1. Um texto de Margarida Davim, jornalista da Visão, relata o que encontrou numa escola secundária de Lisboa, onde foi convidada a palestrar. À pergunta sobre se “não seriam precisos três Salazares” e se “não seria melhor haver alguém que decidisse por todos para o bem comum”, juntaram‑se outras: o voto reservado apenas a quem tivesse “capacidade” para o merecer e a convicção de que nunca houve homens na Lua. Ideias que muitos julgariam definitivamente obsoletas, mas regressam, reavivadas pela desinformação das redes sociais. Para esses que ela designa como náufragos da mentira digital, só há uma solução: contrariar as mistificações sempre que houver oportunidade — e para isso são precisos muitos mais do que os que hoje se dedicam a fazê‑lo.
2. A
História, porém, lembra‑nos que a insensatez juvenil não é novidade. Sócrates
chamava os jovens mandriões; Shakespeare achava prudente que dormissem durante
toda a adolescência. Mas, ainda assim, é difícil ignorar que uma parte
significativa da juventude portuguesa atual — demasiado permeável ao populismo
de extrema‑direita e ao ultraliberalismo — constitui uma deceção indesmentível.
Não se trata de condenar a juventude enquanto tal, mas de reconhecer que, num
tempo em que a informação é abundante, a capacidade crítica parece ter rareado.
E isso torna‑a presa fácil de discursos simplistas, autoritários ou
economicamente darwinistas.
3. Apesar
de ter estado diante de algumas das mais belas obras da arte universal, nunca
experimentei sequer uma aproximação ao chamado síndrome de Stendhal. Nunca
fiquei atordoado perante as coleções do Louvre, dos Uffizi ou do British
Museum. Espantou‑me a vastidão desses museus — sobretudo a dimensão quase
inabarcável do Metropolitan de Nova Iorque — mas mantive sempre uma
racionalidade admirativa, que condiz melhor com a minha personalidade. A beleza
comove‑me, mas não me desarma; a arte é, para mim, antes de mais, um exercício
de lucidez.
5. Quando
andei pela ponta sul da Patagónia sabia apenas, de forma vaga, que ali tinham
vivido ameríndios em número significativo, quase levados à extinção pelos
colonos chilenos e argentinos. Ainda não tinha visto O Botão de Nácar,
de Patricio Guzmán, que os transforma em protagonistas silenciosos, e por isso
as deambulações por Ushuaia, Punta Arenas e Puerto Williams não contaram com a
devida atenção a uma cultura e a uma língua que hoje tentam ser revalorizadas
pelos poucos descendentes que restam. Entre eles os yagans, nómadas do mar, que
Darwin descreveu — com o preconceito da época — como elo em falta entre macacos
e homens. Os missionários enviados para os “domesticar” conheceram à sua custa
a bravura com que se defendiam; mas foi quando os obrigaram à sedentarização
que ficaram expostos à violência colonial, num genocídio ainda pouco conhecido.
Enquanto
turista acidental, olhei para a paisagem, para a beleza azulada dos glaciares,
e ignorei a tragédia que ali se desenrolou ao longo do século XIX. A natureza
parecia intacta, majestosa, eterna — mas por baixo dela repousava a memória
apagada de um povo que o mundo quase deixou desaparecer.

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