Poeta menor e politicamente enfeudado às correntes mais reacionárias do seu tempo, Augusto Gil conheceu algum sucesso com a Balada da Neve, que o Herman José tão gratamente satirizou na referência a um tal Octávio. Mas, independentemente, dessa pilhéria antológica, ficam dois versos, que continuam a fazer pleno sentido e dão incontestável argumentação a quem defende a inexistência de qualquer deus justiceiro. Porque acaso ele existisse, diria Saramago, ser entidade desmerecedora de qualquer confiança, porque eivada dos piores instintos.
Lembremos esses versos: Mas as crianças, senhor, / Porque lhes dais tanta dor?!...
Recordei-os ao ver uma reportagem sobre crianças que, na Síria, enterram outras da sua idade por terem essa atividade como emprego para ajudarem financeiramente as desvalidas famílias. Ou as que, ali muito perto, no Iraque, sofrem anomalias genéticas causadas pela poluição da indústria petrolífera explorada pela BP e pela Shell, que não cuidam de evitar os piores danos da sua atividade junto das populações limítrofes das suas instalações.
Mas também em Gaza, na Cisjordânia, ou no Líbano, são crianças muitas das vítimas do genocídio perpetrado pelo governo fascista instalado em Telavive.
Nessa reportagem da Arte um empregado da morgue de Bassorá interroga-se quanto ao sentido de ver-se obrigado a cuidar de tantos corpos infantis. E a resposta é a mais absurda, que pode ser dada: é a vontade de deus!
Vontade de deus? Até quando irão as vítimas desse logro confiar em tal explicação?
Sem comentários:
Enviar um comentário