quarta-feira, abril 22, 2026

O Ruído e os Sinais

1. Há dias em que a atenção se fixa menos no acontecimento isolado do que na forma como ele se inscreve no quotidiano, como se cada gesto ou imagem revelasse uma camada suplementar do mundo. O início de março tem mostrado essa acumulação discreta de sinais vindos de lugares distintos — um concerto, um documentário, uma série policial — todos funcionando como variações de um mesmo tema: a dificuldade de distinguir o essencial do acessório, o verdadeiro do fabricado, o que permanece do que apenas brilha por instantes. O mundo tornou-se um vasto campo de ruído onde, ainda assim, subsistem pequenas clarezas, pequenos focos de sentido que resistem à dispersão. Procurá-los tornou-se quase um exercício de sobrevivência intelectual, uma forma de manter o olhar firme num tempo que parece querer dissolver tudo.

2. Ao passar pela obra literária do romeno Cristian Fulaș e pelos filmes do croata Vinko Brešan, emerge a sensação de desencontro entre gerações que já não reconhecem os regimes ditos comunistas, porque não os viveram ou deles guardam apenas ecos difusos. Fulaș encontra na natureza selvagem e nos costumes ancestrais das aldeias remotas sinais da forma inconsciente como o povo mais simples se opôs ao regime de Ceaușescu, enquanto Brešan imagina o fantasma de Tito a descer benignamente sobre uma comunidade de pescadores, como se a memória histórica só pudesse regressar sob a forma de fábula.

A distância temporal produz uma ironia quase inevitável: as gerações mais novas satirizam a vertente ditatorial desses sistemas, ignorando os momentos em que pais e avós terão sentido na ideologia emergente uma esperança capaz de romper a condenação histórica de serem sempre escravos dos mesmos exploradores.

Houve um instante em que a utopia pareceu coincidir com a realidade, e essa coincidência, por breve que tenha sido, marcou profundamente quem a viveu. Trágicas foram as formas como os objetivos iniciais se desvaneceram, resultando em desaires que, no caso romeno, tiveram tanto de grotesco como de recuo efetivo perante as promessas da História.


3. A publicidade de uma das maiores insígnias norte‑americanas de criptomoedas, dirigida ao mercado britânico, retoma um discurso que se tornou familiar nas extremas-direitas contemporâneas: a ideia de que tudo está irremediavelmente errado nas sociedades atuais e de que a solução reside numa nova forma de capitalismo capaz de se reinventar e adiar, uma vez mais, o previsível definhamento.

O mecanismo é eficaz, mas de uma eficácia perversa. Os frustrados com esta fase do sistema podem reconhecer-se em alguns aspetos do diagnóstico, mas tudo é construído para os afastar das soluções estruturais e para os seduzir com quimeras: a promessa de uma moeda virtual que abriria o acesso a tudo quanto lhes é hoje inacessível.

A estratégia acrescenta ainda a falta de escrúpulos de apresentar essa promessa como mera economia, despolitizando o que é profundamente político. A publicidade transforma-se assim num espelho distorcido do mal‑estar social, oferecendo não uma saída, mas um desvio que protege o sistema que a gerou.

4. Não é apenas no policial que surge a curiosidade de perceber a mecânica interna que torna uma narrativa mais ou menos apetecível; o humor obedece a lógica semelhante, exigindo uma combinação precisa de sugestão, ritmo e elipse.

Hoje, ao ouvir Ricardo Araújo Pereira no podcast de Ana Sá Lopes, surgiu um exemplo lapidar dessa construção invisível que sustenta a graça de uma história bem contada. Recordou-se o encontro entre Fernando Pessoa e António Botto numa rua de Lisboa, com Botto entusiasmado, de braço dado a um marinheiro. Pessoa, talvez dividido entre o escândalo e o divertimento, terá perguntado se aquilo fazia sentido numa Sexta‑feira Santa, e Botto, com a leveza de quem encontra sempre a resposta certa, terá replicado que marinheiro não era carne, era peixe.

A piada funciona não pelo explícito, mas pelo que deixa suspenso, pelo modo como convoca um imaginário inteiro sem o nomear. O humor, quando eficaz, nasce dessa economia extrema: diz pouco, sugere muito e confia no leitor para completar o resto.

5. Um documentário sobre a importância de A Honra Perdida de Katharina Blum no momento da sua publicação devolve inevitavelmente ao ano de 1974, quando os acontecimentos intramuros deixavam pouco espaço para acompanhar o que se passava no resto da Europa. E, no entanto, nessa Alemanha escassamente desnazificada — onde até o presidente da República tinha sido notório membro das SS — a obra de Heinrich Böll mostrava como a literatura pode ser determinante para analisar o estado momentâneo das coisas e denunciar o que nele se revela mais odioso.

A forma como a imprensa do grupo Springer manipulava consciências, normalizando a condenação à morte daqueles que rotulava como “terroristas”, expunha um mecanismo de violência simbólica que se tornava quase indistinguível da violência física. Ainda hoje permanecem por identificar e punir os responsáveis pelas mortes de Andreas Baader e Ulrike Meinhof, como se a história tivesse decidido preservar uma zona de sombra onde a verdade não chega.

O livro de Böll continua a lembrar que a ficção, quando se aproxima demasiado da realidade, pode iluminar o que o discurso oficial tenta ocultar. 

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