1. Qual é a importância de identificar os corpos dos milhares de emigrantes que dão à costa nas praias do Mediterrâneo, ou que morrem já em terra e são apressadamente enterrados sem que alguém se preocupe em saber quem eram, que histórias traziam consigo e que familiares deveriam ser avisados?
Para a
maioria dos políticos ocidentais — e dos eleitores que os apoiam em agendas
centradas na preservação do sistema capitalista ou, pior ainda, no agudizar das
tensões xenófobas que lhes servem de alavanca para o poder — nem um cêntimo
deveria ser gasto nesses esforços. Mortos sem nome são, para eles, problemas
resolvidos. Mas para a médica legista Cristina Cattaneo há razões humanistas
que justificam a persistência desse trabalho. A partir de Milão, onde leciona,
transformou a identificação dos mortos em causa de vida, numa militância discreta,
mas inabalável.
O
documentário Puros Desconhecidos, rodado em 2023 por Valentina Cicogna e
Mattia Colombo, acompanha esse esforço — condenado ao fracasso desde o início,
dada a escala da tragédia e a indiferença institucional que a rodeia. Ainda
assim, a cientista prossegue, movida pela convicção de que todos têm direito ao
seu nome, mesmo depois de mortos, e de que alguém deve avisar os que os amavam
ou conheciam sobre o seu fim infausto.
2. Kisunla
e Leqembi são os nomes de dois novos medicamentos atualmente em estudo para
doentes com Alzheimer em fase inicial. Trazem novas expectativas para quem
ainda não entrou no território mais profundo da degenerescência cognitiva, mas
não oferecem qualquer efeito prático para quem, como a Elza, já vai muito
avançada nesse processo.
Durante
anos — e apesar de termos passado por experiências semelhantes com a geração
anterior, o meu pai e a mãe da Elza — sempre confiei que, quando chegássemos a
esta idade, a Medicina já teria encontrado soluções eficazes para a cura.
Tragicamente para a Elza, enganei‑me. E custa aceitar que, na roleta russa
aleatoriamente distribuída pela doença, lhe tenha calhado a bala fatal. Uma
bala que também atinge cerca de 3% dos portugueses vivos hoje.
Acreditasse
eu num qualquer deus (com minúscula, como sempre) e não me faltaria vernáculo
para lhe atribuir tão triste sina. Mas, não tendo sido contemplado com essa
suposta fé, só encontro na própria doença a explicação possível — e,
paradoxalmente, mais um argumento para confirmar o meu ateísmo. Porque, se há
pessoa que, pelo feitio, pela sensibilidade, pela delicadeza de carácter, não
mereceria de todo este “castigo”, seria ela.
3. Não
sou sensível às mensagens dos muitos influencers que invadem as redes
sociais e nelas disseminam conteúdos mentirosos ou, no mínimo, interesseiros,
sempre embalados pela expectativa de um ganho financeiro para quem os produz.
Não tenho
dúvidas quanto às razões da minha própria obesidade: como mal (demasiados
doces, queijos e enchidos), faço pouco exercício (para além dos pesos e
halteres que implica cuidar da Elza) e durmo bem menos do que as recomendadas
oito horas seguidas. Tivesse determinação suficiente para corrigir estas três
causas e, mesmo sem me transformar num novo Adónis, ao menos poderia aspirar a
uma silhueta menos rotunda. Mas, pelos vistos, para muitos é mais fácil
embarcar na publicidade enganosa e acreditar que, combatendo a “hormona do
stress”, lá chegariam…
4. Não
sei se as frases de Valter Hugo Mãe — agora proferidas no contexto das
Correntes d’Escrita — “Toda a minha vida tive a impressão de ser de lugar
nenhum, nenhuma terra me deixa inteiro. Estarei sempre à deriva” — ainda se lhe
mantêm atuais, tendo em conta a inconstância com que ajusta opiniões ao sabor
das circunstâncias e das experiências. Mas não as subscrevo, de modo algum,
como minhas. Tendo percorrido todos os oceanos e aportado a terras de todos os
continentes — Antártida à parte — nunca perdi o cordão umbilical a este sítio
onde nasci. Não por patriotismo (que execro, como reduto dos canalhas, Samuel
Johnson dixit), mas porque aqui ficou quase sempre quem mais me importava
afetivamente.
O meu
lugar, aquele que me deixa inteiro, não é uma abstração geográfica nem uma
construção identitária: é o lugar onde tenho vivido uma relação amorosa com
mais de meio século.

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