sábado, junho 25, 2016

(DL) «Lua de Mel» de Banana Yashimoto

Não sei quantas vezes estive no Japão,  mas de todas elas guardei a recordação de me sentir um pouco como o Bill Murray no filme da Sofia Coppola, sempre rodeado das maiores simpatias, mas a dizer-me que aqueles tipos não eram propriamente humanos, mas autênticos aliens. E, no entanto, uma vez um desconhecido pegou-me em duas das malas de que me fazia acompanhar e levou-as até à praça de táxis onde me dirigia para seguir até ao aeroporto, e sem que lhe tivesse sequer pensado em pedir ajuda.
Outra vez, em Miike, sabendo que o meu grupo provinha de Portugal, um outro desconhecido, que viriamos a saber diretor do museu local, preparou uma memorável receção em honra dos descendentes dos que, há quinhentos anos, tinham ali desembarcado e  trazido consigo as novidades da civilização ocidental. Ainda hoje tenho um baralho de cartas japonês, que foi a oferta com que me prendaram,  herdeiro de outros ali dados a descobrir pelos nossos navegadores.
Mas a situação mais singular em terras nipónicas foi numa reunião em que os nossos interlocutores não falavam senão japonês,  apesar de estarem na ilha de Okinawa, onde subsiste uma impopular base norte-americana: tivemos de tratar dos assuntos, que ali nos tinham levado, com o recurso exclusivo a uma mímica que, vista de fora, seria no mínimo caricata.
Quando leio autores nipónicos, quase sempre encontro a mesma sensação de algo para além do que costuma ser a nossa normalidade. Outrora em Mishima era o gosto de uns miúdos sádicos em torturarem e matarem gatos vadios. Mais recentemente tem sido Murakami e o seu imaginário feito de sonhos em que as personagens parecem ganhar existência em vidas paralelas invariavelmente atemorizantes.
Curiosamente esta predisposição para dar relevância aos sonhos também surge neste livro de Banana Yashimoto, apesar de ela nos apresentar uma relação amorosa quase convencional entre Manaka e Hiroshi, dois jovens que cresceram porta com porta, tornando-se primeiro amigos, e depois marido e mulher, quando contavam dezoito anos.
Ambos dados ao silêncio e à reflexão, passam dias quase sempre iguais, ela ocupada no jardim da casa familiar acompanhada da cadela Olívia,  que acaba por morrer de velhice e ele a superar sucessivas crises da angústia, capazes de redundarem em inexplicáveis choros.
Algo muda quando o avô, com quem Hiroshi sempre vivera, também chega ao desenlace natural. Ajudando a esvaziar-lhe a casa, para dela fazerem o seu novo lar, Manaka vê um estranho e sinistro altar, que Hiroshi tem dificuldade em destruir, fazendo disso um grande desafio pessoal.
É para desanuviarem de uma experiência bem mais complicada do que se adivinharia, que ambos vão passar a lua-de-mel à Austrália, onde vive a verdadeira mãe dela, entretanto comprometida num novo projeto familiar. É aí que Hiroshi quebra o silêncio e conta a razão do seu ensimesmamento: abandonado muito novo pelos pais, sabia-os ligados a seitas inquietantes. Nomeadamente o pai era uma espécie de sacerdote copulador numa seita em que os bebés eram deixados morrer á fome, logo após a nascença e, depois, objeto de repasto canibalesco pelos demais sequazes. Porque essa missão passaria de pai para filho, Hiroshi sempre vivera aterrorizado com a ideia de, mais tarde ou mais cedo, vir a ser convocado para assumir o seu predestinado papel, algo de que parece finalmente libertar-se.
E eis aqui a razão da minha opinião sobre os nipónicos: que mentes doentias conseguem imaginar possibilidades de horror tão hediondas? Faz lembrar um episódio que, há muito evoco sobre uma espectadora depois do 25 de abril,  a insurgir-se na plateia do cinema Satélite contra um dos filmes mais grotescos de Arrabal: utilizando o mesmo argumento dela, eu diria, que põe-se um honesto leitor a entreter-se com um livro e sai-lhe um epílogo tão esdrúxulo na rifa!

sexta-feira, junho 24, 2016

(DIM) «Os Dias da Rádio» de Woody Allen (1987)

Se me fosse pedida uma lista dos melhores cinco filmes de Woody Allen, «Os Dias da Rádio» integrá-la-ia indubitavelmente por muito que não seja benquisto pelos alguns apreciadores da sua filmografia. E, no entanto, é dos que tem uma banda sonora mais entusiasmante, por muito que quase todos os títulos do realizador comportem músicas e canções memoráveis. E, sobretudo, tem uma reconstituição  histórica irrepreensível, que nos ajuda a viajar momentaneamente ao passado glorioso em que o City Hall era a sala de espetáculos onde todos queriam ir para ver em direto as emissões transmitidas pelo rádio.
O tema do filme focaliza-se nessas emissões, que concentravam as atenções das famílias, ao mesmo tempo que acompanhamos a história de uma delas, cujo rebento, Joe, serve de narrador à história muitos anos depois de ter passado essa época gloriosa. Há igualmente a interligação do percurso da vendedora de cigarros, Sally White, protagonizada por Mia Farrow, que irá tornar-se numa das grandes estrelas de então, depois de situações tão complicadas como a de se ver presa no terraço de um prédio com um assediador ou o assassinato de um patrão da mafia à sua frente.
A terna nostalgia é omnipresente a contrastar com os castigos a que o jovem protagonista está sujeito ou com as discussões familiares a que assiste.
Há episódios burlescos como o sucedido com a tia Ceil que, na sua obsessiva busca de um marido ,acaba por ser abandonada por um dos candidatos num ermo, na noite em que os marcianos invadem a Terra de acordo com a reportagem de Orson Welles, ou verá outro, confessadamente casado, ir adiando, semana após semana, o momento de deixar a mulher e passar a viver com ela, que, iludida, vai acreditando.
Um dos castigos mais dolorosos, que Joe arrisca acontece quando assalta a caixa com os donativos destinados a financiar o Estado de Israel na Palestina para poder comprar o superanel do Vingador Mascarado, herói de uma das novelas de que não perdia nenhum episódio. Mas também entra no “currículo” o tingimento do casaco da mãe com os produtos do seu estojo de química ou quando conhece os primeiros estímulos amorosos na condição de «voyeur» de uma vizinha concupiscente.
Na voz-off de Joe já adulto e invisível ao espectador - que reconhece nele a de Woody Allen! - há sempre canções, que se recordam e logo associadas a pequenos acontecimentos da infância, ou a momentos hilariantes como a dos assaltantes de uma residência, que respondem acertadamente às perguntas de um concurso feito pelo telefone  e garantem à família que tinham espoliado o retorno com eletrodomésticos novíssimos em folha.
Não faltam, igualmente, diálogos inesquecíveis como aquele em que um personagem comenta a recente viuvez de um homem (“deve estar ansioso por voltar a casar”) ou a subtileza da pergunta da mãe do miúdo a questionar-se como conseguirá apreciar devidamente a exibição de um ventríloquo em direto (“como sabemos que não mexe os lábios?).
Do princípio até ao fim todo o filme tem momentos memoráveis, embora possamo-nos questionar se haveria necessidade de o concluir com o drama da menina caída a um poço e que todos os ouvintes escutam com comoção até se concluir pelo desfecho infeliz. Mas essa foi a escolha de um Woody Allen, então em estado de graça e capaz de multiplicar sucessivamente títulos de uma imaginação inigualável. 

(LA) A viagem de Andersen a Constantinopla

Na sua viagem de 1841 Hans Christian Andersen tinha por objetivo conhecer Constantinopla, embora não enjeitasse o possível fascínio, que a escala em Atenas lhe suscitaria.
Passadas umas semanas a visitar a Acrópole diariamente apanhou um vapor para Constantinopla que, com os seus 800 mil habitantes, era uma das maiores cidades do mundo, depois de Nova Iorque, Londres ou Paris. Mas era, igualmente, uma metrópole perpassada por tumultos com as minorias, sobretudo as de origem grega, apesar da igualdade de direitos reconhecidos aos muçulmanos e ao s que não o eram. Quando visita a Catedral de Santa Sofia Andersen sente-se intimidado pelo olhar vigilante de guardas fortemente armados. Cenário que se repete, quando vai ao túmulo do sultão Mahmud II, morto dois anos antes.
O que mais impressiona Andersen é o Grande Bazar, já então o espetáculo esplendoroso da diversidade de especiarias, objetos decorativos e, sobretudo, de joalharia que ainda hoje nos é capaz de impressionar. No livro, que redige a relatar a sua viagem, o escritor dinamarquês aconselha o turista chegado a Constantinopla a não perder tempo e fazer desse mercado o seu primeiro espaço a visitar.
O aspeto mais controverso do fascínio confesso de Andersen reside no Mercado dos Escravos, junto à Mesquita Azul, nele não vendo nada do lado horrendo, que significava, porque  excitaram-no o erotismo, a sensualidade das mulheres ali expostas para virem a integrar os haréns dos nobres locais. Tantos séculos passados, essa realidade consubstancia-lhe o lado mais concupiscente dos contos orientais.
Andersen também sente deslumbramento pela cultura dos dervixes, cujas danças rituais têm a ver com a dos planetas. Ainda hoje os atuais cultores dessa vertente sufista do islão, lembram que tudo no microcosmos e no macrocosmos é feito de movimentos de rodopio em torno de um núcleo atómico ou de uma estrela, razão para continuarem a rodar à volta do próprio coração.
Nos dez dias passados na capital turca, Andersen sente-se como que regressado à infância, nomeadamente às histórias então lidas pelo progenitor. Mas já é tempo de regressar a casa, e fá-lo por terra, ainda que bordejando o Danúbio e escalando Viena.
Ao regressar à Dinamarca inicia um dos mais prolíficos períodos criativos da sua vida, com histórias mais emblemáticas, como «O Rouxinol» ou «A Menina dos Fósforos». Nalgumas até não evita abordar alguns dos aspetos autobiográficos, relacionados com a pobreza, que conhecera em criança.
O sucesso literário aumentou exponencialmente, já abrangendo o solo natal onde tardara em ser reconhecido. Doravante terá  rendimentos bastantes para empreender sucessivas viagens aproveitando a expansão da rede rodoviária um pouco por toda a Europa. É que, até à velhice, Andersen acreditará piamente na veracidade do argumento de ser necessário viver para depois descrever as emoções associadas a essas experiências.

(DIM) «O que está por vir» de Mia Hansen-Løve

Foi com este «O Que está por vir», que nos despedimos do Indie deste ano e, na altura, entre muitos afazeres, nada anotei sobre este filme, que tanto nos agradou. O que não é difícil, porque basta ter Isabelle Huppert no papel principal para dar o tempo por bem utilizado.
Mas há mais do que isso: embora realizado por uma cineasta da geração da nossa filha - Mia Hansen-Løve nasceu em 1981 - ela expressa muitos dos impasses em que caiu a geração a que pertencemos, capaz de acreditar que faria a diferença num mundo pejado de injustiças, e afinal desorientada no meio de todos os compromissos a que se sentiu condicionada.
Nathalie é a professora de Filosofia que, aos 55 anos, julga a vida mais ou menos estabilizada num casamento sem chama, mas também sem conflitos, e responsável por uma coleção de livros de que muitos e orgulha.
De repente o marido abandona-a, a editora deixa de estar interessada no tipo de propostas por ela assumidas e até o seu melhor aluno, que ela visita na comuna em que ele se instalara, algures no Jura, a confronta com o facto de nunca ter arriscado verdadeiramente fazer o que quer que fosse pelas ideias solidárias em tempos por ela assumidas.
O que pode fazer Nathalie, quando todas as certezas se esboroam, sem que nada consiga fazer por as evitar? Seguir em frente é a solução! E essa é de facto a grande lição dada pelo filme: nunca nos devemos esquecer de tudo questionar, de tudo pôr em causa (é esse de facto o grande sentido da Filosofia), só havendo um caminho, o de seguir em frente. Até porque os condicionalismos acabam sempre por desaparecer, como é o caso da mãe dela, uma mulher acometida pela doença de Alzheimer, que acaba por morrer depois de tanto a solicitar nos últimos meses ou anos, ou o destino dado à gata de estimação adotada pelos «communards» do Jura.
Para Nathalie, e para todos nós, os melhores dias deverão ser sempre os que estão por vir, porque nos outros nada poderemos mudar.

quinta-feira, junho 23, 2016

(EdH) Naachtun, uma cidade maia (3ª parte)

Tikal fica a cerca de 60 kms de Naachtun e chegou a ser a grande capital regional da civilização maia. A arquitetura imitava a de Teotihuacan, mas era vista por esta como uma ameaça a derrotar para que não federasse as diversas cidades maias na floresta tropical.
O epigrafista Alfonso Lacadena encontrou estelas onde estão inseridas as provas do envio de exércitos de Teotihuacan para derrotar Tikal, contando para tal com o apoio logístico de Naachtun.
A batalha decisiva acontece em janeiro de 378, quando o rei de Tikal é derrotado e condenado à morte, sendo substituído por quem Teotihuacan nomeou. Naachtun deverá ter recebido, nessa altura, os privilégios de se ter colocado do lado dos vencedores.
Os cientistas poderiam chegar a conclusões mais consubstanciadas se os palácios, que descobrem soterrados no âmbito da sua investigação, não tivessem sofrido pilhagens e vandalismos alguns séculos atrás. Ainda assim, podem concluir que, no século V da nossa era, existia um palácio e um templo de grande esplendor, à volta do qual se abrigavam milhares de habitantes, endo por principal ocupação a agricultura e a exploração dos recursos florestais.
Lydie Dussol, professora na Universidade da Sorbonne, estuda os grãos resgatados da terra prospetada, encontrando informações complementares sobre o tipo de alimentação dos maias ou a forma como a cozinhavam: o carvão serviria para rituais funerários, mas também para a culinária.
No século V toda a América Central vivia em permanente estado de guerra, quer isso dissesse respeito a grandes, quer a pequenas cidades. Até então discreta, Calakmul, irrompe subitamente a afirmar o poderio do seu reino da serpente. Com quarenta mil habitantes, ameaça diretamente Naachtun, pois faz das antigas cidades ligadas a Tikal, ou das que a haviam combatido, as suas inimigas.
Uma perturbadora sepultura, colocada no fundo de uma escadaria, dá conta do sucedido: refere-se à derradeira morada de uma mulher, que era acompanhada de uma estela com motivos específicos de Carakmul. Os cientistas acreditam ter-se tratado de uma princesa imposta ao povo de Naachtun como sua rainha, depois da derrota da cidade e da sua rendição ao sitiante.
Mas a defunta terá conhecido, muito provavelmente, um final pouco lisonjeiro, porque, além de vandalizada, a campa tinha sido colocada num sítio onde, nos seus afazeres, os habitantes de Naachtun a pudessem pisar. O que dá conta de uma efémera dominação da cidade por Calakmul, seguida de uma ostensiva manifestação de independência pelos revoltosos.
Naachtun conhece, então, um súbito salto de prosperidade, avançando para leste e dotando-se de novos edifícios. Mas entre 750 e 950 d.C terá sido abandonada a exemplo de outras cidades da região.
Terá acontecido algo constatado em Copan, cidade situada mais a sul, já no território das Honduras, onde a realeza deu lugar à progressiva partilha do poder por um conjunto de famílias mais influentes. Por volta do séc. VIII as sepulturas começam a denotar sinais de subnutrição nos cadáveres, continuando por se saber se as causas do declínio residiram nas guerras sem fim, nos desastres naturais ali tão frequentes, nomeadamente os furacões, ou se na sobre-exploração dos recursos naturais depois de sucessivas secas.
Com muito ainda por descobrir a equipa francesa de Michelet e Nondedeo tem trabalho garantido para os próximos anos.

(LA) A viagem de Andersen à Grécia

Hans Christian Andersen foi um dos mais infatigáveis viajantes do seu tempo. Nos seus setenta anos de vida passou nove deles a viajar, porque considerava fundamental embrenhar-se nos ambientes onde depois viria a situar os seus contos. A credibilidade que eles suscitariam dependeria desse prévio conhecimento do espírito de cada um desses lugares.
Na sua viagem ao Oriente, que fez em 1841, o objetivo era o da descoberta de Constantinopla, por nela imaginar algo do fulgor dos contos orientais, mas a escala em Atenas revelar-se-lhe-ia muito grata.
A independência, conseguida à custa da guerra contra o império otomano, ainda era recente, porque acontecera em 1829, pelo que Andersen encontraria a capital do novo país ainda muito impregnada da cultura turca e com uma mendicidade, que saltava à vista a cada instante.
A pobreza não era algo que incomodasse Andersen já que nascera numa família com recursos muito reduzidos, porquanto a mãe era lavadeira e o pai sapateiro. Este último, apesar das restrições que conhecia, desempenhara um papel fundamental na vida do petiz nascido em 1805, porque lia-lhe histórias cheias de magia e colaborava, quando ele encenava ingénuas peças teatrais nas tardes de domingo. O jovem Hans muito sofrera, quando o pai morrera, tinha ele onze anos até por se ter visto obrigado a procurar ofício para ajudar a mãe no sustento da casa.
Voltando à estadia na Grécia, Andersen procurava, sobretudo, os vestígios da Antiguidade Clássica, que representavam para ele a corporabilidade do berço da poesia. Nessa altura, embora sem qualquer sucesso na Dinamarca natal, já era adulado na Suécia e na Alemanha pelos seus primeiros contos, conseguindo rendimentos bastantes para empreender esta viagem.
A estadia em Atenas revelou-se tanto mais agradável, quanto aí encontrou vários compatriotas contratados para conceberem e comandarem a construção dos novos edifícios com que a jovem monarquia pretendia criar uma arquitetura correspondente à nova identidade política do país. No relato da viagem, Andersen confessa quase se ter sentido em casa, dada a frequência com que tinha de comparecer nos almoços e jantares com que o brindavam. Chegou até a ser apresentado ao rei e à rainha, que o surpreenderam pela juventude e simpatia.
Mas os momentos mais gratificantes da estadia em Atenas foram colhidos na Acrópole, aonde se deslocava diariamente para se embrenhar da sensação algo mágica de pisar as mesmas pedras outrora calcadas por Sócrates ou Platão.
Tudo o impressionava e de tudo ele fez muitos desenhos. Procura incessantemente a novidade, o desconhecido, o surpreendente. E, como sempre, chegara ao porto de Pireu com um plano minucioso do que pretendia ver ou com quem preferiria contactar.
Ao apanhar o barco para Constantinopla conheceu um percalço: a polícia confunde-o com um foragido alemão e prende-o. Mas, ao apresentar as credenciais de que era portador, recebeu imediato pedido de desculpas e voltou a ser tratado com grande delicadeza.
Estava preparado para enfrentar as emoções, que a capital otomana lhe iria providenciar...

quarta-feira, junho 22, 2016

(EdH) Naachtun, uma cidade maia (2ª parte)

Naachtun parece ter sido fundada numa altura em que a cidade vizinha, hoje crismada como El Mirador, passava por dificuldades. O aparecimento de uma parece coincidir com o desaparecimento da outra, apesar de nela se contar com uma das pirâmides mais volumosas das que se construíram a nível mundial. Recentemente, Richard Hansen, que comanda as investigações empreendidas pela Universidade do Idaho, descobriu baixos relevos, que exprimem uma capacidade económica muito importante, talvez correspondente à primeira grande entidade estatal em território americano. O que suscitaria invejas e rivalidades.
Hansen ainda não conseguiu provas concretas da razão do abandono da cidade entre os anos 150 e 200 da nossa era, nomeadamente vestígios de batalhas ou de desastres naturais, mas arrisca a possibilidade de esgotamento dos recursos naturais, nomeadamente com a desflorestação decorrente de se produzir carvão, num prenúncio do que pode ocorrer com as sociedades dos nossos dias à medida que se forem esgotando as fontes não renováveis em que assentámos a nossa qualidade de vida.
Uma das descobertas da equipa de Michelet e de Nondedeo em Naachtun foi a de se encontrarem sepulturas onde tinham existido residências dos respetivos habitantes, como se os seus elementos mais proeminentes ficassem, mesmo depois de mortos, a “conviverem” no seu espaço familiar. E outra constante foi o surgimento de pratos furados na zona da sua cabeça, desconhecendo-se a sua função ritualística.
Valentina Vapnarsky, uma etnóloga associada à equipa francesa, tem passado os últimos anos em contacto com uma aldeia do lado mexicano da fronteira, onde aprendeu a língua e alguns dos atuais rituais e costumes, que possam provir do passado ancestral de que se pretendem conhecer os fundamentos. Nomeadamente os métodos agrícolas utilizados na sementeira, que podem ainda ser os mesmos dos que praticavam os antepassados há mil anos: queimadas para limpar o solo, a utilização de uns paus endurecidos a fogo nas pontas para escavarem mais fundo e a junção de culturas de milho, abóboras e feijão no mesmo espaço, de forma a que as espigas do cereal propiciem a sombra necessária às que com elas estejam misturadas. Uma forma expedita de aproveitar um solo não tão rico quanto seria necessário para prover ao sustento de populações numerosas.
As estelas descobertas pelos arqueólogos contam episódios da vida da cidade, mas estão demasiado delapidadas pelos rigores meteorológicos de séculos sucessivos para que permitam facilidades ao epigrafista Alfredo Lacadena, convocado pela equipa para a ajudar.
Outra alternativa consiste em armar o imenso puzzle constituído pelos milhares de cacos de cerâmicas descobertas no solo já investigado. Um ceramólogo procura encontrar similitudes entre os vestígios encontrados, com os de outras cidades como Teotihuacan, apesar de situadas a longas distâncias.  A grande metrópole está a mais de mil quilómetros, ficando próximo da capital mexicana, e contava então com cerca de cem mil habitantes provenientes de populações oriundas de todos os pontos cardeais, atraídas pelo seu estatuto cosmopolita.
A equipa de Michelet e Nondedeo concluirá que não só existia essa comunicação entre Naachtun e a cidade multiétnica, que tanto influenciaria os aztecas e outras civilizações mesoamericanas, como ela influenciaria o seu futuro.

(DIM) O balanço negativo de uma série

Chegou ao fim a série «Uma Aldeia Francesa», que acompanhámos fielmente durante três meses. Em certas alturas ela entusiasmou-nos e levou-nos a dar razão aos que a diziam talhada para ser mostrada nas escolas por constituir apreciável ferramenta pedagógica. Noutras, não deixámos de sentir a inconsistência do trabalho dos argumentistas, que tanto davam relevância a alguns personagens - o Tequiero, filho adotivo de Marcel e Hortense Larcher é o exemplo mais óbvio - e logo as faziam desaparecer sem explicação. Da mesma forma acentuaram-se progressivamente as inverosimilhanças ao mesmo tempo, que se ia revelando uma vertente ideológica mais equívoca nos episódios respeitantes à época entre a Libertação de Villeneuve e a derrota efetiva dos nazis.
Desagradou-me a imagem demasiado rígida dos comunistas, que pareciam estar sempre pendentes das ordens do Partido, sofrendo-lhe as consequências quando com elas não se conformavam. Tendo em conta o heroísmo manifestado por muitos dos seus dirigentes, de que se realçam nomes como os de Jean Moulin ou Maurice Thorez, não deixa de ser esclarecedora a importância dada pelos argumentistas à figura do general De Gaulle e nenhuma à dos líderes emblemáticos da Resistência. Mesmo esta acabou por ser tratada como um bando desorganizado de gente sem grande consciência ideológica, muitas vezes mais interessada em entregar-se aos prazeres amorosos do que às tarefas da clandestinidade.
É verdade que houve situações terríveis como fuzilamentos sumários de colaboracionistas ou as degradantes provações impostas às mulheres, cujo delito fora a de se deitarem com alemães, mas a série empola-as ao mesmo tempo, que escamoteia os muitos casos de irrepreensível conduta republicana revelada em muitos locais.
Quase parece que os argumentistas pretendiam dar da França uma imagem, que os salazaristas também quiseram transmitir no pós-25 de abril, quando disseminaram uma pilhéria reacionária em como o país duplicara de população de um dia para o outro, porque sendo constituído por dez milhões de fascistas, transmutara-se do dia para a noite em dez milhões de revolucionários. No último episódio denuncia-se o comportamento torpe (que queremos acreditar ter sido minoritário em relação ao que sugere a série) dos que tinham denunciado os vizinhos judeus em 1942 ou 43 e, chegada a Libertação, logo se pretendem arvorar em cabecilhas dos justiceiros antifascistas.
Constitui estratégia típica da direita o recurso à lógica do todos ao molhe e fé em deus. O que na série significa mostrar a duplicidade de muitos colaboracionistas, por um lado capazes de crimes hediondos, mas ao mesmo tempo revelarem-se extremosos pais e amantes, umas vezes defendendo o Maréchal e por outras não se esquivando de dar uma mãozinha à Resistência.
Outra ideia falsa transmitida pela série foi a de associar a Cultura aos nazi fascistas e seus colaboradores, enquanto os resistentes eram um bando de brutos, que olham com desconfiança o desejo de um deles em montar uma peça de teatro no mato.
Nestas alturas apetece sempre voltar a Shinbone, a cidade do Velho Oeste onde John Ford situou a ação de «O Homem que matou Liberty Valance»: mesmo sabendo nós ter sido John Wayne a matar o melífluo Lee Marvin, a História registará ter sido o jovem advogado interpretado por James Stewart a colher os louros. Porque entre a História e a lenda convém muitas vezes optar por esta última.
No caso de «Uma Aldeia Francesa» sucede o contrário: em vez de alguns episódios da História, que queremos acreditar não terem feito figura de regra, seria muito mais interessante ter contado com a sua versão mais consequente a nível ideológico.

terça-feira, junho 21, 2016

(EdH) Naachtun, uma cidade maia (1ª parte)

Os Maias suscitam-nos um fascínio incontornável por terem sido capazes de criar uma civilização na vanguarda do que, então, se passava ao nível dos vários continentes, vendo-a depois ruir sem que, ainda hoje, haja grande consenso explicativo para que tal tenha sucedido. Os especialistas defendem que, à época, as cidades maias eram tão esplendorosas quanto nos parecem as de Paris, Berlim ou Nova Iorque na atualidade.
Não espanta que, andando sempre inquietos por tantas possibilidades de vermos o quotidiano transformado em algo de apocalítico, olhemos para esses exemplos do passado como forma de procurar resposta para evitarmos o que os fez declinar.
Há ainda o sortilégio de sabermos escondidas no manto vegetal da América Central muitas das suas cidades monumentais, o que leva alguns alucinados a continuarem a acreditar na possibilidade de virem a encontrar o mítico El Dorado.
Mais sério é o trabalho dos cientistas, que andam a prospetar os vestígios ainda existentes de uma antiga cidade, à qual os arqueólogos, que a foram procurar em 1922, deram o nome de Naachtun, juntando as palavras maias “tun”, que significa “pedra” e “naach”, que equivale a longe. Mas quem a encontrou foram uns operários chicleteros, pagos por empresas norte-americanas para se embrenharem na selva e dela trazerem um tipo de goma vegetal utilizada no fabrico de pastilhas elásticas.
Foram essas empresas, quem alertaram o arqueólogo e epigrafista Sylvanus Morley, que logo organizou a expedição em causa, apesar dessa localização corresponder a uma das zonas de mais difícil acesso no norte da Guatemala.
Surpreendentemente, tão-só descoberta, essa cidade voltou a cair no esquecimento até ser objeto da investigação de dois franceses, Dominique Michelet e Philippe Nondedeo que, nos últimos cinco anos, têm mobilizado quatro centenas de colaboradores para, no Inverno, os acompanharem no desenvolvimento da procura de mais vestígios ilustrativos do esplendor dessa cidade, que se estende por uma área superior a 200 hectares.
Cada montículo ou relevo pode esconder uma descoberta significativa naquele que é um dos desafios mais aliciantes da arqueologia atual.
Descobriram-se três pequenos templos mais elevados cujo papel ainda não está estabelecido, havendo várias hipóteses para fundamentar o papel religioso, que desempenhavam. Uma das pistas seguidas pela equipa da Sorbonne e do Museu de História Natural de Paris é o de olharem para as cidades mais próximas e da mesma época para nelas encontrarem pontos de referência comuns. Ora a 20 quilómetros de distância situa-se El Mirador, que tem merecido a atenção de uma equipa da Universidade do Idaho nos últimos vinte anos.
Embora mais antiga do que Naachtun, porque terá nascido em 600 a.C., essa cidade também chegara a contar com mais de dez mil habitantes que, em determinada altura, a resolveram abandonar. 

(A) A pirâmide do Louvre desapareceu

Quando falamos de artistas, que usam as ruas das grandes cidades como seus espaços expositivos, é muito natural referirmos o português Vhils, o anglo-saxónico Banksy ou o francês JR, como integrando o lote dos mais representativos. Este último acaba de concretizar o projeto de esconder a pirâmide do Louvre com um gigantesco trompe l’oeil, que revela um passo evolutivo na sua obra, até recentemente feita de grandes retratos de rostos humanos um pouco por todos os continentes, desde o Brasil à China, dos EUA a Cuba, da Holanda à Serra Leoa.
De qualquer forma, Jean René (daí as iniciais JR) mantém o recurso à técnica da colagem fotográfica em dimensões tais, que chama inevitavelmente a atenção de populações com nenhuns hábitos de visita a museus.
De origem judia, cresceu em Montfermeil, nos subúrbios de Paris, e viveu a experiência dos mercados, tipo feira da ladra, onde os pais costumavam fazer pela vida. No liceu iniciou-se nos graffitis adotando logo de início as iniciais do seu nome como assinatura e o multiculturalismo como tema. Ainda hoje ele se autodefine como ativista urbano.
Ao planear a intervenção sobre o icónico edifício concebido pelo arquiteto I.M. Pei, JR quis esclarecer uma dúvida: “ao circundar a pirâmide, compreendi que as pessoas viram-se de costas para ela para tirar uma selfie. Na prática não a olham. Agora estou curioso quanto ao que será a sua atitude”.
Nesse assumido abandono dos rostos de dimensões gigantescas, JR busca atrair a atenção das pessoas através da ausência de algo, que sabiam ali presente, obrigando-as a consciencializarem essa falta que as leva a olhar para o monumento com outro ângulo.
Faltando apenas seis dias para que a pirâmide retome o seu aspeto convencional, não se pode dizer que a instalação tenha alcançado um dos objetivos confessos do criador: a reabertura do debate sobre o modernismo que dividiu a sociedade francesa na década de 80, quando I.M. Pei revelou a sua obra. Na época muitos condenaram-na porque iria “arruinar” a joia arquitetónica do século XVI. Três décadas depois a pirâmide transformou-se num dos monumentos mais fotografados da cidade e considerado um dos seus símbolos artísticos mais audazes.
JR quis, no fundo, demonstrar no que teria voltado a ser o Louvre sem a sua imprescindível pirâmide.


segunda-feira, junho 20, 2016

(DL) «Adios Hemingway» de Leonardo Padura

À partida Leonardo Padura assumiu o seu romance como uma espécie de ajuste de contas com Hemingway, que muito admirou e até o fez decidir-se quanto ao que pretendia fazer na vida. E nada melhor do que tratar do assunto através do recurso ao género policial de que se tornou num dos mais interessantes expoentes nos nossos dias. Tudo começa pois com uma mangueira derrubada por um furacão na quinta que pertencera ao escritor e que traz à luz do dia as ossadas de um desconhecido identificável como sendo um agente do FBI de acordo com o distintivo que as acompanhava.
Porque tem mais para fazer do que dedicar-se ao esclarecimento de um óbito de há meio século, o chefe da polícia convida o amigo e antecessor no cargo, Mario Conde a apurar o que ainda for possível.
Hemingway apaixonara-se por Cuba em 1928, quando aportara à ilha no paquete que, com a esposa de então, Pauline Pfeiffer, o trazia de La Rochelle de regresso à América. Não tarda a ali se deslocar para pescar, descobrir o sabor da fruta tropical e beber quantidades desmesuradas de rum. É aí que escreve «Adeus às Armas», baseado na sua experiência de condutor de ambulâncias durante a Primeira Guerra Mundial e em que quase perdera a vida.
Nunca mais Hemingway suportou viver muito distanciado de uma paisagem, que não tivesse o mar infinito como horizonte.
Uma das razões para Padura se distanciar de Hemingway é esse lado sombrio de, em nenhuma das guerras em que esteve presente, ter verdadeiramente empunhado uma arma para defender os seus supostos valores progressistas. Quando quis provar o sabor do sangue por si derramado fê-lo em África nas pobres vítimas das suas caçadas.
«Ele nunca teve tomates suficientes para matar quem quer que fosse» diz Padura, através do protagonista do seu livro.
Hemingway viveu na Finca de la Vigia até 1959 no intervalo das suas inúmeras viagens. Foi ali que, conjuntamente com a quarta esposa, Mary Welsh, recebeu os amigos, entre toureiros, escritores e vedetas de Hollywood. De entre estas contou-se Ava Gardner cujas cuecas servirão de elemento fundamental no romance, pois Conde tê-las-á como memorabilia no saldo da sua aventura.
Na  visita ao passado através do contacto com alguns velhos, que tinham conhecido e até trabalhado para Hemingway, Conde volta aos tempos em que ele patrulhava as águas em torno da ilha para identificar eventuais submarinos alemães ou se entusiasmava com os combates entre galos.
A aproximação da velhice intimidou o escritor, que começou a ser tomado de receios paranoicos, que muitos anos depois a vieram a revelar-se fundamentados, porque Edgar Hoover estava atento a todas as suas movimentações por suspeitar-lhe simpatias comunistas.
É precisamente essa perseguição que serve de leitmotiv à intriga, com Conde a aproximar-se da verdade, só acessível ao leitor por Padura ir proporcionando em alternativa às deambulações do detetive o que realmente tinham sido os últimos dias de Hemingway na ilha antes de se ir suicidar no Idaho em 1961.