quinta-feira, março 05, 2026

A lucidez como forma de resistência

 1. Qual é a importância de identificar os corpos dos milhares de emigrantes que dão à costa nas praias do Mediterrâneo, ou que morrem já em terra e são apressadamente enterrados sem que alguém se preocupe em saber quem eram, que histórias traziam consigo e que familiares deveriam ser avisados?

Para a maioria dos políticos ocidentais — e dos eleitores que os apoiam em agendas centradas na preservação do sistema capitalista ou, pior ainda, no agudizar das tensões xenófobas que lhes servem de alavanca para o poder — nem um cêntimo deveria ser gasto nesses esforços. Mortos sem nome são, para eles, problemas resolvidos. Mas para a médica legista Cristina Cattaneo há razões humanistas que justificam a persistência desse trabalho. A partir de Milão, onde leciona, transformou a identificação dos mortos em causa de vida, numa militância discreta, mas inabalável.

O documentário Puros Desconhecidos, rodado em 2023 por Valentina Cicogna e Mattia Colombo, acompanha esse esforço — condenado ao fracasso desde o início, dada a escala da tragédia e a indiferença institucional que a rodeia. Ainda assim, a cientista prossegue, movida pela convicção de que todos têm direito ao seu nome, mesmo depois de mortos, e de que alguém deve avisar os que os amavam ou conheciam sobre o seu fim infausto.

2. Kisunla e Leqembi são os nomes de dois novos medicamentos atualmente em estudo para doentes com Alzheimer em fase inicial. Trazem novas expectativas para quem ainda não entrou no território mais profundo da degenerescência cognitiva, mas não oferecem qualquer efeito prático para quem, como a Elza, já vai muito avançada nesse processo.

Durante anos — e apesar de termos passado por experiências semelhantes com a geração anterior, o meu pai e a mãe da Elza — sempre confiei que, quando chegássemos a esta idade, a Medicina já teria encontrado soluções eficazes para a cura. Tragicamente para a Elza, enganei‑me. E custa aceitar que, na roleta russa aleatoriamente distribuída pela doença, lhe tenha calhado a bala fatal. Uma bala que também atinge cerca de 3% dos portugueses vivos hoje.

Acreditasse eu num qualquer deus (com minúscula, como sempre) e não me faltaria vernáculo para lhe atribuir tão triste sina. Mas, não tendo sido contemplado com essa suposta fé, só encontro na própria doença a explicação possível — e, paradoxalmente, mais um argumento para confirmar o meu ateísmo. Porque, se há pessoa que, pelo feitio, pela sensibilidade, pela delicadeza de carácter, não mereceria de todo este “castigo”, seria ela.

3. Não sou sensível às mensagens dos muitos influencers que invadem as redes sociais e nelas disseminam conteúdos mentirosos ou, no mínimo, interesseiros, sempre embalados pela expectativa de um ganho financeiro para quem os produz.

Como me passam ao largo, só posso espantar‑me com as notícias de escolas que abriram as portas a essa gente, permitindo que contaminassem ainda mais as já degradadas mentes juvenis que se confessam suas seguidoras. Ou com o sucesso de uma campanha publicitária que convenceu multidões de que o cortisol seria a causa da obesidade abdominal e do mal‑estar geral do corpo — e que tudo se resolveria com a banha da cobra que esses vendedores de ilusões se propunham divulgar.

Não tenho dúvidas quanto às razões da minha própria obesidade: como mal (demasiados doces, queijos e enchidos), faço pouco exercício (para além dos pesos e halteres que implica cuidar da Elza) e durmo bem menos do que as recomendadas oito horas seguidas. Tivesse determinação suficiente para corrigir estas três causas e, mesmo sem me transformar num novo Adónis, ao menos poderia aspirar a uma silhueta menos rotunda. Mas, pelos vistos, para muitos é mais fácil embarcar na publicidade enganosa e acreditar que, combatendo a “hormona do stress”, lá chegariam…

4. Não sei se as frases de Valter Hugo Mãe — agora proferidas no contexto das Correntes d’Escrita — “Toda a minha vida tive a impressão de ser de lugar nenhum, nenhuma terra me deixa inteiro. Estarei sempre à deriva” — ainda se lhe mantêm atuais, tendo em conta a inconstância com que ajusta opiniões ao sabor das circunstâncias e das experiências. Mas não as subscrevo, de modo algum, como minhas. Tendo percorrido todos os oceanos e aportado a terras de todos os continentes — Antártida à parte — nunca perdi o cordão umbilical a este sítio onde nasci. Não por patriotismo (que execro, como reduto dos canalhas, Samuel Johnson dixit), mas porque aqui ficou quase sempre quem mais me importava afetivamente.

O meu lugar, aquele que me deixa inteiro, não é uma abstração geográfica nem uma construção identitária: é o lugar onde tenho vivido uma relação amorosa com mais de meio século.

5. Sou um assíduo leitor de jornais, que me chegam diariamente online através das assinaturas que mantenho. Já não é o sortilégio do papel — nem as mãos escurecidas pela tinta — mas permanece aquilo que Hegel definiu no início do século XIX: “o jornal é a oração matinal do homem moderno”. A substituição de um rito religioso pelo hábito de acompanhar o estado do mundo — mesmo quando ele nos traz mais aflições do que consolo — continua a ser uma das melhores formas de iniciar cada dia. Há, nesse gesto, uma disciplina de atenção e de responsabilidade: saber onde estamos, o que se passa, o que ameaça, o que muda, o que permanece. Uma liturgia laica, mas não menos necessária.

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