domingo, junho 15, 2008

Filme: «LIGHT SLEEPER», PAUL SCHRADER

Há uma greve na recolha do lixo o que torna a cidade ainda mais insustentável para quem nela vive. Como é o caso de John Le Tour (Willem Dafoe), que continua a ser dealer, mas vê o futuro ameaçado pelo iminente afastamento da sua patroa, Ann (Susan Sarandon), cujo projecto de vida passa por se dedicar a cosméticos.
Talvez por isso ele vive num estado de insónia permanente. A sua antiga toxicodependência, de que se livrara não há muito tempo, também é capaz de contribuir para esse aspecto de zombie, quer no contacto com clientes, quer com outros dealers.
Um deles, Jealous, incita-o a prosseguir com o negócio de Ann, quando ela se retirar. Mas ele não se sente com ânimo para tal projecto. Sabe que deverá mudar de vida, mas não sabe para quê já que não possui quaisquer poupanças de reserva.
É também um tempo de outras múltiplas ameaças: como uma rapariga de famílias privilegiadas terá aparecido morta com uma overdose num dos parques da cidade, há a expectativa de a polícia saltar em cima dos traficantes intermédios.
John ganha um outro estado de alma, quando reencontra Marianne (Dana Delany). Quatro anos atrás ela deixara-o para se submeter a uma reabilitação e abandonar de vez o mundo das drogas. Agora, embora nada lhe conte sobre o que faz ou com quem vive, ela orgulha-se de já estar «limpa».
O desejo de se tornar em «boa pessoa» leva-o a procurá-la, mesmo quando ela o deixa no hotel após uma noite de reencontro amoroso.
E é no hospital, que a vai rever, quando ela aí se encontra à cabeceira da mãe moribunda.
Ao mesmo tempo que procura reatar a ligação e apostar nela como porta de saída para um outro tipo de vida, John vê-se confrontado com um ultimato de um detective da Brigada dos Narcóticos: ou lhe entrega informações consistentes sobre quem vendera a droga à rapariga encontrada no parque ou ele próprio será preso.
Numa das suas vendas seguintes de produto, John encontra Marianne - a quem a mãe entretanto morrera - no apartamento de Tis, completamente pedrada e em óbvio mister de prostituta.
Seja por se ver desmascarada perante o antigo namorado, seja por qualquer outra razão, Marianne morre nessa mesma noite.
Sedento de vingança ele volta ao apartamento de Tis e provoca aí uma chacina como se fosse «anjo exterminador».
Já na prisão recebe a visita de Ann, a quem confessa o desejo por ela sentido…
Paul Schrader é daqueles cineastas norte-americanos de quem muito se esperou desde que assinou o argumento de «Táxi Driver», mas a quem a indústria não possibilitou grandes liberdades para explorar os seus temas de eleição.
Neste filme há a recorrência de alguns dos aspectos essenciais do filme de Scorcese, mormente o desencanto do protagonista com o seu contexto, embora nele permaneça um referencial de dignidade, que ele se esforça por preservar.
Se Robert de Niro procurava a conquista de uma mulher inacessível por ser de outra classe social, há no Willem Dafoe deste título a expectativa de uma redenção igualmente amorosa, que acaba por se revelar, afinal, tão impossível quanto aquela.
Na América carregada de lixo, no sentido restrito e no sentido literal, a droga acaba por funcionar como o filtro revelador de uma realidade mais crua, que as aparências e em que o direito dos indivíduos à felicidade adquire a mera dimensão da utopia.

terça-feira, junho 10, 2008

Le Mystere Des Voix Bulgares - Polegnala e Todora

A música búlgara chegou a mim já depois de ter passado por esse porto de Nassebur, de que me ficaria a memória indelével de um casamento para o qual fui convidado tão só por ir a passar pela rua no instante e me ter atardado a ver o que me parecera um cenário cinéfilo: o de Meryl Streep em «The Deer Hunter» a dançar numa roda no dia de núpcias da sua personagem.
Desde então ficou-me dos búlgaros esse sentido hospitaleiro a que nem a queda do Muro de Berlim possa ter desviado de tão memorável costume.
Com o Mistério das Vozes Búlgaras, grupo coral representativo dessa cultura, procurei reviver no espectáculo do CCB o que de mais genuíno possa existir nesse povo. E as expectativas foram plenamente cumpridas!

domingo, junho 08, 2008

A MINHA DESCOBERTA DE INGMAR BERGMAN

Estava nos meus primeiros anos de liceu, quando ouvi falar de Bergman pela primeira vez.
Beneficiando da presença de uma irmã mais velha na Faculdade de Letras, quando os ventos de Maio de 68 punha os jovens de então a fervilhar por sonhos utópicos, procurava beber dela o máximo de informação, que me aproximasse de uma condição adulta vista então como o objectivo prioritário do meu crescimento.
Foi assim que fui parar a uma memorável sessão das chamadas Quinzenas, que o Monumental então apresentava às seis e meia da tarde.
Eram ciclos com filmes excepcionais, que motivavam a presença de centenas de jovens: os suficientes para encher por completo a plateia, o 1º e o 2º balcões como então existiam.
No que mais me marcou o filme principal tinha sucesso garantido: «Esplendor na Relva» de Elia Kazan, então paradigma do filme que expressava o conflito de gerações, então bem na ordem do dia, já que se vivia a ansiedade de levar o novo a vencer o velho, personificado nos pais autoritários e no regime repressivo.
Muitos de nós ainda desconheciam o lamentável papel de bufo, que o realizador assumira perante a comissão do sinistro MacCarthy, pelo que ainda não viam tal filme à luz do desejo de auto-justificação, que ele desde então perseguiria obsessivamente.
Mas, mais importante do que esse filme, o que o antecedera fora uma verdadeira revelação: «O Sétimo Selo» do realizador sueco.
Aquele jogo desigual entre o Cavaleiro e a Morte impressionava, porque desejaríamos o impossível, mesmo que soubéssemos o desenlace inevitável.
Mas a cena final em que a Morte leva vários personagens pela mão monte acima ficaria como uma das mais metafóricas em relação à cada vez mais omnipresente ideia de fim, que o envelhecimento vai cavando.
Nos anos seguintes procurei não perder nenhum filme do realizador. Na maioria encontravas-lhe algo de profundo e de inacessível aos meus então verdes anos.
Afinal, o 25 de Abril encontrar-me-ia ainda com 17 anos.
Nesse pós-Revolução tudo se aceleraria e eu próprio amadureceria. Quando se estreia «Lágrimas e Suspiros» já calou tão fundo em mim, que o vi quatro vezes de seguida. A cena de auto-mutilação de Ingrid Thulin seria das mais brutais, que o cinema me facultaria.
Mas hoje, dobrado o meio século de vida, está na altura de rever todos os filmes disponíveis de Bergman, pelo que eles me poderão motivar neste terço final da minha existência. Mormente, quando já não estará tão distante esse meu próprio jogo de xadrez com esse invencível campeão de xadrez.
Neste tempo em que o cinema tende a cingir-se ao papel de fútil entretenimento, saber-me-á bem o reencontro com um tipo de filmes como já raramente se fazem, mas que parecem substituir verdadeiramente um conjunto significativo de manuais de filosofia.

sábado, junho 07, 2008

«PERSÉPOLIS, L’EMPIRE PERSE RÉVÉLÉ» de Götz Balonier

Persépolis, capital do império dos Aqueménidas, continua a ser um dos mais impressionantes lugares de vestígios arqueológicos da Antiguidade.
Em 520 a.C, Dário I manda arrasar uma montanha e utilizar o entulho para formar um imenso terraço de quinze hectares.
Convoca, então, os melhores arquitectos e artesãos dos quatro cantos do Império para, em sessenta anos, construírem escadas e portas monumentais, palácios e outros edifícios transformados em verdadeiras obras-primas.
A maior parte acabará ingloriamente destruída pelos soldados de Alexandre, o Grande em 330 a.C.
A partir de 1930 arqueólogos alemães conduzem uma importante campanha de escavações.
Foram os seus planos muito precisos, que serviram para as sequências tridimensionais deste filme. Elas permitem visualizar, com excepcional precisão, como era Persépolis antes da sua destruição.

Luiz Gonzaga - Asa Branca

No Brasil talvez ele ainda seja lembrado. Mas aqui em Portugal, quem se lembrará de Luiz Gonzaga? Aqui fica o clássico «Asa Branca».

sexta-feira, junho 06, 2008

Cecilia Bartoli sings Maria Malibran

Ontem foi o dia de aniversário de Cecília Bartoli.
Se a soprano italiana não ascendeu à liderança indiscutível das grandes cantoras de hoje - há mais umas quantas a disputar-lhe essa condição! - é sempre com algum espanto, que a ouço levar a voz até níveis de exigência difíceis de ultrapassar.
E ao ver alguns dos filmes acessíveis no You Tube, compreende-se quanto ela põe uma alegria quase infantil naquilo que faz. As sessões de gravação parecem ser para ela a ocasião de puro divertimento!
No ano transacto, com a sua homenagem a Maria Malibran, ela esteve em evidência, enchendo nomeadamente o Grande Auditório da Gulbenkian em concerto para o qual já nem conseguimos arranjar bilhetes.
Resta-nos a possibilidade de contactarmos com o seu talento pelos filmes e discos em que ela tem sido tão pródiga!

A nova liderança do PSD e o Governo de Sócrates

As eleições internas do PSD acabaram com a vitória de Manuela Ferreira Leite. O que dá para ponderar em três efeitos positivos de tal resultado.
Por um lado temos pela primeira vez uma mulher a liderar um dos grandes partidos nacionais, o que vai ao encontro do que vem sendo uma das principais características deste novo século: a emergência de um conjunto de mulheres determinadas a tomarem conta de funções outrora coutada do género masculino.
Outro dos aspectos positivos desta notícia é a condenação de Santana Lopes a um terceiro lugar, ainda que com demasiados votos para tudo quanto de disparatado ele fez.
Embora ele pareça aqueles mortos-vivos dos filmes de George Romero, que se levantam da tumba, quando se os julgava já bem mortos e enterrados, o ainda líder parlamentar bem pode começar a pensar como irá ganhar a vida, quando se lhe acabar o actual mandato de deputado.
E, enfim, resta acrescentar que, com a nova Presidente do maior partido da Oposição, o Partido Socialista terá menos possibilidades de se confrontar com argumentos demagógicos, de conteúdo populista, que embora falsos no conteúdo, conseguem iludir muita gente na sua forma.
Nesses tempos difíceis, que se aproximam, haverá o provável confronto entre duas estratégias
não muito distintas para a eles corresponder. E, em tal disputa, Sócrates terá possibilidades sérias de voltar a sair vencedor...

quinta-feira, junho 05, 2008

«The Greatest», filme de Tom Gries e de Monte Hellman

O fascinante percurso de Muhammad Ali, desde a infância no Kentucky até ao seu triunfo em Kinshasa em 1974.
Contando com as interpretações o próprio Muhammad Ali, de Ernest Borgnine, de James Earl Jones e de Robert Duvall.
Trata-se de uma biografia com cenas impressionantes de combate.
O filme mostra como, em 1964, Cassius Clay ganha a condição de campeão do mundo de pesos pesados, assumindo-se então como membro dos Black Muslims.
Trata-se de um verdadeiro desafio à América, incluindo a explicação para a sua mudança de nome («Clay é um nome de escravo») e a recusa em combater os seus «irmãos vietnamitas».
Escandalizada a América retira-lhe o título e a licença para prosseguir a sua carreira desportiva. Muhammad Ali desaparece de cena por não ter respeitado as «regras do jogo».
Mas, em 1974, ele anuncia a intenção de recuperar o seu título de campeão do mundo.
E o combate de Kinshasa ganha a dimensão de uma aventura épica, que persistirá na memória de quem o viu e o entendeu como muito mais do que um mero combate de boxe...

sábado, maio 31, 2008

INSTITUIÇÃO CRIMINOSA GERA CRIMINOSOS EM CADEIA

Confesso a minha genuína incapacidade para compreender a reacção desses pais e dessa irmã gémea, que choram a estranha morte de uma mulher-soldado no Iraque, mas não a atribuem, em termos de responsabilidade, a George W. Bush e à sua clique instalada na Casa Branca.
A história surgiu num dos documentários que a Sic Notícias costuma mostrar sob o título genérico «Panorama BBC» e mostra casos tenebrosos de mulheres-soldado norte-americanas, que foram vítimas de violações nos quartéis aonde prestavam serviço.
O documentário mostrava como a pretensa igualdade entre géneros, a que a instituição militar norte-americana se viu obrigada pelo poder político, não foi devidamente assimilada, acabando por ser torpedeada por quem aproveita a oportunidade para humilhar, agredir e abusar das mulheres, que lhes surjam ao alcance.
Ora essa situação insere-se dentro de uma lógica ideológica, que teve como lídimo representante nos últimos anos esse inefável texano, cuja partida para a reforma irá criar uma sensação de alguma higiene mental recuperada a nível da política internacional.
Aqueles pais e aquela irmã não podem compreender, como muitos dos eleitores republicanos, que os piores excessos do regime em vigor têm de ser imputados a políticas criminosas, dentro das quais os violadores passam por inquéritos inócuos, quase sempre concluídos em absolvição.
No caso da rapariga morta mostra-se como, tão só devolvido à impune liberdade, o agressor voltou a assediá-la ostensivamente. Por isso se a sua morte decorreu da depressão de se sentir incapaz de evitar novas agressões ou de uma retaliação brutal de um psicopata denunciado, o que está em causa é a ideologia de agressão ao mais fraco, que subjaz ao discurso militarista do Pentágono.
E se essa instituição se revela criminosa no seu todo não admira que os seus responsáveis nos mais diversos escalões repliquem essa postura crapulosa…

domingo, maio 25, 2008

UM OLHAR SOBRE A POBREZA

O estudo «Um Olhar sobre a Pobreza», agora apresentado por um conjunto de investigadores coordenados por Alfredo Bruto da Costa, não traz propriamente uma conclusão inesperada: entre 1995 e 2000, mais de metade da população portuguesa viveu uma situação de pobreza, que não é explicada apenas pela realidade do desemprego. É que, mesmo trabalhando, as famílias não conseguem ganhar o suficiente para satisfazerem as suas necessidades básicas. O que tem a ver com o seu nível de qualificações muito baixo, embora a realidade dos licenciados desempregados tenda a juntar a esses desfavorecidos, camadas de jovens nascidos em famílias da classe média.
O estudo ainda é elucidativo a outro nível: o da falência das políticas governativas destinadas a reduzir a dimensão dessa pobreza, mostrando como os subsídios da União Europeia e as dotações orçamentais nada vieram alterar essa realidade.
O que lança uma outra possibilidade: só com políticas diferentes, dentro de uma outra lógica ideológica, é que será possível produzir outros resultados…
Também para acabar com a pobreza se justifica um outro tipo de sociedade.

Karajan - Beethoven Symphony No. 6 In F Major 'Pastoral'

Hugo Niebeling, o realizador desta versão da interpretação da 6ª Sinfonia de Beethoven pel Filarmónica de Berlim dirigida por Herbert von Karajan, conta que, no final da projecção do filme, olhou para o maestro e este não estava branco, estava sim verde de raiva.
De facto o pior que se podia fazer a este egocêntrico narcisíaco (e a redundância faz aqui todo o sentido)era retirar-lhe o protagonismo. Normalmente nos outros filmes com Karajan, as câmaras fixam-se apenas nele, subalternizando totalmente a orquestra. Ora Niebeling faz exactamente o contrário: são pouco frequentes as imagens do maestro, quedando-se as câmaras nos pormenores da orquestra, na sua visão global ou em intencionais perdas de nitidez, destinadas a conferir às imagens uma tradução abstracta.
Pessoalmente nunca vi um concerto tão bem vertido em imagens...

AS INSUSPEITAS PORTAS ABERTAS PELOS TIRANOS

Que dizer de um ditador, que se apossa de um espaço e aí pretende impor a sua visão do que deverá ser essa sociedade? Criando uma milícia de jovens arrogantes, que entram portas adentro das casas para verificar se os governados se portam de acordo com os cânones definidos pelo grande líder…
Neste planeta, que avança pelo milénio adentro, ainda é possível encontrar este tipo de visionários tenebrosos, agora quase cingidos a países do Terceiro Mundo influenciados pela leitura mais ortodoxa do Corão. Ou em África com alguém da estirpe de um Mugabe.
Mas, pudesse George W. Bush concentrar em si os poderes de um ditador, quem nos diria que não imitaria os Ahmenidejadhs só para proibir o aborto, eliminar os homossexuais e dar ainda maior liberdade aos donos dos campos de petróleo.
E, no entanto, essa vontade de tudo comandar sobre os comportamentos dos governados é tão velha quanto o mundo e a existência de quem manda e de quem obedece.
Na viragem do século XV para o XVI, em Florença, Savoranola foi efémero líder deste tipo de governo.
Populista, conseguiu mobilizar os mais miseráveis para condenarem a corrupção dos detestados ricos, fazendo-os únicos responsáveis dos sofrimentos de quem nada possuía. E, graças ao sucesso dessa demagogia, passou a impor um conjunto de valores puritanos, que faziam do sexo a origem de todos os males.
O seu radicalismo era tão delirante, que até os seus seguidores começaram a duvidar de tantas proibições, de tanta conotação dos mais naturais gestos a tenebrosos pecados. E, quando ele é sujeito à fogueira, já poucos o lamentarão.
O que não deixa de ser singular é o facto de, pela sua capacidade de mobilização dos mais pobres, ele ter lançado as bases para pôr em causa os valores feudais, que ainda perduravam na sociedade de então.
Às vezes acaba por ser a tirania a abrir mais convictamente as portas da História futura...

quarta-feira, maio 21, 2008

Travelling Birds Sigur Ros as played by Kronos Quartet

Foi uma das mais belas peças apresentadas pelo Kronos Quartet no concerto de ontem no CCB. Mas este filme, que a ilustra só valoriza a interpretação do grupo...

FECHAR OS OLHOS PARA VER

Gauguin aconselhava a fechar os olhos, quando se quisesse realmente ver. E essa é uma regra, que pode ser seguida em muitas vertentes. Na realidade somos iludidos pelos nossos olhos, que nos sugerem realidades distintas das autênticas.
Porque estamos em Maio, e se comemoram os quarenta anos dos acontecimentos de Paris, vale a pena recordar como o «Le Monde» se equivocava ao olhar para a realidade francesa de então e anunciava «Os franceses aborrecem-se» e, logo de imediato, via a imaginação ganhar tal relevância nas ruas.
O que via aquele repórter estava completamente desfocado do verdadeiro sentimento de quem não tardaria a arrancar pedras da calçada para procurar a praia.
É o que pode estar a acontecer nesta altura: em aparência, deparamo-nos com um capitalismo avassalador, que não parece dar espaço a outro tipo de sociedade. E, no entanto, de repente, tudo pode mudar, graças aos preços do petróleo ou dos cereais, ou aos efeitos financeiros da avidez dos bancos norte-americanos pelo lucro.
Vale, pois, a pena seguir o conselho do pintor: porque não fechar os olhos e imaginar o quanto se torna urgente o advento de uma outra forma de existirmos?

UM PARTIDO DESTINADO A DAR ESPECTÁCULO


O PSD, toda a gente sabe, nasceu para dar espectáculo! Está no seu DNA, faz parte do seu cromossoma. Nenhum outro partido português tem esta vocação circense, esta alma de gladiador de circo romano. Só o PSD nos dá, gratuitamente, esta intensidade.

Domingos Amaral, Diário Económico, 30/4/2008

O texto de Domingos Amaral já tem algumas semanas, mas a campanha eleitoral que mobiliza o maior partido da oposição mantém plenamente actual a ilação então aduzida: o PSD nasceu de facto para dar espectáculo. Sobretudo, quando entra em cena esse caso de estudo, que se chama Santana Lopes. Que não leu verdadeiramente Marx, porque senão saberia que a História se repete sempre duas vezes, a primeira como tragédia, a segunda como farsa.
Que a primeira passagem de Santana Lopes por São Bento foi uma tragédia, bem o sentimos nas medidas a que o Governo socialista se viu obrigado para corrigir o autêntico regabofe nas contas públicas, que encontrou ao substituí-lo.
Mas, qualquer que seja o resultado deste confronto eleitoral, dispensamos bem as gargalhadas que esse eventual regresso ao poder sugeriria.
Apesar de alvo de uma campanha sistemática de contestação, liderada pelo jornal «Público», José Sócrates parece ser o único capaz de, nesta altura, manter um rumo adequado para o país…

sábado, maio 17, 2008

Enya - Orinoco Flow

Dos grandes rios da Terra terá sido o único por onde não andei. Guardo imagens vividas do Nilo, do Amazonas ou do Iansequião. Mas este ficou de fora.
No dia em que Enya faz anos, aproveito para evocar a canção em que ela falou do caudal desse rio...

JENNIFER JASON LEIGH

Não serão muitas as opiniões em que estarei de acordo com Pedro Mexia, atendendo a que as suas posições ideológicas estão-me distantes cento e oitenta graus. Mas, pelos vistos, temas há que suscitem a unanimidade dos nossos juízos. E Jennifer Jason Leigh parece ser um deles… pelo menos a ajuizar pela crónica por ele publicada no «Público» de 17 de Maio.
É verdade que a actriz em causa nunca ganhou uma estatueta da Academia de Hollywood, mas isso só desabona essa instituição. Porque, a par de Francês MacDormand, de Susan Sarandon e de não muitas mais actrizes norte-americanas, ela é daquelas que justifica ver um filme por muito que ele nos suscite desconfiança: porque em cada cena, existe um olhar, um gesto, que não estão escritos no argumento, mas que dão corpo ao personagem.
Ela é daqueles valores a quem não se presta a devida justiça...

SONHOS HÚMIDOS

Foi na viragem dos míticos anos 60 para a década seguinte, que se organizou em Amesterdão o Wet Dream Festival, organização underground destinada a promover o cinema pornográfico como símbolo da Revolução Sexual então em voga.
De todos os países ocidentais compareceram centenas de jovens dispostos a verem filmes proibidos, que explicitavam todas as transgressões possíveis. O sexo funcionaria, então, como uma espécie de combustível da Utopia.
«Jouissez sans entraves», o documentário de Yvonne Debeaumarche vai à procura de quem organizou ou se limitou a participar nesse evento, que se inseria na lógica afirmativa de um novo tipo de sociedade.
Jim Haynes era um dos principais responsáveis pelo festival: norte-americano, que se assumia como um autentico guru da contracultura, ele vivia então em Londres, aonde estava ligado a um dos jornais de vanguarda da cultura hippie, que propunha o sexo sem limites como forma de quebrar as grilhetas do pudor. Que eram as que serviriam o poder a derrubar.
Nessa época em que a pílula ainda não estava disseminada, o grande terror das raparigas era engravidarem. O resultado era uma espécie de miséria erótica.
Quando Londres se tornou demasiado perigosa para a liberdade dos editores da revista «Suck», Jim Haynes e Bill Lévy mudam-se, da armas e bagagens para o Continente. Amesterdão era, então, o local ideal para prosseguirem a sua militância no principal conceito que defendiam: o mundo tornar-se-ia bem melhor se se fizesse amor em vez da guerra. Pondo fim aos Vietnames ou aos Biafras, que então invadiam os noticiários internacionais.
Os filmes que concorriam ao «Falo de Ouro» rompiam com todos os tabus. Sade, até então votado à clandestinidade, ressurgia na sua devida relevância. A violação e o sadismo surgem em «Justine», um filme de escasso valor cinematográfico, da autoria de Claude Pierson, mas deveras significativo enquanto móbil de uma ruptura.
A própria homossexualidade ganho foros de cidadania com a projecção de um filme de Jean Genet, a preto e branco. A par da zoofilia, da pedofilia, do incesto…
Exploram-se todos os limites. A regra para os redactores da «Suck» era escreverem sobre tudo quanto fizesse tremer a própria mão.
No último ano do evento - em 1971 - o festival concluiu-se com uma grande orgia a bordo de um barco fretado para levar os convidados até fora das águas territoriais. Quem lá esteve recorda todos em pelota e bolas de haxixe disponíveis para quem quisesse experimentar a conjugação do sexo e do psicadelismo. Em todas as combinações possíveis tendo como regra a exacerbação do desejo.
O pior terá sido o regresso a casa, com o ciúme a envenenar o que fora concebido como um acto de libertação. Afinal os afectos sobrepunham-se às teorias e poucos gostavam de ver os parceiros ou parceiras a terem relações com desconhecidos.
Muitas dessas almas inquietas começaram aí uma regressão, que, nalguns casos, os levariam depois a execrar o que até então haviam acreditado. Passando do oitenta para o oito, assumindo-se como guardiões de uma moral, que tanto haviam posto em causa.
A idade do Ouro da Revolução Sexual, que decorreria entre a descoberta da pílula e o surgimento da Sida, teria aí o seu advento ...

MESQUINHEZ

Mesquinhez! Não há palavra que melhor defina mais uma campanha jornalística contra o primeiro-ministro a propósito do episódio do cigarro fumado no avião entre Lisboa e Caracas.
Em vez de enfatizarem o valor político e económico dos acordos estabelecidos com o governo de Hugo Chavez, que tanto beneficiará a comunidade portuguesa na Venezuela e os próprios portugueses, que verão crescer assim o valor anual das exportações, os jornalistas e os opinadores - sobretudo os da imprensa afecta a Belmiro de Azevedo e a Francisco Balsemão - não falaram de outra coisa. Enfatizando o pormenor em detrimento do essencial… Como ocorre nesta imprensa dos grandes barões da nossa economia dispostos a criarem as condições mais adequadas para terem mão-de-obra acéfala, iludida em futebóis e telenovelas, e enquanto tal mais disposta a deixar-se explorar até ao tutano.
Se tivesse que encontrar paralelo cenográfico para o panorama da nossa imprensa e audiovisual não imaginaria algo muito distinto do que a Cornucópia escolheu agora para a peça «Don Carlos, Infante de Espanha» passada no tempo da Inquisição Espanhola.
Há a mesma tentação em pôr todos os filhos da Nação a acreditarem nos mesmos valores e mitos, excomungando quem se atreva a advogar a diferença.
O que José Sócrates está a fazer, enquanto primeiro-ministro, é notável na sua determinação e no que são os seus objectivos de conduzir o país a um patamar de excelência. Para tão ambiciosa omeleta, dispõe de ovos pouco frescos, quiçá estragados nalguns casos (e a imprensa em causa é disso exemplo). Mas, pouco a pouco, contra ventos e marés vai fazendo-o.
Para despeito de quem, na mediocridade, só pode invejar os que têm reconhecidamente valor…

quarta-feira, maio 14, 2008

Tchaikovsky - violin concerto - Allegro moderato part I

Tchaikowsky compôs esta obra na Suiça, quando aí se refugiara na sequência do fracasso do seu casamento.
É uma obra lindíssima, que espelha um coração torturado, tomado ora de melancolia, ora de aceitação do seu destino, ora de súbita de resolução de algo mudar.
Uma música que sempre se gostará de ouvir...