Ao
regressar aos contos de Edgar Allan Poe, surpreende-me menos a invenção dos
crimes do que a do investigador. Em Os Crimes da Rua Morgue, publicado
em 1841, o verdadeiro acontecimento literário não é o assassinato. É o
aparecimento de C. Auguste Dupin.
Hoje,
depois de dois séculos de romances policiais, séries televisivas e filmes,
Dupin parece-nos familiar. Tão familiar que corremos o risco de não perceber a
novidade que representou. Mas antes dele não existia Sherlock Holmes, nem
Hercule Poirot, nem o Padre Brown, nem Maigret, nem os inúmeros detetives que
povoariam a literatura dos séculos seguintes.
Todos
eles descendem daquele parisiense excêntrico que vive enclausurado numa casa
escura, lendo, refletindo e passeando pelas ruas durante a noite.
A própria
relação entre Dupin e o narrador já parece conhecida. Dois homens partilham a habitação
e as leituras. Conversam durante horas. Isolam-se do mundo. O narrador observa
o amigo com uma mistura de admiração, fascínio e espanto. A semelhança com a
futura relação entre Holmes e Watson é evidente.
Por vezes
tem-se procurado descobrir uma componente homoerótica nesta convivência. A
questão não é ilegítima. O texto apresenta uma intimidade masculina intensa e
praticamente não concede espaço a relações amorosas ou familiares. Vista a
partir do século XXI, essa proximidade pode suscitar interrogações.
Contudo,
talvez a questão mais interessante seja outra. O que Poe parece descrever é
menos uma paixão do que uma forma de encantamento intelectual. O narrador não
se apaixona por Dupin. Apaixona-se pela sua inteligência. O que o atrai não é
tanto o homem como a sua capacidade de compreender aquilo que permanece
invisível aos outros.
Dupin não
é apenas um amigo. É um espetáculo.
E aqui
reside a verdadeira modernidade do conto.
Tendemos
a pensar que Os Crimes da Rua Morgue inauguram a literatura policial. É
verdade. Mas inauguram também uma figura muito mais vasta: o especialista
moderno.
Até
então, os mistérios pertenciam sobretudo ao domínio da religião, da superstição
ou do destino. Poe introduz uma ideia nova. Perante qualquer acontecimento, por
mais absurdo ou aterrador que pareça, existe alguém capaz de o explicar.
O crime
da Rua Morgue surge inicialmente como um caso impossível. Um quarto fechado.
Testemunhos contraditórios. Uma violência extrema. Nenhum suspeito credível.
A polícia
investiga. Interroga. Procura pistas. Falha.
Dupin faz
algo diferente. Observa.
A
distinção é importante. A polícia recolhe factos. Dupin procura relações entre
os factos. Não é mais informado. É mais atento.
Desde
então, a literatura policial passou a repetir uma promessa profundamente
moderna: o mundo parece caótico, mas a desordem é apenas uma aparência
produzida pela nossa ignorância.
Sherlock
Holmes e Poirot retomarão essa promessa a exemplo de outros milhares de
investigadores fictícios.
O
detetive torna-se uma espécie de clérigo secular. Enquanto os sacerdotes
interpretavam sinais divinos, ele interpreta sinais humanos. Onde outros veem
confusão, ele vê uma estrutura. Onde outros encontram mistério, ele descobre o método.
Talvez
seja esta a verdadeira razão da longevidade do género policial.
Não lemos
apenas para descobrir quem cometeu o crime, mas para assistir à restauração de
uma ordem.
Num mundo
frequentemente confuso e imprevisível, existe um prazer especial em acreditar
que tudo pode ser compreendido se alguém olhar com suficiente inteligência. O
detetive oferece-nos uma consolação racional. Diz-nos que os acontecimentos têm
causas, os efeitos têm explicações e a verdade continua acessível ao espírito
humano.
A
história do século XX viria, aliás, a mostrar até que ponto essa confiança era
simultaneamente necessária e ilusória. As guerras, os totalitarismos e as
catástrofes revelaram que existem acontecimentos que desafiam qualquer esquema
simples de compreensão. A realidade mostrou-se mais resistente do que Dupin
imaginara.
Apesar
disso, continuamos a regressar aos detetives.
Talvez
porque eles representem uma esperança antiga. Não a esperança de que o mundo
seja justo, mas que possa ser inteligível.
É por
isso que, ao revisitar Os Crimes da Rua Morgue, o mais interessante não
é o criminoso nem sequer a solução do enigma, mas a figura sentada numa sala
mal iluminada, convencida de que nenhum mistério é definitivo.
Desde
então, milhares de investigadores literários percorreram ruas, bibliotecas,
mansões, comboios e becos sombrios. Todos diferentes. Todos reconhecíveis.
No fundo,
continuam a ser aquele primeiro homem imaginado por Poe: alguém que se recusa a
aceitar que a aparência das coisas seja a sua verdade final.
E talvez
seja essa recusa, mais do que qualquer crime, que continua a dar vida ao
género. Porque os enigmas mudam com as épocas. A necessidade humana de os
decifrar permanece.

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