sexta-feira, março 13, 2026

A coragem como forma de lucidez

 

1. Não é que tenha grandes dúvidas, mas pergunto‑me o que faria se estivesse na pele de Tomas, a personagem de Força Maior, o filme de Ruben Östlund em que um pai abandona a mulher e os filhos ao ver uma avalanche aproximar‑se do hotel alpino onde todos almoçam. A fuga instintiva expõe‑no àquilo que mais teme: não o desastre natural, mas a própria cobardia.

Penso nas vezes em que vi a vida em perigo. Aconteceu sem a família por perto, mas não fugi: fiz o necessário para sair indemne. Não recordo momentos de igual calibre com a Elza, com a nossa filha ou com as netas. Mas acredito que, ao contrário de Tomas, não revelaria a mesma falha moral. Não por heroísmo — nunca me iludi com isso — mas porque há vínculos que suspendem o instinto e obrigam a ficar, mesmo quando tudo em nós pede para correr.

2. Também de Östlund é Involuntário, série de 2008 que expõe certas idiossincrasias da sociedade sueca — e que continuam atuais entre nós. No primeiro episódio, uma professora mostra a uma aluna duas linhas e pergunta qual é mais comprida. A miúda responde corretamente, mas vê os colegas, um após outro, apontarem para a outra linha. O exercício repete‑se, sempre com o mesmo resultado, até que, no exemplo final, ela cede e acompanha a opinião do grupo. Só então a professora revela ter combinado com a turma contradizê‑la.

A moral é evidente: podemos ter convicções firmes, mas o efeito de manada leva muitos a alinhar com a maioria, mesmo sabendo que ela está errada, apenas para não correr o risco de se sentirem excluídos. Falta a muitos essa coragem de ir contra a corrente, mesmo quando a maioria está eivada de preconceito ou de erro.

3. Uma reportagem impressionante de Gaël Turine e Pedro Brito da Fonseca, rodada nas ruas de Port‑au‑Prince, mostra até que ponto uma sociedade pode deslizar para a distopia. Com a polícia a executar sumariamente quem detém ao acaso e os gangues a transformarem vastas zonas da cidade em feudos privados, a população tenta sobreviver num clima de guerra para o qual não contribui e no qual nem sequer conta.

É assustador perceber como é fácil passar de uma cultura de regras para outra em que elas são ostensivamente ignoradas. E, no entanto, não deveria surpreender‑nos: quando o direito internacional é desprezado pelos poderosos, como esperar que as normas básicas de convivência sobrevivam nas ruas onde manda apenas a lei do mais forte? O Haiti torna‑se um laboratório extremo do que acontece quando a legitimidade se evapora e o poder se reduz ao exercício da violência.

4. No início de O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir lembrava que nenhum homem se daria ao trabalho de escrever sobre a sua condição — ao contrário dela, consciente de que só se tornara mulher muito para além do nascimento.

A frase “On ne naît pas femme, on le devient” tornou‑se síntese de uma realidade indesmentível. E, para minha própria vergonha, devo confessar o gáudio do miúdo que fui — algures pelos cinco ou seis anos — quando compreendi as vantagens de ter nascido rapaz. E a má sorte das meninas, que não encaravam o futuro com as mesmas facilidades que eu julgava garantidas. Mesmo ouvindo, amiúde, a previsão de que um dia iria para a guerra, ainda assim me parecia que o destino masculino era mais leve, mais aberto, mais cheio de possibilidades. A infância absorve a desigualdade como se fosse natureza; só mais tarde percebemos que aquilo que tomámos por privilégio natural era construção social.

5. Vejo agora a série de Jacinto Godinho sobre A Televisão dos Militares e fica‑me o gosto amargo de nunca ter sido feita uma série equivalente sobre as atividades da CIA em Portugal — sobretudo naquele período em que as lutas políticas iam muito além das que se desenhavam nas grandes capitais. De um lado, os que não queriam ver o país sair da órbita do capitalismo ocidental; do outro, os que olhavam com desinteresse para as guerras ideológicas entre partidos e grupúsculos que invocavam, cada um à sua maneira, os princípios supostamente respeitados mais a oeste ou mais a leste do continente euroasiático.

No meio da barafunda que se seguiu ao 25 de Abril houve, de um lado, muita gente voluntariosa a acreditar possível a utopia — Vasco Gonçalves, Otelo, Duran Clemente — enquanto, do outro, surgiam os que queriam restaurar a ordem do capital. Ramalho Eanes tornou‑se o seu ícone decisivo, embora o Grupo dos Nove também tenha desempenhado papel essencial. Na série, Mário Soares e Manuel Alegre não ficam bem: vergaram‑se ao conluio com a CIA e impuseram como presidente da RTP um militar, Tomás Rosa, cujas ligações a Fort Langley eram evidentes. A televisão pública foi, naquele momento, um campo de batalha estratégico — e quem controlasse a narrativa controlava, em larga medida, o rumo político do país.

É evidente que as circunstâncias acabariam por redundar na negação célere da promessa de um caminho para o socialismo inscrita na Constituição de 1975. Mas não deixo de sentir uma nostalgia amarga por aquilo que poderia ter sido. Teria sido tão gratificante que, por uma vez, a História tivesse ousado saltar vários degraus e imposto aquilo que continua a ser, no horizonte, a sua mais bela esperança: uma sociedade verdadeiramente emancipada, onde a justiça social não fosse apenas palavra de ordem, mas prática quotidiana.

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