sexta-feira, julho 24, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Billy the Kid» de John Maggio (2012)

Quem era afinal Billy the Kid? Um Robin dos Bosques em versão americana ou um bandido sem escrúpulos?
Nascido em 1859, William Henry McCarty nunca conheceu o pai. Em adolescente acompanhou a mãe numa caravana de pioneiros em direção ao Oeste.
Uma vez chegado ao Novo México, a mãe morreu e ele ficou entregue a si mesmo, com apenas 15 anos.
Cow-boy no Arizona, mata um homem em legítima defesa, mas é condenado à morte. Resta-lhe a evasão como solução imediata.
Começa então uma sucessão de homicídios, de roubos de gado e outras vilanias, que a mitologia do Faroeste se encarrega de empolar.
King Vidor contribuiria para a lenda com o filme «Billy the Kid» em 1930. Seria o primeiro de muitos outros realizadores, que o tomariam como personagem nas décadas seguintes.
O título cinematográfico mais interessante sobre a sua biografia foi o «Pat Garrett e Billy the Kid» de Sam Peckinpah, em 1973.
John Maggio, autor deste documentário, alimentou-se de todo esse manancial de fotogramas para esboçar o perfil psicológico do verdadeiro William McCarty, restabelecendo a verdade histórica e dissociando-o das estórias coloridas, mas exageradas, contadas a seu respeito. 

quinta-feira, julho 23, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Quando as antigas vítimas se tornam verdugos

Como se pode representar o horror? O cinema e a fotografia já exploraram todas as formas possíveis de explicitar as consequências das guerras, quase banalizando as imagens profundamente violentas apresentadas nos nossos ecrãs.
No entanto, em «Concrete», a israelita Nurit Kedar, conhecida pela meritória carreira de realizadora e argumentista de documentários, concebeu uma forma inovadora para denunciar a intervenção israelita de 2009 no território de Gaza. Ela convidou diversos ex-soldados envolvidos nessa operação a contarem as experiências vividas perante a câmara e o que sobressai é a desumanização neles suscitada por mecanismos de manipulação psicológica, tornando-os acríticos em relação aos crimes cometidos. Como diz um deles essa alienação começou cedo quando, no início da adolescência, fora impelido a participar em cerimónias de glorificação de militares, que nem sequer conhecera, mas apresentados como heróis a venerar.
Ao contrário da maioria dos filmes sobre o tema, não existem imagens com cadáveres ou ensanguentados. A violência explicita-se nos relatos verbais dos que falam, agora com distanciamento, de tudo quanto tinham vivido, e em imagens com lençóis desalinhados, que sugerem o caos vivido pelos palestinianos nas semanas decorridas nessa intervenção.
É, por isso mesmo, um filme interessantíssimo por contribuir para a denúncia do paradoxo de vermos como os filhos e os netos das vítimas do Holocausto conseguiram criar em si características de verdugos... 

SONORIDADES: O Povo Que Ainda Canta, Episódio 9 - De Gouveia à Beira Litoral

De Gouveia à Beira Litoral é o título do 9º episódio da série de Tiago Pereira «Povo que ainda Canta».
Com depoimentos de cantores e tocadores de Penalva do Castelo, Gouveia, Vouzela, Viseu, Moimenta da Beira, São Pedro do Sul e Tondela, regressamos ao tempo em que televisão não havia e quase ninguém tinha rádio pelo que os serões eram animados com bailes e cantares a nível familiar ou entre vizinhos.
As mães e os pais dessa época eram muito pobres, mas andavam muitas vezes a cantar, sobretudo enquanto trabalhavam, que essa era a forma de aligeirar o sacrifício pedido aos corpos. 

segunda-feira, julho 20, 2015

COSMOS: quando a ciência embate no muro da ignorância e da crendice

O preconceito ideológico e religioso é um obstáculo difícil de superar pelos cientistas. As ideias feitas assumem tal fanatismo, que até as maiores evidências acabam por dar azo a leituras fantasiosas, que só surpreendem quem, de fora, é obrigado a confrontar-se com a ignorância de quem se limita a seguir os valores e conceitos das comunidades onde nasceu ou se integrou.
Vem isto a propósito de uma reportagem, vista há dias na TVI 24, em que texanos atingidos pela prolongada seca - já causadora da morte ou venda ao desbarato das grandes manadas de gado e da desertificação de cidades até então sustentadas por grandes fábricas de processamento de carne - continuam a recusar a mera hipótese de estarem a deparar com a consequência do aquecimento global ligado à emissão de gases na atmosfera.
Líderes religiosos, ligados aos cultos evangélicos, e políticos financiados pela indústria petrolífera, dão as mãos para criarem a ilusão nos incautos quanto a tratar-se de uma vontade divina, de um fenómeno natural, de carácter cíclico em breve reversível ou de outras razões risíveis, mas todas atribuíveis aos “erros” do governo federal.
E, no entanto, se as bacias hidrográficas se esvaziam até quase secarem, a água continua a ser desperdiçada pela referida indústria petrolífera para prosseguir com as prospeções geradoras dos seus avultados lucros.
No Texas está a verificar-se um enorme crime ecológico em que são os mais pobres a sofrerem os danos da sua própria incultura e fanatismo religioso enquanto, no entretanto, as grandes famílias do Estado - os Bush incluídos - prosperam! 


domingo, julho 19, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «La Isla Minima» de Alberto Rodriguez (2014)

Coincidindo com a movida madrilena andámos expectantes quanto ao surgimento de cineastas, que acolitassem Almodovar na expressão de um renovado cinema espanhol, capaz de agarrar no testemunho da geração de Saura e Bardem. Infelizmente e excetuando os casos quase clandestinos de Vitor Erice ou Albert Serra, o que o cinema espanhol destinado a um público mais alargado facultou foi um conjunto de títulos do género fantástico sem grande significado cinematográfico, assinado por tarimbeiros da estirpe de Alex de la Iglesia, Jaume Balagueró ou Alejandro Amenabar.
«La Isla Minima», quinto filme de Alberto Rodriguez, veio-nos chamar a atenção para um autor com potencial para nos prender o interesse, através de uma intriga policial localizada na Andaluzia selvagem e ainda nos escombros malignos do que significou o sinistro franquismo.
Pedro e Juan são uma dupla de polícias incumbidos de descobrirem os culpados pela morte de duas raparigas nas margens pantanosas do Guadalquivir. Um é jovem e idealista, o outro é um velho habituado a métodos pouco ortodoxos e com a carreira toda feita na época da ditadura. 
A dificuldade que enfrentam é a natural desconfiança das populações perante uma instituição, que aprenderam a temer, mas a não respeitar.
Para quem seguiu a primeira temporada da excelente série «True Detective», o filme apresenta notórias semelhanças no tema, já que depressa se desconfia da existência de um serial killer com muitas mais vítimas no currículo.  Mas Rodriguez utiliza as impressionantes imagens captadas de cima para criar a sensação de uma correspondência entre as sinuosidades dos meandros do rio com as das psicologias locais.
Mas não só: a juventude de Pedro e a maturidade de Juan apontam para o dualismo entre os mais velhos, que se formataram de acordo com a violência do poder e se mostram incapazes de compreender o que se passa à volta de acordo com nova grelha de leitura e os mais novos dispostos a virar em definitivo a página a um tempo, que repudiam. O filme é, de facto, passado entre a morte do ditador em 1975  e a efetiva afirmação da democracia espanhola com a vitória de Felipe Gonzalez sete anos depois.
O talento de Rodriguez não se fica por aí, já que esse lado mais contextual da intriga em nada prejudica o suspense, particularmente na perseguição noturna em que se vão sucedendo as descobertas mais macabras.
Foi, pois, bem merecida a consagração do filme com os dez prémios Goya (os óscares espanhóis), que recebeu, alertando-nos para um autor a que convirá ir prestando a devida atenção... 

DIÁRIO DE LEITURAS: «Descamisado» de Enrique Acevedo

Há uma dezena de dias já escrevi um primeiro post sobre este relato autobiográfico de um general cubano escrito quando andava envolvido na guerra civil angolana e reportando-se à experiência vivida entre os 14 e os 16 anos, enquanto andava alistado na guerrilha da Sierra Maestra.
Porque o li em férias, quase sempre esticado nas areias da praia, não tive disponibilidade para, entretanto, vir aqui enunciar mais algumas conclusões dele retiradas. Razão para esta reabordagem para a qual opto por salientar três aspetos de realce.
O primeiro tem a ver com a desmistificação da guerrilha cubana como constituindo um exército popular particularmente eficaz devido à superioridade estratégica evidenciada por Fidel Castro e pelo Che.
A realidade foi bem diferente: a guerrilha era constituída por um bando de maltrapilhos, que passavam grande parte do tempo esfomeados e toscamente armados e, sobretudo, preocupados em escapar aos contínuos ataques da aviação de Fulgêncio Batista.
O segundo diz respeito à ideologia que professavam. Enrique é explicito quanto ao facto de existir um número muito reduzido de comunistas nas forças revolucionárias. A maior parte dos que combatiam faziam-no para se libertarem da opressão do regime ditatorial, sem se preocuparem grandemente com os fundamentos teóricos, que  lhes poderiam justificar os atos.
Há muito que concluí ter sido o cerco logo de início convocado pelos EUA contra quem lhe estava a estragar a “pacífica” exploração do seu quintal das traseiras o motivo maior do alinhamento progressivo de Fidel de Castro com a União Soviética.  Por mero reflexo de defesa.
O próprio Che não tinha qualquer conotação com os princípios e os valores do «socialismo real», adotando comportamentos anarquizantes, que acabaram por se lhe revelar fatais na Bolívia.
Mas esta situação não era nova em 1959: o próprio regime bolchevique evoluira para uma lógica totalitária à medida que se vira acossado pelos exércitos contrarrevolucionários, armados pelas potências europeias de então para procurarem reverter a queda do reinado czarista. E, mais recentemente, o próprio Hugo Chavez, na Venezuela, foi evoluindo para uma deriva semelhante como resposta à sabotagem intensa  a que o seu governo foi sujeito desde a tomada de posse.
É por isso de reconhecer que as derivas totalitárias de diversos regimes assumidamente mais à esquerda começam por se fundamentar na conclusão de as Revoluções não constituírem propriamente convites para jantar.
Há ainda uma terceira vertente de reflexão suscitada pela autobiografia de Enrique Acevedo: a frequência com que  se verificavam deserções, se não mesmo traições, no campo revolucionário. Por isso mesmo é sem grandes estados de alma, que Acevedo relata frequentes fuzilamentos dos que pretendiam abandonar a guerrilha.
Se no texto anterior qualificara esta gesta de epopeica, é forçoso reconhecer que o texto de Acevedo remete para muitas das suas zonas de sombra... 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «A Morte em Veneza» de Luchino Visconti (1971)

É tudo uma questão de maturidade: na volta dos vintes para os trintas abandonei o rock e o pop em proveito do jazz, e sobretudo, da música clássica. Das sonoridades anteriores restou-me o gosto pelas, inapropriadamente, chamadas músicas do mundo e por uma ou outra exceção mais digna de nota (Leonard Cohen, por exemplo).
Com o cinema a aproximação dos sessentas está-me a incrementar o gosto por rever filmes antigos, sejam os do grande cinema norte-americano dos anos 40 e 50, sejam os do cinema europeu do período do pós-guerra até aos finais dos anos 70.
Não abdicando de olhar para as novas produções tenho, porém, de reconhecer que não são muitas as que escapam à lógica de entretenimento para consumo de pipocas e coca-colas.
Vem tudo isto a respeito de ter revivido duas horas de fruição absoluta com «Morte em Veneza» de Luchino Visconti, não dando tanta importância à história, mas atentando nos movimentos de câmara de Pasquale de Santis ou na forma como a música, sobretudo retirada das Sinfonias nº 3 e 5 de Mahler, ganha estatuto de personagem  omnipresente, mesmo que invisível.
À medida que revi as já bem conhecidas deambulações do professor Aschenbach entre as salas do Hotel des Bains do Lido e a respetiva praia, com uma ou outra surtida até ao labirinto, que tem na Praça de São Marcos um dos seus pontos de entrada, foi fácil concluir quanto já caíram em desuso as delongas com que Visconti faz evoluir a história. Há tempo para nos quedarmos nos olhares e no guarda-roupa dos personagens secundários, sem perdermos o fio condutor da progressiva obsessão do protagonista pelo efebo, que partilha os mesmos espaços em que se move.
Os acasos das escolhas quanto ao que vejo, fizeram-me ter tido no mesmo dia um episódio de uma excelente série do género fantástico (“Penny Dreadful”) em que um personagem define o amor como a busca de alguém por algo que o faça libertar-se. E é essa a melhor síntese para o enredo saído da imaginação de Thomas Mann: o professor Aschenbach obrigou-se a um tão restrito código de valores morais, que tal espartilho fê-lo falhar onde mais desejara ter sucesso: na composição musical.
O recalcamento dos estímulos dos sentidos conduziram-no a um beco sem saída, de onde apenas o deslumbramento pela beleza de Tazio o poderia emancipar. Mas é solução, que já lhe ocorre demasiado tarde. Até porque se vira entretanto apanhado na armadilha, que Veneza representa.
No filme de Visconti Veneza nada tem de magnífica ou de sereníssima. Logo na cena inicial, quando quer chegar ao Lido de vaporetto e não na gôndola que lhe coube tomar à saída do cais marítimo onde aportara, Aschenbach é confrontado com o carácter caprichoso da cidade: esqueça-se o domínio dos acontecimentos, porquanto é ela a impô-los a quem se condena a ser dela vítima. E por isso Aschenbach enleia-se progressivamente numa teia de que não se consegue livrar, porque a cólera asiática vai ceifando vítimas à sua volta, desertificando um espaço onde a sensação de clausura só não é maior, porque o adolescente vai imitando a Lolita de Nabokov na forma como o prende progressivamente aos seus inequívocos sinais de sedução.
No culminar do filme temos uma das mais belas cenas produzidas pelo cinema: a desfocagem gradual de Tazio enquanto entra nas águas ao som do «Adagietto». Nesse momento já a tinta com que Aschenbach procurara rejuvenescer-se vai escorrendo rosto abaixo, ao contrário do sangue entretanto estacado nas suas artérias.

sábado, julho 18, 2015

COSMOS: O assombroso engenho humano

Um dos acontecimentos mais impressionantes dos últimos dias foi o da passagem da sonda espacial New Horizons pelas proximidades do planeta Plutão. O engenho humano de conseguir comandar uma nave do tamanho de um piano de cauda e com um peso de cerca de meia tonelada até a levar com precisão a um local situado a mais de 50 milhões de quilómetros, é elucidativo de quanto evoluiu tecnicamente a nossa civilização.
A conquista espacial não ocorreu com a rapidez por mim almejada quando, em miúdo, me fascinavam todos os pormenores das missões Apollo, transmitidas por esse admirável autodidata chamado Eurico da Fonseca, mas podemos concluir facilmente que, no seu melhor, a espécie humana consegue os feitos mais assombrosos.
Sobre a missão em si já quase tudo foi dito: a surpresa de encontrar em Plutão um planeta maior do que se conjeturava, o que significa logicamente uma sua menor densidade.  Constata-se uma maior quantidade de gelo do que já se sabia aí haver, para compensar uma menor quantidade de material rochoso nele existente.
Essa camada de gelo não é, porém, constituída por água, mas maioritariamente de metano, registando-se temperaturas de cerca de –235ºC na sua superfície. Isto quer dizer que quase todos os gases que, na Terra, nos rodeiam nessa forma seriam convertidos em gelo no pequeno planeta pouco maior do que a superfície do Alaska.
O que, porém, mais motiva os cientistas do projeto é  o potencial de Plutão enquanto fornecedor de dados passíveis de corroborarem, ou corrigirem, o que já se sabe sobre a forma como foi formado inicialmente o sistema solar.
Há, porém, um pormenor igualmente interessante quanto a esta missão da NASA: a sonda transporta consigo as cinzas de Clyde Tombaugh, o cientista que, em 1930, descobrira a existência do planeta agora visitado. E essa foi a melhor homenagem que se poderia dar a quem dedicou a sua longa vida  - Tombaugh morreu já nonagenário em 1997 - à descoberta do que se esconde na infinitude do firmamento. 

OLHARES: a luz de Lisboa em exposição

Nos muitos anos em que naveguei pelos sete mares e aportei a (quase, porque me faltou a Antártida!) todos os continentes, vi céus de todas as cores existentes na paleta do arco-íris. Das auroras aos crepúsculos, culminando nas noites mais escuras ou mais claras, o firmamento esteve sempre focalizado na minha atenção de encantado observador das novidades propiciadas por cada dia. Mas afianço sem rebuços nacionalistas, que nunca encontrei luz como a de Lisboa. Nem mesmo no azul espelhado nas alvas casas de Santorini ou na pureza despoluída do Ártico, o sol me pareceu tão superlativamente límpido.
A luz de Lisboa bem merece a consagração da exposição agora inaugurada no Torreão Poente do Terreiro do Paço. Porque constitui um mistério, que poetas, fotógrafos, cineastas e cientistas poderão ajudar a explicar em detalhe, mas sem conseguirem dar corpo à resposta cabal, que só a convergência das emoções de todos os sentidos poderá fazer pressentir.
E, pessoalmente, se ela me deu o ensejo de grandes alegrias, também está associada a uma das grandes tristezas da minha juventude: em 1977, quando embarcado no navio-tanque «Montemuro», já passara quatro meses a bordo, nele entrei Tejo adentro para uma curtíssima arribada destinada a receber uma qualquer peça necessária às reparações a bordo.
O dia estava, como quase sempre, deslumbrante. E essa sensação de Lisboa estar ali a umas centenas de metros e não a poder sequer palmilhar por um curto instante, tornou ainda mais difícil o início de nova viagem de dois meses até ao golfo Pérsico!
Decerto terei essa memória em mente quando, um dia destes, visitar demoradamente esta exposição!

sexta-feira, julho 17, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Locke» de Steven Knight (2013)

Nos seus tempos áureos, Hitchcock levava alguns críticos a considerar possível um filme seu, inteiramente passado numa cabine telefónica e com o seu eficiente suspense.
«Locke», o filme realizado por Steven Knight em 2013, demonstra a possibilidade de tal ser possível, já que tem como cenário único o interior do carro, onde um homem atrapalhado percorre a longa estrada entre Birmingham e Londres.
Se pretendêssemos uma demonstração da Lei de Murphy, esta história poderia perfeitamente adequar-se: de início Ivan Locke é um bem sucedido técnico de cofragens, que ganha bem a vida e tem uma família estável com uma mulher, que ama, e dois filhos com quem tece cumplicidades futebolísticas.
Só que, na véspera de uma operação de betonagem para um enorme arranha-céus, a amante ocasional de uma noite de copos, sete meses atrás, liga-lhe da maternidade a informá-lo da iminência do parto prematuro do filho dele.
Ora, muitos anos atrás, ele fora o filho enjeitado de um homem em circunstâncias semelhantes às que agora se encontra. E nunca lhe tinha desculpado a cobardia. Por isso, mesmo perdendo o emprego e a família, ele dirige-se a Londres para assumir a responsabilidade pelo seu erro. Porque ele nem sequer tem afeto por essa mulher frágil, já quarentona, com quem cometera adultério pela primeira e única vez na vida. Mas importa-lhe sobretudo o que essa criança à beira de nascer, irá pensar dele. Por isso mesmo, quase à chegada ao seu destino, ele sabe que há circunstâncias, que não oferecem possibilidades de retrocesso. E que as escolhas nem sempre incluem as que ele mais desejaria encontrar.
Feito de conversações telefónicas com diversos interlocutores, além de consigo mesmo, o filme tem uma intriga credível e conta com o excelente desempenho de Tom Hardy. 

quarta-feira, julho 15, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Peacock, o desconstrutor

Confesso-me algo piegas e por isso agradam-me tanto as obras do período romântico com os seus amores contrariados, inequivocamente assolapados, sob a fúria dos elementos e com uma sonata de Schubert como banda sonora.
Mas, mais do que piegas, também aprecio, e muito, todo o processo de desconstrução de um discurso canónico. É por isso que engraço com «Nightmare Abbey», a novela que Thomas Love Peacock escreveu em 1818 e reescreveu em 1837. Porque o jovem diletante, que ele era, vivendo às custas do bem sucedido negócio marítimo da família, não podia deixar de olhar com ironia os amores exacerbados do seu amigo Shelley, dividido nas suas paixões por Harriet e por Mary, dando-lhe assim matéria mais do que suficiente para troçar do movimento artístico então dominante.
Peacock goza com o interesse dos seus contemporâneos pelos temas mórbidos e pelas crenças na transcendência, criando um livro que, recentemente, o «Guardian» escolheu para a sua lista de cem clássicos imperdíveis.
À partida temos uma mansão arruinada entre os pântanos do Lincolnshire e o mar, onde o anfitrião, Christopher Glowry, é um viúvo rabugento e melancólico, que partilha o espaço familiar com o único filho, Scythrop, que não tardará a desvendar-se como o protagonista da história.
Mas a ele já lá vamos, pois vale a pena quedarmo-nos um instante com o progenitor, cuja singularidade comportamental o leva a só contratar criados com nomes negativamente sugestivos: Raven, Graves, Deathshead…
Vão igualmente sucedendo-se hóspedes, que passam o tempo a comer, a jogar bilhar ou a discutir literatura e filosofia. Há um ictiologista, que afiança a existência de sereias e tritões. Um lacrimejante Flosky, que é o retrato chapado do poeta Coleridge ou Cypress, criado à imagem e semelhança de outro poeta da época, Lord Byron.
Existem igualmente as convidadas: a fútil Marionetta, imaginada à luz de quem era Harriet Westbrook, a jovem por quem Shelley começara por se enamorar. E a intelectual Stella Toobad, que Peacock concebeu como gémea da Mary, que viria a escrever «Frankenstein».
É entre uma e outra, que balança o coração de Scythrop, criada por Peacock de acordo com o que conhecia de Shelley. Mas ele anda tão preocupado com a transformação do mundo, regenerando a espécie humana, que se esquece da importância de flirtar com as belas de serviço e, quando dá por isso, já elas casaram com outros bem menos distraídos. Será inevitável acabar com o coração destroçado…
Temos, assim, uma plêiade de personagens extravagantes, senão mesmo ridículas, que coloram toda a história, apesar de Peacock nunca ter resolvido a tendência para estruturar as suas histórias de forma assaz heterogénea... 

terça-feira, julho 14, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: a Austrália e os primeiros Homo Sapiens

Já tem dois anos o documentário «Austrália, a aventura dos primeiros homens», que Bentley Dean e Martin Butler realizaram para uma produtora desse mesmo país.
O ponto de partida é interessante: há 50 mil anos, bem antes de o Homo Sapiens chegar à América ou à Europa, alguns dos seus representantes alcançaram a Austrália, adaptando-se rapidamente às condições aí encontradas e prosperando.
Essa civilização, a mais antiga do mundo, não conheceu qualquer rutura até se ter verificado a colonização inglesa, estendendo-se por um período dez vezes mais prolongado do que a civilização egípcia na Antiguidade Clássica.
Os realizadores levam-nos aos sítios arqueológicos dispersos por todo o país, encontrando populações indígenas e arqueólogos especializados nessa longa História.
Foi por volta de 60 mil a.C., que um grupo obstinado de Homo Sapiens alcançou Sahuk, ou a Grande Austrália, uma terra virgem, cuja fauna, flora, desertos e glaciares lhes pareciam estranhos. Depressa criaram vias comerciais a percorrer o continente bem como inovações artísticas e técnicas a expandirem-se na mesma medida.
Nos primeiros 20 mil anos, os aborígenes conviviam com feras de grande porte, como era o caso do leão marsupial. Tais espécies desapareceram na sequência de uma profunda transformação climática, quando ocorreu a última glaciação.
Há 15 mil anos a água proveniente da fusão das calotes glaciares do Pólo sul cobriu 15% do continente australiano. A Nova Guiné e a Tasmânia ficaram separadas da atual Austrália. Tal isolamento teve repercussões significativas no regime alimentar, na língua e nas técnicas dos habitantes da Tasmânia.
Quando a ilha voltou a ligar-se ao continente a demografia explodiu e possibilitou um novo sistema de aquacultura...

quarta-feira, julho 08, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Epopeia admirável

Independentemente daquilo em que depois se transformaram, as revoluções lideradas por Mao Zedong e Fidel Castro contaram com um sopro épico, que continua a suscitar viva admiração décadas passadas sobre a sua concretização.
O estoicismo dos que lutaram, e  muitas vezes morreram, para tornar vitoriosa a Longa Marcha ou a insurreição a partir da Sierra Maestra não pode deixar de suscitar uma enorme admiração. Idêntica, aliás, à que foi protagonizada por quantos, sob o jugo nazi, nunca deixaram de apostar na derrota dos ocupantes lançando movimentos mais ou menos vitoriosos de partisans em França, na Itália, na Grécia e em tantos outros países europeus.
Para estes dias de verão lancei-me à leitura de «Descamisado», o relato biográfico que o general Enrique Acevedo escreveu enquanto liderava a campanha anti-Unita no território angolano, e em que conta como, rapaz de apenas 14 anos, se alistou nas forças anti-Batista, decidido a aguentar todas as dificuldades para que o objetivo final fosse conseguido: a tomada de Havana.
A fome, o armamento insuficiente e deficiente, a traição de uns quantos cobardes e a incerteza perante o carácter aleatório dos ataques aéreos são algumas das provações por ele relatadas de forma amiúde deliciosa em que nos chegamos a interrogar como foi possível a um exército tão fraco derrubar uma ditadura tão acarinhada pelo imperialismo ianque.
Conclui-se que, em diversas latitudes, as forças revolucionárias conseguiram habilmente pôr fim a muitas ditaduras. O que não descobriram foi como impedirem-se de também o virem a ser... 

segunda-feira, julho 06, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: «Monsieur les deux chapeux», um conto de Alice Munro

À medida que vou avançando na tardia descoberta da escrita de Alice Munro vou encontrando aspetos comuns nos vários contos, que integram a coletânea «O Progresso do Amor». Apesar de não terem mais do que uma dúzia de páginas, as histórias envolvem sempre um pequeno grupo de personagens ligados por afetos desencontrados e imperativos éticos ou familiares, que correspondem a verdadeiras obrigações.
O «Monsieur les deux chapeaux» desta história é Ross, cujo aspeto de falhado e o “olhar lúbrico e inocente» não corresponde propriamente a algum atraso mental. Trata-se de um feitio singular que, Colin, o irmão mais velho, sentirá eventualmente ligado a um episódio de infância quando, na festa do 25º aniversário de casamento da mãe, Sylvie - ela própria algo excêntrica ou não comemorasse a efeméride, apesar de já separada do marido! - quase atingira o irmão com um tiro disparado pela pistola, quando lha tentava tirar das mãos.
O dramatismo da história não reside, porém, aí, mas em algo que pode prever-se para um futuro indefinido: entusiasmado pela ideia de reconstruir um carro, Ross aplica-lhe um motor mais potente, retirado de outra viatura. E é Nancy, uma professora, colega de Colin, cuja turma dera a alcunha a Ross, quem aventa a forte probabilidade do desajuste desse motor para tal carroçaria, potenciando a quebra do eixo e o possível acidente.
Doravante Colin ficará em ânsias para que nunca o irmão convide a esposa e a filha a darem um passeio naquele perigo com rodas.

PLANOS CRUZADOS: acusado duas vezes pelo mesmo crime?

Poderá alguém que já foi julgado e declarado inocente, ser chamado novamente ao banco dos réus para responder às mesmas acusações e acabando condenado? Eis um dos debates atualmente em curso nos meios judiciais franceses e que tenderá a pôr cobro a uma das regras de ouro da jurisprudência: ninguém poder vir a ser acusado duas vezes pelo mesmo crime…
Estes debates têm tido por leitmotiv a morte violenta de Frédéric Fauvet, em Epernay, no dia 27 de dezembro de 1985. O seu corpo nunca foi encontrado, muito embora o irmão, Boris, tenha encontrado sangue e o buraco de uma bala no apartamento.
Em 1988 o suspeito mais óbvio, Dominique C,, ex-companheiro da namorada de Frédéric, foi dado como inocente pelo tribunal, muito embora as suspeitas a seu respeito fossem de monta, a começar pelo seu curriculum violento e pelo assédio a que sujeitara Catherine nas semanas anteriores para que voltasse para os seus braços.
Mais de um quarto de século passado sobre o homicídio, os avanços da ciência forense dos últimos anos permitiu reconhecer a identidade do ADN recolhido nos objetos recolhidos no cenário do crime e fê-lo corresponder com o de um homem inscrito no registo policial dos violadores  e que não é mais do que o mesmo Dominique C.
Frédéric conhecera Catherine dois meses antes desse fatídico dia, quando ela acabara de romper com o companheiro, um tratorista da Veuve-Clicquot, que já tivera um casamento anterior e era bem conhecido da polícia local por crimes de roubo e de tráfico de droga.
Aos trinta anos não parecia disposto a abdicar da rapariga, que já sabia estar relacionada com  o viticultor, que morava quase em frente ao seu apartamento.
Agora Dominique C. pode vir a ser acusado em função das evidências sobre a sua passagem pelo apartamento do rival amoroso. E mesmo que a alteração canónica das práticas judiciais não se faça, a Acusação já idealizou um plano B, imputando-lhe o desaparecimento do cadáver...

sábado, julho 04, 2015

SONORIDADES: Os adufes da Beira Baixa

Uma viagem pela zona de Monsanto e Idanha-a-Nova para conhecer um instrumento fundamental dentro das tradições musicais da Beira Baixa.
Do adufe ficaremos a conhecer o modo de construção, a ligação a instrumentos similares da Bacia do Mediterrâneo, o papel social da sua utilização e muitos temas interpretados por grupos e intérpretes individuais.

sexta-feira, julho 03, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «O Preço da Fama» de Xavier Beauvois

Nos filmes agora estreados nos ecrãs lisboetas valerá a pena dar atenção a «O Preço da Fama», o filme de Xavier de Beauvois, com o sempre excelente Benoît Poelvoorde num dos dois desempenhos principais.
A história diz respeito a um caso real passado em 1978 na Suíça, quando o caixão com os restos mortais de Charles Chaplin é roubado por dois pobres diabos, convencidos de assim acederem a avultado resgate.
Se os dois imigrantes, realmente envolvidos em tão truculento episódio, eram um polaco e um búlgaro, Beauvois escolhe aqui um belga e um argelino.
O registo é o de comédia, que é a melhor forma de não deixar o filme resvalar para o lado do sórdido onde facilmente ancoraria. E compreende-se o enfoque dado, dias a fio, ao sucedido - a tal ponto que, a quase quarenta anos de distância, ainda me lembro de o ter então acompanhado com interesse. É que Chaplin causava uma autêntica veneração em milhares de admiradores. Por uma razão simples, como lembra o realizador através da história real que conta a Jorge Leitão Ramos, na entrevista ao “Expresso”: um dia Chaplin e Einstein assurgiram juntos perante uma enorme multidão, que os aclamou em delírio.
- Consegue perceber a razão para este comportamento?, terá Chaplin perguntado ao pai da Teoria da Relatividade.
- Claro que sim! A si, porque todos compreendem o que você fez! E a mim exatamente pelo contrário!
Em dias de excessivo calor vale a pena dedicar um par de horas a ver este filme num bom ar condicionado!

quinta-feira, julho 02, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: o que nos trará o próximo filme de Asghar Farhadi?

Ainda que  A Separaçãoou “O Passadotenham suscitado reações muito negativas das instituições iranianas, Asghar Farhadi ocupa o papel relevante de embaixador do seu país no mundo ocidental, onde os seus filmes têm sido excelentemente criticados e premiados.
No Irão de hoje o realizador beneficia de um estatuto jamais reconhecido aos seus antecessores, quer se chamassem Mohsen Makhmalbaf, Abbas Kiarostami, ou sobretudo, Jafar Panahi, que continua em prisão domiciliária e proibição de filmar.
Farhadi continua a dizer-se apostado em prosseguir carreira no país dos ayatollahs. Ao jornal «Le Monde» considerou que era como se fizesse a subida a uma montanha e preferisse uma das mais difíceis.
Enquanto os antecessores procuravam a forma de contornar a censura e, por isso, faziam filmes fracos, ele aborda os temas de forma tão realista e frontal quanto possível. O respeito pelas regras (o uso do véu nas mulheres, mesmo nas cenas domésticas, a ausência de contacto físico entre os dois sexos, a ausência de cores vivas) não o impede de olhar os personagens de muito perto, criando com eles uma empatia, que lhes confere uma dimensão universal.
O papel das crianças, o casal, o divórcio, a mentira: são muitos os temas, que alimentam a sua filmografia desde o primeiro título. Mas o mais recente, inteiramente rodado no estrangeiro, já faz pressentir algum esgotamento do método, com personagens demasiado rebuscadas e uma dramaturgia artificial.
Nesta altura justifica-se a curiosidade quanto ao que será o próximo filme de Farhadi para confirmar ou desmentir essas suspeitas...

domingo, junho 28, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: «Liquen», um conto de Alice Munro

Seres orgânicos, meio fungos, meio algas, os líquenes desenvolvem-se em ambientes inóspitos. Não admira que Alice Munro tenha escolhido este título para o seu conto, porque é de afetos apodrecidos, e até corrosivos, o que aqui está em questão.
A protagonista é Stella, que vive numa casa que o pai construíra nos penhascos argilosos, sobranceiros às águas tranquilas do lago Huron.
A meia idade transformou-a numa “mulher baixa, gorda e de cabelos brancos” sem grande cuidado com o que costuma vestir.
Conhecemo-la, quando recebe David, o ex-marido, que todos os anos, por altura do aniversário daquele que fora seu sogro durante vinte e um anos, vem visitá-la, desta feita acompanhado de Catherine, a sua amante atual. Desta ficaremos a saber tratar-se de, aos quarenta anos, uma espécie de  herdeira espiritual dos hippies, cultivando o interesse por tudo quanto seja paranormal. Não iludindo por isso a fragilidade e delicadeza do seu trato.
Apanhando-a a sós, David mostra-se ansioso por mostrar a Stella a fotografia de Dina, uma rapariga de 22 anos, por quem está disposto a abandonar Catherine. Como se a visita tivesse por verdadeiro objetivo a bênção para a perfídia, que planeia executar.
“Parece líquen!”, reage ela ao olhar para a imagem, que David lhe coloca à frente. Adivinha-se no comentário a improvável exequibilidade daquele “amor” andropáusico.
E, de facto, essa Dina parece ser mais esquiva do que David gostaria de reconhecer. Quando tenta porfiadamente ligar-lhe, nunca a consegue apanhar.  A evidência de, traidor, andar a ser traído, torna-se-lhe óbvia.
Ainda assim, a curta visita serve para David concluir que, no fim de contas, ele e Stella continuavam ligados, explicando-se, assim, o desejo de partilha dos seus segredos mais comprometedores.
O que não imagina é Stella não sentir nada de semelhante em relação a um homem, que já arquivou afetivamente no seu passado. E tradução prática dessa sensação é, uma semana depois, encontrar a fotografia de Dina e vê-la em acelerado processo de degradação.
Ao segundo conto posso intuir que as personagens dos contos de Alice Munro raramente estão sintonizadas nos afetos, havendo sempre barreiras invisíveis a separá-las da aparente afinidade, que possam querer exibir. Ou mesmo convencer-se de que existam!
(este conto está publicado na coletânea «O Progresso do Amor», editada pela Relógio de Água em 2011, datando a versão original de 1986)