sábado, fevereiro 26, 2022

O que a vida modifica na obra de um pintor

 


Entre os dois quadros aqui replicados de Goya sobre a peregrinação à fonte de Santo Isidro medeiam mais de trinta anos. Ambos os quadros podem ver-se no Museu do Prado, o primeiro datado de 1788, o segundo de entre 1819 e 1823. Ao olhá-los fica a questão: o que explica que o mesmo local e motivo resultem em obras tão diferentes, o primeiro luminoso e colorido, o segundo sombrio e quase só utilizando os matizes entre o preto e o branco.

A razão está no quanto o pintor viveu entretanto, apesar da confortável condição de pintor do rei. Houve a doença, que o afetou em Sevilha, ainda hoje indefinida, mas que o cegou durante algum tempo e o deixou surdo para o resto da vida. Ou a invasão napoleónica, que deixou um rasto de miséria e destruição por toda a Espanha. Mas, para além desse sofrimento íntimo é igualmente verdade que, apesar de conviver com quem mais importante se situava na corte, Goya nunca deixou de privar com os ambientes populares, frequentando os espetáculos taurinos, as festas populares ou as representações teatrais. Por isso foi criando uma obra paralela àquela que lhe era paga pelo rei e cheia de monstros através dos quais satirizava muito de quanto lhe desagradava no seu dia-a-dia. Quando o novo rei, Fernando VII, impôs o absolutismo como modelo de poder, Goya não quis - nem tão pouco poderia enquanto seu assalariado! - romper com ele, mas encontrou forma de ir ao encontro dos amigos, que se haviam mudado para o outro lado da fronteira. E foi com eles que a morte o encontrou em Bordéus em 1828. 

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