1. Não é que tenha grandes dúvidas, mas pergunto‑me o que faria se estivesse na pele de Tomas, a personagem de Força Maior, o filme de Ruben Östlund em que um pai abandona a mulher e os filhos ao ver uma avalanche aproximar‑se do hotel alpino onde todos almoçam. A fuga instintiva expõe‑no àquilo que mais teme: não o desastre natural, mas a própria cobardia.
Penso nas vezes em que vi a vida
em perigo. Aconteceu sem a família por perto, mas não fugi: fiz o necessário
para sair indemne. Não recordo momentos de igual calibre com a Elza, com a
nossa filha ou com as netas. Mas acredito que, ao contrário de Tomas, não
revelaria a mesma falha moral. Não por heroísmo — nunca me iludi com isso — mas
porque há vínculos que suspendem o instinto e obrigam a ficar, mesmo quando
tudo em nós pede para correr.
2. Também
de Östlund é Involuntário, série de 2008 que expõe certas
idiossincrasias da sociedade sueca — e que continuam atuais entre nós. No
primeiro episódio, uma professora mostra a uma aluna duas linhas e pergunta
qual é mais comprida. A miúda responde corretamente, mas vê os colegas, um após
outro, apontarem para a outra linha. O exercício repete‑se, sempre com o mesmo
resultado, até que, no exemplo final, ela cede e acompanha a opinião do grupo.
Só então a professora revela ter combinado com a turma contradizê‑la.
A moral é
evidente: podemos ter convicções firmes, mas o efeito de manada leva muitos a
alinhar com a maioria, mesmo sabendo que ela está errada, apenas para não
correr o risco de se sentirem excluídos. Falta a muitos essa coragem de ir
contra a corrente, mesmo quando a maioria está eivada de preconceito ou de
erro.
3. Uma
reportagem impressionante de Gaël Turine e Pedro Brito da Fonseca, rodada nas
ruas de Port‑au‑Prince, mostra até que ponto uma sociedade pode deslizar para a
distopia. Com a polícia a executar sumariamente quem detém ao acaso e os
gangues a transformarem vastas zonas da cidade em feudos privados, a população
tenta sobreviver num clima de guerra para o qual não contribui e no qual nem
sequer conta.
É
assustador perceber como é fácil passar de uma cultura de regras para outra em
que elas são ostensivamente ignoradas. E, no entanto, não deveria surpreender‑nos:
quando o direito internacional é desprezado pelos poderosos, como esperar que
as normas básicas de convivência sobrevivam nas ruas onde manda apenas a lei do
mais forte? O Haiti torna‑se um laboratório extremo do que acontece quando a
legitimidade se evapora e o poder se reduz ao exercício da violência.
4. No
início de O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir lembrava que nenhum homem
se daria ao trabalho de escrever sobre a sua condição — ao contrário dela,
consciente de que só se tornara mulher muito para além do nascimento.
A frase “On
ne naît pas femme, on le devient” tornou‑se síntese de uma realidade
indesmentível. E, para minha própria vergonha, devo confessar o gáudio do miúdo
que fui — algures pelos cinco ou seis anos — quando compreendi as vantagens de
ter nascido rapaz. E a má sorte das meninas, que não encaravam o futuro com as
mesmas facilidades que eu julgava garantidas. Mesmo ouvindo, amiúde, a previsão
de que um dia iria para a guerra, ainda assim me parecia que o destino
masculino era mais leve, mais aberto, mais cheio de possibilidades. A infância
absorve a desigualdade como se fosse natureza; só mais tarde percebemos que
aquilo que tomámos por privilégio natural era construção social.
5. Vejo
agora a série de Jacinto Godinho sobre A Televisão dos Militares e fica‑me
o gosto amargo de nunca ter sido feita uma série equivalente sobre as
atividades da CIA em Portugal — sobretudo naquele período em que as lutas
políticas iam muito além das que se desenhavam nas grandes capitais. De um
lado, os que não queriam ver o país sair da órbita do capitalismo ocidental; do
outro, os que olhavam com desinteresse para as guerras ideológicas entre
partidos e grupúsculos que invocavam, cada um à sua maneira, os princípios
supostamente respeitados mais a oeste ou mais a leste do continente
euroasiático.
No meio
da barafunda que se seguiu ao 25 de Abril houve, de um lado, muita gente
voluntariosa a acreditar possível a utopia — Vasco Gonçalves, Otelo, Duran
Clemente — enquanto, do outro, surgiam os que queriam restaurar a ordem do
capital. Ramalho Eanes tornou‑se o seu ícone decisivo, embora o Grupo dos Nove
também tenha desempenhado papel essencial. Na série, Mário Soares e Manuel
Alegre não ficam bem: vergaram‑se ao conluio com a CIA e impuseram como
presidente da RTP um militar, Tomás Rosa, cujas ligações a Fort Langley eram
evidentes. A televisão pública foi, naquele momento, um campo de batalha
estratégico — e quem controlasse a narrativa controlava, em larga medida, o
rumo político do país.
É
evidente que as circunstâncias acabariam por redundar na negação célere da
promessa de um caminho para o socialismo inscrita na Constituição de 1975. Mas
não deixo de sentir uma nostalgia amarga por aquilo que poderia ter sido. Teria
sido tão gratificante que, por uma vez, a História tivesse ousado saltar vários
degraus e imposto aquilo que continua a ser, no horizonte, a sua mais bela
esperança: uma sociedade verdadeiramente emancipada, onde a justiça social não
fosse apenas palavra de ordem, mas prática quotidiana.

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