segunda-feira, outubro 05, 2026

Três vozes num só corpo

 


Em Memórias de um Corpo que Arde, de Antonella Sudasassi Furniss, três mulheres costarriquenhas — Ana, Patricia e Mayela, entre os sessenta e oito e os setenta e um anos — contam como descobriram, ou não descobriram, o próprio corpo numa sociedade em que a sexualidade era assunto que não se nomeava.

O que contam não surpreende ninguém que tenha vivido aquelas décadas, deste ou do outro lado do Atlântico: casamentos sem prazer, o dever conjugal como quem cumpre um horário, e, à margem, na solidão, a descoberta jubilosa de que o corpo podia ser outra coisa.

É matéria dada, mas há-as que é preciso dar outra vez, sobretudo quando não falta quem queira apagá-las do programa.

A realizadora diz que o filme é a conversa que nunca teve com as avós. A frase explica a forma. As três mulheres não aparecem: ouvimo-las em voz off, e encarnam num único corpo, o de Sol Carballo, atriz da mesma geração, que as vive no ecrã como se fossem uma.

Atrizes mais novas dão corpo à menina e à rapariga nos regressos ao passado, e a câmara passa de uma época a outra sem cortes que as separem, como se a infância, a juventude e a velhice coabitassem no mesmo espaço. Três biografias distintas fundem-se numa só figura porque, no essencial, eram a mesma — o que lhes aconteceu incluiu toda uma geração. O singular do título não é descuido. É tese.

O filme foi rodado numa casa de San José, e quase tudo passa-se entre aquelas paredes. Houve quem achasse monótono ver a atriz a ela confinada durante boa parte da hora e meia, mas a casa é o tema. Foi ali que estas vidas foram fechadas — a cozinha, o quarto, a cama onde o prazer não entrava. E há um pormenor técnico que agrava o efeito: o filme está em formato panorâmico, o mais largo do cinema, aquele que nasceu para desertos e batalhas. Aplicado a um interior doméstico, alarga o espaço à volta da mulher sem lhe dar saída. Muito ar, nenhuma porta. O enquadramento diz da clausura o que nenhuma das vozes precisa de dizer.

Sou um homem de setenta anos a ouvir mulheres da minha geração falarem do desejo que não tiveram. O desejo delas é-me, em rigor, alheio, e não vou fingir que o filme mo revela de dentro. Mas a minha posição tem um lugar preciso nesta história, e é desconfortável: os maridos ausentes do filme são da minha geração. São os homens que não perguntaram, que não ouviram, que tomaram o silêncio por consentimento e a rotina por harmonia. O filme não os acusa — mal os mostra. É essa ausência que pesa.

Um espectador masculino desta idade não pode ver o filme como observador neutro; vê-o do outro lado da cama, e sabe que aquelas mulheres estão, finalmente, a dizer em voz alta o que não disseram a quem estava ao lado.

Vale a pena demorar no país. Na primeira vez que o vi, julguei-o espanhol, e o paralelo impunha-se: franquismo e salazarismo partilharam uma moral conjugal e familiar com coincidências sinistras — a mulher como guardiã do lar, o corpo feminino como propriedade da família e da Igreja. Cá tivemos a Obra das Mães pela Educação Nacional; lá, a Sección Femenina. Mas a Costa Rica destas décadas não era uma ditadura. É o país que aboliu o exército em 1948, democracia estável num continente de generais. E, no entanto, as alcovas de San José parecem-se assustadoramente com as de Lisboa e de Madrid.

Essa descoberta é o centro do filme. Diz-nos que a repressão do corpo feminino nunca precisou de polícia política. Bastaram a Igreja, a família, a vizinhança, as regras que ninguém escreveu e todos cumpriam.

Os regimes autoritários da Península deram-lhe força de lei, mas não a inventaram — encontraram-na pronta e serviram-se dela. Para um marxista, é lição a não esquecer: a superestrutura moral tem uma vida própria, mais longa do que os regimes que a usam. Salazar morreu, Franco morreu, e a mentalidade sobreviveu-lhes em muitas casas durante décadas. Na Costa Rica nem foi preciso um ditador para a instalar.

É por isso que esta revisão de matéria dada chega na altura certa. A extrema-direita faz hoje da família tradicional uma bandeira, e sabemos o que ela foi para as mulheres que a viveram por dentro: o filme mostra-o com o rigor de quem dá a palavra às testemunhas. E o exemplo costarriquenho tira-nos uma ilusão confortável. Julgamos que aquele modelo só regressaria com o regresso de um regime, com censura e polícia. Não. Pode regressar pelo voto, pelos costumes, pela escola, pelo púlpito, pela pressão social — exatamente como se instalou na Costa Rica, sem precisar de ditadura nenhuma. A democracia não é vacina contra a moral que oprime; é apenas o espaço onde ainda se pode combatê-la.

Há, apesar de tudo, alegria no filme, e é justo terminar incidir. Estas mulheres falam hoje com uma liberdade que lhes custou a vida inteira a conquistar, e falam numa idade em que o mundo as dá como ausentes do desejo. A sua coragem não está no que fizeram aos vinte anos, quando pouco podiam mas no que afirmam aos setenta, quando já não teriam de dizer nada.

O filme não ensinou o que não sabia. Lembrou que saber não chega, e há coisas que cada geração tem de voltar a ouvir da boca de quem as viveu — antes que outros as contem de outra maneira. 

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