperadamente triste no lar. A filha dá-lhe um neto, mas chora incompreensivelmente quando está sozinha com ela e o filho no quarto da maternidade. O próprio Fabien, seu aluno preferido, que foi viver para uma comunidade no Vercors, como forma de levar à prática uma forma de Utopia, acaba por se revelar bem mais ensimesmado do que a realização do sonho pressuporia. E Heinz, quase no final, aparenta a vontade de um recomeço, a que ela se mostra desentendida, porque a namorada fora passar as férias de Natal com a família a Espanha deixando-o para trás.
Temos sucessivos personagens a mudarem significativamente os seus percursos de vida na expectativa de se virem a sentir mais felizes e acabam por se sentirem defraudados com o que realmente encontraram.
A própria Nathalie, depois de consumado o divórcio, julga-se feliz na súbita sensação de liberdade (como nunca se sentira no último quarto de século!), mas depressa a solidão acaba por prevalecer. Quando chegamos ao final ela já arranjou novo foco de polarização do seu desejo de felicidade: esse neto, que tenta fazer adormecer com uma cantilena.
Justifica-se assim a longa citação de Rousseau, que transmitira aos alunos numa aula: não existe a felicidade, mas antes a capacidade de acreditar que ela virá a ser possível. O tal futuro por que se espera...

domingo, maio 01, 2016

LEITURAS AVULSAS: Chernobyl na Literatura

Esta semana a revista «The Atlantic» assinalou a passagem do 30º aniversário do acidente na Central de Chernobyl com a publicação de um artigo de Michael Lapointe sobre a forma como a literatura mundial o abordou.
«Chernobyl’s Literary Legacy» - assim se intitula o texto - começa por referir «Accident: a Day’s News», que a alemã Christa Wolf escreveu entre abril e setembro de 1986, pondo-se na pele de uma escritora leste alemã, que recebe a notícia do que se passou a quase dois mil quilómetros de distância, quando está à espera de um telefonema do hospital onde o irmão está a ser submetido à cirurgia de um tumor no cérebro.
O romance constitui a longa meditação da protagonista ao longo desse dia sobre as consequências imediatas e a longo prazo do sucedido e que decorre do desejo aparentemente insaciável do homem em criar tecnologia capaz de controlar a natureza. Um dia lindo com as cerejeiras em flor, em que a notícia entrelaça-se num fluxo torrencial de pensamentos e de diálogos relacionados com essa preocupação mais pessoal, porque o telefone também a vai pondo em contacto com as filhas ou com um amigo.
A rádio vai transmitindo comunicados sobre a nuvem invisível de radiação a pairar por cima da cabeça da narradora e a discussão dos especialistas sobre as suas causas e efeitos.
O diálogo mental com o irmão é, porém o fulcro do romance onde se confronta a existência de um mundo com tecnologia capaz de fornecer as competências e as ferramentas necessárias para o curar, mas pôr ao mesmo tempo em causa a sobrevivência da vida na Terra. Três décadas depois o romance de Wolf não perdeu nada da sua acutilância.
No ano seguinte o escritor de ficção científica Frederic Pohl publicou «Chernobyl: a Novel», que é considerado um dos seus romances menos interessantes.
Através de personagens ficcionados, Pohl descreve os acontecimentos de acordo com o que se conhece dos relatórios das autoridades soviéticas e da Agência Internacional de Energia Atómica. Estão em causa não só o comportamento dos técnicos e bombeiros, que foram minimizar os efeitos catastróficos do sucedido, com muitos deles a terem a consciência do custo fatal desse esforço, que lhes estava a ser exigido nesse momento. E não faltam as vicissitudes sentidas pelos que se viram obrigados a sair da Zona de contaminação em torno da Central bem como especulações sobre as intrigas na cúpula do poder soviético de acordo com os estereótipos de um tipo de literatura imbuída do espírito da Guerra Fria.
À medida que os anos foram passando o tipo de abordagens mais imediatistas deu lugar a outras em que se passaram a colocar outras questões: quem permitiu que aquilo sucedesse e como viveram essa responsabilidade nos anos seguintes?
Os autores começaram a imaginar os que tiveram de lidar com a culpa e viveram desde então assombrados pelo que sucedeu naquele dia fatídico. É o tema de «Wolves Eat Dogs», um romance policial de Martin Cruz Smith.
Passado em 2004, é o quinto romance do autor que tem o detetive Arkady Renko como protagonista e começa com a investigação em torno do aparente suicídio do oligarca Pavel Ivanov, depressa identificado como tratando-se de um homicídio. É que, apesar de tudo apontar para que estivesse sozinho no apartamento de cuja varanda se atirou, a roupa estava estranhamente salgada.
O cenário do crime passa-se na «Zona» em torno da central, naquela área de acesso proibido a quem não tiver autorização especial para nela entrar.
Apesar de pressionado pela hierarquia para não aprofundar o caso, chegando a ser dele afastado, Renko descobre que o apartamento de Ivanov está radioativo e a sua morte fora forçada por quem queria silenciar o que ele sabia.
O título explica-se pela ideia de os lobos atacarem os cães por, ao deixarem-se domesticar, terem traído a sua própria espécie. Por isso o assassino descreve-se como um predador, que ataca as vítimas sem qualquer remorso, sobretudo quando eram cúmplices acometidos de problemas de consciência em relação ao perpetrado.
Deixando para outro texto a abordagem ao «Voices from Chernobyl» de Svetlana Alexeievich), concluo com a sugestão de Michael Lapointe sobre o impressionante conto de Jim Shepard intitulado “The Zero Meter Diving Team,”, que pode ser lido neste link. É a história de três irmãos, que lidam com as consequências da crise  nuclear decorrente do acidente.

COSMOS: afinal somos mais espertos do que os nossos avós?

O Instituto Max Planck de Leipzig está a recriar o cérebro dos nossos antepassados pré-históricos, tarefa tanto mais difícil quanto é facto que não resta qualquer fóssil de como era, já que só nos resta a “caixa” onde estava inserido.
Mas, pegando em caveiras desse passado e comparando com as atuais, conclui-se que existem diferenças de forma e de tamanho: alguns desses homens pré-históricos tinham um cérebro maior do que o nosso.
Tendo em conta que tudo quanto somos - memórias, pensamentos, emoções, linguagem -, personalidade, dependem desse órgão, podemo-nos interrogar se a inteligência terá alguma coisa a ver com o tamanho.
A evolução fez crescer o tamanho do nosso cérebro durante dois milhões de anos para atingir o seu máximo há cerca de 15 mil anos.
O homem do Cro-Magnon, que pintou as paredes da gruta de Lascaux há cerca de dezassete mil anos era um homo sapiens, como nós. Mas de todos quantos integram essa espécie é o que tinha o cérebro mais volumoso. O que leva certos cientistas a considerar-nos menos inteligentes que esse antecessor. Mas essa teoria está longe de ser consensual: há quem defenda que apenas possuía a inteligência ajustada ao mundo em que vivia.
A medição da inteligência é tarefa complicada embora se façam incessantes esforços para o conseguir: analisando as respostas, auscultando a pertinência das ações e comparando indivíduos, chegou-se à única ferramenta de que se dispõe para alcançar tal objetivo, o Quociente Intelectual (Q.I.), inventado por Alfred Binet no início do século XX ao contestar a classificação simplista dos alienistas do seu tempo, que classificavam os pacientes dos manicómios em categorias vagas e indefinidas: os idiotas, os imbecis e os débeis mentais.
Binet considerava a necessidade de contar com critérios objetivos e científicos. Em 1905 o Ministério da Educação Nacional encomendou-lhe um estudo, que permitisse identificar os alunos com maiores dificuldades na aprendizagem. Embora não tivesse qualquer teoria sobre o assunto, baseou-se na observação das filhas para criar um modelo racional de avaliação em função das capacidades constatáveis em cada idade.
Com Theodore Simon criou o primeiro teste de inteligência, que permitiu comparar a idade mental com a idade real de cada indivíduo, multiplicando esse valor por 100 para chegar ao valor de QI: se uma criança com 10 anos conseguia responder aos desafios pensados para uma de 12 anos, o seu QI era de 120.
Hoje tende-se a dar ao QI uma importância exagerada, porque um número não consegue definir quem quer que seja: tem de ser relativizado em função do passado e do presente do indivíduo, da sua cultura e experiência.
Na Nova Zelândia um investigador, James Flynn descobriu que houve uma evolução muito positiva nos testes de QI nas nações industrializadas ao estudar os que foram efetuados durante décadas nas inspeções para o serviço militar em quarenta nações, todas elas usando a mesma ferramenta de avaliação.
Uma geração atrás a média era de cerca de 30 respostas certas em 60, enquanto hoje se chega a 45. Significa isso que afinal somos mais inteligentes do que os nossos antecessores?

ARTE: Paul Klee e a exploração do «eu»

A opção de Paul Klee pela pintura não foi fácil. Para a expressão da sua criatividade a escrita e a música também foram opções até por ter tido formação como violinista.
Os textos, que lhe são conhecidos mostram-no preocupado com a introspeção e a poesia até à Primeira Guerra Mundial, para depois se dedicar à teoria e à prática durante os seus anos passados na Bauhaus.
Pode-se, pois, considerar que a pintura reflete os seus interesses criativos nas duas outras áreas, tornando-o difícil de classificar numa escola precisa. “Pintor-poeta”, assim se definiu, e conhecem-se-lhe mais de nove mil obras. E o seu pensamento elaborado sobre a estética tornaram-no num dos maiores teorizadores da arte do século XX.
Ele nasceu em 1879 em Münchenbuchsee, perto de Berna e estudou em Munique, que era, então, uma das mais importantes capitais artísticas da Europa.
Em 1900 deixou a Academia das Belas Artes e o curso de Franz von Stuck, pintor simbolista e animador do secessionismo.
As gravuras satíricas «Invenções», que criara entre 1903 e 1905, não têm sucesso e levaram-no a isolar-se numa reflexão ontológica e plástica, que relatou em forma de «Diário». Viveu uma fase analítica em que escolheu temas fantasmáticos como os utilizados para as ilustrações de «Candide» de Voltaire em 1912, quando sucessivas dúvidas e de crises travavam a chegada da maturidade.
No entretanto viajara frequentemente para melhor se procurar definir: de outubro de 1901 a maio de 1902 percorreu a Itália e manifestou desconfiança pelos modelos clássicos. Quer em 1905, quer em 1912, as visitas a Paris serviram-lhe para conhecer o que aí se procurava afirmar como rutura com os padrões académicos. Contactou com os cubistas, encontrou-se com Robert Delaunay de quem traduziu o ensaio sobre a luz, e rendeu-se a Cézanne, que prefere a Van Gogh.
«Na Pedreira», de 1913, e «Monte Niesen», de 1915, são aguarelas, que refletem essa afinidade.
Nessa altura já começava a ser conhecido, sobretudo pelo relativo sucesso de uma retrospetiva em Berna em 1910. Foi quando Alfred Kubin o apoiou e conheceu Kandinsky, Macke e Franz Marc, todos pertencentes ao movimento expressionista Blaue Reiter.
Em 1914 viajou até à Tunísia, fascinando-se com os seus cromatismos, que lhe motivaram uma conclusão em forma de diário: “Eu e as cores somos só um. Sou pintor”.