1. Vivemos
num tempo de disseminação de equívocos ideológicos, cuidadosamente alimentados
por uma estratégia que opõe, de forma simplista, as chamadas democracias
“liberais” às autocracias que se apresentam como suas antíteses.
O
paradoxo é evidente: muitos dos defensores mais fervorosos da primeira não
hesitam em apoiar — ainda que envergonhadamente — regimes que, noutros
contextos, classificariam como totalitários. Ao mesmo tempo, as democracias
“liberais” vão‑se tornando crescentemente “iliberais”, seja pela erosão
institucional, seja pela retórica polarizadora que se instala no espaço
público.
Perante
esta névoa ideológica, convém não perder de vista o essencial: continuam a
existir exploradores e explorados, quem detém os meios de produção e quem neles
se encontra proletarizado em empregos cada vez mais precários. E, se isto não
configura uma forma contemporânea de luta de classes, dificilmente se
encontrará melhor interpretação para o que está a acontecer. Por muita poeira
que nos queiram atirar aos olhos, a estrutura material das sociedades
permanece.
2. Depois
desta densidade política, há momentos luminosos que suspendem o mundo. O
Concerto para Piano n.º 4 de Beethoven é um deles. Já o ouvi em múltiplas
interpretações, assinadas por alguns dos maiores nomes do instrumento, mas
nenhuma supera a que Maurizio Pollini ofereceu no Festival de Lucerna, com
Claudio Abbado a dirigir a orquestra numa cumplicidade rara.
Sempre
que regresso a esse momento — e a Mezzo, felizmente, insiste em repeti‑lo —
tudo o que estiver a fazer se suspende. A excelência da obra e de quem a
interpreta impõe uma reverência íntima: não se trata apenas de ouvir, mas de se
deixar atravessar. Há interpretações que se tornam definitivas porque revelam
algo que estava escondido na partitura — uma respiração, uma clareza, uma
humanidade que só certos músicos conseguem convocar.
3. Entre
os filósofos da época clássica, Pascal é dos que menos me interessa, por muito
que não falte quem celebre a profundidade dos seus Pensamentos. Admiro‑o
enquanto matemático e inventor, mas nada disso me aproxima da sua visão do ser
humano. Não concordo com a tese de que a grandeza do homem reside em reconhecer‑se
miserável, nem com a deriva especulativa que o levou a afundar‑se numa
meditação labiríntica entre o quase nada do homem e a grandeza do infinito,
culminando numa religiosidade que me parece impensável. A carta encontrada no
compartimento do seu gibão, dirigida a Deus, sintetiza o que me afasta de
Pascal: a rendição total a uma transcendência que anula o humano em vez de o
iluminar. Prefiro os que, diante do abismo, não procuram um amparo
sobrenatural, mas a coragem de pensar com os pés na terra.
4. Sem
grandes expectativas, vi um documentário sobre a relação de Romy Schneider com
a mãe — essa Magda que fora nome importante do cinema nazi, cultivara a
proximidade com o poder e, mais tarde, se aproveitaria da fama da filha para
permanecer na ribalta.
A sombra
materna acompanha toda a vida de Romy como uma ferida que nunca cicatriza.
Inconstante nos amores, marcada por tragédias insanáveis — sobretudo a morte do
filho — Romy parece ter vivido num permanente desnorte, tentando libertar‑se
das garras dessa mãe que a moldara e aprisionara.
Interpretou
papéis em filmes antinazis, como se procurasse exorcizar a herança tóxica que
lhe cabia, mas nunca conseguiu evitar regressar a Magda sempre que a vida a
desfeiteava.
A morte
parece ter sido, mais do que tudo, uma exaustão psicológica — o esgotamento de
quem lutou demasiado tempo contra forças internas e externas que a
ultrapassavam. E permanece a sensação de que aquele que provavelmente nunca
deixou de amar, Alain Delon, também não encontrou grandes alegrias amorosas sem
ela.
5. Volto
a Abril, de Nanni Moretti, porque reconheço a pertinência do que o filme
aborda. Num momento em que a Itália se inclinava para a extrema‑direita, a
verdadeira derrota não estava apenas no avanço do populismo, mas na letargia de
uma esquerda incapaz de responder com argumentos, de formular uma alternativa
substantiva, de contrariar um discurso que explorava a fragilidade intelectual
de grande parte do eleitorado.
Mais de
trinta anos depois, o filme continua a estimular a reflexão e confirma aquilo
que sempre defendi: para ser levada a sério, a esquerda não tem apenas de
parecer esquerda — tem de sê‑lo. Com convicção, com clareza, com determinação.
Sem medo de formular diagnósticos incómodos, sem receio de assumir posições que
não cabem na espuma mediática.
Abril permanece atual porque expõe uma
fragilidade que ainda não foi superada: a incapacidade de transformar
indignação em projeto, crítica em proposta, memória em futuro.

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