sábado, maio 26, 2007

A favor da Ota

A campanha anti-Ota continua em força. O lobby dos interessados em construir o novo aeroporto na margem sul garantiu apoio dos principais jornais e televisões e quer impor uma alternativa, que não conseguira vincular na altura dos estudos fundamentadores da decisão.
Não lhes interessa, que a nova localização proposta esteja mesmo por cima de um lençol freático fundamental para toda a Península Ibérica num dos recursos naturais mais relevantes no futuro. De nada lhes importam os compromissos estabelecidos com Bruxelas para almejar esse empreendimento.
Já lhes poderão interessar os valores das portagens, que não deixarão de ser cobrados aos milhões de passageiros, obrigados a recorrer à travessia do Tejo para chegarem a Lisboa.
Já lhes poderão interessar, derrotados outros projectos financeiros, que fique facilitada a viabilização dos investimentos turísticos, que se preparam para desfigurar completamente toda a Península de Tróia.
Para quem conhece a localização proposta - e no caso pessoal até vivo no tal deserto, que o ministro Mário Lino designou - é óbvia a constatação de um maior número de dias de nevoeiro por ano do que se passa a norte do rio.
E as acessibilidades já estão praticamente construídas se a opção for a Ota ao contrário do que se passará com o Poceirão ou o Rio Frio.
O que os contestatários de hoje - ontem silenciosos, ou até apoiantes da opção pela Ota - podem estar a criar é um conjunto de bloqueios, que prejudicarão gravosamente o país.
Tal como no país vizinho a oposição de direita criou uma estratégia de terra queimada em que importa contestar qualquer decisão governamental, apenas por política politiqueira, a oposição ao Governo tem horror às realizações por aquele assumidas.
Os resultados económicos começam a ser cada vez mais incontestáveis, sendo difícil contrariar o que as próprias organizações internacionais vão concluindo sobre a recuperação operada depois dos desvarios de António Guterres, Durão Barroso e de Santana Lopes.
Tudo se conjuga para uma longa permanência do Partido Socialista no Governo se não se atentar a tempo contra a credibilidade da sua estratégia. E então vale tudo: pôr em causa a integridade do Engº José Sócrates (não resultou a gravíssima campanha antes das legislativas, está a falhar a relacionada com o seu título académico), sabotar os grandes projectos estruturantes da sua governação, agarrar em todos os argumentos para pôr em causa os ministros de verbo menos cauteloso.
O que se está a passar nesta altura com o debate em torno da Ota é mais um triste episódio da tentativa de derrube do único Governo que, nos últimos oito anos demonstrou visão para direccionar o país no objectivo do crescimento e do desenvolvimento.
Que seja mais uma tentativa derrotada é o que muitos - pelos vistos os que dão essa expressão nas sondagens - desejam.

À descoberta do Reino de Gugé

Até agora o Reino de Guge era-nos completamente desconhecido. Foi um documentário do «Odisseia», que nos abriu a mente para o conhecimento desta antiga civilização situada a Ocidente do Tibete, aonde outrora passava o pujante comércio entre a Índia e a China.
O local até era pouco adequado para o estabelecimento de uma comunidade humana. O planalto é desértico, as temperaturas rigorosas. Mas a contínua passagem de mercadores deu-lhe tal dimensão que seria a Oriente, o que a fulgurante Florença significava na mesma época.
E, no entanto, algures no século XVII, quando os primeiros viajantes europeus já tinham dado conta da sua existência, a rivalidade entre dois irmãos - um o seu último rei, o outro o líder religioso do seu principal lamastério, abriu condições para a sua destruição. E esquecimento…até despertar a curiosidade de arqueólogos europeus e norte-americanos, que desde os anos 30 têm procurado descortinar as razões do fulgor expressivo dos seus murais e as da sua súbita destruição.
Em visita à região, a redactora da revista «Rotas & Destinos» Ana Isabel Mineiro, escreveu num número já antigo e agora resgatado na net:
«As mais belas paisagens do planeta estão, provavelmente, aqui. Ninguém fica insensível à imensidão, às formas e às cores deste cenário em constante mudança. A atmosfera é magnética, densa, inexplicável. Padecemos do estado quase doloroso dos apaixonados. Dá ganas de ficar a levitar no silêncio abissal, de rumar à linha inalcançável do horizonte a pé, sobrevivendo apenas do alimento sagrado da errância contemplativa.
São planaltos sem medida, vigiados por montanhas, por onde serpenteia a estrada de terra que, nos passos mais altos, está ornamentada com bandeiras de oração, muros de pedras gravadas (manis), onde se depositam chifres pintados, lenços brancos, roupa, e até cabelo humano. São prados verdes sulcados por riachos, onde pastam iaques, ovelhas e cavalos. Lagos aprisionados por dunas de areia fina, de contornos sensuais, numa colagem fictícia sobre o azul do céu. E rochas de cores estranhas, em formações vanguardistas de escultura. Surgem desertos onde só vivem pequenos roedores, marmotas e pássaros gordos, do tipo dos pardais. No horizonte, montanhas nevadas rompem o algodão espesso das nuvens.
A paisagem humana perde-se nesta amplitude desmesurada. Nómadas acampam em tendas de pano ou de lã, cuidando de milhares de cabeças de gado. Um ou outro cavaleiro parece ir a caminho do nada - uma pincelada animada, na estagnação do tempo. As mulheres, com os aventais listados, os fios coloridos das tranças e as turquesas que enfeitam cintos, brincos e cabelos, são figurantes garridos e sorridentes na monotonia castanha dos planaltos».
Outra fonte de informação sobre este Reino é a Wikipedia na sua versão francesa. Em poucas linhas resuma a informação histórica disponível:
«Situada no vale de Khyunglung, no deserto tibetano, a cidade estado de Gugé abrigou uma das civilizações mais brilhantes da idade de ouro do budismo. O reino de Gugé foi criado em 700 da nossa era e desapareceu em 1630 por razões ainda não totalmente esclarecidas, mas decerto na sequência da intervenção do exército Ladakhi, que acorrera ao pedido das autoridades budistas de Gugé, lideradas pelo principal rival do rei, o seu próprio irmão».
Segundo as lendas passadas de geração em geração e só a sobreviverem por transmissão oral, a razão de ser desse trágico diferendo político até tem nos portugueses um inesperado papel: o casal real estaria a converter-se ao catolicismo por influência de jesuítas nossos compatriotas.
Na sequência desta guerra, o Reino seria anexado à Caxemira.
Um dos mais interessantes aspectos, que resulta das imagens deste documentário é a clara estratificação social subjacente aos edifícios em ruínas: na base da montanha, em grutas escavadas na rocha, ficavam os mais pobres: os camponeses, os pastores, os soldados. Depois, escalando a encosta encontram-se as antigas casas dos comerciantes.
Era no topo da montanha, protegida por muralhas, que ficava a aristocracia e os sacerdotes, que usufruíam de todas as riquezas inerentes à sua condição.
Nos seus antigos palácios descobriram-se os murais, que revelam uma arte muito elaborada e graciosa. O Reino usufruía da presença de muitos artistas, que haviam escapado ao avanço da influência islâmica por toda a região do norte da Índia e do actual Paquistão. Exilados ali, eram convidados pelas estirpes mais favorecidas de Gugé a deixarem espelhado o seu talento nas paredes dos edifícios.
Embora os estudos ainda estejam por definir o que realmente se passou nessa época em que Portugal vivia o jugo filipino, a derrocada do Reino de Gugé é bem elucidativa quanto os povos acabam por ser empurrados para uma espiral de violência e de miséria, quando à política se associam os condimentos das rivalidades religiosas.

quinta-feira, maio 24, 2007

«La Tombe 33, un mystère égyptien», documentário de Thomas Weidenbach

O Vale dos Reis já deve ter sido esburacado por milhares de arqueólogos e de aventureiros, para já não falar dos ladrões de túmulos, que os terão precedido nos séculos anteriores.
Quando se vê um documentário sobre egiptologia há sempre a expectativa de se perceber o que há ainda por resgatar das brumas do tempo.
E foi essa a reacção perante este documentário de Thomas Weidenbach, que acompanha os trabalhos dos arqueólogos da Universidade de Estrasburgo na pesquisa ao chamado túmulo 33, onde terá repousado Padiamenopé, um sacerdote da 26ª dinastia, cuja curiosidade assenta nas suas dimensões.
As suas vinte e duas câmaras, ligadas por longos corredores e em três níveis atingem uma profundidade de vinte metros a partir do solo.
Quantos metros cúbicos de terra foi necessário remover para conseguir uma derradeira morada para um mero servidor de faraós, ultrapassando-os em sumptuosidade nesse encontro com o Além?
Trata-se, pois, de um túmulo-palácio do século VII a.C. de concepção labiríntica, com uma enorme riqueza de hieróglifos , passíveis de constituir por si mesmos uma verdadeira colecção de literatura funerária egípcia.
Espanta, pois, que tenha havido um enorme hiato entre a sua descoberta nos finais do século XIX por Johannes Dumichen, só passado mais de um século volte a merecer a atenção científica de novos estudiosos, apostados em descobrir o que se encontra para além dos poços soterrados ou de galerias vedadas por paredes construídas muito depois da sua primeira ocupação.
É óbvio, que nenhuma grande descoberta científica resultará do seu esforço: mesmo nas câmaras ainda por explorar os saqueadores do tempo ter-se-ão antecipado, levando consigo tudo quanto poderia ser-lhes rentável no mercado das antiguidades.

segunda-feira, maio 14, 2007

O encontro da moda com a dança

Em Paris está actualmente uma exposição, que resulta da colaboração entre o costureiro Jean Paul Gaultier e a coreógrafa Régine Chopinot.
Nos inícios dos anos 80 eles uniram forças para criar uma dúzia de espectáculos, que acabaram por trazer algo de revolucionário à arte da dança.
Não é que a colaboração entre o mundo da moda e o da dança fosse algo de inédito: já em 1924 Coco Chanel e Diaghilev tinham colaborado numa obra interpretada por Nijinski. E também Merce Cunningham havia participado em projectos similares.
Mas o que foi novo na dupla Gaultier-Chopinot foi a duração desse projecto: dez anos, que ocorreram entre 1983 e 1993.
«O Desfile», em 1985, foi uma dessas obras, que resulta de um conceito da coreógrafa: um desfile de moda coreografado para o qual Gaultier inventa o guarda-roupa. Doravante a moda passa a ser encarada como dança, passível de assim dar maior originalidade á exposição das sucessivas peças de vestuário.
Mas, por seu lado, o próprio Gaultier é levado a utilizar como motivo de inspiração o fato por excelência de representação da dança: o famoso tutu. Questionando-se sobre o que significa criar peças de roupa para bailarinos ou como se apropriar dos seus códigos simbólicos.

terça-feira, maio 08, 2007

UM FILME SOBRE GUIZOS DE RENA

Confesso que não tinha muitas expectativas sobre este filme do Robert Zemeckis destinado a um público infantil. Mais do que a presença do Tom Hanks no projecto, estava, sobretudo, interessado em vislumbrar o efeito estético de uma animação claramente baseada no tratamento de cenas previamente rodadas com recurso a actores.
Zemeckis tem sido um experimentalista devendo-se-lhe projectos tão singulares como o foram ~Quem Tramou Roger Rabbit» ou «Forrest Gump».
A história do filme conta-se em muito poucas palavras: um miúdo de uns seis ou sete anos está com sérias dúvidas quanto à existência do Pai Natal. A irmã, mais nova, está excitadíssima perante a aproximação da noite mágica em que chegam presentes oriundos do Pólo Norte, enquanto ele abre uma enciclopédia aonde aprende a impossibilidade de haver condições de vida naquela região do globo.
No entanto, uma noite, ele acorda e vê chegada à beira da sua janela um estranho comboio, cujo revisor o incita a entrar.
Lá dentro ele vai conhecer mais um conjunto de miúdos, mais ou menos da sua idade, aonde avulta uma miúda de cor com particulares dotes de liderança e um miúdo irritantemente sabichão, afinal ainda com tanto para aprender.
A aventura irá passar por imensas vicissitudes, com a constatação, por parte do protagonista, da existência de um anjo da guarda, a amiúde abandonar a pose de vagabundo para lhe dar a mão em momentos particularmente difíceis. Porque há despistes num lago gelado à beira de ver partido o seu gelo, ou subidas e descidas vertiginosas, ou ainda paragens bruscas devido a manadas de caribus.
Embora completamente inverosímil, a história associa-se ao sonho de um miúdo, que irá aprender uma lição preciosa: a de nunca abdicar de uma certa forma de magia, traduzida pelos guizos das renas do Pai Natal.
No fundo não nos faz mal nenhum rendermo-nos ao sortilégio de uma fantasia infantil, que nos recorde como foi tão bom sermos ingénuos. É que, nessa altura, os medos, as angustias, as frustrações ainda não assumiam as trágicas dimensões conhecidas na vida adulta.
Aquela em que a sobrevivência não é apoiada na intervenção oportuna de um qualquer anjo da guarda...

domingo, abril 29, 2007

SINGAPURA SEGUNDO MONTALBAN

Há certas leituras, que me fazem confrontar com uma evidência: sítios houve aonde estive, que desaproveitei por não ter cultura suficiente para os saber aproveitar devidamente.
Essa evidência surgiu-me, uma vez mais, na leitura de «Milénio», o livro do Manuel Vasquez Montalban, com que ele se despediu da vida. Neste momento, Pepe de Carvalho e Biscuter estão em Singapura e surge-lhes como obrigatória uma visita ao Hotel Raffles, um edifício mítico, que a escrita de Somerset Maugham e de outros escritores eternizou.
Ora acontece que tendo estado tantas vezes nessa cidade da ponta sul da península malaia e aí chegando a permanecer dias inteiros - nomeadamente quando me mudei do «Fernando Pessoa» para o «Team Trinta» em escala no norte da Austrália - e passou-me ao lado tal edifício.
É certo que o dinheiro não abundava e que, segundo Montalban, cada noite aí passada mede-se pelos milhares de dólares, mas teria sido perfeitamente possível entrar no seu hall e, quiçá, beber um sumo de laranja no seu bar. Seria uma forma de sentir que fizera algo de significativo ali para além de um memorável jantar no último andar do mercado local ou da compra de uma écharpe com motivos picassianos no seu Bairro Chinês.
A sensação, que me fica é a de ter conquistado alguma cultura desde muito cedo, mas ter ficado muito aquém da erudição necessária para ter registado do meu passado de andarilho pelo mundo as memórias necessárias para delas extrair alguns textos literários com potencial, se não pelo estilo, pelo menos pelo que de diferente pudesse neles estar contido.

segunda-feira, abril 23, 2007

A alegria dada por Ségolène e o epílogo de um oportunista

A passagem de Ségolène Royal à segunda volta das eleições francesas, aonde irá encontrar o inefável Sarkozy, veio desarmar a intensa campanha que, quer em França, quer em Portugal, a davam como potencialmente derrotada, fosse pelo cinzento Bayrou, fosse, mais recentemente, pelo sinistro Le Pen.
Os eleitores franceses foram em massa às urnas e deram a resposta adequada a esses arautos do crepúsculo da esquerda.
Em 6 de Maio vão confrontar-se, de facto, dois projectos bem distintos de sociedade: por um lado uma direita musculada, que vê na expulsão dos que são diferentes em cor e/ou em credo, para corresponder à óbvia decadência gaulesa na sociedade das nações.
Por outro lado, uma mulher bonita e inteligente, que acredita na possibilidade de tornar a esquerda resiliente às mudanças, tornando-a capaz de dar as mais eficazes respostas aos difíceis desafios do futuro.
As armas de ambos são desiguais ou não tenha Sarkozy o apoio dos interesses capitalistas, que tomaram de assalto os órgãos de informação para influenciarem a opinião pública com as suas campanhas (des)informativas.
Mas há em Ségolène a imagem serena de quem acredita na capacidade colectiva para superar os problemas de hoje e de amanhã, que pode fazer regressar a França à esperança de 1981, quando Mitterrand encarnou uma verdadeira revolução tranquila.


A morte de Boris Ieltsin é daquelas, que lembra uma velha expressão: já há muito que a História o atirara para o caixote do lixo e ele insistia em negar-lhe o último dos ritos, o do enterro.
É claro que, nesta altura, os políticos, os jornais e as televisões vão acotovelar-se a encontrar fórmulas simpáticas para designar um oportunista, que foi um fiel seguidor de Brejnev enquanto o poder soviético ainda mantinha uma certa aparência de sustentabilidade, mas logo virou o bico ao prego ao constatar o fracasso completo da campanha no Afeganistão e a desigualdade de capacidade militar em relação aos Estados Unidos.
Interpretando o sentido da História, que impunha o fim do projecto político outrora lançado por Lenine, por Trotski e por Estaline, ele aproveitou a fraqueza de Gorbatchov para chegar ao poder num autêntico golpe de Estado.
O que se sucedeu já se conhece sobejamente embora surja muito escamoteado pelos que defendem a estratégia do arrivista: um enriquecimento obsceno de uns quantos oligarcas à sombra do novo senhor do Kremlin e a terrível pauperização de milhões de antigos cidadãos soviéticos atirados para condições de nacionalidade completamente abstrusas - tajiques, cosaques, chechenos, uzbeques, azeris e tantos mais.
Guerras civis e a ruína do tecido produtivo anterior a 1989 conduziram populações inteiras a atroz miséria. E esse é o legado do oportunista, que hoje morreu...

segunda-feira, abril 09, 2007

«REIS E RAINHA»: PERSONAGENS COM DENSIDADE

Nora tem 35 anos e é mãe de Elias, o miúdo que tivera do seu primeiro marido, esse Pierre precocemente falecido num acidente estúpido do qual a sua responsabilidade não fora totalmente demonstrada.
Agora a vida corre-lhe bem: dirige uma galeria de arte parisiense há seis meses e prepara-se para casar com um namorado imensamente rico.
Para trás deixou, igualmente, um segundo companheiro, Ismael, violetista problemático agora a contas com um internamento coercivo numa instituição psiquiátrica.
Mas a vida está em vias de lhe dar umas inesperadas lições quando acorre a Grenoble para ir buscar o filho, por algumas semanas alojado em casa do avô, e constata que Louis está prestes a morrer, vítima de um cancro generalizado.
Esse reencontro com a morte e os seus rituais vai obrigá-la a recordar esse passado e clarificar as razões porque o próprio pai lhe confessa o desgosto, que lhe causa a evidência do seu egoísmo.
Mas o filme é também sobre Ismael e a forma como ele irá evoluir na sua experiência no manicómio, ora denotando uma tremenda agressividade para com as mulheres - e a terapeuta interpretada por Catherine Deneuve num pequeno papel bem lhe atura as cenas emotivas - , ora sentindo por uma parceira de infortúnio (Arielle) uma notória solidariedade.
E outros personagens complexos se vão sucedendo: Jean Jacques, o impotente noivo de Nora; Elizabeth, a problemática irmã de Ismael, responsável pelo seu internamento, que o acusa de ele ter pretendido obrigá-la a ser outra que não ela; Chloe, a não menos desequilibrada irmã de Nora, que vive no fio da navalha e na maior das indigências; Mammane, o advogado de Ismael, viciado em comprimidos alucinogéneos; Christian, o novo líder do quarteto a que ele pertencia, e decidido a empurrá-lo para o manicómio como forma de eliminá-lo da direcção criativa desse grupo; Virag, o editor de Louis, que é indiferente ao sofrimento e à iminente morte do autor, para só se interessar pelos seus escritos derradeiros, o pai do músico, que domina em Roubaix os mais desesperados delinquentes, quando lhe procuram assaltar a mercearia.
O filme não se reduz, pois às excelentes interpretações de Emmanuelle Devos e de Mathieu Amalric. Todos os personagens, mesmo secundários, têm direito à expressão da sua complexidade própria e ostentam por isso a sua própria substância.
«Reis e Rainha», o filme sobre que aqui escrevo, é um belíssimo título do realizador Arnaud Desplechin. Que dá sobeja demonstração da superioridade do cinema europeu, quando trata as pessoas com o respeito devido à sua consistente realidade íntima…

KEVIN CARTER: A OBSCENA DICOTOMIA DE UMA FOTOGRAFIA

É uma fotografia terrível já com catorze anos: no Sudão uma miúda já não tem forças para chegar ao campo de refugiados a um quilómetro dali e tomba de exaustão, de derrota. Ali perto, um abutre aguarda: ele sabe quão pouco falta para ter acesso a um a nova refeição.
O autor desta fotografia, premiada em 1994 com o Pulitzer, foi o sul-africano Kevin Carter, que já parecia vacinado contra todos os terrores por si presenciados em sucessivos cenário de guerra. E só sobreviveria quatro meses a essa consagração, já que deprimido pelo facto de não ter ajudado a criança a encontrar a salvação, se suicidou com monóxido de carbono com apenas 33 anos. Na nota, que acompanhou o seu gesto derradeiro, ele confessava o paradoxo de se sentir como outro urubu na mesma imagem: tal qual o necrófago, ele aguardara longos minutos pelo voo rasante da ave até se decidir a captar assim a imagem e a afastar depois o urubu…
Jornalista com consciência, Kevin Carter não se conformara com o seu papel face a um drama humano, que o ultrapassava.
No drama da criança exangue está bem presente essa obscena dicotomia entre um ocidente abastado e voyeur perante um cenário africano pejado de terríveis vinganças…

quarta-feira, abril 04, 2007

UMA CAMPANHA DE QUEM NÃO TEM MAIS ARGUMENTOS

Na campanha, que se vem atiçando contra o Primeiro-ministro e contra o Governo por ele dirigido - por coincidência particularmente intensa desde o fracasso da OPA da SONAE sobre a PT - existem três vertentes, que estão a ser intensamente exploradas:
· a primeira tem a ver com o aeroporto da OTA. Aos comentadores de pouco importa que os anteriores Governos e os respectivos titulares tenham sido, igualmente, apoiantes da existência de um novo aeroporto na margem norte do Tejo. Descoberta uma arma de arremesso com aparente potencial, os antigos apoiantes da ideia mudam de direcção e enfatizam os argumentos de quem agora vem propor exactamente o contrário. É caso para dizer que não fizeram, nem querem deixar fazer;
· a segunda relaciona-se com o perfil académico de José Sócrates e lembra a campanha difamatória, que lavrou na sombra antes das anteriores legislativas. Nessa altura, e bem, o Primeiro-ministro respondeu com o silêncio aos boatos indignos, que exploravama a tese da sua suposta ambiguidade sexual. Como então, o que está em causa não é a, por demais demonstrada capacidade do político para exercer o mister da governação, mas procurar enlameá-lo com a perfídia da suspeição para eventualmente lhe tolher a conhecida determinação.
· a terceira e mais recente estratégia decorre das supostas pressões de assessores do Governo para condicionarem a informação dos jornais e das televisões. Assim, um texto como este lavrado por alguém que nada tem a ver com o Governo, nem sequer conhece um único dos seus elementos, é logo tido como pressão inadmissível do Governo, mesmo que seja tão só o direito de expressão de um cidadão preocupado com o papel perverso de uma comunicação social em manifesta desigualdade de tratamento perante os protagonistas da nossa actividade política.
O que, hoje, a nível político se verifica é a explicita constatação pelos resultados da eficácia da acção política do Governo, sem dar azo às Oposições para se mostrarem credíveis em estratégias de interesse nacional alternativas.
E é essa a razão fundamental para a insidiosa tentativa de manipulação, que blogs, jornais e televisões ensaiam como forma de chegarem aos seus fins sem olharem a meios,

segunda-feira, abril 02, 2007

XANANA AO SERVIÇO DOS INTERESSES AUSTRALIANOS

É cada vez mais óbvia a estratégia de Xanana Gusmão para o seu futuro político em Timor Leste.
A História tem destas coisas: heróis de pés de barro, que pretendem modificar o curso dos acontecimentos por conta do papel mistificador neles previamente vincado.
Sobre o suposto heroísmo de Xanana ainda muito está por demonstrar: as vicissitudes do turbulento processo, que conduziu à independência levou-o a representar um papel muito mais relevante do que resultaria das suas capacidades e convicções.
Está quase esquecido para a maioria, mas há quem não esqueça a estupefacção com que foram recebidas palavras suas de apelo à submissão ao invasor indonésio, quando ainda estava preso e havia quem lhe queria atribuir a grandeza de um Mandela.
Estará, igualmente, por esclarecer o papel desempenhado na sombra por Kirsty Sword, cuja intervenção política mais se assemelha à de uma agente infiltrada australiana na política timorense do que à de primeira dama.
Não é por acaso, que a conspiração terminada com a queda de Mari Alkatiri como primeiro-ministro, teve origem na firmeza com que este político defendeu os interesses do seu país quanto à distribuição das reservas petrolíferas na plataforma continental, que separa Timor Leste da Austrália e que esta viu urgência em derrubar.
Infelizmente o papel do país dos cangurus é demasiado interventor na política timorense, o que pode conduzir à derrota política da Fretilin. Mas Xanana enquanto herói da independência timorense é cada vez mais uma dúvida legítima que assalta quem o vê como mera marioneta dos interesses do seu influente vizinho.

sábado, março 31, 2007

CÍRCULOS LABIRINTICOS

Há dias a SIC Notícias apresentou uma reportagem, que obedecia a um dos estereótipos intemporais de todas as culturas: a da decadência das juventudes perdidas em relação aos valores moralmente superiores das gerações anteriores. Nesse trabalho televisivo os protagonistas eram adolescentes, que pouco ou nada se dedicavam ao estudo e orientavam todas as suas preocupações para a imagem virtual de si mesmos agora potenciada preferencialmente através da net.
Uma dessas criaturas era uma rapariga de 16 anos, que deixou de estudar e, com o apoio da mãe, estava apostada em ser cantora de sucesso. Por isso o seu programa de eleição, aonde contava chegar mais tarde ou mais cedo, era o «Academia das Estrelas».
A ingenuidade trágica dessa ambição impressionava, porquanto ela não entendia a vacuidade dos seus esforços, idênticos aos de milhares de outras raparigas exactamente iguais a si, e cujas probabilidades de sucesso - mesmo que medíocre - eram quase nulas.
O filme de Emmanuelle Bercot, «Backstage», evoca uma realidade semelhante através do percurso de Lucie, uma fã obsessiva de Lauren Waks, uma das cantoras de sucesso do seu tempo.
Importa dizer que a interpretação de Isild Le Besco no papel de Lucie é um dos poucos aspectos interessantes do filme, porque o seu próprio rosto traduz uma áurea de sofrimento condizente com o lado masoquista do seu percurso. Nesse aspecto ela ofusca por completo Emmanuelle Seigner, que nunca se consegue libertar do estado catatónico do seu tipo de personagem, comum aliás a outros da sua filmografia.
Mas a cena que, porventura, mais fica do filme é o seu final: depois de ter convivido com a cantora durante algumas semanas, Lucie foi empurrada para o quotidiano medíocre da sua aldeia, já com um filho nos braços e conformada com o seu destino de modesta empregada por conta de outrem.
Para trás fica a descoberta do lado sombrio da vida de palco, com a crise de afectos, os caprichos, as contradições, as pressões dos empresários e dos fãs numa súmula do que tem sido tema de muitos outros filmes.
É a ilusão da imagem como corolário dos mecanismos de transferência de identidade entre pessoas incapazes de saírem do círculo labiríntico das suas frustrações e que ora resulta numa explosão de violência, ora no conformismo de quem se realinha com a massa informe de uma população apática perante a sua própria incapacidade para chegar à Utopia...

quarta-feira, março 28, 2007

UM RUMO DETERMINADO

Na «Pública» de ontem há uma crónica da Faiza Hayat, que diz algo de muito pertinente: Não há como os enigmas para atrair a atenção do público. Um cantor medíocre, cujo rosto ninguém conhecia, porque antes ninguém reparava nele, coloca uma mascara e de um momento para o outro todos passam a ouvi-lo.
É lamentável, mas é assim desde que o mundo é mundo. E é daquelas coisas, que dificilmente irão mudar. Ou não existisse a palavra «manipulação» para a caracterizar. Até uma das ferramentas de gestão, o Marketing, não faz outra coisa senão acicatar o interesse dos consumidores em função do enigma ou de algo de semelhante, que relacione com uma determinada marca.
Bem podem existir programas como o excelente «Arrêt sur Images» do Daniel Schneidermann na televisão francesa, que nem por isso se conseguem espectadores mais competentes na dissociação dos conteúdos transmitidos a nível da informação nas suas diversas vias de interpretação.
É por isso que decorre a nível político - território por excelência desse tipo de estratégias condutoras das opiniões colectivas - um claro combate de argumentos quantas vezes falaciosos, mas tendo apenas um único objectivo: a assumpção tão plena quanto possível dos recursos conferidos pelo poder político por diferentes lobbies, que advogam ideias e conceitos amiúde completamente à revelia dos seus verdadeiros objectivos.
Quem não se recorda do quase total alinhamento à esquerda de todas as forças políticas surgidas no pós-25 de Abril?
Quando, por isso mesmo, os comentadores políticos anti-Governo apostam em denegrir as políticas de José Sócrates, acusando-as de se restringirem a mera propaganda, estão a usar exactamente as mesmas estratégias de que se pretendem críticos virtuosos.
Mas, a esse título, tais agentes políticos devem ser confrontados com uma questão fundamental: se em vez de denegrirem as acções governamentais com argumentos alternativos credíveis, não estariam a ser mais honestos e, sobretudo, mais eficazes na função democrática, que dizem representar?
Na realidade, eles parecem repetir a mesma fórmula até à exaustão por escassearem-lhes essas fundamentações, seja porque se assumem claramente como porta-vozes dos tais interesses lobbistas, que lhes pagam para os representar, seja porque exige-se muito menos trabalho na maledicência do que se faz do que em propor alternativas construtivas.
Mas alguns que, cobardemente, se escondem por trás da difamação e do insulto fácil, vão mais longe e tudo fazem para alcançar um verdadeiro assassínio de carácter. Quem esquece os boatos torpes sobre a ambiguidade da escolha sexual do primeiro-ministro, quando se estava em vésperas das últimas eleições legislativas? E quem está interessado em explorar essa vergonhosa campanha sobre o título académico do mesmo governante?
Estas campanhas destinadas a macular a reputação de José Sócrates só têm uma causa muito clara: o seu trabalho está a produzir resultados, como se constatou com a redução do défice para 3,9%, e os que viram os seus interesses equacionados com a viragem política em curso não olham a meios para, insidiosamente, travar os seus efeitos.
A melhor resposta a tais intentos tem sido a que o Governo tem assumido ao longo deste ciclo político: ficar indiferente às críticas não fundamentadas e prosseguir com o rumo determinado que o caracteriza.

quarta-feira, março 21, 2007

PASSAGE DU NORD-OUEST - UNE EXPÉDITION DANS LES GLACES POLAIRES

Em 2005, o realizador alemão Gunther Scholz acompanhou a equipa do navegador Arved Fuchs na conquista da passagem do Noroeste, um caminho marítimo quase mítico aberto por Amundsen em 1906. Uma aventura, que confronta esses homens e essas mulheres com os gelos e com o frio mais intenso em paisagens imaculadamente brancas.
Há cinco séculos que essa passagem era procurada por marinheiros, comerciantes e aventureiros europeus, apostados em encontrar um caminho marítimo de acesso à Ásia, que evitasse as rotas pelo hemisfério sul. A única solução era atravessar o oceano Árctico.
Mesmo depois de Amundsen não foram muitos os barcos, que repetiram a façanha. A aventura do veleiro «Dagmar Aaen» dura catorze meses e passa por um fracasso inicial, que obriga ao recurso de ajuda de um quebra-gelos. Mas a persistência e alguma sorte acabam por levar ao objectivo pretendido...

segunda-feira, março 12, 2007

AGNÉS BERT: TU SERÁS UM HOMEM, FILHA!

«Tu serás un homme, ma fille» foi o documentário transmitido pela Arte para celebrar a efeméride. Da autoria de Agnés Bert mostra como em zona recôndita da Albânia existe um costume singular: certas mulheres são instadas a, desde a puberdade, a assumirem uma identidade masculina.
A realizadora entrevistou algumas delas para perceber o que esteve na génese de tão singular opção: nuns casos a razão parece ter a ver com uma efectiva masculinidade genética, mas noutros casos tratou-se de uma imposição paterna com tudo o que essa vontade pressupunha numa sociedade profundamente patriarcal.
O que parece evidente é a desconfiança dos conterrâneos pela ambígua postura dessas mulheres-homens, que revelam até competência em tarefas comummente destinadas aos homens (mecânicos, motoristas, pastores). Mas o interesse maior do documentário reside na capacidade da realizadora para tudo isso traduzir em imagens cuidadas, com enquadramentos bem recortados…
Segundo a revista de programas do canal franco-alemão este filme merece a seguinte recensão:
Num jardim verdejante com ervas daninhas, um velho seco de carnes apanha uma galinha e decepa-a com um machado. Mas haki não gosta de depenar a criação: «antes dos 40 anos nunca fiz trabalhos de mulher. Agora, que vivo sozinho, vou ter de me habituar»
A sua silhueta longilínea, o cigarro permanentemente na boca e o fato de homem são características enganadoras: Haki é uma mulher.
Nas aldeias do nordeste albanês, à volta de Bajram Curri - elas são várias a viverem como homens. A tradição a tal as autoriza - ou mais precisamente o «kanun», lei arcaica que rege as relações sociais há vários séculos. Nas famílias que tenham perdido um pai ou um filho, uma rapariga poderá preencher o papel de chefe de família. E as que se recusem a submeter-se à sua dura condição de mulher podem igualmente adoptar esse estatuto masculino. Na condição de jurarem ser eternamente virgens.
Haki, Solol, Shkurtan e Samic fizeram essa escolha. Por vontade própria, para ajudar as famílias, por sede de liberdade - frequentemente uma subtil mistura das três. Renunciaram ao casamento, à maternidade, ao amor. Em troca, ganharam o direito de ir aonde lhes apeteça., de não se submeterem a um marido ou a um irmão.
À força de obstinação e de trabalho ganharam o respeito de todos.
Neste belo recanto dos Balcãs, a realizadora encontrou diversas mulheres apostadas em serem homens. Entre elas, destacam-se os rostos de Haki, Samie, Sokol e Shkurtan.
Samie, que deve andar pelos cinquenta anos, é a mais nova. As outras três mulheres são da geração anterior.
Sozinhas ou rodeadas de familiares, sob as árvores dos jardins ou no interior de casa, cada uma revela-se: porque fizeram essa opção, como viveram, que espaço ocupam na comunidade.
Numa sociedade ainda largamente dominada pelos homens, há algo que se repete. «não tinha vontade de sofrer como todas as mulheres», dizem em uníssono.
A necessidade de dirigir a família depois da morte de um pai ou de um irmão só deu o álibi para essa decisão. Agnés Bert encontrou a distância necessária para filmar essas palavras: sem exagerado voyeurismo e com uma autêntica generosidade.
Confiantes, as mulheres revelam-se amiúde divertidas…
O cenário dessas confidencias é o de uma região magnífica: as folhas rumorejam e filtram uma belíssima luz de Verão. O que só aprofunda a impressão de serenidade inerente a esses testemunhos, quando se sabe quão difíceis terão sido os passados de tais mulheres...

UM GRINGO A SUL DO RIO BRAVO

George W. Bush decidiu visitar a América Latina. Agora que o seu segundo mandato já se precipita para o fim, ele decide dar alguma atenção a um sub continente quase sempre esquecido das suas preocupações. Excepto quando cria acrescidos entraves à emigração mexicana ou quando se trata de insultar os presidentes cubano ou venezuelano. É, pois, natural a recepção de que se vê alvo: nas grandes metrópoles por onde vai passando sucedem-se manifestações contra a sua presença. Ele é o Grande Satã com odor a enxofre como o acusa Hugo Chavez. E a verdade é que uma maioria significativa de latino-americanos acredita nisso mesmo. Em mais de seis anos de mandato ele só conseguiu agravar a opinião anti-imperialista assumida pela comunidade internacional…

UMA MANUAL DE HISTÓRIA COMUM?

Não me merece grande entusiasmo a notícia de um Manual de História comum a todos os jovens estudantes europeus, conforme consta de um projecto alemão, que conta com o acordo da França e da Espanha.
Não é que tenha perdido o entusiasmo por uns futuros Estados Unidos da Europa em que as diferenças nacionais se diluam em proveito de uma identidade comum. O receio é que um Manual como o agora proposto venha eivado de preconceitos ideológicos inerentes a quem dele seja incumbido.
Por exemplo seria equilibrado em relação a todos os anos de «socialismo» na Europa de Leste ou repetiria as habituais receitas anticomunistas primárias?
Por ora justifica-se a divulgação de conceitos diversificados, que dê espaço a leituras menos canónicas dos factos do passado…

domingo, março 11, 2007

EMBAIXADA PORTUGUESA EM BAGDAD: THIS IS THE END

Qual o motivo para investir recursos na representação diplomática num qualquer país?
A meu ver só duas razões justificam essa presença: ou a existência de uma importante comunidade portuguesa emigrante carecida de apoio ou um potencial económico passível de gerar retorno a curto ou médio prazo dos custos nela envolvidos.
A notícia do fecho da Embaixada no Iraque assume, a esta luz, toda a lógica. Nos tempos de Saddam, quando a maioria dos iraquianos usufruía um estilo de vida sem qualquer comparação com a insegurança e a miséria actuais, justificava-se essa presença em função dos negócios entre ambas as partes. Não seriam muitos os portugueses a trabalharem em Bagdad, mas eram os bastantes para fundamentar um esforço financeiro a nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Agora, pelo contrário, existe uma total insegurança, que compromete a vida de quantos ali prestam serviço, e ninguém no seu juízo perfeito antevê a possibilidade de estabelecer parcerias comerciais com quem que seja nesse país destroçado.
Quem poderá, pois, considerar justificável a manutenção de tal Embaixada? Pelos vistos, apenas quem vê em qualquer facto o argumento para arremessar atoardas contra o Governo. Como sucede com a actual liderança do PSD…
Existe alguma expectativa de recuperação de qualquer euro consumido com representantes diplomáticos em Bagdade? O seguidismo face à Casa Branca e ao seu desacreditado ocupante justifica posições políticas apenas movidas pela necessidade de querer dar uma aparência de normalidade ao que o não tem: a actual sociedade iraquiana?
Numa altura em que se quer menos despesa pública é completamente justificável a decisão de eliminar embaixadas e consulados aonde os custos estejam longe de ser compensados pelas receitas, económicas e/ou políticas subjacentes…

terça-feira, fevereiro 20, 2007

ROMAN KARMEN: UM REALIZADOR DA UTOPIA

Andei a ver um excelente documentário sobre a carreira do realizador soviético Roman Karmen. Um cineasta, que acompanhou todas as grandes revoluções do século XX subsequentes aos anos 30. Começou ao lado de Robert Capa na Guerra Civil de Espanha por ele testemunhada do lado dos Republicanos. Prosseguiu com a Revolução Chinesa, acompanhando os primeiros passos de Mao enquanto líder dos camponeses do Yunan. Foi depois a Segunda Guerra, quer durante o terrível cerco de Leninegrado, quer durante o avanço do Exército Vermelho. Prosseguiu depois no Vietname com a derrota francesa em Dien Bien Pgu e em Cuba com a vitória dos barbudos castristas. E ainda teve teve de acompanhar a esperança chilena em torno de Salvador Allende.
O fascinante nos seus documentários é a encenação de muitas dessas imagens numa recriação destinada a reforçar-lhes o sentido da mensagem. Nos filmes de Karmen o comunismo surge como utopia exequível, deles estando dissociados o seu lado mais obscuro.
Mas, ao ver tais imagens, pude constatar quão perto esteve a História de ter um encontro com algo de genuíno e de maravilhoso. Faltou apenas um grão de asa para toda a Humanidade adoptar o comunismo como sistema político de eleição para a criação de uma sociedade mais justa e fraterna.
Talvez por ter estado tão próximo de suceder essa utopia, exista uma tão veemente propaganda anticomunista procurando reduzir essa ideia pura em algo de criminoso,
Quando se fala de comunismo dever-se-ia falar dos gulags e dos processos de Moscovo, mas também da tremenda evolução económica conhecida pelos países do Leste Europeu e da Ásia, quando nele consubstanciaram a esperança de milhões de pessoas num futuro melhor.
Nos últimos anos o comunismo tem sido apresentado no que o caracterizou na coluna do Deve, sem nunca se citar o que quer que seja do muito contido na coluna do Haver.

«MRS. HENDERSON» de STEPHEN FREARS

«Mrs. Henderson», o filme do Stephen Frears com a maravilhosa Judi Dench e o seguro Bob Hoskins foi o filme por mim escolhido para vermos às refeições deste sábado. É a história de uma velha senhora, que enviúva depois de uma grande parte da vida passada na jóia da Coroa (a Índia). Agora, muito rica e desocupada, ela decide levar por diante um projecto excêntrico: inaugurar um teatro de revista aonde as raparigas se dispam, mesmo que não se mexam (para evitar dissabores com a censura).
Liderada pelo encenador Vivian Van Damm, o Windmill Theatre ficará conhecido por nunca ter parado com os seus espectáculos durante a Guerra, enfrentando os bombardeamentos alemães com a coragem de resistir à barbárie e manter uma certa ilusão de normalidade na cidade violentada pela destruição.
O filme alterna números musicais com as disputas constantes entre Laura e Vivian numa relação, que tem tanto de tensa, como de afectuosa. E a comédia alterna com a tragédia de quem padece as agruras da época, mormente - e aqui em consonância com as palavras da página anterior - uma gravidez indesejada acabada inevitavelmente em morte...