Não dei conta de ter havido um grande afluxo de espectadores para ver o Grand Tour de Miguel Gomes apesar de premiado em Cannes e vendido para mais de sessenta países. Pelo vistos têm melhor sucesso local os filmes que falam da tal portugalidade a que o filme é tão manifestamente avesso. Ademais, sendo a preto e branco, não tem a mínima oportunidade para satisfazer os delicados estômagos do público-pipoca que prefere as coloridas alarvidades, ou tão só as parvoíces de alguns conteúdos, que lhes são propostos como sinónimo de “cinema” comercial. Que, no entanto, nunca consegue ser rentável, porque cingido ao pequeno mercado português, ao contrário das tais propostas “intelectuais” que, duradouramente, vão sobrevivendo na abrangência planetária.
Não se pode dizer que Pátria seja parvo ou sequer alarve - embora o sejam as milícias da ditadura nela representada como réplica de um Portugal, que existiu durante quase meio século, ou hipótese para tantos países onde as extremas-direitas vão recolhendo maiores apoios eleitorais. Há nele a tentativa de conciliar o inconciliável: a portugalidade (mesmo que configurada numa distopia geograficamente não localizada) com o acesso a um público dela alheado. Enquanto proposta cinematográfica fica longe de ser obra-prima, mas é coisa asseada, que não desprimora a sinceridade do propósito de Bruno Gascon, quando quer lembrar quanto a liberdade não é, de modo algum, algo que possa ser dado como garantido.
Pode-se considerar que falta espessura a alguns personagens, mas o filme rodado durante a pandemia demonstra a tentativa de sobrevivência daqueles que ficam no limbo entre os garantidamente talentosos e os meros oportunistas. Vale a pena continuar atento à futura filmografia do realizador.
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