1. A
realidade tornou-se um território onde tudo se sobrepõe sem aviso, como se cada
acontecimento surgisse deslocado do seu próprio contexto e exigisse um esforço
suplementar para ser compreendido. Há momentos em que o mundo parece avançar
por impulsos contraditórios, ora oferecendo clareza, ora mergulhando tudo numa
opacidade difusa que torna difícil distinguir o que importa do que apenas ocupa
espaço. A coexistência de sinais que apontam em direções divergentes obriga a
uma atenção quase microscópica para perceber o que realmente está em jogo. A
cultura, a política, a memória e até os pequenos episódios do quotidiano surgem
como fragmentos de um mosaico que nunca se completa, mas que, ainda assim,
permite entrever uma coerência mínima que impede o caos de se instalar por
completo. É nesse intervalo — entre o excesso e a falta, entre o ruído e o
silêncio — que o olhar tenta encontrar um ponto de apoio, mesmo sabendo que ele
pode desaparecer a qualquer instante.
2. Não li
O Filho de Mil Homens quando surgiu nos escaparates há mais de uma
década, mas faço-o agora com a expectativa de reencontrar aquilo que se tornou
habitual na escrita de Valter Hugo Mãe: histórias singelas traduzidas em frases
que surpreendem pela precisão com que fixam emoções e obrigam a interromper a
leitura para as reler, como se cada uma contivesse uma pequena revelação.
A narrativa abre-se com Crisóstomo, pescador que se sente incompleto e anseia por um filho, numa linha que Alberto Manguel aproxima de Gepeto e Pinóquio. O filho será Camilo, órfão de catorze anos, bom em matemática e tornado ainda mais solitário pela morte do avô. É ele quem incita o pai adotivo a tornar-se no dobro, levando-o a partilhar a vida com uma mulher igualmente marcada pela natureza e a quem Crisóstomo pedira apoio para cumprir a sua vontade. Ainda é pouco ao fim do primeiro capítulo, mas já se abrem múltiplas possibilidades para as mais de duzentas páginas que aguardam pela frente, como se a narrativa estivesse apenas a preparar o terreno para algo maior, ainda por revelar.
4. Releio
um texto antigo sobre um livro de Elizabeth Strout e regressa um sentimento que
se tornou mais nítido nesta fase em que o quase‑setuagenário começa a tomar
forma: mesmo numa vida onde há muito de que me posso sentir gratificado,
permanece a consciência de que tantas coisas poderiam ter acontecido de outra
maneira se tivesse sido mais sensato, mais atento às expectativas de quem partilhou
comigo estes cinquenta anos. Os egoísmos, os entusiasmos momentâneos que se
apagaram como um fósforo, as decisões tomadas sem medir o alcance, tudo compõe
um inventário silencioso do que poderia, e talvez devesse, ter sido diferente
se eu tivesse correspondido melhor ao que a vida pedia. E não chega a ser
melancolia o que emerge ao constatá-lo; é apenas o reconhecimento sereno da
impossibilidade de voltar atrás e corrigir o que mereceria outra forma, como se
a maturidade consistisse precisamente em aceitar que a vida se escreve sem
rascunho e que cada falha, por mais pequena, deixa sempre um rasto que não se
apaga.
5. Numa conversa com Luís Caetano, Lídia Jorge distingue dois tipos de escritores: os escritores‑sombra, que se fixam no passado e na História tal como é comummente reconhecida, e os escritores‑antena, que se orientam pelos sinais do presente e procuram neles a prefiguração do que ainda não aconteceu. Ela situa‑se no segundo grupo, como se a literatura fosse uma forma de captar frequências que a maioria não escuta. Eu dir‑me‑ia colocado nas duas margens: no vivido, que oferece esclarecimentos para interpretar o presente, e nesses prenúncios de tempos vindouros que leio através dos conceitos do marxismo, que continuo a não ver razões para pôr em causa. Há uma tensão produtiva entre estas duas posições — a sombra que explica e a antena que anuncia — e talvez seja nela que a escrita encontre o seu lugar, não como profecia nem como memorial, mas como tentativa de compreender o que se move entre o que já foi e o que ainda não chegou.

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