Confesso uma resistência. Entre Camilo e Eça, a preferência é clara e antiga: Eça, sempre. Os temas, os valores, a ironia cortante sobre a hipocrisia burguesa — tudo isso me parece mais próximo e útil como instrumento de leitura do presente.
Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
quarta-feira, março 18, 2026
Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz (2010): quando o ultrarromantismo nos surpreende
Camilo pertence a outro
universo: o das paixões absolutas, dos destinos fatais, das identidades ocultas
sob o peso de segredos inconfessáveis. Um universo que fascina menos, exige um
esforço de simpatia que nem sempre estou disposto a fazer.
E no entanto.
Mistérios de Lisboa, realizado em 2010 pelo chileno Raúl Ruiz,
parte do romance homónimo de Camilo Castelo Branco de 1854 e constrói uma
narrativa de 272 minutos — com uma versão televisiva ainda mais longa — densa
em coincidências, múltiplos narradores, disfarces e flashbacks dentro de
flashbacks. Cada personagem principal possui pelo menos duas
identidades. Estamos em pleno território ultrarromântico. E, apesar de tudo,
não resisti.
A explicação começa pela
estética. Ruiz filma como se pintasse — com uma câmara que desliza pelos
espaços em planos-sequência de uma elegância perturbadora, e com uma fotografia
que replica, fotograma a fotograma, os quadros da primeira metade do século XIX.
As câmaras percorrem em espiral salões dourados e villas rococó, aristocratas
intrigam em trajes da época da Regência, e tudo isso cria uma espécie de museu
em movimento onde a beleza formal nunca é gratuita — é, ela própria, um
argumento. A iluminação parece deliberadamente natural: durante o dia a luz
entra pelas janelas, à noite os quartos mergulham numa escuridão espessa que as
velas mal perfuram.
Mas o que verdadeiramente me
reteve foi a questão dos arrivistas. É o que Kubrick fez de forma magistral em Barry
Lyndon: pegou numa história do século XVIII e transformou-a numa meditação
sobre a mobilidade social, a fraude identitária, a violência discreta das
hierarquias. Pois bem — Ruiz faz algo semelhante. A trama de Mistérios de
Lisboa é, acima de tudo, uma narrativa sobre a mecânica da identidade e da
imaginação. As personagens mudam de nome, de estatuto, de máscara, conforme as conveniências
e vicissitudes do destino. Por detrás de muitas máscaras esconde-se outro
disfarce, e há sempre um falso fundo onde menos se espera. Isto não é apenas
exuberância romanesca — é uma reflexão sobre como as pessoas constroem e
reconstroem a identidade social, sobre o quanto há de performativo em tudo
aquilo que julgamos ser.
O sentido da história de cada
personagem — o que Ruiz designou como o seu "nascimento, traição e
redenção" — vai sendo constantemente revisto à medida que novas
informações emergem. A narração passa de voz em voz, às vezes dentro da mesma
sequência. O espectador é mantido em estado de alerta, nunca completamente
seguro do que viu, nunca inteiramente certo de quem é quem. É uma vertigem
produtiva.
Críticos referiram a presença
de Visconti e de Kubrick no tom visual do filme, e a comparação não é
descabida. Não direi que Mistérios de Lisboa iguala Barry Lyndon
— seria excessivo. Mas aproxima-se, na medida em que partilham a capacidade de
transformar um período histórico distante num espelho do permanente. A
diferença está talvez no grau de frieza analítica: Kubrick é cirúrgico; Ruiz é labiríntico,
barroco, disposto a perder-se nos corredores da intriga para mostrar que o
labirinto é o fulcro.
Ruiz realizou este filme
enquanto enfrentava um cancro no fígado. A mestria e a complexidade sustentada
da obra tornam-na duplamente extraordinária. E talvez haja nisso uma última
lição: às vezes é preciso estar na proximidade do fim para fazer algo
verdadeiramente perfeito.
Resistência vencida, portanto.
Não pelo Camilo — continuo a preferir Eça. Mas pelo Ruiz, que soube encontrar
em Camilo aquilo que eu nunca lá tinha visto: a modernidade.
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