quarta-feira, março 19, 2008

«POLUMGLA», UM FILME DE ARTEM ANTONOV

Começa por existir um hospital militar onde os feridos se entusiasmam com as imagens cinematográficas de bailarinas de cabaré. Mas, logo sobrevém um profundo silêncio perante as da guerra, que eles terão experimentado da pior maneira até há pouco.
Resgatando as suas próprias memórias de guerra - mormente, quando vira trinta dos seus amigos, serem assassinados a sangue-frio por um nazi, que se ia acompanhando à harmónica enquanto cumpria a sua miserável tarefa - o tenente Grigori Anokhine evade-se desse estabelecimento para regressar à frente do combate antifascista.
Não vai longe: capturado e em vias de ser incriminado devido a falsificação de documentos, o militar vê ser-lhe atribuída uma missão bastante complicada: chefiar um grupo de prisioneiros alemães, fazendo com que eles ergam uma torre de rádio no meio da taiga para que os Aliados possam colher referências adequadas para alimentarem as linhas de reabastecimento do Exército Vermelho.
Se, a princípio, Grigori sentia um profundo ódio por aqueles prisioneiros, que personificavam tudo quanto aprendera a esmagar, depressa ele se deixa conduzir por um arreigado humanismo, que muito desgostará o espião de serviço, o seu ajudante Tchoumatchenko.
Mas que poderia ele fazer se, depois de uma recepção glacial dos aldeões de Polumgla, logo as viúvas carenciadas de afecto, começam a requisitar os prisioneiros para o conforto das suas alcovas?
Grigori compreende tanto melhor a situação, quanto ele próprio se prende de afectos com a sobrinha da velha xamã Loukeria, que o cura do alcoolismo graças às suas sortes mágicas…
A pouco e pouco a torre é erguida sem que qualquer dos membros do seu grupo especial perca a vida ou sequer se lesione.
Mas ele não poderá evitar o que já estava há muito decidido: acabado o trabalho, o general Batiouk chega com as suas tropas para fuzilar sumariamente os alemães. Que terão cumprido uma tarefa inglória, já que essa torre para nada servirá, planeando-se a construção de outra a 600 quilómetros. Com outros prisioneiros, ainda não riscados das respectivas listas…
Num filme, que esteticamente remete para um imaginário do antigo cinema soviético, com algumas imagens muito belas à mistura - as passadas, por exemplo, com as auroras boreais, nas quais os alemães vêem uma efémera esperança de se tratar da arma milagrosa prometida por Hitler - «Polumgla» revela, sobretudo, um profundo humanismo já que demonstra como, independentemente, do tipo de regimes, que os empurra para os teatros de guerra, os soldados acabam por ser muito semelhantes quanto às suas preocupações e ambições...
É claro que, comparando um filme russo com um norte-americano sobre o mesmo tema as diferenças são abissais. Sendo o povo russo muito dado à contemplação, «Polumgla» chega a ser exasperantemente lento na demonstração de um tempo de impasse em relação ao que se vai passando na frente de batalha.
Mas, sabendo-se que tão escassos soldados alemães terão regressado das prisões soviéticas, o filme consegue ser convincentemente realista, quando se define quanto ao destino desses prisioneiros...

terça-feira, março 18, 2008

«A CIA E O TESOURO DE GUERRA JAPONÊS», Um documentário de Egmont R. Koch (2007)

Em Fevereiro de 1987 está a iniciarse uma importante reunião em Hong Kong: John Singlaub, um general fanaticamente anticomunista, e que participara na fundação da CIA, está a proceder a discussões quanto ao que irá fazer com o tesouro em vias de ser descoberto nas Filipinas, constituído por lingotes de ouro e platina pilhados pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundical, enquanto ocupavam a China.
A expectativa era grande quanto ao conteúdo desse tesouro, já que ele resultara ainda de outras pilhagens cometidas pelos nipónicos noutros teatros de guerra da época - a Indochina, Singapura e as próprias Filipinas.
Ora, as tropas japoneses pilhavam sistematicamente todos os países, que invadiam e muitas dessas riquezas não tinham voltado a aparecer.
Mas John Singlaub não conta devolver essas riquezas aos seus antigos e legítimos proprietários:
conta utilizá-las de outra forma completamente diferente: até porque reinserir no mercado do ouro toda essa riqueza teria efeitos imprevisíveis para a economia ocidental.
Mas preocupa-o uma possibilidade: que a fortuna de Ferdinando Marcos, acabado de ser derrubado, não proviesse apenas da sua cleptocracia congénita, mas tivesse tido origem nesse ambicionado tesouro, que tivesse descoberto antecipadamente.
Até então, Singlaub distinguira-se no financiamento de diversas forças anticomunistas um pouco por todo o lado e de forma mais ou menos ilícita.
É por isso que a sua chegada a Hong Kong coincide com a sua convocatória pelo Congresso para ser ouvido no âmbito do escândalo Irangate, em que se comprovava a sua participação no financiamento dos Contra nicaraguenses. O tesouro japonês permitir-lhe-ia garantir formas
de financiamento alternativas a esses e outros projectos de subversão política. Agora, a obrigação em regressar a Washington para ser interrogado, impede-o de continuar à procura de tal pecúlio. Que se revela, afinal, injustificada quimera: no buraco escavado em Manila nada se encontra.
É que outro terá sido o destino de tais riquezas: Singlaub tê-las-á procurado com um atraso de diversas décadas.
Ele deveria ter-se interrogado, porque é que, em 1948, e com ordens emanadas a partir da Casa Branca, dois notórios criminosos japoneses - Yoshio Kodama e Rioyshi Sasakawa - são libertos por MacArthur, depois de terem sido condenados à forca devido às suas comprovadas malfeitorias.
Teria, assim, compreendido, que pressionado pelo avanço da revolução comunista na China, e vendo o Japão derivar perigosamente na mesma direcção, a CIA tenha decidido pressionar a Casa Branca para libertar os que detinham o conhecimento da origem desse tesouro e os obrigassem a participar com ele no esforço de financiamento das suas acções clandestinas um pouco por toda a Ásia.
Os dois criminosos mostraram-se reconhecidos. O tesouro ter-lhes-á servido para se afirmarem como chefes incontestados na Máfia japonesa (os Yakusa) e para estarem por trás de muitas das acções anticomunistas montadas na Ásia desde então.
Quando, em 1960, o líder socialista japonês é assassinado, quando discursava, está o dinheiro de Kodama por trás dessa operação.
Por outro lado, o seu cúmplice, Sasakawa vai-se proclamando como o fascista mais rico do mundo, enquanto controla o mercado das apostas no arquipélago e se faz fotografar ao lado de Reagan, de Thatcher ou de João Paulo II como se se tratasse de personagem respeitável.
A maior parte do tesouro japonês terá, afinal, financiado a ascensão de Kodama e de Sasakawa no mundo do crime japonês e para financiar as actividades clandestinas da CIA um pouco por toda a Ásia.
O que Singlaub desconhecia… mas com que decerto não deveria ficar deveras preocupado. Afinal outros teriam usado o tesouro para os fins abjectos, que ele pretendia igualmente financiar...

domingo, março 16, 2008

Paradis - Montalvo Hervieu

Se há espectáculos que correspondem aquele requisito fundamental de nos poderem surpreender, os da dupla Dominique Hervieu/José Montalvo, são lapidares.
Há um par de anos eles estiveram na Culturgest com o espectáculo «On Dance». Com as mesmas características que este: a música de Jean Phillipe Rameau, a interligação entre bailarinos e as imagens projectadas e um conjunto multinacional de intérpretes.
Sempre, sempre, um grande prazer...

A IMPORTÂNCIA DO ESFORÇO DE BARENBOIM E DE SAID

O excelente documentário, que Paul Smaczny realizou sobre a Orquestra West Eastern Divan, e os seus dois criadores, Daniel Barenboim e Edward Said é elucidativa sobre a generosidade de um projecto, que bem merecedor seria de um Nobel se a Academia norueguesa não andasse algo distraída.
O título do filme é, por si só, esclarecedor quanto aos objectivos de tal orquestra. »Knowledge is the Beginning»: quando dois povos, com a mesma origem semita, viram costas e andam durante gerações sucessivas a digladiarem-se, faz todo o sentido a criação de pontos para que se voltem a olhar de frente e a conhecerem-se.
Nele vemos Edward Said a refutar que possa haver quem avoque a si o exclusivo do sofrimento. Por isso é ele o grande entusiasta da visita da orquestra ao campo de Buchenwald. Porque conhecer o sofrimento do outro acaba por ser o primeiro passo para o compreender e para com ele criar uma empatia.
A ideia de uma orquestra com jovens árabes, palestinianos e israelitas, todos a partilharem a paixão pela música e a unirem os seus talentos para interpretarem as grandes obras do reportório clássico internacional pode não alterar em nada a política dos governos do Médio Oriente. Mas pode, pelo menos, levar a que um crescente número de jovens salte o abismo mental em que foram educados ao longo de muitos anos e se vão criando as condições para a paz.
O que Barenboim mais teme é a sua presente condição de solitário líder do projecto, agora que o seu cúmplice já foi levado pela leucemia. Porque, é ele próprio a reconhecê-lo, um projecto com esta relevância só ganha sentido, quando há uma direcção partilhada entre militantes dã causa da paz de ambos os lados..
Mas, em Sevilha, aonde a orquestra costuma ter os seus workshops de Verão, ele mantém as sessões de discussão política dantes animadas por Said. E é numa delas, que o ouvimos, com evidente lucidez, a desprezar o conceito de «tolerância». Por comportar uma carga de menorização do outro, que não será aceitável…
Ainda que subvalorizando algumas questões de princípio, há a urgência em pacificar os antagonistas de ambos os lados. E esta orquestra está, à sua dimensão, a concretizar o sonhos dos seus criadores...

quinta-feira, março 13, 2008

A HISTÓRIA DO PS DEFINE A SUA PRAXIS

No «Diário Económico» de 11 de Março, o investigador
Pedro Adão e Silva confessa a sua perplexidade em
relação à convocatória de um comício do Partido Socialista
no Porto como forma de responder na rua à significativa
manifestação dos professores.
Embora fundamentada na necessidade de comemorar
os três anos do Governo de José Sócrates, tal comício
tem sido apresentado pelos comentadores políticos
como uma tíbia estratégia dos socialistas para relativizarem
a aparente condenação das suas políticas por
amplos sectores sociais.
Ora, como diz, Pedro Adão e Silva «esta opção não só
contraria a história recente do PS, como tem pouco a ver
com a identidade do partido.»
É que, ao contrário de muitos dos seus partidos irmãos
europeus, o Partido Socialista português não nasceu a
partir de um amplo movimento de massas, que às tantas
tenha sentido a necessidade de se organizar de forma
mais eficaz para pugnar pelos seus interesses.
De facto, em pleno salazarismo, não havia condições de
mobilizar e organizar esses movimentos de massas. Por
isso a fundação do PS correspondeu a uma aspiração
das elites, desejosas de superar a tacanhez da sociedade
coarctada pelos quarenta e muitos anos de ditadura,
rebocando-a para valores civilizacionais mais avançados.
Desde então tem sido esse o móbil das políticas socialistas,
estejam elas expressadas quer no Poder, quer na
Oposição. Daí que, nas palavras do mesmo investigador,
«o Governo construiu a sua imagem através de uma
agenda modernizadora, apoiando-se numa "maioria
silenciosa", que não se expressa na rua, mas que encontra
eco nas sondagens».
Daí que não faça qualquer sentido medir forças na rua:
nunca foi aí que o Partido Socialista fez impor os seus
valores…
É nessa liderança elitista, que melhor liderará o percurso
dos portugueses rumo à modernidade!

terça-feira, março 11, 2008

«Recordações da Casa dos Mortos»: Janacek na versão Chéreau/Boulez

Quanto mais não seja por ter significado a despedida de Pierre Boulez enquanto maestro em espectáculos ao vivo, as récitas da ópera «Recordações da Casa dos Mortos» no Grand Théatre d’ Aix-en-Provence em Julho de 2007, ficaram para a História da Música.
Mas elas comportariam outros importantes motivos de interesse: por exemplo, a colaboração com o encenador Patrice Chéreau, com quem Boulez já partilhara uma memorável abordagem do «Anel dos Nibelungos» em Bayreuth por ocasião do centenário dessa obra de Richard Wagner e uma não menos relevante «Lulu» de Alban Berg no Palais Garnier em Paris. E há a obra de Janacek em si, ópera em três actos, que foi a última assinada pelo compositor antes da sua morte em 1928.
A ARTE apresentou agora esse espectáculo inspirado nas evocações de Dostoievski sobre a sua experiência de prisioneiro nos campos de concentração siberianos.
É por isso uma ópera para um elenco quase exclusivamente masculino, já que o único papel feminino é o de uma prostituta inserida num drama colectivo onde as individualidades acabam por se fundirem no anonimato indiferenciado da clausura.
A tarefa do encenador é seriamente dificultada pela aparente falta de acção: só pode contar com um conjunto de testemunhos, os dos condenados que relatam as vicissitudes por que terão passado (muitas vezes por meros crimes passionais causados pelo excesso de álcool), exorcizando-as no remorso, na culpabilidade.
Apesar da cinzentude e desolação deste mundo prisional, Patrice Chéreau soube encontrar a mensagem de optimismo de Janacek («em cada ser há uma centelha divina, escrevera o compositor na sua partitura) exaltando em cada cantor-actor a força redentora do desejo.

segunda-feira, março 10, 2008

Autobiografia ou uma ficção com algum interesse?

Margaret B. Jones escreveu «Love and Consequences», um livro muito forte sobre as suas experiências pessoais junto de gangs violentos.
A precisão dos seus detalhes e a forma como conseguiu transmitir essas vivências foram tão convincentes, que uma editora comprou-lhe o texto, editou-o e conseguiu garantiu-lhe críticas muito positivas.
O pior foi que familiares da autora vieram denunciar-lhe a fraude: quase tudo quanto aí contava sobre a família era rotundamente falso. Ora, mesmo procurando corrigir o tiro, ao confessar ter ouvido todas as histórias vertidas para o seu livro nas suas experiências profissionais em instituições de apoio a pessoas de bairros degradados, a autora já não escapou ao ostracismo. Mesmo correspondendo a situações verosimilhantes em muitos bairros complicados das cidades norte-americanas, Margaret B. James passou a ser considerada como uma fraude.
Mas o lamentável nesta história é que, nos Estados Unidos, os livros só se vendem se tiverem efectiva valia literária ou se corresponderem à inefável fórmula das «very true stories». Nestas últimas, o que se procura não é literatura em si, mas a satisfação de uma forma de voyeurismo endémico, que se apossa de uma sociedade aonde a imagem ficcionada se sobrepõe à realidade se com ela se confundir.
Quando essa aproximação se desfaz, caem por terra os mitos. Então até parece que a sociedade norte-americana volta ao fundamentalismo luterano dos seus pais fundadores em que a mentira se torna num crime inominável.
Foi precisamente por isso mesmo, que a antiga campeã de atletismo Marion Jones entrou agora não cadeia: ela não roubou, não matou, não agrediu fisicamente ninguém. Só que, quando questionada quanto a dopar-se ou não, ela terá negado. E, depois, viria a confessar o contrário...

1529 e 1631: DOIS CERCOS, QUE FICARAM NA HISTÓRIA

Há datas da História dos homens, que nos são praticamente desconhecidas, mas merecem ser referenciadas por, em tão significativa dimensão, terem condicionado a evolução civilizacional em que nos enquadramos.
Dois documentários de Hannes Schuler, um deles em parceria com Anne Raerkohl, e ambos de 2006, dão-nos conta dos significativos eventos de duas dessas datas: 1529, ou seja, o ano em que o exército otomano de Suleimão, o Magnífico, estacou a sua invasão ao Ocidente às portas de Viena, e 1631, aquele em que as guerras religiosas entre católicos e protestantes causaram um dos maiores genocídios da época moderna, em que vinte mil homens, mulheres e crianças foram trespassados pelas espadas ou queimados vivos nas suas casas incendiadas.
O primeiro desses documentários, assinado exclusivamente por Hannes Schuler, mostra como a actual capital austríaca ganhou o reconhecimento de bastião cristão contra a ameaça muçulmana.
Fora na Primavera de 1529, que Suleimão, o Magnífico, decidiu sair de Constantinopla à frente de 150 mil soldados. A 21 de Setembro, sem qualquer oposição de permeio, chegam às portas de Viena.
Para dobrar a sua resistência, as tropas do sultão destroem todas as aldeias à volta, matando, torturando e fazendo inúmeros prisioneiros.
Mas os vienenses, apesar de só contarem com vinte mil soldados, não se rendem.
Bem tentam os assaltantes escavar túneis para ultrapassarem as muralhas, não deixando de fustigar continuamente a cidade com as suas salvas de canhão. Mas cada tentativa de penetração dentro da cidade sai gorada aos soldados de Suleimão.
Começando a sentir problemas logísticos quanto ao reabastecimento e com as chuvas a fustigarem as desconsoladas tropas, Suleimão arrisca um último ataque. Aquele que mais se aproxima do sucesso ao conseguir franquear uma das portas de acesso ao interior das muralhas. Mas Viena não cairá…
Um cerco, que termina de forma oposta, é o de Magdeburgo, em 1631.
Estava-se em plena Guerra dos Trinta Anos, que perdurou entre 1618 e 1648, quando Portugal estava sob jugo espanhol e desconhecia o que se passava no centro da Europa.
A 20 de Maio, aos primeiros alvores do dia, um exército de mercenários espanhóis, italianos, franceses, polacos e alemães, irrompem dentro das muralhas, que protegiam a cidade alemã e iniciam uma orgia de sangue e morte, que durará quatro dias.
Os exércitos católicos, na sua sanha fundamentalista, não mostrariam qualquer dó pela população protestante da cidade derrotada...

domingo, março 09, 2008

UM FILME DE ALFONSO CUARON: «OS FILHOS DO HOMEM»

Londres, em 2027. Há dezoito anos, que não nasce uma criança num planeta à beira da ameaça de extinção da raça humana. O rapaz mais jovem, Diego Ricardo, acaba de ser assassinado numa grande metrópole da América Latina só porque recusara autógrafos a alguns dos seus fãs.
É nessa sociedade de características já pré-apocalípticas, que subsiste um poder brutal, sobretudo para com os emigrantes a quem persegue, expulsa e chega a fuzilar expeditamente. E, em contraponto, um grupo revolucionário, os Fishes, que tudo faz para organizar esses proscritos e os levar a uma revolta.
Quem lidera este grupo é Julian (Julianne Moore num papel secundário), que outrora fora mãe de uma criança levada depois pela epidemia de gripe de 2008.
O companheiro de então, Théo, ainda hoje se dá com o antigo sogro, Jasper (Michael Caine), que sobrevive escondido na floresta aonde se dedica ao cultivo de marijuana.
Um dia, os Fishes raptam Theo para que Julian lhe dê uma tarefa inesperada: ajudar a levar uma rapariga negra até à costa britânica e embarcá-la aí no barco de uma organização científica credível, apostada em inflectir aquela perturbadora infertilidade feminina. Mas o que mais espanta Théo é o estado de Kee: ela está grávida já de vários meses, como se depreende da sua volumosa barriga.
Horas depois, quando já dispõem do salvo-conduto arranjado por Théo através das suas ligações ao Governo, seguem pela estrada para a costa, quando são alvo de uma emboscada. Julian será atingida mortalmente com um tiro no pescoço.
Refugiados numa quinta, Théo assiste à designação de Luke como novo líder dos Fishes, e depressa compreende que, não só Julian fora assassinada por uma conspiração interna dos Fishes liderada pelo novo líder, como é a sua própria vida, e a de Kee com a sua criança, que estão em perigo. Sobretudo, porque em vez de a pôr a salvo, confiada aos cientistas do Projecto Humano, Luke quer utilizar a criança como o símbolo da revolta, que prepara.
Com a ajuda de uma enfermeira, convertida em ama da futura criança, Théo consegue ser bem sucedido na fuga à quinta. Arranjam abrigo provisório no esconderijo de Jasper, mas os Fishes dão com eles e em nova fuga, Théo vê Luke abater o ex-sogro à queima-roupa.
Mas será através de um polícia indicado por este último, que entrarão no campo de refugiados de Bexhill, donde contam aceder à bóia do alto mar da qual poderão ser resgatados pelos tais cientistas.
Será aí que rebentam as águas a Kee, nascendo a filha.
Como de costume no cinema comercial, será quando tudo parece perdido, que uma reviravolta no argumento conduz ao happy end, mesmo descontando a morte do protagonista, atingido a tiro no clima de guerra civil por onde terão passado…
O filme é fraquinho e obedece a muitos dos mais convencionais cânones do cinema comercial, mas «Os Filhos do Homem» do mexicano Alfonso Cuaron vem relembrar algumas conclusões passíveis de serem retiradas dos fenómenos políticos de todas as épocas: que, em muitos casos, o extremismo ideológico acaba por beneficiar em larga medida os que mais deveria contrariar. E que o inimigo mais problemático não é o que se conhece, mas o que se esconde hipocritamente ao nosso lado.
Vem isto a propósito de uma história de ficção científica, que dá do futuro próximo uma visão apocalíptica. Numa sociedade ameaçada de extinção, as pontes entre quem assume interesses opostos, deixa de se fazer por concertação, mas pela imposição da força mais brutal. A Inglaterra de 2027 assemelha-se a um estado militar de características fascistas, aonde o racismo assume é apenas uma das suas mais óbvias formas de expressão.
O nascimento de uma criança tem, pois, um sentido redentor. Na promessa de futuro por ela trazido surge a esperança de um tempo bem diferente, capaz de tornar possível o que, pela oposição mais radical, não se consegue.
É nisso, que o filme mais se torna ambíguo enquanto veículo transmissor de uma mensagem de conteúdo ideológico: à repressão fascista não propõe a resposta violenta, mas sim a crença em algo parecido com uma forma de transcendência completamente irracional...

domingo, março 02, 2008

PAUL AUSTER À ESCUTA DE HISTÓRIAS QUE CHEGUEM A SI

Interessante uma entrevista na ARTE com o Paul Auster a propósito da estreia em França do seu filme rodado aqui em Portugal: «A Vida Interior de Martin Frost».
Trata-se da história de um escritor que, uma manhã, acorda com uma mulher ao seu lado na cama. Alguém que ele só julgara existir na sua imaginação e é a sua musa.
Terá sido mais uma dessas histórias, que ele não procurou, limitando-se a aguardar a sua vinda até si. E que ele dispõe depois em palavras e capítulos.
Na mesma entrevista ele conta que o primeiro autor a sugestioná-lo terá sido Edgar Allan Poe, de quem comprou um livro na primeira vez que teve dinheiro seu.
Nunca mais o fantástico o abandonaria, apesar da influência assumida de Joyce e dos filmes mudos de Chaplin, Harold LLoyd ou Buster Keaton.
Mesmo se agora esteja a escrever sobre a política norte-americana pós 11 de Setembro de que é conhecido opositor...

sábado, março 01, 2008

A HISTÓRIA DA AMÁRICA EM DOIS FILMES

O que pode interligar «Haja sangue» e «Este País Não É Para Velhos», que rivalizaram pela conquista dos Óscares deste ano e estão em simultâneo nos ecrãs nacionais?
Há, é claro, as interpretações, que Hollywood premiou: inquestionável a de Daniel Day Lewis, mais discutível a de Bardem, sobretudo se considerarmos a presença de Tommy Lee Jones, ou mesmo de Josh Brolin no mesmo filme dos irmãos Coen.
Outro aspecto comum é o da paisagem. Em vez da América urbana, Paul Thomas Anderson e os Coen viraram-se para as zonas secas e áridas do Sul, aonde abundam fanáticos religiosos ou mexicanos e a ânsia pela riqueza está em quase todos os personagens.
Mas o que mais surpreende em ambos os filmes é a possibilidade de neles se confrontarem duas Américas: a primeira, a de «Haja sangue», é a do século XX, ávida dos recursos naturais alheios, não olhando a meios para alcançar os seus fins: Daniel Plainview não hesita em usar o filho adoptivo como argumento afectivo, quando se trata de fazer negócios.
É, pois, uma América hipócrita e imperialista, capaz de usar e abusar de valores - familiares, religiosos - para se apossar de riquezas antecipando-se aos rivais.
Já «Esta Terra Não É Para Velhos» mostra uma América do século XXI, depois de abanada nos seus alicerces pelos atentados do 11 de Setembro.
É em Ed Tom Bell, xerife experiente, que olha à sua volta sem compreender todas as mudanças verificadas, que melhor se revela esse estado de alma de uma nação, que se acreditou invulnerável e se vê agora a contas com crimes quase inexplicáveis na sua brutalidade.
O personagem de Javier Bardem, Anton Chigurh, é tão estranho ao americano comum como um Osama Bin Laden, porquanto mata indiscriminadamente sem olhar a culpados ou inocentes, numa fúria assassina, que fica por dominar.
É esse o último aspecto em que os dois filmes se aproximam um do outro: ambos mostram epílogos em aberto, sem dar o habitual consolo maniqueísta de Hollywood pelo qual se premiassem os bons e se castigassem os maus.
Quer pela morte, quer pela solidão, quer pela incompreensão de um mundo, que não espera por eles para que pudessem acompanhar as suas mudanças, todos os personagens aqui em causa ficam cientes de que, nem através do filtro de Hollywood, a vida nos EUA desemboca em happy endings.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Lay Lady Lay, Bob Dylan

Esta canção já corresponde à fase em que Bob Dylan deixou para trás a sua fase folk, que parecia torná-lo no herdeiro natural de Woody Guthrie e de Pete Seeger, para se assumir como o individualista descomprometido avesso a qualquer causa.
Ideologicamente é-me antipática esta fase.Mas este tema é extremamente bonito!

domingo, fevereiro 24, 2008

TOMAR COMO EXEMPLO OS MAUS ALUNOS?

Devemos imitar os maus alunos, quanto à forma como cuidam da delinquência juvenil? Foi esta a questão, que o investigador francês Sébastien Roché se colocou e para a qual procurou respostas cientificamente sustentáveis…
Desde 1978, que diversos Estados norte-americanos modificaram as suas leis para julgar adolescentes como se fossem adultos, baixando a idade da maioridade quanto ao que a questões penais diz respeito.
Uma solução, que já se ouviu partilhar por cá, quando é a direita pura e dura a propor soluções para a marginalidade cometida por jovens…
Ora os estudos comprovaram que a aplicação dessas leis - em Nova Iorque chama-se «Juvenile Ofender Law» - nada de positivo trouxeram ao analisar-se o período compreendido entre 1978 e 1982, quer na cidade em si, quer quanto a uma progressão positiva na descida da criminalidade se comparada com a de cidades semelhantes, mas sem a aplicação de tal legislação.
O estudo confirma, que os delinquentes condenados a penas de adultos, reincidem muito mais frequentemente no crime ao saírem da prisão, que os seus colegas submetidos a uma outra lógica de reinserção social.
A solução parece clara: não é um país, que tem uma taxa de criminalidade tripla da média europeia, um tráfico de droga sextuplicado e uma população encarcerada septuplicada, que serve de exemplo para o que quer que seja.
A solução continua a ser tão só a aposta na reintegração dos provisórios delinquentes numa estrutura social normalizada…

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

GUILLERMO DEL TORO: «O LABIRINTO DO FAUNO»

Chama-se Ofélia a miúda adolescente, que chega com a mãe ao acampamento militar do capitão Vidal, que passou a ser o seu padrasto.
Está-se na primeira metade dos anos 40, quando a Guerra Civil ainda não está inteiramente apagada, porquanto subsistem bolsas de guerrilheiros nas zonas mais recônditas de Espanha. São esses resquícios de resistência, que Vidal procura aniquilar.
Mas a chegada de Cármen e da enteada tem outro objectivo: o de assistir ao nascimento do filho, que almeja como sucessor! Daí a importância de ter junto a si o Dr. Ferrero, o médico da região.
O filme de Guillermo del Toro, intitulado «O Labirinto do Fauno», não se resume, porém, a uma mera evocação de um período tenebroso da História Contemporânea. Como Ofélia é leitora voraz de livros, que a acompanham por todo o lado, o filme mostra-a atraída por um labirinto, aonde um estranho personagem lhe conta uma inesperada novidade: ela é a princesa Moanna, filha do rei do Mundo Subterrâneo e que terá um percurso iniciático a percorrer antes de a ele voltar a aceder. Para a ajudar nessa tarefa oferece-lhe o Livro das Encruzilhadas.
A primeira prova, embora complicada, é vencida facilmente por Ofélia: conseguir uma chave de um nojento sapo gigante escondido nas raízes de uma árvore moribunda.
Vai-se, entretanto, conhecendo algo mais sobre o carácter psicopata de Vidal, que mata a sangue-frio os mais inofensivos suspeitos de simpatia para com os comunistas.
A segunda tarefa mágica de Ofélia já corre pior: apesar das indicações rigorosas do Fauno para que resista aos lautos alimentos apresentados numa mesa, ela não resiste e come alguns bagos de uva. Tanto bastará para se desqualificar quanto ao objectivo de regressar à pele de Moanna.
Vale-lhe que, nessa altura, perante os problemas de saúde da mãe, ela já obtivera do estranho ser a Mandrágora com a qual garantira a melhoria significativa dos inquietantes sintomas daquela.
Só que o capitão Vidal descobre a planta debaixo da cama e destrói-a. É quanto basta para que Cármen não resista a nova hemorragia, morrendo de parto.
De nada lhe valia então o dr. Ferrero, cujas ligações clandestinas com os guerrilheiros, descobertas por Vidal, levam este a matá-lo. Ou Mercedes, a governanta, que decide-se, enfim, a fugir juntando-se aos combatentes clandestinos, e é capturada, quando levava Ofélia e o irmão consigo.
Sujeita a tortura, Mercedes consegue arranjar forças para se libertar e ferir seriamente Vidal, quando este se preparava para a torturar selvaticamente.
Perseguida pelo padrasto, quando procura refúgio no Labirinto, Ofélia encontra de novo um Fauno disposto a dar-lhe uma derradeira oportunidade: um ritual em que terá de sacrificar o bebé.
Recusando essa barbaridade, a adolescente fica à mercê do desfigurado Vidal, que dispara sobre ela, quando a vê escapulir-se com o seu ansiado herdeiro.
Desconhecia a rapariga que se tratava da expedita via para aceder ao seu mundo mágico, aonde a esperam o pai e a mãe, os reis desse acolhedor espaço. Com o Fauno, que lhe diz ter sido a correcta essa opção de recusar o sacrifício do bebé inocente.
Vidal não consegue, entretanto, livrar-se do seu destino: cercado pelos vitoriosos guerrilheiros será executado seriamente, tomando Mercedes conta da criança. Prometendo ao carrasco, que o filho nem sequer saberá alguma vez o seu nome, gorando-lhe as expectativas de deixar sucessor.
Embora com os limites próprios de quem mistura fantasia com acontecimentos dramáticos da história humana, Guillermo del Toro consegue a ponte para um público para quem a Guerra Civil é coisa quase pré-histórica, consumindo o lado mágico sem se dar conta que se incrustra em si a conotação entre os malvados franquistas e a perfídia da madrasta da Branca de Neve.
Os meios de produção são reduzidos em nada se comparando com a saga do «Senhor dos Anéis» e, por isso mesmo, a caracterização do Fauno é pouco verosímil.
Mas como quem não tem cão, caça com gato, pode-se dizer que o realizador conseguiu a arte de credibilizar a sua narrativa à conta do trabalho dos actores, de entre os quais avulta Sergi Lopez no papel de Vidal.
Só é pena que o destino deste personagem não tivesse sido o da generalidade dos oficiais franquistas, que tantos crimes cometeram em nome da sua fé religiosa e dos seus valores monárquicos. Os que continuam alimentar as forças mais tenebrosas da política espanhola.

ADEUS COMANDANTE!

Grotescas as imagens dos cubanos de Miami a celebrarem a renúncia de Fidel Castro às suas funções de liderança na Revolução Cubana.
Aquela gente, eivada de um anticomunismo primário, arroga-se de conceitos de democracia, que são no mínimo paradoxais.
Para eles, Cuba é uma ditadura, porque só os candidatos do Partido Comunista são sujeitos ao veredicto popular, não sobrando lugar para vozes alternativas.
Ora, no caso dos Estados Unidos, haverá assim tanta diversidade de alternativas? Apesar de dois partidos, em aparência alternativos, só tem acesso a ser elegível quem tem fortunas a apoiá-lo e a fazê-lo representante dos seus interesses lobbistas.
Quem classifica, de forma primária, o país caribenho como ditadura e poupa essa designação aos Estados Unidos, usa uma dualidade de critérios, que só o desqualifica como juiz justo e imparcial do que vê...

domingo, fevereiro 17, 2008

UM EQUÍVOCO IDEOLÓGICO

É claro que a notícia não surpreende: a independência do Kosovo não surpreende quem há muito a esperava, ou não fosse ela uma das peças da estratégia da Casa Branca para afrontar a Rússia de Putin. A exemplo dos apoios dados aos governos da Ucrânia ou da Geórgia para garantirem uma espécie de cerco político e militar a Moscovo.
Vive-se, assim, o estertor de uma visão imperialista, que conheceu os seus limites nos fracassos iraquiano e afegão. E que julgava alcançado um ilusório fim da História em que a pax americana vingaria à escala global. Com o omnipresente dólar a converter-se numa espécie de moeda única.
A miopia dos ideólogos norte-americanos - desde um Ronald Reagan tão incensado por alguns - foi considerar a União Soviética o inimigo principal, financiando e armando os mujahidines, que aproveitariam depois para organizar os atentados terroristas subsequentes. Em vez de entenderem, que a verdadeira guerra era entre a modernidade e os valores fundamentalistas, quiseram destruir o comunismo.
O que se passou hoje em Pristina é um dos últimos actos de um tremendo equívoco ideológico. E, infelizmente, uma grande parte da União Europeia seguirá obedientemente o que o «aliado» da NATO lhes mandar.

QUERERMOS SER DO NOSSO TEMPO É JÁ ESTARMOS ULTRAPASSADOS

O capitalismo prepara-se para uma nova crise na sequência das dificuldades de ressarcimento dos chamados créditos com o subprime.
O Governo, que precisava de algum sossego para consolidar todo o esforço produzido no saneamento das contas públicas, enfrenta agora os riscos de um arrefecimento significativo das economias para onde mais costuma exportar. Ora, as eleições aproximam-se, as campanhas difamatórias contra o primeiro-ministro continuam a ser lançadas com suspeitosa regularidade e o movimento sindical e social, mobilizado por efeitos das reformas na saúde ou na educação, dispõe-se a fazer o frete a quem mais interessado se mostra em mudar de políticas: o grande capital, que vê nos governos de direita a oportunidade de lançar as suas golpadas.
O que sucedeu com o Casino Lisboa e as trapalhadas do ex-ministro do CDS Telmo Correia para dar a privados o que deveria ser mantido na posse do Estado é só um exemplo de como ocorre o regabofe da corrupção quando a direita chega ao poder.
É claro que a desmistificação das competências governativas de tal gente aparece bem explicitado no que Sarkozy fez nestes seis meses de Presidência. Os escândalos têm sido inversamente proporcionais em relação a medidas concretas para melhorar a qualidade de vida dos franceses. As sondagens demonstram bem como depressa se fartaram de um pequeno tiranete, mais apostado em usufruir as mordomias da função em proveito próprio do que em trabalhar a sério pelo bem estar dos seus concidadãos.
Esperemos que uma vitória democrata nas eleições de Novembro traga alguma serenidade à forma dos norte-americanos encararem a sua progressiva perda de influência nos mercados financeiros internacionais.
Olhar longe é, agora, um desafio deveras complicado. Porque todas as semanas ocorrem golpes de teatro, capazes de modificarem os quadros de referência em que julgávamos possíveis as nossas conjecturas estratégicas...

sábado, fevereiro 16, 2008

A minha pateada em Newport

Se de repente me visse a viajar no tempo, aterrando no Festival de Newport em 25 de Julho de 1965, qual seria a minha atitude perante a actuação de Bob Dylan?
Estaria entre os que o apupavam ruidosamente ou entre os que o apoiavam na decisão de abandonar um som canonicamente folk para abraçar as sonoridades eléctricas do rythm & blues e do rock?
Sabendo o que sei hoje penderia decerto para a primeira hipótese porque, se num Pete Seeger respeito a firmeza das convicções, Dylan aparece-me como um egocêntrico, que namorou com as grandes causas de então (Direitos Cívicos, Guerra do Vietname), ganhando notoriedade à esquerda e, depois, se dissociou completamente desse filme.
Poder-se-á reconhecer nele uma personalidade complexa, mas nesta biografia definitiva assinada por Martin Scorcese, o que sobressai é um confessado individualismo, alheio a valores, a emoções e a lealdades.
Terá sido um enorme talento na forma de recolher as palavras do seu âmago e transformá-las em poemas com assombrosa rapidez.
Reconhecer-se-lhe-á versos, que mesmo atendo-nos à sua aversão a constituir-se como porta-voz de uma geração revoltada, se tornaram bandeira de ideais muito mais avançados do que os por ele pretendidos. Mas como não escalpelizar os múltiplos sentidos de uma canção anunciadora dos tempos em mudança?
Ele terá cruzado, igualmente, a sua arte com a do seu tempo, convivendo com Andy Warhol, com Allen Ginsberg e tantos outros artistas, que nele chegaram a vislumbrar o mensageiro de uma época muito diferente, porque em radical corte com os valores enquistados de então…
Apesar do aprofundado trabalho do realizador, fica por esclarecer o mistério Dylan. Quem terá sido ele no meio de tantas e tão contraditórias imagens de si? Que elementos de personalidade serão comuns às suas sucessivas reinvenções de si próprio?
O documentário de Scorcese vale, sobretudo, como espelho de uma época conturbada em que se chegou a pensar exequível uma outra sociedade, liberta dos egoísmos do capitalismo.
O afastamento de Dylan desse tipo de utopia acaba por ser o melhor retrato desse idealismo frustrado. Porque nenhum sonho se aguenta de pé, quando os seus supostos guias espirituais se apressam a abandonar o barco…
Se na canção de Mercedes Sosa haverá que distinguir entre os bons, os muito bons e os imprescindíveis, Dylan incluir-se-á porventura na categoria dos primeiros…

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Sobre a vingança em «Sweeney Todd»

Vingança, eis o tema de «Sweeney Todd», o filme de Tim Burton, que passa agora por Lisboa. E Johnny Depp assume, que é um dos que mais o interessam, porquanto toda a gente terá uma pitada de tal sentimento face a quem o humilhou ou prejudicou.
Pessoalmente não gostaria de pôr as coisas nesses termos, já que a vingança é, sobretudo, emotiva, e a idade vai-me dando vontade de racionalizar o mais possível o que se passa.
Mas, quando penso nos crimes de Franco ou de Pinochet, será possível racionalizar? Só que a grande verdade é terem morrido de velhice nos seus confortáveis leitos sem sentirem o peso de uma justiça, que seria sempre incapaz de encontrar castigo bastante para as suas malfeitorias…
Como teria sido possível vingar as vítimas de tais algozes se tivesse havido oportunidade de os confrontar com uma qualquer forma de justiça?
Pegando noutro exemplo, os condenados de Nuremberga terão mitigado, um pouco que fosse, a vontade de vingança dos crimes nazis entre 1933 e 1944?
Quando Depp enfatiza assim tanto a vingança como sentimento justificado pelas injustiças de quem a procura não estará assim a esquecer o essencial? Que o fundamental continua a ser a procura de um outro tipo de sociedade aonde se reduzam em muito as injustiças no seu todo?
É claro que se trata de uma utopia, que os socialistas e os comunistas procuraram exequibilizar em formas diferentes de governar à esquerda e que falharam rotundamente em todas essas experiências. Mas isso não implica que se aprenda com esses fracassos e se busquem novas vias de solução para uma doença incurável: a de uma sociedade humana aonde se é naturalmente egoísta, arrogante e prepotente, quando se é poder, mas aonde o projecto de um homem novo mais justo e fraterno continua a fazer sentido!

sábado, fevereiro 02, 2008

OST - 'Barry Lyndon'

Falar de aristocracia e da sua vontade em cingir poder e prebendas a quem faz parte da sua corte, leva-me de volta a Stanley Kubrick e ao maravilhoso filme, que ele fez sobre um homem inquieto disposto a desafiar a fatalidade de não pertencer ao círculo dos privilegiados.
E a música de Haendel é encantatória...