domingo, outubro 18, 2026

A água de Dominic Greene

 


Do filme guardei apenas um rosto: o de Mathieu Amalric, olhos salientes, sorriso de contabilista, a fazer de vilão num filme de James Bond como quem entrou no plateau errado. Tudo o resto se tinha evaporado em dezassete anos — os carros, as perseguições, os cenários, a própria história.

Revi Quantum of Solace para confirmar a justiça desse esquecimento, e confirmei-a. Mas descobri, pelo caminho, que o filme mais esquecível da série tem o vilão mais lúcido de todos, e que essa contradição merece mais do que a pastilha elástica que lhe dediquei.

O filme nasceu em más condições, e nota-se. Continuação direta de Casino Royale, onde Daniel Craig se estreara como Bond, devia dar corpo à vingança do agente pela morte de Vesper. Mas a greve dos argumentistas de Hollywood apanhou a produção a meio, e o guião ficou por acabar. Durante uma rodagem que se arrastou por longos meses, o próprio Craig e o realizador Marc Forster tiveram de se sentar à mesa e escrever as cenas que lhes permitissem continuar a filmar. Forster, aliás, era escolha estranha: vinha de O Menino de Cabul, filme pequeno e celebrado, e de um cinema de autor que pouco o preparava para máquinas desta dimensão.

O resultado é o Bond mais curto de todos, menos de cento e dez minutos, e o que mais se escora nos anteriores. As citações sucedem-se, e a mais evidente é a de Goldfinger: em vez da mulher coberta de ouro, uma mulher coberta de petróleo. A homenagem tem graça, mas denuncia o problema — quando um filme não sabe bem o que quer dizer, recorre ao que os outros já disseram.

A montagem agrava tudo. Na esteira dos filmes de Jason Bourne, as cenas de ação cortam-se em fragmentos tão rápidos que deixa de se perceber quem bate em quem, onde, e porquê. O que devia ser energia é confusão. A coerência da narrativa sofre do mesmo mal: as peças não encaixam, as motivações saltam, e no fim fica a sensação de ter sabido a pouco.

Há um momento, apenas um, em que Forster mostra o que poderia ter sido. Durante uma récita da Tosca no palco flutuante do festival de Bregenz, sobre o lago de Constança, Bond descobre os membros da organização secreta Quantum sentados entre o público, a conspirar por auriculares enquanto Puccini se desenrola. A ação e a ópera fundem-se numa montagem paralela em que a violência no átrio acompanha o drama no palco, e por uns minutos o filme encontra um ritmo, uma ideia, uma forma. É o realizador de autor a espreitar por entre as engrenagens do blockbuster. Depois a máquina volta a engoli-lo.

E, no entanto, aquilo que o filme diz — por baixo da confusão, quase contra si próprio — é surpreendentemente certeiro. Os vilões de Bond queriam tradicionalmente destruir o mundo, roubar bombas atómicas, controlar o espaço. Dominic Greene quer outra coisa. Apresenta-se como filantropo ecologista, dono de uma fundação dedicada a salvar o planeta, e prepara um golpe de Estado na Bolívia que instale no poder um general dócil. O preço que exige não é petróleo nem ouro. É a água. Greene quer o monopólio do abastecimento de água de um país inteiro, para a vender a quem dela precisa ao preço que lhe aprouver.

Não é fantasia. Oito anos antes, em 2000, Cochabamba, na Bolívia, vivera uma verdadeira guerra da água contra a privatização do abastecimento entregue a um consórcio estrangeiro — e a população venceu. O argumento, escrito às três pancadas, tropeçou numa verdade histórica e não soube o que fazer com ela. Mas a verdade está lá. O vilão de Quantum of Solace não é um louco de gato ao colo; é um homem de negócios, sorridente e ecológico, que transforma um bem comum em mercadoria. E os serviços secretos ocidentais, ingleses e americanos, sabem do que se passa e preferem não interferir, porque os negócios falam mais alto. Bond, o patriota, descobre que o seu próprio lado faz negócios com o inimigo.

Greene é o vilão perfeito precisamente porque não parece vilão. Não ameaça ninguém com raios laser. Fala de sustentabilidade, financia causas verdes, veste-se como um professor universitário. O mal que encarna é sem espetáculo: o do capital que se apropria do que é de todos e lhe dá um rosto simpático. Amalric percebeu-o melhor do que o argumento — interpretou-o sem ameaça física, como um pequeno burocrata do lucro, e é por isso que é a única coisa que se lembra do filme.

O filme estreou no outono de 2008, semanas depois da falência do Lehman Brothers, quando o sistema financeiro mundial desabava. Ninguém reparou, mas aquele Bond descrevia um mundo onde os governos democráticos submetiam-se aos interesses privados e onde a ética desaparecia diante do negócio.

Dezoito anos depois, a lição tornou-se mais nítida. Vivemos rodeados de Greenes. Algumas das empresas que mais destroem são as que mais falam de planeta; o ecologismo de fachada tornou-se linguagem corrente de qualquer conselho de administração; e a água, com o clima a mudar, deixou de ser assunto de filme de espiões para entrar nos mercados de futuros. O vilão de 2008 era profeta.

No fim, Bond abandona Greene no deserto com uma lata de óleo de motor e deixa-o à sua sorte. A cena tem uma justiça poética que o filme não merecia: o homem que queria vender a água fica a morrer de sede, com petróleo como única bebida. É a melhor ideia de todo o argumento, e talvez tenha sido escrita por acaso, numa daquelas noites em que Craig e Forster improvisavam o dia seguinte.

Quantum of Solace continua a ser um mau filme, e nada nesta revisão faz mudar de opinião. Esquecê-lo foi justo. Mas há filmes que valem menos do que aquilo que dizem, e este é um deles.

Sem comentários: