Um dos aspectos mais curiosos do livro do Nobel turco dedicado á sua cidade natal é a memória grata de uma infância verdadeiramente ensolarada: nos meus instantes de felicidade - e a minha infância foi preenchida deles -, não era a minha própria existência que eu sentia, mas o facto de que o mundo era bom, bonito, agradável e ensolarado. (pág. 26)
E, no entanto, era perceptível a decadência de uma cidade, que já vira passadas as suas maiores horas de glória, quando o império otomano aí pulsava no esplendor do seu poderio inquestionável. O jovem Orhan irá crescer num caldo de cultura bem diferente em que o apelo à ocidentalização tem a urgência de se procurar a adequação a um futuro marcado por outros valores:
A tristeza dessa cultura agonizante e desse Império morto e enterrado sentia-se por todo o lado. E parecia-me que o esforço de ocidentalização não provinha tanto da vontade de modernização quanto da angústia da perda desses ornamentos carregados de memórias dolorosas herdadas do império desmoronado: tal como, para nos livrarmos da lembrança destrutiva de um grande amor subitamente morto, nos desembaraçamos com angústia das suas roupas, das suas jóias, objectos e fotografias. (pág.37)
Mas, mesmo agora, em adulto já envelhecido, o escritor sente essa dicotomia entre o passado mítico e a miséria escondida na escuridão das noites invernosas:
E, no entanto, a infância nem sempre era pontuada por momentos de alegria. Com frequência crescente, quer o pai, quer a mãe desapareciam de casa, na sequência dos seus desentendimentos domésticos e Orhan ficava confiado a tios ou a avós:
Na verdade, não derramei muitas lágrimas por causa desses momentos de «desaparecimento» - que me faziam sentir ainda mais vivamente a minha própria existência e a minha solidão, que eu queria esquecer: era por isso que cultivava a parte sombria da minha alma e me divertia - , nem por causa das catástrofes domésticas e das discussões que aconteciam. (pág. 88)
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