quarta-feira, abril 08, 2026

O Homem que Nunca Consegui Respeitar

André Malraux mereceu‑me uma antipatia precoce e justificada. Lembro‑me de folhear, em 1968, uma edição especial da Paris Match dedicada àquela primavera e verão intensos: o Maio de Paris, o assassinato de Robert Kennedy, a convulsão política que atravessava o Atlântico. Numa das imagens surgia Malraux, então ministro da Cultura de Charles de Gaulle, como protagonista da oposição àqueles que, naturalmente, mereciam a minha simpatia. Aos doze anos, já estava bem definido o lado da trincheira onde me situaria — e onde continuo. Malraux era, para mim, um dos maus da fita.

A minha opinião não se mitigou quando, já depois do 25 de Abril, vi Espoir na sala do Universal. O seu momentâneo alinhamento com os republicanos espanhóis durante a Guerra Civil não apagava a postura política ulterior, nem o que ela representava. A figura pública que se consolidou no pós‑guerra — o intelectual orgânico do gaullismo, o homem que encenava a grandeza da França como se fosse um épico pessoal — sempre pareceu construída sobre uma mistura de oportunismo, teatralidade e uma certa arrogância moral que nunca me convenceu.

Talvez por isso, quando tentei ler os seus romances, achei‑os profundamente aborrecidos. A Estrada Real, por exemplo, não consegui sequer levar até metade. Ainda assim, abordei-o à luz do que lhe acontecera poucos anos antes de o escrever, quando, na década de 1920, foi preso no Camboja por tentativa de roubo de obras do património khmer. Ele, que havia esbanjado na Bolsa a fortuna da mulher, procurava reaver a perda com a mesma falta de escrúpulos que manifestaria ao longo da vida. A aura de aventureiro intelectual, tão celebrada por alguns, sempre pareceu encobrir um padrão de comportamento: a facilidade com que justificava para si próprio aquilo que condenaria nos outros.

E, no entanto, Malraux continua a ser apresentado como um dos grandes nomes da cultura francesa do século XX. Talvez porque a França tem uma extraordinária capacidade de transformar figuras contraditórias em monumentos nacionais.
Talvez porque o gaullismo precisou de intelectuais que lhe emprestassem uma legitimidade estética. Ou talvez porque a história literária, como todas as histórias, é também feita de conveniências, silêncios e narrativas que se tornam oficiais por repetição.

Mas a verdade é que, para quem cresceu politicamente nos anos 60 e 70, Malraux representava o lado errado da barricada. Não apenas por estar do lado do poder, mas por encarnar uma certa ideia de poder: paternalista, hierárquico, convencido da sua própria missão civilizadora. A retórica sobre a “arte que salva” ou o “homem que se transcende” soou a uma espiritualização suspeita da política, como se a cultura pudesse servir de absolvição moral para escolhas que tinham consequências concretas.

Herói para alguns, nunca dele consegui esquecer o essencial: o Malraux que se opôs aos estudantes de 68, o Malraux que se tornou guardião de uma ordem que já então mostrava sinais de esgotamento, o Malraux que parecia acreditar que a cultura era um privilégio a administrar e não um direito a democratizar.

Razões mais do que suficientes para o colocar, sem hesitação, na lista negra dos ódios de estimação. E, ao contrário de outras figuras que o tempo me ensinou a relativizar, Malraux permanece, para mim, como um caso exemplar daquilo que sempre rejeitei: o intelectual que se confunde com o poder e que, ao fazê‑lo, perde a capacidade de o questionar.


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