1. Olhando
para as manifestações da extrema‑direita nos vários países europeus, percebe‑se
uma inquietante consonância de coreografia, que confirma estarem todas a seguir
uma cartilha superiormente definida por quem instrumentaliza os grupúsculos
encarregues de as organizar e propagar.
2. Quem
era Rainer Maria Rilke e porque conseguiu envolver tantos leitores na
persuasiva magia das suas palavras? Porque foram as Cartas a um Jovem Poeta
tão importantes para a minha geração de adolescentes, inclinados a curvar‑se
sobre si mesmos na busca da “verdadeira vida”, distraindo‑se do que mais lhes
deveria importar: contestar a guerra colonial para onde os queriam enviar para
matar e morrer, e pôr em causa uma ditadura que já dava sinais de incurável
degenerescência?
A
introspeção rilkeana oferecia um refúgio sedutor, mas também um risco: o de
substituir a ação pela contemplação, a urgência política pela autoanálise.
Tantos anos depois, a busca espiritual de Rilke parece‑me fútil, ou pelo menos
insuficiente perante a violência histórica que então nos cercava. Mas o seu
conceito de “vida boa” — uma vida íntegra, coerente, vivida com sentido —
ressoaria mais tarde, talvez voluntária ou involuntariamente, no discurso de
Mariana Mortágua ao concluir o seu ciclo de liderança no Bloco de Esquerda.
3. Ser‑me‑ia
hoje — como sempre me foi — inimaginável essa perspetiva de dialogar com deus
(assumidamente com minúscula), mesmo tratando‑o como igual, como se a
religiosidade pudesse ter para Rilke uma dimensão meramente poética. Muitos
leram As Elegias de Duíno com a mesma disposição com que se deixaram
iludir pelas filosofias orientais de ocasião: com a leveza acrítica de quem
aceita mistificações desde que embaladas em linguagem elevada. Mas essas
construções têm a consistência vazia de quem praticou espiritismo e chegou a
acreditar‑se médium. E, ao contrário da imagem de génio espontâneo que
cultivava de si próprio, os manuscritos das Elegias denunciam o labor
intenso: correções sucessivas, frases riscadas, hesitações que desmentem a
ideia de uma “alma” que ditaria diretamente ao papel.
Ciente de
que não teria resposta das entidades invisíveis a quem se dirigia, Rilke
contentava‑se com as suas perguntas, como se bastassem para conferir algum
sentido à vida. Essa rendição ao enigma, tomada como profundidade, parece‑me
hoje pífia — e, no entanto, continua a haver quem se dobre a essa moda,
confundindo nebulosidade com transcendência.
4. Uma
das preocupações que mais me acompanham nesta caminhada crepuscular para o fim
da vida é encontrar a melhor forma de preservar o imenso arquivo de vivências
acumulado ao longo de quase setenta anos — um arquivo que é meu e da Elza, e
que em boa parte partilhamos desde a infância até este culminar de meio século
de casamento oficializado. Como guardar tudo isto? Como transmitir, sem peso
nem solenidade, aquilo que fomos, aquilo que vimos, aquilo que nos fez?
Défilement, a curta‑metragem de Francisca
Miranda, interessou‑me como metodologia possível. Em pouco mais de uma dúzia de
minutos, a realizadora recorre às fotografias de aniversário da família e, em
voz off, reconstrói a respetiva história. Estão ali os adultos vivos, os que já
partiram e, sobretudo, essa nova geração que recebe o testemunho de uns e de
outros. Não é uma obra‑prima, mas sim um trabalho sensível e competente, que
mostra como a memória pode ser convocada com simplicidade, sem artifícios,
deixando que as imagens falem e que a voz apenas as acompanhe.
5. Uma
reportagem sobre a população idosa nas cadeias portuguesas repete o que há
muito se sabe: as condições são indignas e deveriam envergonhar quem insiste em
descrevê‑las como uma espécie de hotel gratuito, com cama, comida e roupa
lavada. Essa caricatura só poderia ser desmontada se quem a propaga tivesse de
sentir na pele o que é viver num espaço exíguo, degradado, sem privacidade, sem
cuidados adequados e sem dignidade. E há ainda o resto, talvez mais
perturbador: que sentido faz manter enjauladas pessoas incapazes de repetir a
conduta que as levou à condenação e que, em muitos casos, só graças à
solidariedade dos outros reclusos conseguem deslocar‑se, tomar banho, mudar de
roupa, porque já não têm forças nem discernimento para o fazer sozinhas? E que
hipótese de reinserção tem quem é libertado sem emprego, sem subsídio, sem rede
de apoio, obrigado a recorrer a expedientes ilegais para escapar à fome e à
falta de um lugar onde sobreviver?
Sem
espaço de reinserção, nem respeito mínimo pelos que passam os últimos anos de
vida atrás de grades, as prisões portuguesas continuam a espelhar o
subdesenvolvimento estrutural deste país à beira‑mar plantado — um país que
fala de direitos humanos, mas hesita em reconhecê‑los onde são mais
necessários.

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