sexta-feira, setembro 04, 2020

(DIM) Regressos estimulantes e uma descoberta curiosa


São jubilatórios os dias que os cinéfilos vão vivendo se quiserem arriscar o desconfinamento e deslocarem-se às salas de cinema. A começar pela possíbilidade de rever Os Inúteis, o filme de Fellini sobre os tempos da juventude em Rimini e o seu grupo de amigos permanentemente em farra. Franco Interlenghi serviu-lhe de alter ego, mas também por lá andam Alberto Sordi e Franco Fabrizi a farrearem ao som da música do inevitável Nino Rota.
A passagem à idade adulta é inevitável e Roma afigura-se como destino promissor. Assim o faria o jovem Federico, quando para aí se mudou e foi trabalhar para um jornal onde conheceria alguns dos grandes nomes de argumentistas, que determinariam muito do cinema transalpino do pósfascismo.
Quem foi ao Indie pode ter uma descoberta curiosa num documentário de Ehsan Khoshbakht sobre o cinema produzido no Irão do Xá, quando a CIA já tinha cerceado a vontade de Mossadegh em criar uma república moderna e socialista e Khomeini ainda ali não aparecera a demonstrar que as ditaduras assentes em crenças religiosas conseguem ser tão hediondas quanto as derivadas do imperialismo. Os filmes realizados nesse intervalo entre 1953 e 1979 não tinham grande interesse artístico: eram cópias dos modelos ocidentais ou a reprodução das tradições locais, mas são excelentes objetos de análise para quem quiser debruçar-se sobre esse período na perspetiva do historiador ou do sociólogo. Filmfarsi dá-lhes material interessante para o objeto dos seus estudos.
Do Festival de Veneza os nossos apetites abrem-se para o novo filme de Almodovar, o primeiro em língua inglesa e tendo Tilda Swinton e um cão como únicos personagens.
A Voz Humana de Jean Cocteau já fora por ele citado nalguns dos seus filmes, mas agora, em jeito de curtametragem, Almodovar decide abordar o original naquele que também é o seu primeiro título em língua inglesa. É a história de uma mulher meio-ébria, meio-enlouquecda a quem o amante já não aparece há três dias, pondo fim a uma relação de há vários anos.
A concluir fica uma proposta para quem se acautela, ficando intramuros, e tem acesso à plataforma HBO: Ridley Scott realizou os dois primeiros episódios da série Raised by Wolves, regressando aos temas dos andróides e da religião. Num mundo apocalítico os ateus procuram que dois robôs eduquem uma nova prole de crianças de acordo com a sua explicação do que ocorre à sua volta, mas uns fanáticos religiosos, os mitraístas, já responsáveis pela destruição da Terra, prosseguem o proselitismo assassino no planeta Kepler 22b onde a Humanidade procura sobreviver.

quarta-feira, setembro 02, 2020

(EQ) Nikias - depois de um filme de Jorge Silva Melo


Anos a fio a cidade parecera-lhe triste e melancólica. Daí pintá-la quase sem pessoas. Os ajuntamentos estavam proibidos sob pena de se conhecerem os curros do Aljube. Se havia quem a fotografasse, e dela desse retrato de indisfarçada pobreza, ele escolheu representá-la na forma de  ruas e praças soturnas ao fim da tarde, ou já caída a noite, acrescentando-lhes dois vultos, porventura um casal, a escapar-se para algum quarto clandestino onde pudesse inventar o amor com carácter de urgência. A menos que estivesse de passagem para esses espaços clandestinos onde se imprimiam panfletos e se organizavam as ações ditas subversivas.
Enclausurado no atelier da Villa Martel decidiu-se por outra série, a dos quartos de artistas e poetas. Porque os admirava e os queria evocar naquilo, que mais o sugestionavam. O quarto de Pessoa com o inevitável baú, o amarelo da colcha em Gauguin, a quase literal cópia do de Van Gogh, a diminuta cama de Max Ernst num espaço alargado para conter todos os seus sonhos. Mas também os ateliers, o de Chirico por exemplo ou o de Matisse. Embora no Teatro dos Outros sobressaísse para Jorge de Silva Melo o de Cavafy em Alexandria, porventura cenário de algumas cenas do Quarteto dissecado por Durrell.
Ficaram também os retratos. Natália sozinha, com bochechas rosadas, quase avermelhadas. E acompanhada de Fernanda Botelho e Maria João Pires, todas elas olhando noutras direções que não umas às outras, porque esse era tempo de imposta restrição à comunicabilidade. O mesmo que se passa noutro retrato em que Joel Serrão, João José Cochofel e Augusto Abelaira olham para o pintor-espectador e nada dizem entre si. Ou Cesariny, que se vê acompanhado de Breton.
Do seu espaço de trabalho Nikias olha a cidade e pinta-a de cima pondo varandas e janelas, telhados e a esdrúxula palmeira. Dali podia ver outras coisas: operários a trabalhar, homens desocupados em camisetas de alças a fumarem um cigarro e também os gatos, os inevitáveis e silenciosos gatos a moverem-se furtivamente, exceto naquelas noites de janeiro, que dizem ser o mês deles por ser quando porventura terão o cio mais atiçado.
A escolher-lhe um quadro optaria pelo do 25 de abril. Porque está lá tudo: as mulheres na linha da frente, um militar-marinheiro numa das pontas, as bandeiras, os dedos em v, as bocas abertas num sorriso de alegria. E as cores, Os vermelhos que inebriavam os corações, os verdes da esperança, os brancos das colunas do topo de uma das quais a República agitava a bandeira com as mamas ao léu. Noutra um par - se calhar um dos que viera da série da Lisboa triste -, a dançar por ser este um tempo prenhe de alegria. E o azul do céu, a todos encimar, porque no dizer de Sophia, esse foi dia inteiro e limpo.

terça-feira, setembro 01, 2020

(DL) Sófocles, o melhor representante do século em que viveu


Sófocles personifica Atenas, quando a cidade-estado conheceu o seu fulgor civilizacional no século de Péricles: nascendo em 497 a.C. e morrendo noventa e um anos depois, pôde-lhe testemunhar a ascensão dos valores democráticos e o seu definhamento, quando as guerras do Peloponeso saldaram-se pela vitória de Esparta. Político ativo, que participava ativamente nos debates da Ágora, Sófocles produziria um teatro patriótico destinado a suscitar nos compatriotas o orgulho pela República e a necessidade de a preservar.

É verdade que a Democracia, tal qual Sófocles ajudou a consolidar, era demasiado exclusiva, nela não cabendo os metecos nem os escravos, mas ficou imortalizada como o primeiro sistema de governo assente no primado da vontade coletiva dos cidadãos. Esse foi também tempo farto para a Filosofia, entendida como instrumento fundamental para a compreensão do mundo e dos homens, cujas contradições eram representadas nos seus concorridos teatros. Através das suas tragédias surge um novo tipo de homem, aquele que se via dotado de uma consciência relativamente a tudo quanto praticava.
Edipo é, a esse respeito, um personagem paradigmático, criado a partir das muitas visitas que o autor da peça fez ao templo de Delfos para escutar os vaticínios das pitonisas. Teria sido aí que o oráculo anunciara a Laios qual seria o destino do filho acabado de nascer: viria a matá-lo e casaria com a própria mãe. Ele viria a ser o tipo de herói maldito, que procura fugir ao que o futuro lhe reserva e não consegue. Quando compreende tudo quanto fizera só pode punir-se, mesmo sabendo tratar-se de desiderato incapaz de corrigir o mal de que fora involuntário instrumento.
Uma história idealizada há dois milénios e meio acabou por ter ressonância até aos nossos dias, não só na forma das discussões sobre o papel do determinismo nos destinos humanos, mas também no que se oculta no seu inconsciente.

(DIM) O Rio, Emir Baigazin, 2018


Deem-me a escolher entre dois filmes, um todo vistoso, com engenhosos efeitos especiais e demais artifícios de Hollywood, e outro, mesmo que lento, oriundo de quase desconhecidas cinematografias, e nenhuma dúvida me fica: é pelo último que opto. Porque, enquanto o primeiro será igual a tantos outros tipo chiclete, já vistos e revistos, o segundo promete tornar-se memorável à conta da originalidade das suas histórias e formas de as abordar. Facilmente entendemos que a escolha situa-se entre o artificialismo de um «produto» e a singularidade de uma obra artística digna de ser, enquanto tal, apreciada.
Demonstra-o este filme cazaque, que se estreou no festival de Veneza de 2018 e ganhou o Lisbon & Sintra Film Festival do mesmo ano. Última parte de uma trilogia, que já contara com Lições de Harmonia em 2014 e The Wounded Angel em 2016, prossegue-lhes o objetivo do realizador em revelar as vidas difíceis das populações rurais do seu país, afastadas dos confortos citadinos e como a eles reagem, quando não indo Maomé à montanha é esta a tomar a iniciativa de ir ao seu encontro.
Começamos por conhecer cinco filhos de um casal em que o pai amiúde se ausenta, incumbindo o primogénito, Aslan, de controlar as tarefas dos irmãos na pequena horta ou na confeção artesanal de tijolos. Visivelmente pai-patrão, que não hesita em usar o chicote, quando sente justificado o desagrado com o trabalho por eles executado, sente-se concentracionário um espaço poeirento em que a vestimenta dos rapazes acompanha esteticamente a monocromia circundante.
Baigazin revela outras preocupações estéticas, que revelam uma ambição depois confirmada  durante as quase duas horas de duração do filme: a movimentação dos miúdos em frente à câmara segue trajetórias geométricas, que obedecem a uma coreografia rigorosa.
Num dia em que o controle paterno se atenua Aslan leva os irmãos até ao rio próximo, até então desconhecido. O azul vem romper essa cor única até então dominante e as sucessivas visitas a esse espaço de liberdade e brincadeira nunca se saldam pela noção da largura dessas águas sentidas como perigosas, porque fluem numa corrente forte, capaz de vencer-lhes as braçadas e levá-los para fora de campo, aonde desconhecemos como a conseguem vencer.
Se esse além já põe em causa a intenção confessada pelo pai em mantê-los distantes das «mentiras» lá de fora, ainda mais se potencia quando lhes aparece um primo vindo da cidade. As roupas coloridas, a irreverência assumida nos atos e a fascinante tabket, donde irrompem os sons da música eletrónica ou as cores dos videojogos, porão em causa o precário equilíbrio até então estabelecido, com a ditadura paterna suportada com alguma resistência, mas melhor aceite se intermediada por Aslan arvorado na função de capataz.
A harmonia fraterna começa a fissurar-se nessa chegada de Kanat, uma espécie de Prometeu disposto a desafiar um Zeus todo-poderoso. Os valores da civilização ocidental, de que se revela representante, suscitam desequilíbrios e instabilidades, manifestadas através da inveja e da cobiça. A tensão cresce, tanto mais que numa ida conjunta à beira-rio - a primeira vez em que se vislumbra a outra margem e o quão próxima está! - Kanat desaparece.
Ter-se-á afogado? Todos os irmãos irão reagir a seu modo, àquilo que lhes parece ter sido uma tragédia. Embora Aslan - aquele cuja autoridade mais ficara diretamente em causa com a chegada do intruso! - tivesse ordenado a queima das roupas como se quisesse apagar os vestígios de um crime de que o adivinhamos inocente.
O final esclarece-nos as dúvidas quanto ao destino de Kanat: afinal o seu voluntário desaparecimento durante alguns dias pretendera acrescentar mais alguma inquietação num espaço por ele decididamente perturbado. Ao despedir-se dos primos para nos confrontar com o final em aberto desafia-nos a conjeturar quais as consequências da sua passagem por ali. Quase por certo as coisas não tenderão a continuar a ser como até ali...