quinta-feira, outubro 15, 2026

O homem da multidão

 


Há contos que permanecem connosco não porque os compreendemos, mas precisamente porque resistem a ser compreendidos. Entre eles encontra-se O Homem da Multidão, de Edgar Allan Poe.

A história parece simples. Sentado à janela de um café londrino, um homem observa o movimento incessante da cidade. Entre as centenas de rostos que passam diante dele, um chama-lhe a atenção. É um velho de aparência indefinível, simultaneamente vulgar e inquietante.

Movido por uma curiosidade irresistível, o narrador abandona o seu lugar e começa a segui-lo. A perseguição prolonga-se durante horas. O estranho percorre ruas elegantes e bairros degradados, atravessa mercados, tabernas e artérias apinhadas de gente. Caminha sem destino aparente. Nunca entra verdadeiramente em lado nenhum. Nunca encontra ninguém. Nunca faz nada que revele quem é.

Quando a madrugada se aproxima, o observador desiste.

A conclusão é desconcertante. Depois de todo aquele esforço, nada descobriu.

Ou talvez tenha descoberto mais do que julgava.

À primeira leitura, o conto parece um fracasso. O narrador segue um homem durante uma noite inteira e termina exatamente onde começou. Não conhece o seu nome, a profissão, as intenções ou a história. O mistério permanece intacto.

Mas a literatura raramente desperdiça uma noite inteira para chegar ao nada.

O século XIX foi o grande século das cidades. Londres tornara-se uma concentração humana sem precedentes. Milhões de pessoas viviam lado a lado sem se conhecerem. Pela primeira vez na história, tornou-se possível passar toda uma vida rodeado de estranhos.

Poe percebeu algo que ainda hoje nos acompanha. A multidão aproxima os corpos mas afasta as biografias.

Num pequeno lugar, cada pessoa é uma história conhecida. Numa metrópole, cada pessoa é uma incógnita. Cruzamo-nos com milhares de indivíduos sem saber quem são, o que amam, receiam ou perderam. A cidade moderna multiplica os encontros e reduz o conhecimento.

O velho seguido pelo narrador talvez não represente um indivíduo em particular, mas uma condição.

Ao longo da perseguição, torna-se evidente que o homem não suporta a solidão. Sempre que uma rua se esvazia, procura outra mais movimentada. Quando uma multidão dispersa, dirige-se para outra. Como se necessitasse do contacto constante com os outros sem estabelecer uma relação com ninguém.

É um paradoxo profundamente moderno.

Vivemos rodeados de pessoas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados. Procuramos companhia mas evitamos intimidade. Queremos pertencer à multidão sem nos expormos verdadeiramente ao olhar dos outros.

Talvez por isso o conto continua atual numa época dominada pelas redes sociais. Nunca foi tão fácil observar os outros e difícil conhecê-los.

O narrador de Poe acredita que observar é compreender. Quanto mais segue o desconhecido, mais espera descobrir a sua verdade. O resultado é o inverso. Quanto mais o acompanha, mais insondável ele se torna.

Num tempo em que quase tudo parece classificável, mensurável e explicável, a existência de algo que resiste à interpretação causa desconforto. Queremos causas, motivações, diagnósticos e explicações. Poe oferece-nos apenas uma sombra que atravessa as ruas de Londres e desaparece entre os transeuntes.

Afinal, talvez a questão não seja quem era aquele homem, mas até que ponto conhecemos realmente os rostos que encontramos todos os dias e permanecemos nós próprios, para os outros, apenas mais uma figura perdida na multidão?

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