terça-feira, outubro 06, 2026

A última ceifa

 


Uma autoestrada passou por cima da ilha onde a família de Athina Rachel Tsangari semeou e colheu durante gerações. Ela própria o conta, quando lhe perguntam como é que uma realizadora grega foi parar a uma aldeia escocesa de tempo incerto, num romance inglês sobre camponeses expulsos da terra. A resposta desfaz a pergunta: a história não lhe era estranha, era a sua. O asfalto sobre os campos dos avós e as cercas nos campos de Crace são a mesma ameaça, com séculos de intervalo.

Colheita adapta o romance que Jim Crace publicou em 2013, e é o primeiro filme de Tsangari em inglês, longe da Atenas de Attenberg e de Chevalier. Numa pequena comunidade agrícola, algures nas ilhas britânicas, a vida segue o ciclo das estações, das ceifas e dos rituais noturnos que lhes pertencem — até que chegam de fora os que querem a terra para si.

Walter Thirsk, camponês de poucas palavras a quem Caleb Landry Jones dá um corpo inquieto, assiste ao fim de um mundo. Nem o romance nem o filme dizem onde nem quando: talvez o século XVII, talvez mais tarde. A imprecisão é deliberada, e é a chave. A privatização dos baldios durou trezentos anos, e quem os viveu não sabia que estava a viver a História — apenas que a terra deixava de ser sua.

Vi o filme com a sensação de estar diante de um quadro de Bruegel posto em movimento. Não por acaso. Os Ceifeiros, de 1565, mostra exatamente isto: o trigo dourado, os homens a cortar, outros a comer e a dormir à sombra de uma árvore, a paisagem a perder-se até ao horizonte. É uma imagem de harmonia entre o trabalho humano e a terra, e foi lida durante séculos como retrato do eterno — o ciclo dos meses, sempre igual a si mesmo.

A fotografia de Colheita recupera essa luz, essas cores de terra e palha, esses corpos dobrados sobre o campo. Mas fá-lo para dizer o contrário do que se lia em Bruegel. O eterno não o era. Aquele mundo tinha data de validade, e o filme mostra-o na véspera de expirar. A beleza da imagem não consola: é o retrato de algo já condenado, e quanto mais bela, mais dói.

É aqui que a forma se faz argumento. O filme tem a reconstituição cuidada de um filme de época, mas recusa ser a sua moldura. Tsangari diz ter ido buscar inspiração aos anti westerns dos anos setenta, ao cinema checo, a Kurosawa, a Altman — a uma linguagem crua, caótica, sem redenção.

A escolha faz sentido. O western é o género da terra tomada: a fronteira, as cercas, os que chegam com papéis e armas para dizer que aquilo agora lhes pertence. A Escócia de Crace é uma fronteira como o Oeste americano foi, e a tragédia é a mesma vista do lado dos que perdem. O anti western acrescenta o essencial: não há herói que salve a aldeia, não há xerife do lado certo. Há apenas o fim, e a maneira como cada um o atravessa.

Os rituais noturnos, com o seu quê de lascivo, merecem uma palavra. Há pouco tempo escrevi aqui sobre um filme em que a fé de um surfista o levava a um convento e ao chicote, e confessei a minha indiferença perante essa religião do além. Os ritos de Colheita são de outra natureza. São pagãos, terrenos, do corpo e da colheita — não pedem nada a nenhum céu, celebram o que a terra deu. Um ateu entende-os sem dificuldade, porque não são transcendência, são comunidade. E é isso que o filme mostra a desaparecer com as cercas: não uma fé, mas um laço. Quando a terra deixa de ser comum, o ritual perde a razão de ser. A festa da colheita não sobrevive à propriedade privada.

Um marxista não precisa de forçar a leitura. Marx dedicou ao tema o capítulo de O Capital sobre a chamada acumulação primitiva, e mostrou que o capitalismo não nasceu de uma poupança virtuosa, mas do roubo da terra comum e expulsão de quem nela vivia. Thomas More já o tinha visto um século antes, quando escreveu que na Inglaterra as ovelhas devoravam os homens. É esse o momento que o filme encena: o instante em que os camponeses deixam de o ser para se tornarem força de trabalho sem património que possuíssem. A colheita do título é a última que pertenceu a quem a fez.

Os muros nos baldios prejudica os que foram separados da terra. A Grécia de Tsangari conhece-o bem — e permito-me prolongar a leitura por minha conta, porque não é ela quem o diz: a Grécia da última década, posta sob a tutela dos credores, viu muito do que era comum ser vendido. Nós também conhecemos o padrão. Os novos muros já não se fazem com sebes e valas mas com fundos imobiliários, alojamento turístico, rendas que expulsam os moradores dos bairros onde nasceram. Lisboa, Atenas, uma aldeia escocesa sem data: a mesma lógica, que transforma o lugar onde se vive num ativo que se explora.

É isso que dá ao filme a atualidade, e Tsangari não o esconde: diz que as referências ao presente são deliberadas. Mas o filme tem a inteligência de não fazer da aldeia um paraíso perdido. A comunidade é fechada, patriarcal, desconfiada do estrangeiro, capaz de crueldade. O que se perde não é o Éden; é apenas uma forma de vida que, com todos os seus defeitos, pertencia a quem a vivia. É uma lição que a esquerda nem sempre aprendeu: defender o comum não obriga a idealizá-lo.

O quadro de Bruegel continua pendurado no Metropolitan, em Nova Iorque, e continua a parecer eterno a quem o vê. Colheita devolve-lhe a História. Depois de ver o filme, já não consigo olhar para aqueles ceifeiros a dormir sob a árvore sem pensar no que vem a seguir.

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