domingo, março 29, 2026

Entre a lucidez e a vulnerabilidade

 

1. Vivemos num tempo de disseminação de equívocos ideológicos, cuidadosamente alimentados por uma estratégia que opõe, de forma simplista, as chamadas democracias “liberais” às autocracias que se apresentam como suas antíteses.

O paradoxo é evidente: muitos dos defensores mais fervorosos da primeira não hesitam em apoiar — ainda que envergonhadamente — regimes que, noutros contextos, classificariam como totalitários. Ao mesmo tempo, as democracias “liberais” vão‑se tornando crescentemente “iliberais”, seja pela erosão institucional, seja pela retórica polarizadora que se instala no espaço público.

Perante esta névoa ideológica, convém não perder de vista o essencial: continuam a existir exploradores e explorados, quem detém os meios de produção e quem neles se encontra proletarizado em empregos cada vez mais precários. E, se isto não configura uma forma contemporânea de luta de classes, dificilmente se encontrará melhor interpretação para o que está a acontecer. Por muita poeira que nos queiram atirar aos olhos, a estrutura material das sociedades permanece.

2. Depois desta densidade política, há momentos luminosos que suspendem o mundo. O Concerto para Piano n.º 4 de Beethoven é um deles. Já o ouvi em múltiplas interpretações, assinadas por alguns dos maiores nomes do instrumento, mas nenhuma supera a que Maurizio Pollini ofereceu no Festival de Lucerna, com Claudio Abbado a dirigir a orquestra numa cumplicidade rara.

Sempre que regresso a esse momento — e a Mezzo, felizmente, insiste em repeti‑lo — tudo o que estiver a fazer se suspende. A excelência da obra e de quem a interpreta impõe uma reverência íntima: não se trata apenas de ouvir, mas de se deixar atravessar. Há interpretações que se tornam definitivas porque revelam algo que estava escondido na partitura — uma respiração, uma clareza, uma humanidade que só certos músicos conseguem convocar.

3. Entre os filósofos da época clássica, Pascal é dos que menos me interessa, por muito que não falte quem celebre a profundidade dos seus Pensamentos. Admiro‑o enquanto matemático e inventor, mas nada disso me aproxima da sua visão do ser humano. Não concordo com a tese de que a grandeza do homem reside em reconhecer‑se miserável, nem com a deriva especulativa que o levou a afundar‑se numa meditação labiríntica entre o quase nada do homem e a grandeza do infinito, culminando numa religiosidade que me parece impensável. A carta encontrada no compartimento do seu gibão, dirigida a Deus, sintetiza o que me afasta de Pascal: a rendição total a uma transcendência que anula o humano em vez de o iluminar. Prefiro os que, diante do abismo, não procuram um amparo sobrenatural, mas a coragem de pensar com os pés na terra.

4. Sem grandes expectativas, vi um documentário sobre a relação de Romy Schneider com a mãe — essa Magda que fora nome importante do cinema nazi, cultivara a proximidade com o poder e, mais tarde, se aproveitaria da fama da filha para permanecer na ribalta.

A sombra materna acompanha toda a vida de Romy como uma ferida que nunca cicatriza. Inconstante nos amores, marcada por tragédias insanáveis — sobretudo a morte do filho — Romy parece ter vivido num permanente desnorte, tentando libertar‑se das garras dessa mãe que a moldara e aprisionara.

Interpretou papéis em filmes antinazis, como se procurasse exorcizar a herança tóxica que lhe cabia, mas nunca conseguiu evitar regressar a Magda sempre que a vida a desfeiteava.

A morte parece ter sido, mais do que tudo, uma exaustão psicológica — o esgotamento de quem lutou demasiado tempo contra forças internas e externas que a ultrapassavam. E permanece a sensação de que aquele que provavelmente nunca deixou de amar, Alain Delon, também não encontrou grandes alegrias amorosas sem ela.

5. Volto a Abril, de Nanni Moretti, porque reconheço a pertinência do que o filme aborda. Num momento em que a Itália se inclinava para a extrema‑direita, a verdadeira derrota não estava apenas no avanço do populismo, mas na letargia de uma esquerda incapaz de responder com argumentos, de formular uma alternativa substantiva, de contrariar um discurso que explorava a fragilidade intelectual de grande parte do eleitorado.

Mais de trinta anos depois, o filme continua a estimular a reflexão e confirma aquilo que sempre defendi: para ser levada a sério, a esquerda não tem apenas de parecer esquerda — tem de sê‑lo. Com convicção, com clareza, com determinação. Sem medo de formular diagnósticos incómodos, sem receio de assumir posições que não cabem na espuma mediática.

Abril permanece atual porque expõe uma fragilidade que ainda não foi superada: a incapacidade de transformar indignação em projeto, crítica em proposta, memória em futuro.

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