sábado, março 07, 2026

A cultura contra os ventríloquos do medo

 

1. Há muito que aprecio o lied como uma das expressões maiores da História da Música. E mantenho uma devoção particular pelo que Dietrich Fischer‑Dieskau, acompanhado por Alfred Brendel ao piano, fez com as Viagens de Inverno (Winterreise) de Franz Schubert. E até consigo desculpar, até certo ponto, as simpatias nazis de Elisabeth Schwarzkopf, tal é a força icónica da sua interpretação de An die Musik.

Durante anos, porém, o parco alemão mal me permitia perceber o que cada canção dizia, mesmo quando a música me sugeria emoções tão profundas. Esse obstáculo ficou agora resolvido com a edição de As Palavras da Música. O Livro do Lied Clássico, onde João Barrento traduz mais de seiscentos poemas de Goethe, Müller, Heine, Bachmann e tantos outros, muitos deles tão bem vertidos para português que parecem ter sido escritos na nossa língua. E o prefácio de Rui Vieira Nery ilumina, com a clareza habitual, a origem e a natureza desta tradição musical que vive da cumplicidade íntima entre palavra e som.

2. Em maio do ano passado, Andris Nelsons surgiu à frente da Orquestra Sinfónica de Boston para dirigir a Sétima Sinfonia de Chostakovitch, no festival da Gewandhaus de Leipzig que assinalou os cinquenta anos da morte do compositor russo. Tratando‑se de uma obra genial — e raramente uso o adjetivo — concebida para incentivar a resistência soviética ao nazismo, surpreendeu a imagem do maestro: bastante mais magro do que a silhueta obesa que lhe conhecíamos. Daí nasceu a especulação: doença grave? Obituários iminentes?

Nelsons, cioso da sua vida privada, nada disse. Mas houve unanimidade quanto ao essencial: a sua direção foi enérgica, incisiva, rigorosa nos diálogos entre os naipes, devolvendo à Sétima uma leitura merecidamente canónica. Para os cultores da obra daquele que foi o compositor preferido de Estaline — facto que tantos anticomunistas primários tentam negar — a interpretação confirmou a vitalidade de uma música que continua a ser monumento histórico e grito humano.


3. Sobre a Inquisição em Portugal não faltam bons ensaios que documentam os crimes cometidos à sombra do fanatismo clerical. Nesse sentido, não se pode dizer que E Todos Façam Perfeita Música…, de Hugo Porto, agora publicado pela Humus, traga revelações totalmente inéditas. Mas o livro ilumina com precisão as circunstâncias em que a Inquisição se exerceu em Évora no final do século XVI, quando o Concílio de Trento acabava de traçar as linhas vermelhas dos comportamentos aceitáveis perante as tentações protestantes.

O que o estudo sublinha, com particular interesse, é a vontade de muitos irreverentes — músicos, letrados, homens comuns — em adotarem lógicas racionais para questões quotidianas: o jejum de carne na Quaresma, os livros a ler ou a proibir, as práticas devocionais. Essa racionalidade incipiente foi reprimida pelos Torquemadas locais, zelosos guardiões da ortodoxia. E a criação de um clima de bufaria antecedeu em muito aquilo que, séculos depois, o salazarismo utilizaria com igual eficácia para sufocar os anseios de liberdade.

4. É neste ponto que Inventaire des peurs françaises, de Anne Muxel e Pascal Perrineau, se torna leitura indispensável. O ensaio fala da realidade francesa, mas poderia adaptar‑se plenamente à nossa. Lá como cá, ganham espaço os “ventríloquos do medo”: figuras políticas e mediáticas que inundam o espaço público com ameaças à identidade “cristã” e “branca”, alimentando a ideia de que esses fantasmas põem em causa os chamados anseios coletivos.

O medo é universal, lembram os autores, e muitas vezes essencial à sobrevivência. Mas hoje vive num ambiente desideologizado, onde se instalou o desânimo perante um futuro que parece sempre aquém do passado glorificado. A religião perdeu autoridade; a ciência tornou‑se ambivalente desde os anos 1970; o Estado‑Providência já não garante a proteção que prometia. O resultado é um espaço público onde só parecem ter voz os propagadores do medo — os que veem solução apenas em políticas autoritárias e em reformas que, entre nós, se imaginariam tomadas por Passos Coelho, caso tivéssemos de novo, para nossa repetida infelicidade, esse “homem do leme”. Daí faça todo o sentido a proposta final dos autores: se não faltam ventríloquos do medo, importa dar espaço e voz aos da esperança — aqueles que possam transformar anseios individuais em força coletiva, como outrora sindicatos e partidos de esquerda souberam fazer.

5. Mas há que ter cuidado com a forma como essas mensagens alternativas são construídas. A recente agressão a um ator durante o discurso final da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, apresentada em Bochum, mostra como a literalidade primária se tornou dominante.

Incapazes de compreender que a personagem de extrema‑direita servia precisamente de denúncia — e não de apologia — alguns espectadores tomaram como literal aquilo que era, desde a origem, uma crítica frontal ao fascismo. Não vem grande mal ao mundo pelo equívoco, até porque a polémica deu nova visibilidade à peça. Mas o episódio revela algo inquietante: a ironia, a alegoria, a inversão retórica — tudo aquilo que exige distância crítica — corre hoje o risco de ser tomado como afirmação direta. Num tempo saturado de medo, até a denúncia pode ser confundida com a propaganda contrária. E isso obriga a repensar não apenas o que se diz, mas a forma como se diz — sem abdicar da complexidade que a arte e a política exigem.

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