André
Malraux mereceu‑me uma antipatia precoce e justificada. Lembro‑me de folhear,
em 1968, uma edição especial da Paris Match dedicada àquela primavera e
verão intensos: o Maio de Paris, o assassinato de Robert Kennedy, a convulsão
política que atravessava o Atlântico. Numa das imagens surgia Malraux, então
ministro da Cultura de Charles de Gaulle, como protagonista da oposição àqueles
que, naturalmente, mereciam a minha simpatia. Aos doze anos, já estava bem
definido o lado da trincheira onde me situaria — e onde continuo. Malraux era,
para mim, um dos maus da fita.
A minha
opinião não se mitigou quando, já depois do 25 de Abril, vi Espoir na
sala do Universal. O seu momentâneo alinhamento com os republicanos espanhóis
durante a Guerra Civil não apagava a postura política ulterior, nem o que ela
representava. A figura pública que se consolidou no pós‑guerra — o intelectual
orgânico do gaullismo, o homem que encenava a grandeza da França como se fosse
um épico pessoal — sempre pareceu construída sobre uma mistura de oportunismo,
teatralidade e uma certa arrogância moral que nunca me convenceu.
Talvez
por isso, quando tentei ler os seus romances, achei‑os profundamente
aborrecidos. A Estrada Real, por exemplo, não consegui sequer levar até
metade. Ainda assim, abordei-o à luz do que lhe acontecera poucos anos antes de
o escrever, quando, na década de 1920, foi preso no Camboja por tentativa de
roubo de obras do património khmer. Ele, que havia esbanjado na Bolsa a fortuna
da mulher, procurava reaver a perda com a mesma falta de escrúpulos que
manifestaria ao longo da vida. A aura de aventureiro intelectual, tão celebrada
por alguns, sempre pareceu encobrir um padrão de comportamento: a facilidade
com que justificava para si próprio aquilo que condenaria nos outros.
E, no
entanto, Malraux continua a ser apresentado como um dos grandes nomes da
cultura francesa do século XX. Talvez porque a França tem uma extraordinária
capacidade de transformar figuras contraditórias em monumentos nacionais.
Talvez porque o gaullismo
precisou de intelectuais que lhe emprestassem uma legitimidade estética. Ou
talvez porque a história literária, como todas as histórias, é também feita de
conveniências, silêncios e narrativas que se tornam oficiais por repetição.
Mas a
verdade é que, para quem cresceu politicamente nos anos 60 e 70, Malraux
representava o lado errado da barricada. Não apenas por estar do lado do poder,
mas por encarnar uma certa ideia de poder: paternalista, hierárquico,
convencido da sua própria missão civilizadora. A retórica sobre a “arte que
salva” ou o “homem que se transcende” soou a uma espiritualização suspeita da
política, como se a cultura pudesse servir de absolvição moral para escolhas que
tinham consequências concretas.
Herói
para alguns, nunca dele consegui esquecer o essencial: o Malraux que se opôs
aos estudantes de 68, o Malraux que se tornou guardião de uma ordem que já
então mostrava sinais de esgotamento, o Malraux que parecia acreditar que a
cultura era um privilégio a administrar e não um direito a democratizar.
Razões
mais do que suficientes para o colocar, sem hesitação, na lista negra dos ódios
de estimação. E, ao contrário de outras figuras que o tempo me ensinou a
relativizar, Malraux permanece, para mim, como um caso exemplar daquilo que
sempre rejeitei: o intelectual que se confunde com o poder e que, ao fazê‑lo,
perde a capacidade de o questionar.

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