terça-feira, novembro 03, 2026

Cadaveri eccellenti

 


Palermo, a cripta dos Capuchinhos. Um velho juiz caminha devagar entre centenas de mortos vestidos para a eternidade, detém-se diante de uma fileira de corpos secos e parece cumprimentá-los. Cá fora, sob uma luz branca, cai abatido.

O romance de origem, Il contesto, de Leonardo Sciascia, nunca nomeia o país. O realizador, Francesco Rosi conservou a abstração mas deu-lhe a sugestão óbvia: a Sicília de cal, ruas desertas ao meio-dia, palácios de uma capital sem nome onde os corredores parecem não acabar. A Itália está em todo o lado sem se dizer. Desta recusa de nomear nasce a força do filme, porque o espectador reconhece sem poder apontar, como acontece com tudo o que se passa nos bastidores de um regime.

Os juízes começam a morrer, um após outro. O inspetor Rogas segue a pista mais razoável, a de um homem condenado injustamente e decidido a vingar-se dos magistrados. É uma boa hipótese, humana e quase justa. Rosi deixa-a correr o tempo suficiente para o espectador instalar-se nela e depois desfá-la sem alarde: a vingança privada servia de biombo.

Lino Ventura dá ao inspetor um corpo pesado, lento, de poucas palavras. Vem do policial francês, onde a moral mede-se pela firmeza dos ombros, e entra numa paisagem onde nada tem peso: ministros, magistrados e conselheiros flutuam numa retórica sem chão. Contra eles, Ventura limita-se a ficar parado, a ouvir, a desconfiar. A interpretação é quase toda feita de silêncios que preenchem o filme.

Há uma cena com Max von Sydow, presidente de um tribunal supremo, onde o argumento se torna teologia. O erro judiciário não existe, explica ele com a serenidade de um bispo, porque julgar é um sacramento e o juiz oficia como o padre na missa. Sydow diz tudo isto sem um traço de loucura, e por isso a cena assusta. O fascismo do filme não grita; raciocina, cita, sorri à mesa. Fernando Rey, ministro, oferece a mesma cortesia gelada. O perigo veste-se de toga e de gravata, e fala bem.

A câmara de Rosi observa de longe. As figuras aparecem pequenas contra fachadas monumentais e praças vazias, vigiadas por um olhar sem dono. Ao fim de algum tempo, o espectador percebe estar a ver pelas lentes da polícia política: a forma do filme é já a sua tese. Ninguém precisa de dizer quem manda, porque mostra-o o enquadramento.

Em 1976 a Itália vivia a estratégia da tensão. As bombas de Piazza Fontana e o golpe falhado de Borghese aconteceram meia dúzia de anos antes. O Partido Comunista de Berlinguer propunha o compromisso histórico e aproximava-se do governo. Rosi filma esse momento sem o nomear: um país onde a extrema-direita conspira dentro do Estado e a esquerda hesita entre denunciar e negociar.

O desfecho pertence a essa hesitação.

Rogas procura o secretário do Partido Comunista para lhe confiar o que descobrira. Encontram-se num museu, entre quadros, e ali morrem os dois. A versão oficial chega depressa: o inspetor enlouqueceu, matou o dirigente e foi abatido. O partido aceita-a. Insurgir-se seria arriscar a guerra civil, que equivaleria a entregar o país a quem a deseja. Um dos responsáveis resume a decisão numa frase seca: a verdade nem sempre é revolucionária.

Gramsci escrevera o contrário.

Para um espectador comunista é aqui que o filme dói, e se mostra maior. Rosi não oferece consolo. A esquerda do filme vê a verdade e escolhe calá-la, por prudência, por cálculo, talvez por sabedoria. A obra não decide se se trata de traição ou de responsabilidade, nem deixa o espectador decidir com sossego. Ensina sim, como uma conspiração triunfa sem convencer ninguém: basta a quem sabe decidir não saber.

Cinquenta anos depois, a ameaça já não precisa de se esconder nas catacumbas. Senta-se nos parlamentos, ganha eleições e governa à luz do dia. A pergunta do filme mudou de forma sem perder a urgência: quanto da verdade estamos dispostos a calar para não perder o lugar à mesa?

Os mortos dos Capuchinhos continuam de pé, vestidos de domingo, à espera de visita.

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