domingo, novembro 08, 2026

1900, Bernardo Bertolucci (1976)

 


O filme abre num dia 25 de abril. Em 1945, nos campos da Emília, os camponeses perseguem os fascistas em fuga, e um rapaz aponta a espingarda ao patrão. Essa data tem para mim duas moradas: a Revolução de 1974 e o aniversário da Elza. Bertolucci não pensou em nenhuma delas (as coincidências são do calendário, não do argumento), mas 1900 chegou-me assim, com o país e a mulher com quem divido a vida inscritos no primeiro plano. Nunca mais os separei dele.

Depois o filme recua. Morreu Verdi, anuncia um corcunda pelos campos, e nesse mesmo dia nascem dois rapazes: um na casa do patrão, outro na casa dos que trabalham para ele. Alfredo e Olmo. Robert De Niro e Gérard Depardieu. Cinco horas para atravessar meio século de Itália, do latifúndio ao fascismo, do fascismo à libertação.

Poucos filmes reúnem tudo aquilo a que regresso no cinema. Este reúne-o sem pedir desculpa.

Começo pela ópera. Bertolucci, filho de Parma, cresceu à sombra de Verdi, e 1900 organiza-se como um drama lírico: dois atos, árias, coros, morte em cena. A música de Ennio Morricone não acompanha, conduz. Os camponeses entram em campo como um coro entra no palco, em massa, a uma só voz. Ninguém morre em silêncio. O excesso não é defeito; é a gramática escolhida.

Depois, a pintura. Vittorio Storaro organiza a luz pelas estações do ano: o verão dourado da infância, o outono da maturidade, o inverno cinzento do fascismo, a primavera da libertação. Cada época tem a sua paleta, e o tempo histórico torna-se tempo meteorológico. As eiras, os choupos, a névoa sobre o Pó ganham a densidade dos pintores do Ottocento, e o pão, o leite, o estrume pesam no ecrã como num Millet. Há planos onde apetece parar a projeção e emoldurá-los.

O teatro está nas grandes cenas coletivas. O julgamento do patrão no pátio dos Dalcò monta-se como um tribunal popular de palco, com acusação, réu, público, sentença. Bertolucci sabe dispor os corpos no espaço, e sabe deixá-los falar alto.

E depois os atores. Raramente o cinema europeu juntou um elenco destes. Burt Lancaster, patriarca dos Berlinghieri, carrega a velha aristocracia rural até ao estábulo onde se enforca. Sterling Hayden, o velho Dalcò, morre debaixo de uma árvore como morrem os justos nas fábulas. Donald Sutherland compõe um Átila fascista de tal modo repelente que ainda hoje desvio os olhos na cena do gato. Dominique Sanda, perdida no álcool e no tédio. Stefania Sandrelli, professora, militante. Alida Valli. Laura Betti. E, numa ponta, Paulo Branco, a lembrar quantos caminhos do cinema passam por ele.

Por fim, Marx. Sem disfarce, sem dialética envergonhada. 1900 divide o mundo em duas classes e não as põe em pé de igualdade moral. Os patrões apodrecem por dentro, entre neuroses, impotências e crueldades; os camponeses trabalham, amam, comem, lutam, e o filme filma-os com a admiração do neorrealismo. Pode chamar-se a isto esquematismo. Eu chamo-lhe coragem. Em 1976, nenhum cineasta europeu com aquele orçamento ousaria dizer de forma tão frontal de onde vinha a riqueza e quem a produzia.

E aqui está a ironia mais bela do filme: o dinheiro veio de Hollywood. Três estúdios americanos pagaram uma epopeia comunista, com estrelas americanas, para contar a história do proletariado da Emília. O capital financiou a própria acusação. Marx teria sorrido.

Revejo-o de tempos a tempos, e cada vez mudo de lugar dentro dele. Aos vinte anos, estava com Olmo. Hoje percebo melhor Alfredo, a sua fraqueza, a sua incapacidade de escolher, o seu modo de deixar a História passar por cima dele. Bertolucci não o absolve, mas também não o despreza. Esse olhar, mais complexo do que o esquema deixa supor, dá ao filme a sua dimensão trágica.

Os dois envelhecem a lutar um com o outro. Nas últimas imagens, já velhos, voltam a engalfinhar-se, e Alfredo deita-se na linha do comboio, como fazia em criança para provar coragem ao amigo. O comboio passa. Nem o tempo nem a História resolveram a contenda entre ambos.

1900 acaba onde o mundo continua. Por isso continuo a vê-lo. 


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