terça-feira, março 24, 2026

Compreender não é absolver

 


1. Édouard Louis detestava o irmão: homofóbico, violento, defensor dos preconceitos da extrema‑direita. No entanto, quando ele morreu — apesar de afirmar não ter sentido qualquer emoção — decidiu escrever mais um dos seus romances autobiográficos e deu‑lhe o título O Colapso. Partiu da convicção de que, sendo ele um monstro, só poderia ser compreendido à luz do contexto da sua vida inteira, onde se explicaria a formação dessa personalidade odiosa. E concluiu que o irmão encontrara apenas uma escapatória para as frustrações: o álcool. Mas permanece uma reserva difícil de contornar: por muito que se encontrem razões sociológicas para que certos monstros neles se tornem, devemos desculpá‑los por não conseguirem escapar ao seu destino? Ou ao invés responsabilizá‑los por nunca terem tido a coragem de dar a volta por cima — como o próprio Louis fez ao romper com o meio que o formou? Compreender não é necessariamente absolver.

2. Um documentário sobre Gungunhana mostra como Mouzinho de Albuquerque esteve longe de corresponder ao herói que o colonialismo de então — e ele próprio — promoveu. A história da batalha de Chaimite é muito diferente da que Brum do Canto viria a filmar décadas depois, quando as independências africanas já ganhavam uma dinâmica irreversível.

Não que o imperador de Gaza fosse figura passível de admiração: o despotismo que exercia sobre os povos que guerreava era tão detestável quanto a atual ditadura dos mulás iranianos. Mas a campanha militar portuguesa tinha um objetivo evidente: apropriar‑se das riquezas cobiçadas pela política colonial, urgentes para uma monarquia que pressentia o seu fim. Gungunhana foi apenas um obstáculo circunstancial a remover — e a mitificação desse episódio perduraria até à Revolução dos Cravos.

3. No campo da ciência, Mitos da Psicologia, de Francisco Miranda Rodrigues, foi tema de um podcast de David Marçal e Carlos Fiolhais, dedicado a desmontar ideias erradas que quase entraram na vulgata popular sobre o cérebro. Entre elas, a crença de que usamos apenas uma pequena parte do seu potencial ou a ideia de que basta desejar algo com muita persistência para o alcançar. A ciência, mais uma vez, prevalece sobre as teses falsas que as redes sociais tão eficazmente disseminam. E, no entanto, a facilidade com que estas ilusões se propagam mostra como continua a ser necessário um trabalho paciente de esclarecimento.

4. Um provérbio japonês diz que, ao olharmos o sol de frente, temos a vantagem de não ver a sombra que nos distrai. É uma sabedoria simples, mas profunda: convida‑nos a concentrar no essencial e a não desperdiçar energia com o acessório. A atenção plena é, afinal, uma forma de resistência ao ruído — e ao autoengano.

5. A história do açúcar, contada num documentário que o apresenta como uma maldição, revela a sua nocividade e influência devastadora. Começando por ser um produto de luxo nas cortes europeias, justificou a expansão brutal do tráfico de escravos para as Caraíbas, o Brasil e a Luisiana. Mais tarde, tornou‑se combustível barato para os proletários exaustos da Revolução Industrial, transformando‑se num dos motores silenciosos do capitalismo moderno. A sua doçura esconde uma história amarga — de violência, de doença e de desigualdade — que continua a ecoar no presente.

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