quinta-feira, abril 23, 2026

O Mago do Kremlin, de Olivier Assayas (2025) O poder e os seus arquitetos

 

Há uma distinção que importa fazer antes de entrar neste filme: Putin não é Trump. É uma evidência que a geopolítica corrente tende a esbater, colocando os dois no mesmo saco do autoritarismo populista. Mas a confusão é enganosa. Trump é um narcísico infantil, movido pelo ego e pelo espetáculo, sem arquitetura ideológica consistente. Putin é outra coisa: um homem de lógica fria, racional até à crueldade, capaz de acusar Zelensky de protonazismo com a mesma serenidade com que financia alguns dos mais sinistros partidos de extrema-direita europeus.

A contradição não o perturba — é instrumental. E é precisamente essa racionalidade dissociada de qualquer escrúpulo que torna Putin uma figura politicamente mais perigosa e intelectualmente mais interessante do que o seu congénere americano.

É para responder à questão de quem é Putin, como apareceu na paisagem política russa e quem o ajudou a instalar-se no Kremlin, que o consultor político italo-suíço Giuliano da Empoli escreveu O Mago do Kremlin, obra de ficção com alicerces na realidade, publicada em 2022, pouco antes do início da guerra na Ucrânia. Da Empoli é também autor de Os Engenheiros do Caos, ensaio sobre como certos operadores políticos manipulam e controlam as emoções coletivas em proveito do poder — um tema que atravessa igualmente este romance e a sua adaptação cinematográfica.

Vadim Baranov — réplica ficcional de Vladislav Surkov, o ideólogo que durante anos foi a eminência parda de Putin — é apresentado como jovem encenador de vanguarda nos meios culturais dos anos 90, depois homem forte de uma televisão privada de um oligarca, e finalmente figura central da máquina de propaganda do Kremlin. Imerso no coração do sistema, Baranov torna-se o arquiteto da propaganda da nova Rússia, moldando discursos, fantasias e perceções, esbatendo as fronteiras entre a verdade e a ficção, a crença e a estratégia.

É um retrato que interessa precisamente porque não é de um monstro — é de um intelectual que escolheu servir o poder com a mesma dedicação com que poderia ter feito teatro.

O filme não impõe uma leitura ao espectador. O próprio Assayas, em entrevista no Festival de Roterdão, recusou fazê-lo: "O máximo que um realizador pode fazer é colocar as questões certas." É uma postura honesta, que se traduz numa abordagem onde Putin surge inicialmente como um funcionário "normal", que precisa de muita persuasão para "salvar o país" — e é nessa humanização controlada que reside tanto a força como a polémica do filme. O realizador alterou o final em relação ao livro, optando por um fecho moralmente mais convencional, que tranquiliza o espetador mas enfraquece a ambiguidade original — a que tornava o romance verdadeiramente perturbador.

O filme peca por ser longo e por vezes inerte. A crítica convergiu nesse ponto: ritmo pesado, personagens pouco desenvolvidos, e um Jude Law que é perturbadoramente eficaz sempre que aparece — mas de menos para justificar a duração. Paul Dano, por seu lado, é reduzido pelo argumento a mais testemunha do que participante, o que empobrece a figura de Baranov face à sua complexidade no livro.

Mas há um mérito que não se pode recusar ao filme de Assayas: alimenta a reflexão sobre como, ao implodir, a União Soviética não gerou democracias — gerou vazios de poder que figuras como Putin e os seus mágicos souberam preencher com os instrumentos do caos, da manipulação e do espetáculo. A Rússia de hoje não é uma aberração histórica: é o produto lógico de uma transição que o Ocidente celebrou sem perceber o que estava a nascer nas suas ruínas.

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