quarta-feira, novembro 06, 2024

HISTÓRIAS EXEMPLARES (XILIV): VENEZA DURANTE A ACQUA ALTA

 

Soube da existência de Donna Leon num documentário sobre a soprano Joyce DiDonato que com ela se passeava pelos canais de Veneza para desembocarem no Teatro La Fenice tão importante para ambas: à cantora por aí ter tido desempenhos operáticos, que lhe ficaram gratos na memória, à escritora por ali ter situado a aventura do comissário Guido Brunetti responsável por torná-la conhecida no universo da literatura policial.

Sei que na altura fui procurar esse romance, li-o e gostei, mas não o bastante para demandar outras obras da escritora.

Agora, um pouco por acaso, veio-me parar às mãos o Acqua Alta, publicado em 1996 e, entretanto objeto de adaptação televisiva. E o nível de agrado foi semelhante porque, por um lado, quase nos sentimos a percorrer os labirintos de Veneza pelos pés do protagonista, como está em causa uma sucessão de crimes relacionados com falsificações de peças de cerâmica chinesas objeto de exposição na cidade dos doges, o que nos permite ser mimoseados com umas quantas informações curiosas sobre a sua natureza e história.

Como de costume em quem gosta de ter a música erudita como banda sonora dos seus dias, Donna Leon escolhe como coprotagonistas uma cantora do Scala e a sua amante norte-americana, perita na arte oriental, que justifica os crimes de um chefe da máfia siciliana desejoso de se fazer aceitar pela distinta sociedade do norte da Itália.

E pelo meio umas alfinetadas profundas no carácter da generalidade dos italianos, que justifica a razão porque, continuando a viver nas margens da laguna, Donna Léon proíbe a tradução dos seus romances na língua por eles falada.

Depois é o costume no género: quando o pior parece vir a acontecer ocorre uma reviravolta, que castiga os criminosos e devolve a tranquilidade aos que pareciam engrossar o número das suas vítimas. Mas isso é de somenos importância! 

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