quarta-feira, abril 22, 2026

A Forma do Imprevisto

1. A figura de Yuja Wang continua a suscitar uma perplexidade difícil de dissipar. A interpretação da Rhapsody in Blue revelou um domínio técnico e expressivo que dispensa qualquer adereço, como se a música encontrasse nela um corpo capaz de a traduzir sem perda. Mas a escolha de vestidos mínimos, decotes vertiginosos e fendas que sobem até à coxa introduz uma tensão que desvia o olhar do essencial.

Não se trata de puritanismo, mas da interrogação sobre a necessidade de associar a música erudita a uma estética tão explicitamente sexualizada, como se o virtuosismo precisasse de espetáculo para ser ouvido. A nudez parcial do corpo disputa espaço com a nudez mais profunda da interpretação, e essa disputa cria um ruído que interfere com a fruição da obra.

Talvez seja apenas um sintoma do tempo, em que a visibilidade se tornou critério de valor e a música, por si só, já não basta.

2. Num documentário da RTP Memória surge uma idosa chamada Guilhermina, uma das últimas sobreviventes da comunidade judaica que viveu quase clandestina desde o decreto de D. Manuel I.

O rosto marcado pelo tempo parecia carregar a memória de uma linhagem inteira habituada a sobreviver escondendo-se. A herança marrana, tão evidente nos nomes do lado paterno da família da Elza — David, entre outros — sempre pareceu indiscutível, mas do lado materno persistia uma névoa, apesar da mesma origem beirã onde essa tradição se entranhou durante séculos.

O facto de a mãe da Elza se chamar também Guilhermina surgiu como coincidência demasiado eloquente, quase um sinal vindo do passado. E o nariz característico, tão marcado por essa ascendência, reforçava a ideia de que certos traços sobrevivem mesmo quando tudo o resto se apaga. Há famílias que guardam a memória sem o saber, como se a identidade encontrasse sempre uma forma de regressar à superfície.

3. A persistência dessas linhagens ocultas recorda como a história avança por camadas subterrâneas, revelando continuidades apenas quando o olhar se detém nos detalhes mínimos. A memória marrana não se transmite apenas por documentos ou rituais, mas por sinais discretos: nomes que resistem, hábitos domésticos que se mantêm, feições que denunciam uma origem que nunca pôde afirmar-se abertamente.

Portugal está cheio dessas sobrevivências silenciosas, como se a identidade tivesse aprendido a mover-se na penumbra para escapar ao olhar inquisitorial que a perseguiu. Há algo de profundamente humano nessa resistência sem alarde, nessa fidelidade involuntária a um passado que insiste em permanecer mesmo quando ninguém o reivindica.

4. Ao seguir a série policial da BBC O Pontão, regresso à pergunta que Wim Wenders colocou há décadas: o que fazer de novo quando todas as histórias possíveis já foram contadas?

O policial mantém uma estrutura quase imutável — crime, investigação, revelação — e mesmo as variações mais ousadas continuam presas ao esqueleto original.

A curiosidade reside na forma como cada argumento tenta contornar ou torcer essa matriz sem a destruir. Há quem aposte na psicologia, na ambiguidade moral ou na decomposição do próprio processo investigativo, mas o género conserva uma fidelidade involuntária à sua origem. Cada desvio, por mínimo que seja, torna-se significativo, não por romper com o cânone, mas por mostrar até onde é possível esticá-lo sem o deixar colapsar.

5. O problema surge quando esse desvio ultrapassa o limite da verosimilhança. Foi o que aconteceu nesta série, que tentou articular pedofilia, predadores sexuais, a dinâmica de uma comunidade pequena onde todos se conhecem e o contraste entre raparigas irreverentes e rapazes moldados por uma misoginia difusa.

A acumulação de temas, cada um exigindo um tratamento próprio, gerou uma tensão difícil de sustentar, como se a narrativa procurasse abarcar demasiado sem encontrar o ponto de equilíbrio.

O final, centrado na fragilidade da memória e no modo como a ausência dela pode condicionar vidas inteiras, pretendia oferecer profundidade, mas acabou por expor a desmedida da ambição.

Há histórias que pedem contenção, e outras que se desfazem quando a vontade de dizer tudo ultrapassa a capacidade de o tornar credível.

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