quarta-feira, março 18, 2026

A distância que permite ver

1. Um texto de Margarida Davim, jornalista da Visão, relata o que encontrou numa escola secundária de Lisboa, onde foi convidada a palestrar. À pergunta sobre se “não seriam precisos três Salazares” e se “não seria melhor haver alguém que decidisse por todos para o bem comum”, juntaram‑se outras: o voto reservado apenas a quem tivesse “capacidade” para o merecer e a convicção de que nunca houve homens na Lua. Ideias que muitos julgariam definitivamente obsoletas, mas regressam, reavivadas pela desinformação das redes sociais. Para esses que ela designa como náufragos da mentira digital, só há uma solução: contrariar as mistificações sempre que houver oportunidade — e para isso são precisos muitos mais do que os que hoje se dedicam a fazê‑lo.

2. A História, porém, lembra‑nos que a insensatez juvenil não é novidade. Sócrates chamava os jovens mandriões; Shakespeare achava prudente que dormissem durante toda a adolescência. Mas, ainda assim, é difícil ignorar que uma parte significativa da juventude portuguesa atual — demasiado permeável ao populismo de extrema‑direita e ao ultraliberalismo — constitui uma deceção indesmentível. Não se trata de condenar a juventude enquanto tal, mas de reconhecer que, num tempo em que a informação é abundante, a capacidade crítica parece ter rareado. E isso torna‑a presa fácil de discursos simplistas, autoritários ou economicamente darwinistas.

3. Apesar de ter estado diante de algumas das mais belas obras da arte universal, nunca experimentei sequer uma aproximação ao chamado síndrome de Stendhal. Nunca fiquei atordoado perante as coleções do Louvre, dos Uffizi ou do British Museum. Espantou‑me a vastidão desses museus — sobretudo a dimensão quase inabarcável do Metropolitan de Nova Iorque — mas mantive sempre uma racionalidade admirativa, que condiz melhor com a minha personalidade. A beleza comove‑me, mas não me desarma; a arte é, para mim, antes de mais, um exercício de lucidez.


4. Recentemente publicado, o ensaio Infiniment proches, da primatóloga Sabrina Krief, relata o muito que observou numa comunidade de chimpanzés no Uganda. Para além de utilizarem plantas medicinais — distinguindo com precisão as curativas das venenosas — revelam também uma surpreendente capacidade de construir pequenas narrativas, usando paus como se fossem bonecas. Ao contrário de Jane Goodall, cujas equipas habituaram os símios às bananas oferecidas, Krief cultiva uma distância mínima de uma dezena de metros e usa sempre máscara. Não apenas para evitar agressões de animais que descobriram uma forma fácil de obter alimento, mas também para não lhes transmitir doenças humanas. A ética da observação torna‑se, assim, tão importante quanto a própria investigação: compreender sem perturbar, aproximar‑se sem contaminar.

5. Quando andei pela ponta sul da Patagónia sabia apenas, de forma vaga, que ali tinham vivido ameríndios em número significativo, quase levados à extinção pelos colonos chilenos e argentinos. Ainda não tinha visto O Botão de Nácar, de Patricio Guzmán, que os transforma em protagonistas silenciosos, e por isso as deambulações por Ushuaia, Punta Arenas e Puerto Williams não contaram com a devida atenção a uma cultura e a uma língua que hoje tentam ser revalorizadas pelos poucos descendentes que restam. Entre eles os yagans, nómadas do mar, que Darwin descreveu — com o preconceito da época — como elo em falta entre macacos e homens. Os missionários enviados para os “domesticar” conheceram à sua custa a bravura com que se defendiam; mas foi quando os obrigaram à sedentarização que ficaram expostos à violência colonial, num genocídio ainda pouco conhecido.

Enquanto turista acidental, olhei para a paisagem, para a beleza azulada dos glaciares, e ignorei a tragédia que ali se desenrolou ao longo do século XIX. A natureza parecia intacta, majestosa, eterna — mas por baixo dela repousava a memória apagada de um povo que o mundo quase deixou desaparecer.

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