domingo, setembro 09, 2018

(DL) A dificuldade de pintar as vastas planícies sem montanhas à vista


Segundo Jonathan Raban o grande desafio, que se colocava aos pintores paisagistas do século XIX, ao percorrerem as grandes extensões planas do Montana ou do Nebraska, era a de arranjarem pontos de referência sobre que trabalhassem a perspetiva.  Como captar uma paisagem uniforme, verde na sua extensão a perder de vista, sob um céu invariavelmente azul, sem nuvens?
Albert Bierstadt, um dos mais representativos dessa escola norte-americana novecentista, tentou superar a dificuldade, ora colocando em primeiro plano um búfalo ou a carroça de um agrimensor, ora pondo à distância alguma montanha, que servisse de contraponto à inexistência dessa horizontalidade dominante.
Conheço quem se sinta desconfortável na paisagem plana das lezírias ribatejanas, preferindo as ondulações, mesmo que suaves do Alentejo. Raban refere esse incómodo como inerente à sensação de espaço, que tende a diminuir-nos, a apequenar-nos dentro de um horizonte, que adivinhamos ainda mais vasto e onde a nossa dimensão equivale à dos insetos, que nele esvoaçam.

(S) A Fantasia trabalhada por Sarasate segundo a «Carmen» de Bizet

(DIM) Alguns mitos sobre Yasujiro Ozu


Enquanto a obra de Yasujiro Ozu não regressa aos nossos ecrãs - depois dos franceses estarem a ter a oportunidade de verem algumas das suas maiores obras restauradas -, vale a pena desmistificar três lendas a seu respeito.
A primeira diz respeito à magnificência das suas criações: se os filmes do pós-guerra justificam essa ilação, os anteriores ao conflito são muito mais discutíveis. É que sendo um dos muitos cineastas contratados pelo estúdio  Shochiku, que então produzia centenas de títulos por ano, Ozu era obrigado a imitar os colegas rodando pelo menos três. Ora, como depressa e bem não há quem, grande parte deles são mera curiosidade cinéfila.
O segundo tem a ver com a importância da família em quase todas as  suas obras maiores. Ao contrário do que se poderia pensar Ozu nunca casou, nem teve filhos, vivendo sempre com a mãe. Por isso muitos dos problemas de relacionamentos familiares tratados nos seus filmes eram-lhe apenas conhecidos como observador.
O terceiro tem a ver com a serenidade zen dos seus filmes, que nos levaria a pensá-lo austero. Ora, grande apreciador de saké, é conhecido o episódio em que fechando-se num quarto de hotel com o argumentista para criarem «Viagem a Tóquio», quando de lá saíram, com o trabalho concluído, deixaram atrás de si uma montanha de garrafas vazias.

(S) Menuhin a interpretar o "Moto Perpetuo" de Paganini

(I) A passagem à ação


A passagem à ação nem sempre se consegue justificar pelas razões que, a posteriori poderemos encontrar para a explicar. Porque significa ora uma vertigem de liberdade, ora uma experiência de alienação ou até mesmo de ódio por si próprio.
Passar à ação significa iniciar algo. Mas, na realidade esse ato só se torna possível por ter existido previamente um conjunto de circunstâncias, que o tornaram possível. Até mesmo o nosso nascimento dependeu de tantos acontecimentos retrospetivos!
Em «Os Subterrâneos do Vaticano», romance de André Gide, o personagem Lafcadio imagina como ato de liberdade suprema o empurrão dado a um desconhecido, atirando-o para fora do comboio, quando este seguia a grande velocidade no seu trajeto. Mais do que gratuito trata-se do ódio no seu estado puro, porque implica a desqualificação da vítima, por ser velho e feio, «justificando» a sua perversidade.
Noutro exemplo interessante há um homem ainda jovem, que sonha há oito anos em fazer bungee jumping e a quem os amigos, pelo aniversário, proporcionam a experiência. E, no entanto, a preparação mental não lhe evita dois minutos de hesitação até viver esse momento durante uns breves segundos. A passagem à ação não só é impelida pelos outros, mas também por si mesmo relativamente ao que construíra intimamente na mente. Poderia, porém, ter sido a inibição a sobrepor-se a essa anunciada vontade, fazendo-o recuar no último instante.
Exemplo igualmente a considerar o de uma vítima de violência doméstica, que poupou a si e à filha acrescidos sofrimentos, matando o marido, num caso que abalou a França há meia dúzia de anos e que se saldou pelo indulto total da pena judicial por decisão do presidente François Hollande. Trata-se de mais uma demonstração de como um ato pode subordinar-se a acontecimentos anteriores: se o crime em si constitui uma rutura com o que era a realidade de então, ela é explicada pelo que o estimulara. Mesmo que a sua autora logo se horrorize com o quanto acabara de fazer...
No sentido contrário há também a considerar a passagem à ação como sinónimo de coragem. No caso dos dois norte-americanos, que não hesitaram em enfrentar o terrorista prestes a atacar os passageiros de um comboio com arma branca, nem sequer tiveram tempo para ponderar nos prós e nos contras dessa atitude. Essa ação decorre do estado psíquico de quem a empreende naquele momento, porque quem pratica o ato de coragem tanto pode estar na predisposição de o cometer, como de a ele se poupar por inércia ou qualquer outra razão. Mas, já no caso de Rosa Parks, a negra que se sentou nos lugares do autocarro destinados aos brancos, recusando-se a cedê-lo, correspondeu a uma reação inerente à sua consciência moral sobre a (i)legitimidade dos que contra ela se insurgiram. Neste episódio ficou demonstrado que, muitas vezes a passagem á ação também corresponde à mudança de toda uma era.

(DIM) «Sem Retorno» de Monte Hellman (2010)


Que filme estranho este «Sem Retorno», que foi recebido com grande expetativa em Veneza em 2010, porque tratava-se do regresso de Monte Hellman, um veterano realizador de Hollywood, então com 79 anos, e sobre quem se justificava sempre a dúvida: tivesse podido fazer os filmes, que estariam ao alcance do seu talento e quantas obras-primas ter-nos-ia proporcionado?
A montanha acabou por parir um rato, porque a confusão da narrativa era total, apenas sendo-nos sugeridas algumas possibilidades de interpretação. À partida existira uma fraude por parte de um funcionário municipal em conluio com as mafias cubanas, que teria prejudicado a Carolina do Norte em 100 milhões de dólares, e concluído com a aparência de um suicídio mediante o mergulho do seu pequeno monomotor num lago. Havia também a amante, Velma, que teria morrido, não sem se implicar no assassinato de um polícia, Billings, envolvido com ela e Taschen na criação da narrativa do «acidente». E há depois a equipa cinematográfica, comandada pelo realizador Mitchell Haven, que baseia-se nas informações de um blogue local para recriar a história sob a atenção constante do investigador de uma companhia de seguros decidido a
apurar as circunstâncias em que tudo ocorrera.
Há também Laurel, a atriz contratada para personificar Velma, mas que somos levados a suspeitar ter sido ela própria também a interpretar esse papel ficcional pré-definido pelos mafiosos.
Até por senti-la como o eixo da estória - embora muito ajude o facto de tomá-la como amante -  o realizador centraliza o argumento em seu torno.
Hellman integra muitos extratos de clássicos de cinema no seu filme, neles buscando a caução para quanto vai ocorrendo no seu filme. Mais do que dormir com Laurel, Mitchell parece apostado em mostrar-lhe filmes, que o influenciam no trabalho criativo. É numa dessas inserções - «O Sétimo Selo» de Bergman, com a Morte e o Cavaleiro a disputarem a sua partida de xadrez! - que o investigador da companhia de seguros irrompe no quarto e denuncia Laurel como cúmplice na fraude, e a mata involuntariamente com a pistola com que julgava apenas ameaça-la. Depois, num ato de vingança, Mitchell mata-o...
Antes que a polícia o venha prender, Mitchell filma a cena do crime com os corpos sem vida, arranjando um final adequado para a mistura que a realidade impusera à sua ficção.

quarta-feira, setembro 05, 2018

(DL) América, a terra madrasta


A primeira vez que tive a noção concreta de existir uma notória discrepância entre a América, Terra dos Sonhos, e a realidade, aconteceu-me em 1986, quando estive pela primeira vez nos Estados Unidos e contactei com a comunidade emigrante em Newark. Se a passagem, dias antes, por Nova Iorque demonstrara-me uma cidade ameaçadora no bairro italiano, obsessivamente sexualizada na rua 42 ou já muito marcada pelas drogas, que empestavam o piso inferior do ferry para Staten Island com um cheiro elucidativo, a prova dos nove quanto a ser sítio onde não gostaria de viver ocorreu quando, num restaurante de New Jersey, os nossos compatriotas contaram quanto pagavam pelo parto dos filhos e que horários cumpriam nos matadouros onde o ritmo de produção era suficiente para, ao fim de doze horas, dali saírem só com vontade de se irem estender na cama e acordarem à hora de voltarem a pegar ao serviço.
Essa memória veio-me à mente ao iniciar a leitura de «Terra Madrasta», o livro de Jonathan Raban dedicado às suas deambulações pelo Montana. Encontrando um cenário devastado de antigas mansões em ruínas, abandonadas por quem nelas julgara encontrar o paraíso e o vira infernizado pelo garrote dos bancos. A idealização de futuros aliciantes causara um dos maiores logros da História do Século XX: enganadas pela propaganda das companhias ferroviárias, que tinham colocado linhas de uma ponta a outra do território norte-americano, e ali criaram cidades carecidas de habitantes, vagas sucessivas de emigrantes partiram da Europa esperançados em serem donos de grandes extensões aráveis. Desconheciam, que os solos eram pobres e as chuvas raras.
Por cada uma ou outra história de sucesso, ocorreram milhentas concluídas em tragédias humanas sofridas em desesperados silêncios. Mas dado o sucesso da matriz individualista com que foi cunhada a nação do Tio Sam, sempre se depreciaram os derrotados por lhes faltarem méritos para vencerem as circunstâncias. Omite-se que a aventura americana equivalia a um jogo de poker com as cartas previamente marcadas por quantos se adivinhavam vencedores à partida.

(S) Os Olhos Negros interpretados por Anna Netrebko e Dmitri Hvorostovsky

terça-feira, setembro 04, 2018

(DIM) «A Corda» de Alfred Hitchcock


Após dois meses de paragem para possibilitar o prazer de se ver cinema ao ar livre, o Cineclube Gandaia volta à sala do Centro Comercial O Pescador para oferecer aos caparicanos, e a todos quantos se lhes queiram associar, as propostas de bom cinema, enquadrável em ciclos, que possibilitem um melhor conhecimento dos realizadores ou das cinematografias que os integram.
No ano transato a obra de Alfred Hitchcock foi abordada nos seus últimos títulos, quando o fulgor comercial das suas propostas já não colhiam os favores dos estúdios de Hollywood. Ainda assim, embora privado das condições, que havia conhecido nas décadas anteriores, o mestre fazia com que esses filmes fossem bastante interessantes e contivessem muitas das suas características fundamentais.
Para o ciclo Hitchcock desta temporada escolhemos um dos seus melhores períodos criativos, que coincidiu no encontro com James Stewart, ator dotado de um carisma muito peculiar e por isso capaz de dar acrescida credibilidade às estórias de que se tornava protagonista.
«A Corda», rodado em 1948, é daquelas obras onde Hitch mostra todo o seu engenho ao situar toda a ação na mesma sala, sem que o espectador se entedie ou pense estar perante uma peça de teatro filmada. Quando, ulteriormente, ele confessou o projeto de situar toda uma longa-metragem numa cabine telefónica, foram muitos os que acreditaram na viabilidade de se poder vir a tratar de outra obra maior.
O filme coloca questões muito pertinentes para lá daquela que parece mais imediata: é ou não possível cometer um criem perfeito, em que os assassinos se livrem da responsabilidade do seu ato? Mais do que esse tema que, em si, e formalmente interessante, há outro relevante que nos pode interessar mais: até onde pode conduzir a arrogância de superioridade de uma elite, que se julgue acima da lei e da moral, apenas porque se considera mais inteligente?  Até que ponto é legítimo ela sentir-se no direito de comandar os destinos alheios, incluindo o direito de viver ou morrer?
Transferindo essa questão para o terreno da política - que, lembremo-lo, está presente em tudo quanto vivemos ou presenciamos - até que ponto as elites económicas têm o direito de ditar aos que subjugam quão melhor ou pior deverão viver, impondo-lhes ordenados, horários de trabalho e outras condições que se assemelham a uma escravatura encapotada?
Estamos, pois, no terreno dos valores morais, mas também nos que têm a ver com a aceitação ou não das notórias desigualdades, que se vão agudizando à nossa volta.
(Sessão a ocorrer na quinta-feira, dia 6 de setembro pelas 21.00)

(DL) «Perdão pela América» de Philippe Rahmy


Na sua derradeira obra, o escritor suíço, falecido em outubro de 2017 com apenas cinquenta dois anos, cita abundantemente Brecht e debruça-se sobre a má-sina dos marginalizados na sociedade americana de hoje e de ontem, que não se limitam a ser banidos, porque são igualmente explorados, violentados, esmagados, encarcerados, esquecidos e assassinados.
«Pardon pour l’Amérique» não é romance, nem novela, muito menos ensaio ou livro de memórias, constituindo, porém, um pouco de todas essas possibilidades. Inicia-se na Flórida, pouco depois da tomada de posse de Donald Trump, com a sua canónica imagem de bilhete postal: carrinhos de golfe, cadillacs artilhados, peles ostensivamente bronzeadas, corpos trabalhados em ginásios e dentaduras cintilantes a suscitarem comentários cáusticos do narrador.
Os mais frágeis, os explorados da Flórida atual, tornam-se os de toda a América e os do mundo inteiro, capazes de, no meio da desgraça, ainda alimentarem uma certa esperança resiliente.
Intercecionando as dores da sua doença óssea de nascença com quantos viu condenados ao sofrimento e à raiva impotente, Rahmy só pôde manifestar-lhes a simpatia cúmplice. E, no entanto, detestando essa América, que denuncia, Rahmy não se priva de também a adorar com um amor cego e urdo, que lhe esconda a realidade nua e crua. A crueldade que alimenta acaba por virar-se contra ela própria ao engendrar uma linhagem de monstros , que constituem um perigo permanente para os que lhes servem de vizinhos. Por isso encarcera-os em prisões ou manicómios.
Rahmy visita-os nuns e noutros para conseguir mostrar que a sociedade é tão monstruosa como os homicidas que gerou, graças às humilhações e rejeições por que os fez passar...

segunda-feira, setembro 03, 2018

(C) Ozono: um sucesso ambiental



Ronald Reagan e Margaret Thatcher foram dois improváveis militantes ecologistas, cuja ação foi fundamental para evitar um desastre ambiental de proporções incalculáveis. Pela primeira vez os Estados de todo o planeta conjugaram esforços para a resolução de um problema comum. Na altura em que está por solucionar o do aquecimento global é oportuno lembrar o sucesso, que foi o combate à rápida deterioração da camada de ozono.
Mas comecemos pelo princípio: à partida temos de lembrar Thomas Midgley, o bioquímico norteamericano que, desejoso de melhorar o nosso quotidiano, inventou os clorofluorocarbonetos (CFC’s) e o tetraetilchumbo para aditivar a gasolina, quaisquer deles altamente pernicioso para a poluição da atmosfera do planeta. Bem intencionado ele viria a ser um dos inventores mais amaldiçoados da História da Ciência nas décadas que se seguiriam. Não admira que, quando morreu, asfixiado por um novo invento a que se dedicava, tivesse havido quem encontrasse nesse desiderato, uma sugestiva fatalidade com o seu quê de coincidência justiceira.
Nos anos 20 do século passado os primeiros frigoríficos mais não eram do que caixas térmicas arrefecidas pelo gelo semanalmente adquirido a fornecedores em grandes blocos. Apareceram depois os primeiros frigoríficos mecânicos, que recorriam a fluidos explosivos ou tóxicos muito perigosos no caso de se escaparem dos seus circuitos fechados.
Os CFC’s vieram garantir uma resposta tecnológica eficaz, que anulavam esses riscos de toxicidade ou de explosão. Os freóns, tal como eram comummente designados, foram comercializados pela DuPont e apresentados como solução miraculosa para facilitar a expansão dos frigoríficos e arcas congeladoras à grande maioria dos consumidores.
Os CFC’s iriam conhecer ainda outro tipo de utilizações: o exército norte-americano recorreu a eles como agente propulsor de inseticidas durante a Segunda Guerra Mundial e, depois desse conflito bélico, esse mesmo efeito foi utilizado em lacas, perfumes e desodorizantes. Nos anos 50 já estavam a ser utilizados em todos os aparelhos de ar condicionado, em solventes e até nas «bombinhas» utilizadas pelos asmáticos.
Enquanto os fréons eram publicitados como produtos milagrosos um cientista britânico ia questionando-se sobre os seus efeitos na atmosfera terrestre.: James Lovelock, melhor conhecido por ter formulado a tese da equiparação da Terra a um ser vivo - Gaia. Nos anos sessenta investigou a qualidade do ar em torno da sua casa no campo do Dorset, sobretudo quando aí chegavam odores, que lhe lembravam o smog de Los Angeles.
Dado que os serviços meteorológicos negavam qualquer possibilidade de contaminação do ar, que justificasse esse cheiro, Lovelock criou um equipamento de medição ultrassensível capaz de detetar ínfimas quantidades de compostos químicos, interessando-lhe os que tivessem, sem equívocos, uma origem humana. Não tardou a identificar CFC’s nas massas de ar provenientes do oceano Atlântico.
Para excluir quaisquer dúvidas aproveitou uma viagem à Antártida para continuar a analisar amostras do ar nas diversas latitudes por que ia passando, concluindo surpreendentemente que, todas elas continham CFC’s. Foi quanto bastou para concluir que esses compostos químicos estáveis tinham-se disseminado por todo o planeta, tese que difundiu num artigo científico publicado na influente revista «Nature». Na altura, porém, não se alarmou dadas as quantidades mínimas detetadas, chegando a afirmar que os fréons em causa não representavam perigos de maior para quem os respirava.
Em 1973, pouco depois da publicação do artigo de Lovelock, o jovem investigador Mario Molina entrou para o Laboratório de Química da Universidade da Califórnia recebendo a incumbência do seu coordenador, Frank Sherwood Rowland, de aprofundar aqueles dados em função de uma hipótese precisa: se esses gases se iriam acumular numa localização precisa da atmosfera, e que efeitos causariam.
A camada de ozono situa-se entre os 20 e os 40 quilómetros de altitude em volta da Terra e tem um efeito de proteção imprescindível para que os raios ultravioleta do Sol não nos causem danos de maior. Ora Molina descobriu que, se os CFC’s eram estáveis nas camadas mais baixas da atmosfera, quando alcançavam as que mais elevadas, começavam a reagir, deles se dissociando o cloro, que destruía o imprescindível escudo protetor aí existente e a uma velocidade alarmante.
Na realidade, há milhões de anos, as primeiras criaturas vivas só tinham surgido quando a camada em causa tinha-se formado. A sua destruição levou Rowland a confessar à esposa o receio de estar iminente um apocalipse, com toda a Humanidade a ver-se vitimada com uma epidemia de cancro na pele, a agricultura a tornar-se inviável e os ecossistemas a colapsarem à escala global.
Em 1974, Molina e Rowland publicaram os resultados a que tinham chegado no seu estudo sem que houvesse a reação esperada de quem pudesse agir politicamente para evitar a previsível hecatombe. O facto de se tratar de um perigo invisível fundamentava o alheamento dos que deveriam sobressaltar-se de imediato. Acusados de alarmistas, de exagerados, Molina e Rowland foram desprezados.
Rowland, porém, não baixou os braços, intervindo publicamente no sentido de exigir a proibição imediata dos CFC’s nos aerossóis, onde eram exaustivamente utilizados. A reação não se fez esperar: os lobbies industriais conseguiram que ele deixasse de ser convidado para seminários e conferências, que frequentemente contavam com a sua participação. O estudo dos dois investigadores ameaçava um setor, que valia oito mil milhões de dólares anuais numa altura em que a economia estagnava. A Administração Nixon recusou liminarmente qualquer regulação, que impedisse a continuação dos negócios da DuPont, da Dow Chem ou da Union Carbide e algumas revistas chegavam a sugerir que Molina e Rowland eram agentes do KGB apostados em destruir um dos mais importantes setores industriais dos Estados Unidos.
Mas a geração, que vivera os anos da contracultura dos finais dos anos sessenta, assumira lugares-chave na sociedade americana enquanto juristas, economistas, cientistas e políticos, dispostos a lançarem-se na batalha dos aerossóis, tanto mais que surgiu por esses anos um best seller de Rachel Carson - «Silent Spring» - sobre os perigos dos pesticidas, que demonstrava quão nocivos poderiam ser os produtos químicos, até então apresentados exclusivamente como benéficos para quem os utilizava.
Em 1975 o debate atingiu tal dimensão, que ganhou expressão nacional na sitcom mais vista então nos lares americanos: «Tudo em Família», logo traduzida numa quebra significativa nas vendas de lacas e desodorizantes nas semanas que se seguiram. Nesse episódio o genro e a filha de Archie Bunker tinham uma conversa quase técnica sobre os malefícios desses produtos na cada vez mais divulgada camada de ozono. O Oregon tornou-se o primeiro Estado a proibir os aerossóis sendo imitado, nos meses seguintes, por muitos outros até se tornar regra seguida a nível federal.
Em breve chegou-se à conclusão, que banir os aerossóis não bastava para que a camada de ozono se livrasse do perigo de completa destruição. Os equipamentos de refrigeração e ar condicionado passaram a estar seguidamente na mira dos ambientalistas, mas a chegada de Reagan à Casa Branca fê-los temer o pior, tanto mais que começou por nomear uma defensora entusiasta dos interesses da indústria química - Anne Gorsuch -  para a EPA (Environmental Protection Agency).
Os cientistas não desmobilizaram e Steven Seidl conseguiu organizar um dossier bastante completo que impressionou Lee Thomas, nomeado para a EPA quando Reagan assumiu novo mandato. Foi este último quem convenceu o antigo cowboy de filmes medíocres de Hollywood a infletir a política favorável às  grandes empresas do setor, tanto mais que a NASA divulgara entretanto, novas provas irrefutáveis quanto à perda de ozono na atmosfera terrestre. 
As Nações Unidas, viram-se pressionadas na corrida contra o tempo, e aprovaram então a Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozono. Mas os participantes desse encontro desconheciam que a equipa do cientista britânico Jonathan Shanklin detetara buracos de ozono nos céus da Antártida, demonstrativos da rapidez com que a situação se degradara. Se até então os piores cálculos apontavam para que uma situação desse tipo só se verificasse daí a um século, a denúncia da equipa britânica fez soar os mais vibrantes sinais de alarme a nível global. Ainda assim surgiram vozes dissonantes a apontar como causas do fenómeno a atividade vulcânica na Antártida ou desconhecidos fenómenos meteorológicos.
Enquanto os cientistas faziam novas medições na Antártida, altos funcionários em Washington mobilizavam-se para convencer o presidente Reagan da real perigosidade do perigo. O facto dele ter contraído um cancro na pele, faziam-no particularmente sensível aos riscos inerentes á exposição excessiva dos raios ultravioleta. John Negroponte, então no Departamento de Estado, recorda o ceticismo ativo do ministro do Interior ou do próprio conselheiro científico da Casa Branca. Mas a própria indústria química começava a preparar alternativas aos CFC’s.
A partir de voos que saíam da pista de Punta Arenas, no Chile, a química Susan Salomon confirmou a sua tese de explicação sobre a formação do buraco de ozono especificamente na Primavera, precisamente a época do ano em que as nuvens alcançavam altitudes mais elevadas da estratosfera e serviam de veículo de transporte para o cloro dele causador. Como em nenhuma outra região do globo essas nuvens conseguiam elevar-se tanto, concluía-se pela sua condição de agente físico do fenómeno.
Em Montréal, numa conferência convocada para se alcançar um acordo mundial sobre a redução significativa de CFC’s, Lee Thomas viu bloqueada a sua proposta pelos representantes da União Europeia, mas na noite de 16 de setembro de 1987 garantiu a assinatura do Protocolo ainda hoje em vigor, que começou por ser subscrito por mais de trinta países e onde se subscreveu o compromisso de redução em 50% da produção mundial dos CFC’s no prazo de doze anos.
Dentro da própria DuPont o cientista Mack MacFarland convenceu os patrões da necessidade de se travar completamente a produção, e não apenas reduzi-la, se se quisesse efetivamente infletir a degradação da camada de ozono. Ora, anos atrás, a empresa anunciara o compromisso público de o fazer se se comprovasse indubitavelmente a associação entre os CFC’s e os danos, que começavam a ser-lhes atribuídos.
Nessa altura surgiu outro apoio inesperado para a causa ecológica: Margaret Thatcher, que era uma inimiga radical de toda a regulação nas industrias, fez jus à formação académica em Química, ao compreender a contradição entre os seus valores ideológicos e a realidade científica. Por isso mesmo, nas Nações Unidas, fez um discurso contundente a propor que os países desenvolvidos apoiassem financeiramente os que o não eram para que conseguissem a eliminação dos CFC’s em todas as áreas em que a eles recorriam. Mario Molina e Sherwood Rowland viam, enfim, consagrada a posição, que andavam a defender há uma dezena de anos, quando se tinham apercebido da gravidade do problema. A Academia Sueca viria a consagrá-los com o Nobel em 1995.
Atualmente a percentagem de substâncias, que atacam a camada de ozono declina muito rapidamente, demonstrando que a regulação funciona. O buraco de ozono não se voltou a abrir e a espessura da camada recuperou a dimensão adequada para cumprir a sua função.
Uma ação concertada a nível mundial conseguiu solucionar uma ameaça, que se revelaria fatal num prazo muito curto. Mas a tarefa não está concluída, porque novos gases, os hidrofluorocarbonetos (HFC’s) substituíram os fréons nos equipamentos de refrigeração e de ar condicionado, e se não atacam o ozono, causam um efeito de estufa na atmosfera muito mais gravoso do que o dióxido de carbono. De entre os agentes químicos causadores do aquecimento global são eles os que se desenvolvem mais rapidamente. Por isso mesmo acelera-se a luta pela proibição total dos HFC’s.
Em 2016, na Conferência de Kigali, que reuniu os signatários do Protocolo de Montréal, o então secretário de Estado norte-americano, John Kerry, empenhou-se em conseguir a aprovação da emenda que doravante compromete a comunidade internacional a reduzir progressivamente o recurso aos hidrofluorocarbonetos até á eliminação total.
Hoje considera-se que se a batalha pela recuperação da camada de ozono representou um sucesso notável, a mesma mobilização tem de ser conseguida em defesa do clima, dos oceanos, dos ecossistemas e das espécies em vias de extinção. Serão necessários que, para tal, se encontrem dirigentes capazes de tomar decisões e demonstrem os seus benefícios, mesmo que sejam tão improváveis quanto o foram Ronald Reagan e Margaret Thatcher no seu tempo.
Está em causa a definição do princípio da precaução, que nos deveria instar a agir, quando os riscos são identificados. É que, quando todas as dúvidas são vencidas, já pode ser tarde demais...

domingo, setembro 02, 2018

(DIM) «Roma», o filme de Cuaron estreado em Veneza


O filme de Alfonso Cuaron está fadado a constituir um dos maiores acontecimentos cinematográficos do ano depois de ter sido conhecido no Festival de Veneza e merecido quase unânime aplauso da crítica.

Há cinco anos, quando também apresentara «Gravidade» na cidade dos doges, Cuaron já anunciara a intenção de se dedicar a este filme, porventura buscando caução íntima para compensar aquele título de ficção científica sem qualidades dignas de nota, embora representasse o típico cinema comercial tão do agrado dos produtores de Hollywood.
Entre essa treta com Clooney e Bullock e este «Roma» as semelhanças serão nenhumas. Veja-se, desde logo, a utilização do preto-e-branco numa fotografia que o trailer prenuncia ser bastante apetecível para o prazer do nosso olhar. Mas há também a estória, ou melhor as estórias de uma família burguesa durante um ano, com o foco direcionado para duas mulheres notáveis: a mãe de quatro filhos, que vê o marido sair de casa, e a empregada indígena cujo papel de esteio na vida dos que quase não dão pela sua existência, é fundamental. Não há aqui cedências às receitas de bilheteira através de atores e atrizes de primeiro plano, que caucionem o investimento. E fala-se num espanhol, que vai ganhando crescente influência na América de um Trump, que figura como um frágil dique contra uma incontornável vaga demográfica.
«Roma» - que deve o nome ao bairro homónimo da Cidade do México - também está a ser muito referenciado por se tratar de uma produção da Netflix, confirmando-se a ideia de marginalização dos circuitos de distribuição convencionais no que de mais interessante se está a produzir na sétima arte. Nesse sentido os tempos estão a ser de acelerada mudança, quer na estética, quer nos valores, quer na comercialização do labor dos cineastas mais interessantes do nosso tempo. Para já fica a certeza de ainda muito se vir a ouvir falar do filme de Cuaron nas semanas que virão...

(S) Anne Sophie Mutter na Sonata Kreutzer de Beethoven

(DL) Uma questão de submissão


Justifica-se a expetativa para o ensaio, que Manon Garcia irá publicar daqui a um mês nas éditions Climats em que revisita uma descoberta constatada por Simone de Beauvoir em 1985, trinta e seis anos depois da publicação de «O Segundo Sexo»: o problema da submissão das mulheres a partir do seu íntimo mais profundo suscitado pelas situações quotidianas de assédio a que se sujeitam e de que nem sequer têm consciência.
No ensaio agora anunciado Manon Garcia vai distinguir a submissão da dominação, entendendo-a como uma construção paulatina a que as mulheres são sujeitadas desde o nascimento. Assim, se Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se numa, essa frase é reatualizada para um pertinente sucedâneo: não se nasce submissa, vai-se deixando submeter!
Os debates sobre a condição feminina nas nossas sociedades tenderá a reequacionar-se em função desse conceito!

sábado, setembro 01, 2018

(DIM) Três documentários sobre a civilização nipónica


Tenho uma particular afeição pela cultura japonesa, muito embora reconheça que as minhas vivências passadas nas várias ilhas do arquipélago nipónico sempre me deram a ideia de haver algo de extraterrestre nos seus habitantes. Enquanto os chineses têm notórias semelhanças (sobretudo nos defeitos!) com os nossos comportamentos - vide a obsessão com a riqueza! - os vizinhos insulares revelam valores e rituais merecedores de encómios.
O canal franco-alemão tem neste sábado uma programação especial dedicada ao Japão com um conjunto de documentários interessantes, que permitem-nos compreender quem foram, quem são e quem tenderão a ser os que ali habitam.
À tarde repete-se a apresentação da longa-metragem de Olivier Julien, intitulada «Tóquio: cataclismos e renascimentos», datado de 2017, e onde se aprofunda a forma como a capital japonesa foi destruída por duas vezes no espaço de século e meio e soube recriar-se até alcançar o atual estatuto de ser a maior cidade do planeta com os seus 43 milhões de habitantes.
A viagem no tempo inclui espantosos arquivos de imagens sujeitas a colorização, que mostram como era pequena a cidade de Edo (prévio nome de Tóquio) a meio do século XIX., quando, em 1868 o imperador Meiji decidiu modernizá-la e fazê-la capital do seu poder. Mas, em 1923, um terrível sismo reduziu-a a escombros a que se seguiria a destruição de 1945 provocada pelas bombas incendiárias lançadas pelos norte-americanos, que visavam a capitulação de Hirohito.
O renascer das cinzas conheceu impulso significativo a partir de 1955, quando acelerou o crescimento económico do país e o salto demográfico, arquitetónico e tecnológico da cidade.
Quando a tarde começar a declinar surge «Japão: viver à sombra do vulcão Iodake», que Frank Mirbach e Susanne Steffen rodaram este ano na pequena ilha de Satsuma Iwojima, no sudeste do arquipélago. Metade desse pequeno território é ocupado pelo vulcão, que fornece aos habitantes o enxofre que, há quase um milénio, extraem e comercializam. Hoje muitos deles já partiram para ambientes económicos mais atrativos, mas os resistentes querem atrair turistas  e novos residentes. Há também uma equipa de cientistas a investigar a probabilidade de uma nova erupção após sete mil e trezentos anos sem que tal tenha ocorrido.
O grande documentário do dia é o que se transmite ao início da noite, intitulado «Um samurai no Vaticano», realizado por Stéphane Bégoin e datado de 2018. O tema é o da notável epopeia da primeira embaixada japonesa na época do século XVII em que se estavam a definir grandes transformações comerciais, políticas e religiosas.
No início parte-se de perto de Sevilha, da aldeia de Coria del Rio, onde setecentos habitantes têm Japão como apelido. Ao investigar a origem de tal patronímico o historiador Jesus San Berneardino resgatou do esquecimento algo sucedido ´há quatrocentos anos, quando estava em curso a tentativa de evangelização do Japão e chegava à Europa um enorme galeão com a embaixada liderada pelo samurai Hasekura Tsurenaga enviada às cortes do rei de Espanha Filipe III e do papa Paulo V, e trazendo como intérprete o monge franciscano Luís Sotelo. A missão dessa representação diplomática era a de negociar a abertura de uma rota marítima, que competisse com a das Índias a troco do acolhimento dos missionários cristãos.
A perigosa viagem durou sete anos e culminou na chegada ao Vaticano quando Tsurenaga já se convertera ao catolicismo e era agente ativo de um arremedo de globalização.