terça-feira, março 10, 2026

O silêncio que pensa, o ruído que destrói

 

1. Não me lembro de nenhuma das várias visitas à Tate Modern que não tivéssemos passado —e ficado longamente — na Sala Rothko, para sentir a pulsação silenciosa que os seus quadros sempre nos devolviam.

A Elza, que andara a ler os volumes da Taschen sobre dezenas de artistas, servia de guia: explicava o que mais lhe importava na obra de Rothko, sobretudo as razões que o levaram a abandonar o figurativismo inicial para abraçar os campos de cor, as texturas sobrepostas, as camadas verticais que pareciam respirar. Para mim, que nunca me distancio das preocupações políticas na arte, interessava‑me a militância marxista do pintor até ao fim dos anos 30 e a recusa, mais tarde, em servir o luxo capitalista — como quando rejeitou entregar os quadros encomendados pelo Four Seasons, horrorizado com o tipo de endinheirados que ali jantariam à sombra das suas telas.

Recordei tudo isto ao ver o documentário de Pascale Bouhénic, Mark Rothko, la peinture vous regarde. E, com ele, regressou a saudade das vivências londrinas: as idas frequentes à cidade quando a filha lá vivia e trabalhava; a sensação de a termos tão próxima, do outro lado do rio, na mítica Fleet Street; e os almoços no restaurante panorâmico do último andar da antiga central elétrica de Bankside — onde até nos permitimos, uma vez, o risco do horrível fish and chips. Tudo isso regressou, como se a memória tivesse também ela as próprias camadas de cor, sobrepostas e vibrantes, à maneira de Rothko.

2. Em Sirat, de Oliver Laxe, há um momento que parece feito para pensar o mundo contemporâneo: um homem maduro comenta que nada se ouve da música ao som da qual os corpos se movem hipnoticamente numa rave.

- Não é para ouvir, é para dançar! — responde‑lhe a jovem, quase ofendida.

A metáfora é imediata: uma sociedade onde os corpos se robotizam ao som de um ruído ensurdecedor que impede qualquer gesto de pensamento. Não é apenas a música — que funciona como fator de alucinação — mas a forma como ela replica os mecanismos de exploração de um sistema que precisa de indivíduos que não questionem nada. Corpos que dançam, mas não escutam; que se movem, mas não pensam; que se entregam ao ritmo, mas não ao sentido. E quando, já perto do final, Jade pede que aumentem o volume e explode sobre uma mina enquanto continuava a dançar, a metáfora torna‑se brutal: num mundo saturado de ruído, a incapacidade de ouvir pode ser fatal.

3. Forma de ruído semelhante é o do chamado cinema‑pipoca, que revisito apenas para confirmar as reservas — nada benignas — em relação ao género. E, no entanto, em Mundo Jurássico: Reino Caído há uma imagem que merece ser resgatada do chorrilho de clichés: quando a ilha está prestes a ser engolida pela lava de um vulcão avassalador, um enorme herbívoro de pescoço desmesurado — criatura mansa e simpática — observa, da margem, os últimos sobreviventes que se afastam no navio.

O animal fica para trás, condenado, olhando o barco como quem contempla uma última possibilidade de salvação que não lhe pertence e é difícil não ler ali uma metáfora do planeta em que vivemos: somos esses dinossauros indefesos, abandonados à beira de um cataclismo que outros humanos, por cupidez e irresponsabilidade, se apressam a tornar apocalíptico.

4. Francesa de nascimento e sueca por casamento, Johana Gustawsson acrescenta‑se à já longa lista de autoras de policiais nórdicos. Em Block 46, duas protagonistas — quase sempre em desacordo — investigam crimes que se repetem com inquietante semelhança: a traqueia seccionada, os globos oculares removidos, um misterioso “Y” gravado nos braços.

A investigação conduz inevitavelmente a Buchenwald, em 1944, onde atrocidades desse género eram cometidas com uma frieza industrial. E a autora tem aqui uma ligação íntima: o avô esteve preso nesse campo. E é essa sombra herdada que dá ao romance espessura emocional, transformando o policial num exercício de arqueologia moral.

5. Seguindo o rasto desse avô paterno, descobri uma figura excecional. Simon Lagunas, republicano espanhol que integrou a Resistência francesa, foi enviado para Buchenwald — mas não se limitou a sobreviver ao campo da morte.

Desde o primeiro momento conspirou para dali se evadir, recusando a passividade que o sistema procurava impor. E quando, já no final da guerra, os Aliados se aproximavam, participou ativamente — e a partir de dentro — na libertação do campo.

Não foi apenas testemunha do horror: foi agente da própria libertação e da dos outros. A coragem que demonstrou naquele lugar extremo ilumina, retroativamente, a força subterrânea que percorre Block 46: a memória não é apenas arquivo de sofrimento, mas também reservatório de resistência.

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