quarta-feira, março 04, 2026

Contra as Ilusões, a Lucidez

 

1. Olhando para as manifestações da extrema‑direita nos vários países europeus, percebe‑se uma inquietante consonância de coreografia, que confirma estarem todas a seguir uma cartilha superiormente definida por quem instrumentaliza os grupúsculos encarregues de as organizar e propagar.

Nas redes sociais, os vídeos repetem a iconografia: bandeiras idênticas, símbolos replicados nos tambores, nas faixas e nas tatuagens dos participantes — muitos deles de rosto tapado, conscientes do ostracismo que merecem. A uniformização é tão evidente que se torna impossível não reconhecer, nessa estética, a inspiração de Leni Riefenstahl, copiada e adaptada às novas circunstâncias, como se o passado tivesse encontrado novas máscaras para regressar ao espaço público.

2. Quem era Rainer Maria Rilke e porque conseguiu envolver tantos leitores na persuasiva magia das suas palavras? Porque foram as Cartas a um Jovem Poeta tão importantes para a minha geração de adolescentes, inclinados a curvar‑se sobre si mesmos na busca da “verdadeira vida”, distraindo‑se do que mais lhes deveria importar: contestar a guerra colonial para onde os queriam enviar para matar e morrer, e pôr em causa uma ditadura que já dava sinais de incurável degenerescência?

A introspeção rilkeana oferecia um refúgio sedutor, mas também um risco: o de substituir a ação pela contemplação, a urgência política pela autoanálise. Tantos anos depois, a busca espiritual de Rilke parece‑me fútil, ou pelo menos insuficiente perante a violência histórica que então nos cercava. Mas o seu conceito de “vida boa” — uma vida íntegra, coerente, vivida com sentido — ressoaria mais tarde, talvez voluntária ou involuntariamente, no discurso de Mariana Mortágua ao concluir o seu ciclo de liderança no Bloco de Esquerda.

3. Ser‑me‑ia hoje — como sempre me foi — inimaginável essa perspetiva de dialogar com deus (assumidamente com minúscula), mesmo tratando‑o como igual, como se a religiosidade pudesse ter para Rilke uma dimensão meramente poética. Muitos leram As Elegias de Duíno com a mesma disposição com que se deixaram iludir pelas filosofias orientais de ocasião: com a leveza acrítica de quem aceita mistificações desde que embaladas em linguagem elevada. Mas essas construções têm a consistência vazia de quem praticou espiritismo e chegou a acreditar‑se médium. E, ao contrário da imagem de génio espontâneo que cultivava de si próprio, os manuscritos das Elegias denunciam o labor intenso: correções sucessivas, frases riscadas, hesitações que desmentem a ideia de uma “alma” que ditaria diretamente ao papel.

Ciente de que não teria resposta das entidades invisíveis a quem se dirigia, Rilke contentava‑se com as suas perguntas, como se bastassem para conferir algum sentido à vida. Essa rendição ao enigma, tomada como profundidade, parece‑me hoje pífia — e, no entanto, continua a haver quem se dobre a essa moda, confundindo nebulosidade com transcendência.

4. Uma das preocupações que mais me acompanham nesta caminhada crepuscular para o fim da vida é encontrar a melhor forma de preservar o imenso arquivo de vivências acumulado ao longo de quase setenta anos — um arquivo que é meu e da Elza, e que em boa parte partilhamos desde a infância até este culminar de meio século de casamento oficializado. Como guardar tudo isto? Como transmitir, sem peso nem solenidade, aquilo que fomos, aquilo que vimos, aquilo que nos fez?

Défilement, a curta‑metragem de Francisca Miranda, interessou‑me como metodologia possível. Em pouco mais de uma dúzia de minutos, a realizadora recorre às fotografias de aniversário da família e, em voz off, reconstrói a respetiva história. Estão ali os adultos vivos, os que já partiram e, sobretudo, essa nova geração que recebe o testemunho de uns e de outros. Não é uma obra‑prima, mas sim um trabalho sensível e competente, que mostra como a memória pode ser convocada com simplicidade, sem artifícios, deixando que as imagens falem e que a voz apenas as acompanhe.

5. Uma reportagem sobre a população idosa nas cadeias portuguesas repete o que há muito se sabe: as condições são indignas e deveriam envergonhar quem insiste em descrevê‑las como uma espécie de hotel gratuito, com cama, comida e roupa lavada. Essa caricatura só poderia ser desmontada se quem a propaga tivesse de sentir na pele o que é viver num espaço exíguo, degradado, sem privacidade, sem cuidados adequados e sem dignidade. E há ainda o resto, talvez mais perturbador: que sentido faz manter enjauladas pessoas incapazes de repetir a conduta que as levou à condenação e que, em muitos casos, só graças à solidariedade dos outros reclusos conseguem deslocar‑se, tomar banho, mudar de roupa, porque já não têm forças nem discernimento para o fazer sozinhas? E que hipótese de reinserção tem quem é libertado sem emprego, sem subsídio, sem rede de apoio, obrigado a recorrer a expedientes ilegais para escapar à fome e à falta de um lugar onde sobreviver?

Sem espaço de reinserção, nem respeito mínimo pelos que passam os últimos anos de vida atrás de grades, as prisões portuguesas continuam a espelhar o subdesenvolvimento estrutural deste país à beira‑mar plantado — um país que fala de direitos humanos, mas hesita em reconhecê‑los onde são mais necessários. 

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