terça-feira, outubro 27, 2026

O hospital de Ambleteuse

 


O meu avô João Trindade estava perto de La Lys quando, a 9 de abril de 1918, a ofensiva alemã desfez as linhas portuguesas. Sempre que um filme recorre a imagens da época, dou por mim a procurá-lo nos rostos de soldados enlameados, de capacete achatado, a olhar para uma câmara de manivela. Nunca o encontro. Mas a busca repete-se, e Damas não foi exceção.

O filme de Cláudia Alves nasceu de um acaso. Em 2018, a realizadora consultava os arquivos da Cruz Vermelha Portuguesa para outro trabalho e deu, no sótão da sede, às Janelas Verdes, com uma pasta por catalogar: cartas, telegramas, plantas de um edifício, fotografias, folhas de serviço e regulamentos das damas enfermeiras do Hospital de Ambleteuse, no noroeste de França. Quase cem mulheres da alta sociedade lisboeta tinham partido para a guerra, com uma missão ambiciosa: erguer de raiz um hospital para o Corpo Expedicionário Português.

A própria realizadora aparece no início, a folhear o álbum, e lança a pergunta a orientar tudo o resto: porque é que na história das guerras só encontramos homens?

O espólio guardava documentos administrativos, nenhum diário, nenhum relato íntimo. Para preencher esse silêncio, Cláudia Alves inventou Maria Inês, personagem de ficção a condensar as biografias de várias destas jovens. A ficção não trai o arquivo: ocupa o lugar deixado vazio por ele.

As imagens de época mostram fardas, desfiles, a guerra como assunto de Estado. As cenas encenadas mostram o que ninguém filmou: a espera, a fadiga, as mãos a lavar ligaduras. A guerra dos homens deixou película; a das mulheres, quando muito, deixou regulamentos.

A ironia maior está na data. Depois de meses de contratempos, e perante a resistência crescente da República, as damas conseguiram abrir as portas do hospital precisamente a 9 de abril de 1918 — o dia em que começou a Batalha de La Lys. O hospital inaugurou-se no dia do massacre. Nenhum argumentista ousaria tanto. A história não precisa de verosimilhança.

Há também uma leitura de classe a fazer: estas enfermeiras eram senhoras de boas famílias; os soldados recebidos no hospital eram, na maioria, camponeses arrancados às aldeias para morrer numa guerra decidida em Lisboa por razões alheias a eles. O filme não esconde a origem social das damas, nem a romantiza. A dedicação delas foi real. Mas foi a dedicação de quem podia escolher ir, a cuidar de quem não o pudera fazer.

Resta a personagem de Maria Inês. Sem nada sublinhar, o filme deixa perceber a atração por uma colega, um sentimento para lá da amizade. Em 1918, aquele afeto não tinha nome permitido, e mostrá-lo de forma explícita seria impor ao passado a linguagem do presente. O silêncio da personagem é fiel ao silêncio da época.

As mulheres na guerra e os amores sem nome partilham a mesma condição — ambos ficaram fora da pasta. O filme ficciona onde a história se calou, e a escolha é coerente com a pergunta do início.

É essa pergunta a ligar o filme ao presente. Hoje as guerras filmam-se de dentro, por milhares de telemóveis, e nunca houve tanto registo. Contudo, o trabalho de cuidar continua quase invisível: quem trata dos feridos, limpa, espera, raramente entra na narrativa dos conflitos. A memória das guerras continua a ser contada por quem combate, e esquece quem repara os estragos. Cem anos depois, a pasta do sótão das Janelas Verdes tem sucessoras por todo o lado.

Volto ao meu avô. Talvez tenha passado por Ambleteuse, talvez não. Quiçá uma daquelas mulheres lhe tenha mudado um penso, ou dado de beber. Não o saberei nunca. Damas não me devolveu o rosto dele, mas deu outra coisa: a certeza de que, do lado de lá da lama, havia quem cuidasse dos rapazes como ele.

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