sexta-feira, abril 10, 2026

Paradoxos da Beleza e da Consciência

 

Há paradoxos que a história tece com uma naturalidade desconcertante. Jean Renoir é um deles. Em 1936, era compagnon de route do Partido Comunista Francês, ao ponto de ser convidado para realizar La Vie est à Nous, filme emblemático da Frente Popular. E, no entanto, logo a seguir aceita rodar La Tosca em Roma, mostrando‑se encantado com as atenções de Benito Mussolini, que até assiste à sua La Grande Illusion. A sua conduta durante a ocupação alemã também não foi isenta de reparos.

Daí o espanto que nunca consegui dissipar: como se passa de um posicionamento político para o seu oposto sem o menor escrúpulo? Como se transita de um cinema comprometido com a justiça social para a complacência com um regime que instrumentalizava a cultura? Mistérios que os factos tecem — e que a consciência política não consegue justificar.

E, no entanto, Luchino Visconti — que foi assistente de Renoir — continuava a considerá‑lo o mais admirável dos cineastas. Visconti representava o paradoxo inverso: nascido na aristocracia milanesa, tornou‑se comunista e esteve perto de ser fuzilado pelo envolvimento com a Resistência antifascista. Mas, mais do que a militância política, foi sempre um devoto do Belo, um esteta para quem a forma era inseparável da verdade interior das coisas.

A sua obra está cheia dessa devoção: basta lembrar a morte de Aschenbach no final de Morte em Veneza, ao som do Adagietto de Mahler — uma das sequências mais sublimes do cinema. Visconti demonstra que a consciência social não precisa de excluir a mais refinada estética; pelo contrário, pode encontrar nela a sua expressão mais profunda.

Num sentido quase inverso, surge Arvo Pärt de quem revi recentemente a sua Paixão de Adão, encenada por Bob Wilson. Ouvindo‑o explicar que o pecado de Adão teria sido permitido por Deus, torna‑se evidente que me são alheios os argumentos místicos, tão celebrados pelos papas do Vaticano. A sua religiosidade beata e a crítica severa ao passado soviético — precisamente o sistema que lhe deu educação musical e condições para se tornar compositor — sempre me pareceram paradoxais.

Mas nada disso me impede de ouvir com enorme prazer as suas composições tintinnabuli. Depois de John Cage, Pärt foi quem demonstrou a importância do silêncio — não como ausência, mas como matéria sonora. O silêncio passou a merecer lugar nas partituras como presença plena. E é essa dimensão, a capacidade de transformar o mínimo em absoluto, que me continua a fascinar.

Também Himalia, curta‑metragem de Clara Milo e Juliette Lossky, se inscreve nesta constelação de obras onde a beleza é o eixo. Falado em esperanto, passado num futuro distante, o filme acompanha uma adolescente fascinada por um raio de sol que roça a sombra de Júpiter. A ideia inicial — uma criança a correr atrás desse raio de sol — transforma‑se numa meditação sobre a luz, o desejo e a persistência. Milo e Lossky mostram como a ficção científica pode ser um território de poesia, onde a estranheza ganha forma de revelação.

Bem diferente é Aqua Alta, de Fouzi Louahem, criado inteiramente com inteligência artificial. Uma cidade costeira é engolida por uma vaga colossal após a explosão de um submarino nuclear; dessa catástrofe emerge um povo alienígena, os Ryba, forçado a abandonar o seu habitat radioativo. Em Borodin Gorsk, humanos e Rybenses encontram forma de partilhar pacificamente o futuro.

E eis como uma distopia tecnológica, nascida de um acidente nuclear e gerada por algoritmos, acaba por conter um inesperado desiderato utópico. Num presente demasiado condicionado pela xenofobia e pelo racismo, é quase desconcertante ver uma narrativa — ainda por cima criada por IA — propor a possibilidade de coexistência, de entendimento, de futuro comum.

Talvez seja este o fio subterrâneo que une todos estes paradoxos: a beleza, quando é verdadeira, continua a ser uma forma de resistência. Mesmo quando nasce de contradições, de ambiguidades ou de máquinas, ela insiste em abrir brechas no real — e nessas brechas, por vezes, ainda se entrevê a possibilidade de um mundo menos hostil.

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