segunda-feira, abril 06, 2026

O futuro já não é o que era

1. Há memórias que regressam sem aviso, como se o tempo abrisse uma fenda por onde irrompem imagens que julgávamos arrumadas. Não são acontecimentos decisivos; são detalhes, gestos, atmosferas que, na altura, não tinham grandeza alguma. Mas é precisamente essa insignificância que lhes dá força quando regressam: lembram‑nos que a vida não se organiza segundo a hierarquia que tentamos impor‑lhe. O passado insiste em voltar não para repetir factos, mas para devolver a textura interior que fomos acumulando sem dar por isso.

E, no entanto, há dias em que sinto que o corpo percebe antes da mente aquilo que está a mudar à nossa volta. Uma fadiga difusa, não física, mas sensorial, como se o excesso de estímulos e solicitações invisíveis criasse uma tensão subterrânea que só se revela quando paramos. Não é cansaço: é saturação. Vivemos como se fosse normal carregar esta sobrecarga silenciosa, enquanto o pensamento se fragmenta antes de chegar a formar uma ideia inteira. Talvez seja esta a marca do nosso tempo: sermos seres permanentemente interrompidos, mesmo quando ninguém nos interrompe.

Por isso, valorizo cada vez mais a capacidade de criar um intervalo — um espaço mental onde o mundo não entra de rompante. Não se trata de isolamento, mas de recuperação. Um gesto tão simples como fechar os olhos durante alguns segundos, respirar fundo ou ouvir um trecho de música que me recentra torna‑se quase uma forma de higiene interior. Não resolve nada, mas devolve a sensação de que ainda posso escolher o próprio ritmo. A verdadeira luta do nosso tempo talvez seja esta: preservar a continuidade do pensamento num mundo que insiste em fragmentá‑lo.

2. Paul Éluard dizia que o problema do seu tempo era o de o futuro já não ser o que costumava ser. E, se isso era verdade na primeira metade do século XX, muito mais pertinente se torna hoje, quando o desfasamento entre o determinismo histórico preconizado pelo marxismo e a realidade concreta das sociedades contemporâneas se tornou demasiado evidente. O devir utópico parece ter sido substituído por sinais inquietantes: alterações climáticas, abandono das premissas do Direito Internacional, a barbárie mental dos prosélitos das direitas extremas. Para um marxista — e eu continuo a sê‑lo! — havia um conforto intelectual na ideia de progresso histórico, mesmo com a reserva leninista de que, por vezes, seria necessário recuar um passo para avançar dois. Hoje, porém, essa confiança parece abalada.

3. Valha‑nos, então, a lucidez de José Saramago, quando dizia que sabemos muito mais do que julgamos e podemos muito mais do que imaginamos. E acrescento eu: tal é tanto mais verdadeiro quanto mais nos associarmos a quem, como nós, acredita num planeta sustentável e num ecossocialismo capaz de garantir justiça para a maioria. A força não nasce do indivíduo isolado, mas da convergência dos que partilham um horizonte comum. Porque, se sozinhos pouco podemos, juntos tornamo‑nos noutra coisa: uma comunidade que recusa a resignação e insiste em pensar o mundo para além da distopia que nos querem impor.

4. Valerá, por isso, a pena recordar o que escreve José Gameiro quando confessa não ter grande opinião sobre a raça humana, sentimento que se agrava com a idade. Não quero chegar a esse ponto, embora me indigne a boçalidade que alguns deputados da extrema‑direita exibem no parlamento português.

Se a misoginia já era suficientemente repelente, a manosfera veio apenas amplificar o que nela havia de mais tóxico. E, quando os relatórios policiais dão conta do aumento de simpatizantes e propaganda neonazi, torna‑se difícil não reconhecer que estamos, de facto, naquele passo atrás de que falava o honorável Vladimir. Mas é precisamente por isso que importa não ceder ao desencanto: outras gerações virão, outros carreiros se abrirão, outras formas de estar poderão configurar o que se segue.

5. Por ora, porém, damos com fenómenos absolutamente espantosos, protagonizados por gente demasiado sugestionada pelo que lê nas redes sociais ou pelo que projeta nos diálogos com a inteligência artificial.

Há adolescentes a reforçar novas vagas de anorexias militantes; há quem se suicide por desilusão com parceiros virtuais; há quem vença batalhas judiciais contra as tecnológicas de Silicon Valley, acusando‑as de dependências tão tóxicas quanto as drogas químicas.

Este mundo anda estranho, e não está fácil conferir‑lhe uma racionalidade que o torne definitivamente viável na sua sustentabilidade. Entre a vulnerabilidade emocional amplificada pelos algoritmos e a erosão das referências coletivas, parece que caminhamos num terreno demasiado poroso, demasiado disponível para ser moldado por forças que ninguém controla verdadeiramente.

E, no entanto, é precisamente neste cenário que se torna mais urgente recuperar algum sentido de medida, de comunidade, de responsabilidade — para que a distopia não se torne o único horizonte possível.


Sem comentários: