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quinta-feira, março 26, 2026
A Criança, de Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois (2022): a beleza como argumento
Há filmes que convencem antes
de contar o que seja. Convencem-nos pelo modo como a luz cai sobre um rosto,
pela forma como a câmara demora num corredor sombrio, pela qualidade do
silêncio entre duas personagens. A Criança é um desses filmes. Antes de
perceber exatamente o que ali se passa —complexo, denso, carregado de segredos
—, já me rendera à sua beleza formal. E essa rendição é precisamente o que o
filme solicita.
A dupla Marguerite de Hillerin
e Félix Dutilloy-Liégeois parte do conto Der Findling, de Heinrich von
Kleist, atraída pela sua radicalidade: um texto que não é romântico nem
clássico, cortante e direto, escrito, segundo a própria Hillerin, num estado de
emergência — no ano em que Kleist se suicidou. Dessa urgência, paradoxalmente,
nasce um filme de aparente serenidade, onde tudo se move a passo lento e
inevitável. Os temas que os realizadores encontraram em Kleist — o
desaparecimento, a confusão de identidades, a ambiguidade da herança, a
desordem dos desejos, a relação de cada um com a sua própria imagem — transportam-nos
para o Portugal do século XVI.
Lisboa é então uma cidade
cosmopolita onde o apogeu de um poder que a expansão trouxera se começa a
esboroar, enquanto se instala a rigidez de uma Inquisição cada vez mais
prepotente. Este é o cenário em que Bela — um adolescente adotado por um casal
franco-português de abastados negociantes, interpretado por João Arrais —
procura o seu lugar num mundo que lhe oferece tudo e lhe recusa o essencial:
saber quem é. O filho verdadeiro do mercador nunca regressou de uma viagem a
África. Bela ocupa o lugar desse ausente. Toda a sua existência é, portanto,
uma substituição que carrega em si a sombra do que foi apagado.
Reconheço neste filme uma
linhagem que me é cara. Há nele sombras de Manoel de Oliveira e de Rita Azevedo
Gomes — essa tradição do cinema português que trata o tempo como matéria
espessa, que recusa a urgência narrativa e aposta na duração como forma de
conhecimento. Hillerin e Dutilloy-Liégeois inscrevem-se nessa tradição sem a
imitar: encontram em Kleist uma verdade psicológica que transcende a época, e é
desse encontro que nasce a tensão particular do filme.
A fotografia de Mário Barroso
é magnificamente iluminada e coreografada, imprimindo ao filme um ritmo de
melancolia pendente que avisa o espectador de que os momentos de leveza
romântica serão fugidios. A luz parece exclusivamente natural — durante o dia
entra pelas janelas, à noite os quartos mergulham numa escuridão que as velas
mal perfuram. Cada fotograma tem a densidade de uma pintura quinhentista, e é
nessa qualidade pictórica que o filme encontra a verdade mais funda: a família
está no zénite da riqueza e do poder, mas o declínio está iminente, e assim
reflete a trajetória de Portugal como potência imperial cujo esplendor começava
a desvanecer. A grandeza perdida que se lê nas paredes das casas nobres
portuguesas de hoje está já presente nas locações, como uma premonição
material.
Os realizadores tecem fios de
colonialismo, de Inquisição e mesmo de homoerotismo para criar um contexto sem
nunca os transformar em teses, sem os sublinhar demais. São as sombras do tempo
histórico que atravessam as relações pessoais, como acontece sempre que a
grande história e a história íntima se tocam. Rosa, a serviçal trazida de
Marrocos, não é um detalhe de cor local: é uma figura que carrega no corpo a
violência do mundo que este filme recusa celebrar.
A Criança tem o sentimento de saudade que desmente as origens
francesas. É um filme que parece nascido desta terra, destas pedras, desta luz
particular que Mário Barroso conhecia como poucos. E é, acima de tudo, a prova
de que a beleza não é decoração — é pensamento.
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