Os contos de Ray Bradbury, que vou lendo em doses homeopáticas, vão-mo confirmando como hábil na capacidade de criar personagens consistentes quanto à forma como representam algumas ideias dele reconhecíveis.
Por exemplo o conformismo perante circunstâncias, que extravasam a vontade de quem delas será vítima, como sucede nas três bordadeiras sentadas num alpendre, e cientes da forte probabilidade de não terem futuro daí a alguns minutos, quando soar a hora prevista para uma explosão nuclear.
Ou o não haver como não serem (racistas) os brancos, donos, quadros superiores ou clientes do resort, onde anualmente organizam um jogo de basebol contra os empregados de cor, e não suportam quando são eles a ganharem.
Ou ainda a inevitabilidade de se alterar o presente, quando vai-se ao longínquo passado numa máquina do tempo com o lúdico propósito de se matar um tiranossauro.
Ou, enfim, quando é a inveja o único propósito de se escreverem cartas, mesmo não sabendo-se ler (nem verdadeiramente querendo-se aprender!), só porque a vizinha as recebe e a caixa de correio da protagonista teima em ficar vazia.
Não é auspiciosa a realidade descrita pelo autor de As Maçãs Douradas do Sol, que dá dos seres humanos as características de conformistas, racistas, fúteis ou invejosos.
Não admira que o futuro distópico se lhe tenha quase sempre apresentado como o mais provável.