Há contos
que permanecem connosco não porque os compreendemos, mas precisamente porque
resistem a ser compreendidos. Entre eles encontra-se O Homem da Multidão,
de Edgar Allan Poe.
A
história parece simples. Sentado à janela de um café londrino, um homem observa
o movimento incessante da cidade. Entre as centenas de rostos que passam diante
dele, um chama-lhe a atenção. É um velho de aparência indefinível,
simultaneamente vulgar e inquietante.
Movido
por uma curiosidade irresistível, o narrador abandona o seu lugar e começa a
segui-lo. A perseguição prolonga-se durante horas. O estranho percorre ruas
elegantes e bairros degradados, atravessa mercados, tabernas e artérias
apinhadas de gente. Caminha sem destino aparente. Nunca entra verdadeiramente
em lado nenhum. Nunca encontra ninguém. Nunca faz nada que revele quem é.
Quando a
madrugada se aproxima, o observador desiste.
A
conclusão é desconcertante. Depois de todo aquele esforço, nada descobriu.
Ou talvez
tenha descoberto mais do que julgava.
À
primeira leitura, o conto parece um fracasso. O narrador segue um homem durante
uma noite inteira e termina exatamente onde começou. Não conhece o seu nome, a
profissão, as intenções ou a história. O mistério permanece intacto.
Mas a
literatura raramente desperdiça uma noite inteira para chegar ao nada.
O século
XIX foi o grande século das cidades. Londres tornara-se uma concentração humana
sem precedentes. Milhões de pessoas viviam lado a lado sem se conhecerem. Pela
primeira vez na história, tornou-se possível passar toda uma vida rodeado de
estranhos.
Poe
percebeu algo que ainda hoje nos acompanha. A multidão aproxima os corpos mas
afasta as biografias.
Num
pequeno lugar, cada pessoa é uma história conhecida. Numa metrópole, cada
pessoa é uma incógnita. Cruzamo-nos com milhares de indivíduos sem saber quem
são, o que amam, receiam ou perderam. A cidade moderna multiplica os encontros
e reduz o conhecimento.
O velho
seguido pelo narrador talvez não represente um indivíduo em particular, mas uma
condição.
Ao longo
da perseguição, torna-se evidente que o homem não suporta a solidão. Sempre que
uma rua se esvazia, procura outra mais movimentada. Quando uma multidão
dispersa, dirige-se para outra. Como se necessitasse do contacto constante com
os outros sem estabelecer uma relação com ninguém.
É um
paradoxo profundamente moderno.
Vivemos
rodeados de pessoas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados. Procuramos
companhia mas evitamos intimidade. Queremos pertencer à multidão sem nos
expormos verdadeiramente ao olhar dos outros.
Talvez por
isso o conto continua atual numa época dominada pelas redes sociais. Nunca foi
tão fácil observar os outros e difícil conhecê-los.
O
narrador de Poe acredita que observar é compreender. Quanto mais segue o
desconhecido, mais espera descobrir a sua verdade. O resultado é o inverso.
Quanto mais o acompanha, mais insondável ele se torna.
Num tempo
em que quase tudo parece classificável, mensurável e explicável, a existência
de algo que resiste à interpretação causa desconforto. Queremos causas,
motivações, diagnósticos e explicações. Poe oferece-nos apenas uma sombra que
atravessa as ruas de Londres e desaparece entre os transeuntes.
Afinal,
talvez a questão não seja quem era aquele homem, mas até que ponto conhecemos
realmente os rostos que encontramos todos os dias e permanecemos nós próprios,
para os outros, apenas mais uma figura perdida na multidão?

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