1. Há dias em que a atenção se fixa menos no acontecimento isolado do que na forma como ele se inscreve no quotidiano, como se cada gesto ou imagem revelasse uma camada suplementar do mundo. O início de março tem mostrado essa acumulação discreta de sinais vindos de lugares distintos — um concerto, um documentário, uma série policial — todos funcionando como variações de um mesmo tema: a dificuldade de distinguir o essencial do acessório, o verdadeiro do fabricado, o que permanece do que apenas brilha por instantes. O mundo tornou-se um vasto campo de ruído onde, ainda assim, subsistem pequenas clarezas, pequenos focos de sentido que resistem à dispersão. Procurá-los tornou-se quase um exercício de sobrevivência intelectual, uma forma de manter o olhar firme num tempo que parece querer dissolver tudo.
2. Ao
passar pela obra literária do romeno Cristian Fulaș e pelos filmes do croata Vinko Brešan, emerge a sensação de
desencontro entre gerações que já não reconhecem os regimes ditos comunistas,
porque não os viveram ou deles guardam apenas ecos difusos. Fulaș encontra na natureza selvagem e nos costumes ancestrais das
aldeias remotas sinais da forma inconsciente como o povo mais simples se opôs
ao regime de Ceaușescu, enquanto Brešan imagina o
fantasma de Tito a descer benignamente sobre uma comunidade de pescadores, como
se a memória histórica só pudesse regressar sob a forma de fábula.
A
distância temporal produz uma ironia quase inevitável: as gerações mais novas
satirizam a vertente ditatorial desses sistemas, ignorando os momentos em que
pais e avós terão sentido na ideologia emergente uma esperança capaz de romper
a condenação histórica de serem sempre escravos dos mesmos exploradores.
Houve um
instante em que a utopia pareceu coincidir com a realidade, e essa
coincidência, por breve que tenha sido, marcou profundamente quem a viveu.
Trágicas foram as formas como os objetivos iniciais se desvaneceram, resultando
em desaires que, no caso romeno, tiveram tanto de grotesco como de recuo
efetivo perante as promessas da História.
O
mecanismo é eficaz, mas de uma eficácia perversa. Os frustrados com esta fase
do sistema podem reconhecer-se em alguns aspetos do diagnóstico, mas tudo é
construído para os afastar das soluções estruturais e para os seduzir com
quimeras: a promessa de uma moeda virtual que abriria o acesso a tudo quanto
lhes é hoje inacessível.
A
estratégia acrescenta ainda a falta de escrúpulos de apresentar essa promessa
como mera economia, despolitizando o que é profundamente político. A
publicidade transforma-se assim num espelho distorcido do mal‑estar social,
oferecendo não uma saída, mas um desvio que protege o sistema que a gerou.
4. Não é
apenas no policial que surge a curiosidade de perceber a mecânica interna que
torna uma narrativa mais ou menos apetecível; o humor obedece a lógica
semelhante, exigindo uma combinação precisa de sugestão, ritmo e elipse.
Hoje, ao
ouvir Ricardo Araújo Pereira no podcast de Ana Sá Lopes, surgiu um exemplo
lapidar dessa construção invisível que sustenta a graça de uma história bem
contada. Recordou-se o encontro entre Fernando Pessoa e António Botto numa rua
de Lisboa, com Botto entusiasmado, de braço dado a um marinheiro. Pessoa,
talvez dividido entre o escândalo e o divertimento, terá perguntado se aquilo
fazia sentido numa Sexta‑feira Santa, e Botto, com a leveza de quem encontra
sempre a resposta certa, terá replicado que marinheiro não era carne, era
peixe.
A piada
funciona não pelo explícito, mas pelo que deixa suspenso, pelo modo como
convoca um imaginário inteiro sem o nomear. O humor, quando eficaz, nasce dessa
economia extrema: diz pouco, sugere muito e confia no leitor para completar o
resto.
5. Um
documentário sobre a importância de A Honra Perdida de Katharina Blum no
momento da sua publicação devolve inevitavelmente ao ano de 1974, quando os
acontecimentos intramuros deixavam pouco espaço para acompanhar o que se
passava no resto da Europa. E, no entanto, nessa Alemanha escassamente
desnazificada — onde até o presidente da República tinha sido notório membro
das SS — a obra de Heinrich Böll mostrava como a literatura pode ser
determinante para analisar o estado momentâneo das coisas e denunciar o que
nele se revela mais odioso.
A forma
como a imprensa do grupo Springer manipulava consciências, normalizando a
condenação à morte daqueles que rotulava como “terroristas”, expunha um
mecanismo de violência simbólica que se tornava quase indistinguível da
violência física. Ainda hoje permanecem por identificar e punir os responsáveis
pelas mortes de Andreas Baader e Ulrike Meinhof, como se a história tivesse
decidido preservar uma zona de sombra onde a verdade não chega.
O livro
de Böll continua a lembrar que a ficção, quando se aproxima demasiado da
realidade, pode iluminar o que o discurso oficial tenta ocultar.

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