quarta-feira, maio 14, 2008

O CLUBE DO CEMITÉRIO

Este filme documentário vai incidir na forma como um grupo de idosos alimenta os seus últimos anos de vida tentando, desse modo, vencer a solidão.
Lena, a protagonista, e não por acaso, será o elo que nos levará a todos eles. Ao longo da película, que terá envolvido horas e horas de filmagens, vão-se desenrolando os seus encontros e desencontros ao sabor do desaparecimento de alguns destes velhotes. Geralmente a realizadora, sobrinha e neta de duas intervenientes, dá a última palavra a quem antes de um funeral se sobressaiu, fazendo-lhe realçar as suas qualidades. Um velho que diz poemas. Outro que se confessa enamorado. Um outro que invectiva os companheiros ao dizer que eles, judeus, fazem aos outros o que não quiseram que a si fizessem. Tal afirmação gerou polémica, prontamente apaziguada pelo toque da hora do lanche. Razão posta à prova da anedota de que entre três judeus, surge sempre um terceiro partido. Pois, as discordâncias são inúmeras. Com particular realce na pessoa de Lena.
Lena é a velha que contra argumenta perante tudo, exaltando-se no verbo fácil de abespinhar quem, em seu redor, se atrever ir contra corrente, até no simples interromper de conversa que se esforça por monopolizar. Quem com mais isso sofre é a sua cunhada e amiga de infância. Sujeita a ouvir da sua boca epítetos como ignorante ou a ter de passar férias com ela. Gabe-se-lhe esta paciência estóica.
O filme consegue ser subtil no humor inerente a cenas patéticas no constante passar dos velhos, cadeira desdobrável e piquenique na mão, face ao mausoléu, que sinaliza o nome do cemitério, e que Lena defende ser esse o verdadeiro nome do clube. Não o clube do cemitério como lhe chama a realizadora.
No fim e porque o número de elementos se vai reduzindo por morte ou por impossibilidade de deslocação, as reuniões prosseguem no lar onde estão os mais fracos, os que se sucederão no próximo funeral até à extinção. Depreende-se!

segunda-feira, maio 12, 2008

«Le Drôle de Mai» de José Vieira

Ao vermos documentários históricos é fácil encontrar perspectivas muito extremadas sobre determinadas realidades por que passámos. A respeito do período salazarista-marcelista da História portuguesa, ora parece que quase toda a população era do contra, como o confirmaria a campanha eleitoral do General Humberto Delgado, ora aparentava aceitar passivamente a «ditabranda» que ela muitas vezes se aparentava.
No documentário de José Vieira, «Le Drôle de Mai» temos este contexto visto de uma França aonde eclodia a revolução nas ruas. E de onde muitos portugueses fugiriam por medo do clima de insurreição e de anarquia, que imperava à sua volta.
É evidente, que esses fugitivos da Revolução tinham razões para a sua cobarde retirada: gente simples do campo, temerosa a Deus e nada sabendo do mundo em que viviam, era facilmente tomada do medo pelo que não poderiam compreender. E daí fugirem para a toca apertada de onde tinham partido. Mas é, igualmente, importante considerar o encorajamento ao regresso a Portugal de todos esses emigrantes que, a ali presenciarem tais «modernices» e gostarem, poderiam ganhar a tentação de as querer divulgar por cá. E isso era o que mais afligia a ditadura. Por muito que os francos vindos de França fossem essenciais para continuar a pagar os custos da Guerra Colonial...

domingo, maio 11, 2008

«Love Express», um filme de Elena Hazanov

Nesta sociedade a contas com a falta de tempo e o individualismo, têm surgido formas inovadoras de encontrar o parceiro ideal para a vida. São os encontros organizados para aviões, para barcos, para bares e discotecas. É o universo do speed dating ou do speed flirting.
O tema de «Love Express», telefilme suíço de Elena Hazanov, realizado em 2004, e contando com Mathilda May num dos principais papéis, versa essa temática, escolhendo para espaço da acção um cruzeiro de barco no Lago Léman. Há um belíssimo pôr-do-sol, risos e música xaroposa. O ambiente estereotipado para quem está disposto a encontrar a alma gémea.
Mas, como em tudo, nada é o que parece e são muitos os objectivos escondidos dos que se fazem ao papel: há a jornalista disposta a escrever um artigo de jornal, outra que vem à procura de marido rico, outro para conseguir a nacionalidade através de um casamento «branco» ou quem procure varrer as cinzas do seu fracasso conjugal.
Mesmo o casal organizador não deixa de ter uma relação tempestuosa.
O registo de comédia obriga a equívocos e a desencontros, que suscitam algumas crises e a formação de alguns casais improváveis.
Se o filme é daqueles, que rapidamente se esquecem, não deixa, ainda assim, de suscitar algumas pistas de reflexão quanto à forma como a relação conjugal vai procurando sobreviver num contexto a ela tão agreste…

Keith Haring

Desaparecido muito cedo, quando ainda só contava 31 anos, as obras do pintor norte-americano Keith Haring continuam a suscitar bastante interesse nos apreciadores da arte contemporânea.
Durante dez anos, Haring criou centenas de obras, muitas das quais sob a forma de graffitis, já que entendia ser essa a forma mais expedita de fazer chegar às pessoas a sua arte. Inevitável foi a prática ganha em correr à frente da polícia.
Curiosa, igualmente, a sua forma de criar: sem quaisquer estudos ou esboços, e a traduzir os movimentos sincopadas do hip hop ou das personagens das Bandas desenhadas da Marvel.
Olhando-se para os seus quadros fica a sensação de um universo simples e ligado às tradições tribais. Embora, no seu último ano de vida, Haring tomasse uma orientação mais sombria nas cores e nos traços, quando problemas como os da SIDA, da homofobia ou das drogas ganhavam-lhe dramática acuidade.

sábado, maio 10, 2008

Mazurca de Fogo

Gostaria pôr aqui as cenas utilizadas pelo Almodovar para ilustrar o seu «Fala com Ela». Mas, hélas, só encontrei estas imagens do bailado no You Tube...

Mazurca de Fogo

Entrei no espectáculo da Pina Bausch, «Mazurca de Fogo», a calcular que gostaria muito.
Ao intervalo já estava a considerar que iria gostar muito, mas muito mesmo. E, nos vibrantes aplausos finais, expressava o quanto adorara este espectáculo de muito movimento e cor, perpassado por um incrível humor.
Em causa toda a portugalidade expandida para as suas antigas colónias, reflectindo-se as suas idiossincrasias nos ritmos, nos gestos e nos hábitos.
Há a relação homem/mulher com o que comportam de afecto e de desafecto. E referências óbvias a símbolos culturais (Pessoa, Paula Rego) ou sociais (aquaparques, telenovelas) facilmente reconhecíveis…
Ao sair da sala estava ciente de ter visto um dos melhores espectáculos de entre todos quantos vi nos últimos anos...

segunda-feira, maio 05, 2008

Carmina Burana - Finale

Ao ouvirmos Carl Orff não podemos esquecer as posições políticas indefensáveis, que foram as suas. Mas «Carmina Burana» continua a ser uma obra maior da música do século transacto. E aqui, sabiamente dirigida pela batuta de Simon Rattle...

UM FILME DE ANNE MARIE MIÉVILLE

Num artigo a propósito do recente lançamento em DVD de um filme de Anne-Marie Miéville («Depois da Reconciliação»), o crítico de cinema do «Diário de Notícias», João Lopes conclui:
«Os preconceitos correntes, incluindo os de raiz machista, tenderão a arrumar alguém como Anne-Marie Miéville na condição de "dependente" do seu parceiro masculino de criação (Jean Luc Godard).
Aliás, é bom que se diga que tal machismo, sobretudo nas suas formas mais "ri
sonhas", é todos os dias sustentado por muitos discursos com enorme implantação e poder social (a começar por algumas formas de publicidade televisiva). Ironicamente, qualquer mente minimamente disponível compreenderá que um filme como Depois da Reconciliação começa onde começam muitas telenovelas: no reconhecimento da crise do espaço familiar tradicional e da dificuldade de sustentar uma relação (conjugal, afectiva, sexual). As diferenças decorrem do simples respeito pela complexidade afectiva de cada ser humano».
Só pelo tema em si, vemos que o filme da realizadora francesa é bastante interessante, ao colocar questões de grande relevância nos dias de hoje: qual será o papel da família numa sociedade cada vez mais acelerada, em que não sobre tempo para a comunicação entre marido e mulher ou entre pais e filhos? Como sustentabilizar essa família enquanto instituição, se é cada vez mais frequente, que as profissões de cada um tendam a afastá-los geograficamente e a colocar distâncias físicas aonde já se tenderiam a cavar as temporais?
Estas questões, bastante complexas, não suscitam respostas fáceis. Sabemos que o ser humano é gregário por natureza. Que tem horror à solidão, ao silêncio!
Mas não está fácil encontrar a verdadeira quadratura do círculo, que seria conciliar as características sociais e profissionais dos dias de hoje com os requisitos afectivos, que todos comportam em si…

Pete Seeger - Guantanamera

O venerável cantor perfez agora 89 anos e não consta que jamais tenha renegado os ideais socialistas, sempre presentes nas suas canções e na sua militãncia política.
A canção que aqui fica é só para evocar um dos exemplos possíveis sobre os tais imprescindíveis de que falavam os versos de Brecht...

domingo, maio 04, 2008

ESCRITORES E ESCREVINHADORES

Maio costuma ser mês dos livros ou não seja aquele em que abre a Feira a eles dedicada no Parque Eduardo VII.
Uma das pequenas editoras, que aí se estreará este ano será a de Nelson de Matos, que funciona como uma espécie de D. Quixote numa paisagem subitamente alterada pela chegada de quem encara o livro como uma mera mercadoria feita para ser rentabilizada e dar lucro aos accionistas. A edição como amor aos livros ou acto de militância destinado a abrir asas à imaginação e a à compreensão do mundo é algo de cada vez mais raro, que importa encarar como esforços a apoiar.
De uma entrevista já com alguns dias, retirei dois comentários desse editor, que ajuda a situar um pouco melhor como vai o mundo editorial em Portugal.
Num deles, Nelson de Matos explica como vê hoje os seus colegas, que publicam livros: Hoje os editores nem sequer lêem os textos. Na maior parte dos casos o título publica-se porque o autor tem um programa de televisão, é jornalista, é político , é tudo menos escritor. As exigências das organizações empresariais que hoje são as editoras já não se compadecem com esta situação.
Os livros não são, hoje, necessariamente, obra de e escritores. Neste mundo capitalista há que escrever depressa, publicar depressa, vender depressa. Nada a ver com o que é, ou deve ser, o ofício de escritor: Escrever tem que ser um trabalho. Os grandes pianistas, violinistas e até, se quiser, os futebolistas, aperfeiçoam todos os dias a sua técnica. Não digo que a escrita tenha que ser praticada diariamente, mas tem certamente que sê-lo permanentemente.

sábado, maio 03, 2008

Muito mais homens que mulheres na Índia

No canal ARTE deu uma reportagem sobre o problema, que se vive na Índia, aonde o desequilíbrio demográfico entre homens e mulheres se está a agudizar.
A ciência trouxe, através das ecografias, a possibilidade de identificar o sexo do bebé antes do nascimento. O que significa toda uma indústria abortiva de que são vítimas os fetos femininos. Porque ter uma filha é uma fonte de preocupação para uma família indiana: não só ela abandonará por completo a sua família no dia do casamento, como obriga ao custo de um dispendioso dote.
A reportagem mostra diversas estratégias ensaiadas por activistas antiaborto, que procuram sensibilizar as mulheres para não cederem a essa tendência cultural, ou a denunciarem os ginecologistas e parteiros, que ganham fortunas à conta do verdadeiro genocídio, que executam.
Para quem defende o direito ao aborto na sociedade ocidental, este tema deixa alguma inquietação, porque parece pôr em causa essa posição política. Mas há abortos e abortos…
E se, nas nossas sociedades, o aborto pode contribuir para a emancipação feminina, na Índia de hoje ele contribui activamente para a preservação do seu papel secundário numa sociedade aonde o homem dita as leis. O problema é que estes contam com um número cada vez menor de mulheres disponíveis para poderem casar e ganhar a respeitabilidade inerente a um chefe de família…
Daí que o discurso antifeticida de bebés femininos comece a abalar a misoginia dos machos locais.

MAX BRUCH VIOLIN CONCERTO NO. 1 GIL SHAHAM, part 3/3

No concerto da Gulbenkian esta interpretação esteve a cabo da violinista Arabella Steinbacher, que foi sublime. Mas esta versão também acaba por ser bastante feliz...

WEBER, BRUCH E SCHUMANN NA GILBENKIAN

Concerto na Gulbenkian no âmbito da temporada de Música 2007/2008.
Desta feita a liderança da orquestra coube a Fábio Luisi, maestro extremamente competente e expressivo, que é titular de instituições tão significativas quanto o são a Sächsische Staatsoper e a Staatskapelle Dresden e tem colaborado noutras como a Sinfónica de Viena ou a Metropolitan de Nova Iorque.
Em Bayreuth dirigiu em 2007 a Tannhäuser de Wagner.
A impressão, que me deixou, foi a de um conhecimento aprofundado das peças, que dirige, dando muitas orientações aos instrumentistas com uma gestualidade exuberante,
A primeira peça a ser tocada foi a abertura da ópera «Oberon», que Carl Maria von Weber compôs para ser estreada no ano em que morreria (1826). Ainda que sem surpreender, é uma composição vibrante, com a trompa a ganhar destaque, ou não tivesse o protagonista da ópera (e da peça de Shakespeare em que se baseia o libreto) um desses instrumentos com características mágicas.
Seguiu-se, depois, o conhecido Concerto para Violino e Orquestra nº 1 em sol menor. Opus 26, de Max Bruch.
O compositor alemão teve uma vida bastante longa, morrendo em 1910, já com 76 anos. O que o torna no paradigma do criador conservador, avesso às novas sonoridades então ensaiadas por um Wagner ou por um Mahler.
Mas a interpretação da jovem violinista Arabella Steinbacher permitiu depreender que estávamos perante a oportunidade única de presenciar aquela que promete ser uma das grandes solistas desse instrumento nos próximos anos: não se tratou de mera competência, mas de uma clara assumpção íntima da partitura, vivendo-a com uma emotividade genuína. O seu sucesso junto dos espectadores foi tal, que propiciou um excelente encore, que apenas veio realçar o seu inegável virtuosismo.
Finalmente, depois do intervalo, foi a 3ª Sinfonia de Schumann, a Renana.
Também sobre este compositor confesso o meu escasso entusiasmo: ao contrário de outros criadores da mesma época (1ª metade do século XVIII), Schumann não me consegue impressionar. Apesar da magnificência de uma pauta, que exige um grande empenhamento de toda a orquestra, e leva a sonoridade da sala a um número muito apreciável de décibeis, mesmo quando o andamento se reivindica de solene ou de muito moderado. Mas a direcção exaltada de Luisi e a capacidade da orquestra dissipa quaisquer preconceitos.
Acabou por constituir um excelente concerto para coroar uma semana hiperactiva.

sexta-feira, maio 02, 2008

Weber Oberon Overture - Jansons, Berlin Phil

O concerto do fim de tarde na Gulbenkian começou com esta abertura da última obra composta por Carl Maria von Weber antes de morrer. Foi em 1826 e o romantismo estava no seu fulgor.
A obra é vibrante. Há a importância da trompa (que remete para o instrumento mágico do personagem de Shakespeare, que dá título à ópera). Mas também o clarinete, que ilustra o cavaleiro Huon de Bordéus ou os violinos para Rezia.
Embora o maestro não fosse o que aqui aparece a dirigir a Filarmónica de Berlim, o público lisboeta acabou por ficar muito bem servido pela direcção de Fabio Luisi.

sábado, abril 12, 2008

«BUG», UM FILME DE WILLIAM FRIEDKIN

O cinema norte-americano anda a espelhar de maneira mais ou menos óbvia os problemas de uma sociedade à qual os traumas do 11 de Setembro e do insucesso bélico no Iraque anda a lesar na sua arrogante auto-estima, tanto mais que as notícias da sua saúde financeira só perspectivam uma decadência para a qual nunca se preparara.
Se os filmes dos irmãos Coen ou de Paul Thomas Anderson este ano consagrados nos Óscares, são ilustres representantes desta tendência, outros menos mediáticos não deixam de a reiterar.
«Bug», o filme de William Friedkin, rodado em 2006, não vale apenas pela notabilíssima interpretação dessa superlativa actriz, que é Ashley Judd, bem acolitada ademais pelo desempenho de Michael Shannon, mas também pelos eixos temáticos nele entrecruzados.
Numa descrição sumaríssima podemos resumir o filme ao encontro entre dois solitários num quarto de hotel, aonde se passa quase toda a trama.
Agnes vive o pesadelo de ter perdido o seu filho de seis anos, quando com ele fugia de um marido particularmente violento. Quanto a Peter cola-se-lhe à pele um síndroma de paranóia e esquizofrenia colhido nas suas comissões de serviço no Iraque, e que ele julga proveniente de experiências científicas com fins militares e aplicadas em cobaias humanas.
E é em torno dos desvarios destes personagens, que outras questões pertinentes se colocam: o que é a verdade e o que é a mentira? Até que ponto estamos dispostos a enganar-nos a nós próprios ao tornarmo-nos permeáveis a manipulações emotivas?
A incineração final corresponde a uma espécie de ritual de purificação. Mas para construir o quê sobre um cenário de terra queimada?
É uma resposta, que Friedkin não arrisca. E, por isso mesmo, o filme não abandona uma certa forma de ambiguidade, que quase se tornou na imagem de marca do realizador ao longo de toda a sua carreira.

O EGOÍSMO DOS HOMENS E AS IDEOLOGIAS

De vez em quando surgem notícias decepcionantes para quem faz da assumpção dos ideais de esquerda uma teimosia identitária, ainda que alicerçada em fundamentos racionais: a passagem de outros supostos cúmplices das mesmas ideias para o lado oposto.
Embora a notícia surja em segunda mão terá acontecido agora com o dramaturgo David Mamet.
Durante anos ele tem sido um dos nomes mais sonantes da esquerda norte-americana, concebendo filmes e peças de teatro, aonde se denunciam os aspectos mais sórdidos do capitalismo selvagem aí predominante.
Ora ele terá feito profissão de fé nesse mesmo capitalismo selvagem ao considerá-lo o sistema mais de acordo com o egoísmo indissociável de cada ser humano. E já que não se pode combatê-lo, há que render-se a ele. Terá sido isso o que David Mamet terá concluído, arranjando como álibi o facto de o capitalismo produzir mais riqueza por se basear na avidez de lucro de gente empreendedora, obrigada para tal a criar empregos e a gerar negócios a montante e a jusante do que faz.
A actual crise financeira deveria levar Mamet a rever a bondade do seu erróneo diagnóstico!

quarta-feira, abril 02, 2008

UMA PROMESSA POR REVELAR

Há dezasseis anos, ainda os escombros do Muro de Berlim estavam frescos na memória, o filósofo George Steiner dizia ao «Le Monde»:
«Não estamos senão no início do pós-marxismo. O desabar dessa esperança, que se transformou em horror deixa resíduos que ainda vão arder durante muito tempo. Também o cristianismo morre lentamente difundindo todas as espécies de venenos em decomposição. O cristianismo e o marxismo são as duas grandes heresias messiânicas do judaísmo. Este sobreviverá. Mas não penso que nasça, enquanto eu for vivo, um novo sonho colectivo coerente.»
O filósofo, embora de provecta idade, ainda está vivo e o seu juízo cumpriu-se: o sonho colectivo mais coerente dos dias de hoje parece ser o do islamismo radical, que mobiliza milhões de crentes, mas assusta os que se identificam com os valores ocidentais.
Há, ainda assim, a ponderar o que será das nossas democracias burguesas, quando o petróleo se tornar cada vez mais caro em consequência do seu progressivo esgotamento e com as respostas cada vez menos satisfatórias do capitalismo selvagem para garantir alguma equidade na distribuição da riqueza.
Tendo em conta que o projecto marxista nunca se cumpriu, constituindo as experiências do século XX sucedâneos não muito felizes da tentativa de passar da sua teoria à prática, o desafio continua a ser o de encontrar uma via mais eficaz de o concretizar.
Enquanto socialista nunca poderei dizer que marxismo nunca mais. Porque, em boa verdade, ele ainda está por se revelar em todo o seu esperançoso potencial…

AS REALIDADES DO MARKETING POLÍTICO

Num jornal económico leio um comentário do Ricardo Costa, que merece ser ponderado: »No virar do ano a oposição começou a comportar-se em alegre clima de pré-campanha e o Governo respondeu na mesma moeda com uma remodelação e meia dúzia de medidas avulsas. Até aqui tudo bem. O problema é que a festa continuou e não parece que vá parar.»
Trata-se de um tema recorrente: a capacidade demonstrada pelo Governo para fazer passar a sua mensagem junto da opinião pública. Como se fosse um pecado essa preocupação com um marketing político, que é, nesta época, um imperativo de qualquer força política.
Há quem o faça pelo uso e abuso da demagogia e a direita é especialista nessa exploração maniqueísta dos argumentos mais primários como se todos os eleitores fossem atrasados mentais ou crédulos apaniguados. E há a inteligência de um Governo, que dá importância aos seus actos políticos, eventualmente empolando os seus efeitos benéficos para a maioria dos cidadãos.
Em tempos idos, quando não estávamos assim tão assolados de imagens e de sons, poderíamos compreender o comedimento dos actores políticos. Mas, nos dias de hoje, o marketing político é tão essencial como o de qualquer empresa apostada em vingar num mercado cada vez mais competitivo.
Associar isto a propósitos condenáveis só demonstra uma de duas coisas: ou falta de honestidade intelectual ou miopia perante as realidades dos dias de hoje…

terça-feira, abril 01, 2008

GINÁSIO ÓPERA INAUGURA COM «OTHELLO» A NOVA TEMPORADA

No dia 29 de Março inaugurou-se a 5ª temporada de Ópera-Video promovida por uma das mais bem organizadas instituições melómanas do nosso país: o Ginásio-Ópera. De facto, cada vez mais ambiciosos nos seus objectivos, os responsáveis de tal estrutura acabam de assinar um protocolo ppor três anos com a Ordem dos Médicos para se responsabilizarem pela dinamização cultural dos seus espaços. O que garante uma auspiciosa convergência entre a arte do bel canto e a da gastronomia aí assumida pelo Chefe Luís Suspiro.
Para conferir um simbolismo ainda mais consequente a esta inauguração teria valido a pena convocar a obra de Rossini para a abrilhantar, tendo em conta quão inspirado foi esse compositor nas artes culinárias. Mas a opção por «Otelo» na versão composta por Giuseppe Verdi e Arrigo Boito não deixou de sugestionar muito positivamente os espectadores presentes.
Na Conferência de apresentação desta obra, o presidente do Ginásio Ópera, João Maria de Freitas Branco, referiu haver um antes e um depois de William Shakespeare. Porque ele terá concentrado na sua obra uma grande parte dos temas universais e intemporais, que nos continuam a influenciar-nos nos dias de hoje. Em Iago, por exemplo, está bem representada a demagogia tão frequente nos políticos de hoje, quando convencem as pessoas a reagirem contra corrente aos seus interesses próprios. E é isso que sucede com o mouro Otelo, que, apesar de chefe militar carismático, se deixa enlear nas pérfidas insinuações do seu cortesão ao ponto de acreditar no adultério da inocente Desdémona.
Outra das curiosidades da sessão foi o desempenho do papel de chefe militar por outro, Frederico Almendra, que costuma liderar militares portugueses em missões de alto risco na Bósnia, no Iraque e no Afeganistão.
Na sua estreia oficial em público, o tenor terá justificado o assumido arrojo do orador para interpretar as exigentíssimas árias desta ópera, porquanto requerem um tenor com suficiente flexibilidade vocal para corresponder num registo mais baritonal como o almejado pelo compositor.
A outra grande descoberta da sessão foi a soprano brasileira Taiana Froes que, recentemente instalada entre nós, promete vir a enriquecer a diversidade de opções femininas para espectáculos operáticos que, entre nós, se organizem…
Passado o repasto, que teve de positivo a originalidade das propostas do conceituado chefe, mas de ambíguo o seu dilatado ego, seguiu-se a projecção da versão filmada da obra de Verdi, tal qual foi dirigida por Georg Solti no Convent Garden em 1992.
Plácido Domingo e Kiri Te Kanawa estavam nos momentos mais vibrantes das respectivas carreiras e credibilizam o carácter excepcional de um espectáculo, que ainda contava com Serguei Leifenkus para esse Iago, por quem as certezas se perdem e as dúvidas se transformam em intenções assassinas.

quarta-feira, março 19, 2008

«POLUMGLA», UM FILME DE ARTEM ANTONOV

Começa por existir um hospital militar onde os feridos se entusiasmam com as imagens cinematográficas de bailarinas de cabaré. Mas, logo sobrevém um profundo silêncio perante as da guerra, que eles terão experimentado da pior maneira até há pouco.
Resgatando as suas próprias memórias de guerra - mormente, quando vira trinta dos seus amigos, serem assassinados a sangue-frio por um nazi, que se ia acompanhando à harmónica enquanto cumpria a sua miserável tarefa - o tenente Grigori Anokhine evade-se desse estabelecimento para regressar à frente do combate antifascista.
Não vai longe: capturado e em vias de ser incriminado devido a falsificação de documentos, o militar vê ser-lhe atribuída uma missão bastante complicada: chefiar um grupo de prisioneiros alemães, fazendo com que eles ergam uma torre de rádio no meio da taiga para que os Aliados possam colher referências adequadas para alimentarem as linhas de reabastecimento do Exército Vermelho.
Se, a princípio, Grigori sentia um profundo ódio por aqueles prisioneiros, que personificavam tudo quanto aprendera a esmagar, depressa ele se deixa conduzir por um arreigado humanismo, que muito desgostará o espião de serviço, o seu ajudante Tchoumatchenko.
Mas que poderia ele fazer se, depois de uma recepção glacial dos aldeões de Polumgla, logo as viúvas carenciadas de afecto, começam a requisitar os prisioneiros para o conforto das suas alcovas?
Grigori compreende tanto melhor a situação, quanto ele próprio se prende de afectos com a sobrinha da velha xamã Loukeria, que o cura do alcoolismo graças às suas sortes mágicas…
A pouco e pouco a torre é erguida sem que qualquer dos membros do seu grupo especial perca a vida ou sequer se lesione.
Mas ele não poderá evitar o que já estava há muito decidido: acabado o trabalho, o general Batiouk chega com as suas tropas para fuzilar sumariamente os alemães. Que terão cumprido uma tarefa inglória, já que essa torre para nada servirá, planeando-se a construção de outra a 600 quilómetros. Com outros prisioneiros, ainda não riscados das respectivas listas…
Num filme, que esteticamente remete para um imaginário do antigo cinema soviético, com algumas imagens muito belas à mistura - as passadas, por exemplo, com as auroras boreais, nas quais os alemães vêem uma efémera esperança de se tratar da arma milagrosa prometida por Hitler - «Polumgla» revela, sobretudo, um profundo humanismo já que demonstra como, independentemente, do tipo de regimes, que os empurra para os teatros de guerra, os soldados acabam por ser muito semelhantes quanto às suas preocupações e ambições...
É claro que, comparando um filme russo com um norte-americano sobre o mesmo tema as diferenças são abissais. Sendo o povo russo muito dado à contemplação, «Polumgla» chega a ser exasperantemente lento na demonstração de um tempo de impasse em relação ao que se vai passando na frente de batalha.
Mas, sabendo-se que tão escassos soldados alemães terão regressado das prisões soviéticas, o filme consegue ser convincentemente realista, quando se define quanto ao destino desses prisioneiros...