terça-feira, fevereiro 08, 2022

Gente nostalgicamente só

 

Edward Hopper já era renomado ilustrador, quando instalou-se em Nova Iorque em 1913, escolhendo o bairro de Greenwich Village para viver. E aí permaneceria até à morte, em 1967, ali criando quase toda a celebrada obra de pintor.

Muitos dos edifícios, que lhe serviram de inspiração para testemunharem a solidão dos que sentiam os tempos acelerarem, empurrando-os para as margens do ilusório american dream, já desapareceram. Quem os queira procurar vê-los-á substituídos pelos gigantescos arranha-céus, que obscureceram as ruas e acentuaram a sensação de esmagamento em quem se movimenta nos passeios das ruas limítrofes.

Não era só nas imediações do apartamento com vista para o Washington Square Park, que Hopper encontrava inspiração para os seus quadros. Tomando a direção do Chelsea Hotel seguia até à estação ferroviária mais próxima para entrar nos comboios, que o levavam às cidades satélite da grande megalópole. Para além de sinais da realidade urbana em transformação havia sempre o interesse do regresso à noite, quando as composições passavam por prédios de janelas iluminadas onde via quem neles vivia a contas com as privativas solidões.

A North Line levava-o também aos cinemas, que frequentava várias vezes por semana, interessando-se não só pelo que se passava no ecrã, mas também nos que o imitavam na estratégia de dar cura à incurável nostalgia. Ou aos muitos diner’s onde apreciava comer, porque aquele tipo de restaurantes baratos, abertos vinte e quatro horas por dia, davam-lhe a ver muitos dos que gostava de tomar como personagens nas suas histórias visuais. Nighthawks, que pintou em 1942 ficaria como a representação icónica dessa ambiência em que, mesmo acompanhado, cada um parecia cingido à própria incomunicabilidade.

 

Sem comentários: