Em Memórias
de um Corpo que Arde, de Antonella Sudasassi Furniss, três mulheres
costarriquenhas — Ana, Patricia e Mayela, entre os sessenta e oito e os setenta
e um anos — contam como descobriram, ou não descobriram, o próprio corpo numa
sociedade em que a sexualidade era assunto que não se nomeava.
O que
contam não surpreende ninguém que tenha vivido aquelas décadas, deste ou do
outro lado do Atlântico: casamentos sem prazer, o dever conjugal como quem
cumpre um horário, e, à margem, na solidão, a descoberta jubilosa de que o
corpo podia ser outra coisa.
É matéria
dada, mas há-as que é preciso dar outra vez, sobretudo quando não falta quem
queira apagá-las do programa.
A
realizadora diz que o filme é a conversa que nunca teve com as avós. A frase
explica a forma. As três mulheres não aparecem: ouvimo-las em voz off, e
encarnam num único corpo, o de Sol Carballo, atriz da mesma geração, que as
vive no ecrã como se fossem uma.
Atrizes
mais novas dão corpo à menina e à rapariga nos regressos ao passado, e a câmara
passa de uma época a outra sem cortes que as separem, como se a infância, a
juventude e a velhice coabitassem no mesmo espaço. Três biografias distintas
fundem-se numa só figura porque, no essencial, eram a mesma — o que lhes
aconteceu incluiu toda uma geração. O singular do título não é descuido. É
tese.
O filme
foi rodado numa casa de San José, e quase tudo passa-se entre aquelas paredes.
Houve quem achasse monótono ver a atriz a ela confinada durante boa parte da
hora e meia, mas a casa é o tema. Foi ali que estas vidas foram fechadas — a
cozinha, o quarto, a cama onde o prazer não entrava. E há um pormenor técnico
que agrava o efeito: o filme está em formato panorâmico, o mais largo do
cinema, aquele que nasceu para desertos e batalhas. Aplicado a um interior
doméstico, alarga o espaço à volta da mulher sem lhe dar saída. Muito ar,
nenhuma porta. O enquadramento diz da clausura o que nenhuma das vozes precisa
de dizer.
Sou um
homem de setenta anos a ouvir mulheres da minha geração falarem do desejo que
não tiveram. O desejo delas é-me, em rigor, alheio, e não vou fingir que o
filme mo revela de dentro. Mas a minha posição tem um lugar preciso nesta
história, e é desconfortável: os maridos ausentes do filme são da minha
geração. São os homens que não perguntaram, que não ouviram, que tomaram o
silêncio por consentimento e a rotina por harmonia. O filme não os acusa — mal
os mostra. É essa ausência que pesa.
Um
espectador masculino desta idade não pode ver o filme como observador neutro;
vê-o do outro lado da cama, e sabe que aquelas mulheres estão, finalmente, a
dizer em voz alta o que não disseram a quem estava ao lado.
Vale a
pena demorar no país. Na primeira vez que o vi, julguei-o espanhol, e o
paralelo impunha-se: franquismo e salazarismo partilharam uma moral conjugal e
familiar com coincidências sinistras — a mulher como guardiã do lar, o corpo
feminino como propriedade da família e da Igreja. Cá tivemos a Obra das Mães
pela Educação Nacional; lá, a Sección Femenina. Mas a Costa Rica destas décadas
não era uma ditadura. É o país que aboliu o exército em 1948, democracia
estável num continente de generais. E, no entanto, as alcovas de San José
parecem-se assustadoramente com as de Lisboa e de Madrid.
Essa
descoberta é o centro do filme. Diz-nos que a repressão do corpo feminino nunca
precisou de polícia política. Bastaram a Igreja, a família, a vizinhança, as
regras que ninguém escreveu e todos cumpriam.
Os
regimes autoritários da Península deram-lhe força de lei, mas não a inventaram
— encontraram-na pronta e serviram-se dela. Para um marxista, é lição a não
esquecer: a superestrutura moral tem uma vida própria, mais longa do que os
regimes que a usam. Salazar morreu, Franco morreu, e a mentalidade
sobreviveu-lhes em muitas casas durante décadas. Na Costa Rica nem foi preciso
um ditador para a instalar.
É por
isso que esta revisão de matéria dada chega na altura certa. A extrema-direita faz
hoje da família tradicional uma bandeira, e sabemos o que ela foi para as
mulheres que a viveram por dentro: o filme mostra-o com o rigor de quem dá a
palavra às testemunhas. E o exemplo costarriquenho tira-nos uma ilusão
confortável. Julgamos que aquele modelo só regressaria com o regresso de um
regime, com censura e polícia. Não. Pode regressar pelo voto, pelos costumes,
pela escola, pelo púlpito, pela pressão social — exatamente como se instalou na
Costa Rica, sem precisar de ditadura nenhuma. A democracia não é vacina contra
a moral que oprime; é apenas o espaço onde ainda se pode combatê-la.
Há,
apesar de tudo, alegria no filme, e é justo terminar incidir. Estas mulheres
falam hoje com uma liberdade que lhes custou a vida inteira a conquistar, e
falam numa idade em que o mundo as dá como ausentes do desejo. A sua coragem
não está no que fizeram aos vinte anos, quando pouco podiam mas no que afirmam
aos setenta, quando já não teriam de dizer nada.
O filme
não ensinou o que não sabia. Lembrou que saber não chega, e há coisas que cada
geração tem de voltar a ouvir da boca de quem as viveu — antes que outros as
contem de outra maneira.

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