1. Não me
lembro de nenhuma das várias visitas à Tate Modern que não tivéssemos passado —e
ficado longamente — na Sala Rothko, para sentir a pulsação silenciosa que os
seus quadros sempre nos devolviam.
Recordei
tudo isto ao ver o documentário de Pascale Bouhénic, Mark Rothko, la
peinture vous regarde. E, com ele, regressou a saudade das vivências
londrinas: as idas frequentes à cidade quando a filha lá vivia e trabalhava; a
sensação de a termos tão próxima, do outro lado do rio, na mítica Fleet Street;
e os almoços no restaurante panorâmico do último andar da antiga central
elétrica de Bankside — onde até nos permitimos, uma vez, o risco do horrível fish
and chips. Tudo isso regressou, como se a memória tivesse também ela as próprias
camadas de cor, sobrepostas e vibrantes, à maneira de Rothko.
2. Em Sirat,
de Oliver Laxe, há um momento que parece feito para pensar o mundo
contemporâneo: um homem maduro comenta que nada se ouve da música ao som da
qual os corpos se movem hipnoticamente numa rave.
- Não
é para ouvir, é para dançar! — responde‑lhe a jovem, quase ofendida.
A
metáfora é imediata: uma sociedade onde os corpos se robotizam ao som de um
ruído ensurdecedor que impede qualquer gesto de pensamento. Não é apenas a
música — que funciona como fator de alucinação — mas a forma como ela replica
os mecanismos de exploração de um sistema que precisa de indivíduos que não
questionem nada. Corpos que dançam, mas não escutam; que se movem, mas não
pensam; que se entregam ao ritmo, mas não ao sentido. E quando, já perto do
final, Jade pede que aumentem o volume e explode sobre uma mina enquanto
continuava a dançar, a metáfora torna‑se brutal: num mundo saturado de ruído, a
incapacidade de ouvir pode ser fatal.
3. Forma
de ruído semelhante é o do chamado cinema‑pipoca, que revisito apenas para
confirmar as reservas — nada benignas — em relação ao género. E, no entanto, em
Mundo Jurássico: Reino Caído há uma imagem que merece ser resgatada do
chorrilho de clichés: quando a ilha está prestes a ser engolida pela lava de um
vulcão avassalador, um enorme herbívoro de pescoço desmesurado — criatura mansa
e simpática — observa, da margem, os últimos sobreviventes que se afastam no
navio.
O animal
fica para trás, condenado, olhando o barco como quem contempla uma última
possibilidade de salvação que não lhe pertence e é difícil não ler ali uma
metáfora do planeta em que vivemos: somos esses dinossauros indefesos,
abandonados à beira de um cataclismo que outros humanos, por cupidez e
irresponsabilidade, se apressam a tornar apocalíptico.
4. Francesa
de nascimento e sueca por casamento, Johana Gustawsson acrescenta‑se à já longa
lista de autoras de policiais nórdicos. Em Block 46, duas protagonistas
— quase sempre em desacordo — investigam crimes que se repetem com inquietante
semelhança: a traqueia seccionada, os globos oculares removidos, um misterioso
“Y” gravado nos braços.
A
investigação conduz inevitavelmente a Buchenwald, em 1944, onde atrocidades
desse género eram cometidas com uma frieza industrial. E a autora tem aqui uma
ligação íntima: o avô esteve preso nesse campo. E é essa sombra herdada que dá
ao romance espessura emocional, transformando o policial num exercício de
arqueologia moral.
5. Seguindo
o rasto desse avô paterno, descobri uma figura excecional. Simon Lagunas,
republicano espanhol que integrou a Resistência francesa, foi enviado para
Buchenwald — mas não se limitou a sobreviver ao campo da morte.
Desde o
primeiro momento conspirou para dali se evadir, recusando a passividade que o
sistema procurava impor. E quando, já no final da guerra, os Aliados se
aproximavam, participou ativamente — e a partir de dentro — na libertação do
campo.
Não foi
apenas testemunha do horror: foi agente da própria libertação e da dos outros.
A coragem que demonstrou naquele lugar extremo ilumina, retroativamente, a
força subterrânea que percorre Block 46: a memória não é apenas arquivo
de sofrimento, mas também reservatório de resistência.

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