sábado, agosto 18, 2018

(DL) «Olhos de Água» de Conceição Evaristo (II)


Retomando o livro de contos de Conceição Evaristo ficam aqui recenseados mais algumas personagens próprias do seu universo criativo: mulheres fortes nas suas decisões, vivendo sem complexos o direito ao prazer. Mas também miúdos condenados à tragédia, porque são os elos mais fracos num ambiente violento por natureza. Nos livros de Conceição Evaristo não temos o Brasil de Copacabana ou de Ipanema, mas o dos morros onde cada dia é uma difícil prova de sobrevivência.
1. À quarta gravidez Natalina sente, enfim, vontade de ficar com aquele filho. O primeira nascera, quando ainda mal abandonara a puberdade e fizera-lho um amigo de infância com quem descobrira a sexualidade. Uma enfermeira, que a assistira no parto, oferecera-se para ficar com ele. O segundo nascera de uma namorado que pretendia constituir família, mas a vontade dela para tal projeto era nula. Ele voltara para a terra natal com o filho de ambos. No terceiro fora barriga de aluguer para os patrões. Agora, o quarto, nascera da violação de um bandido a quem matara com a própria pistola de forma a ficar com aquele filho só para ela.
2. Salinda vive um amor clandestino, mas tem fundamentadas suspeitas de estar a ser vigiada a mando do marido. Conta, porém com a cumplicidade da tia Vanda, que vive em Chã da Alegria.
De nada lhe serve, porque o conjugue descobre esta recente aventura amorosa, prometendo-lhe guerra, traduzida em requerer a custódia dos filhos, incluindo a primogénita, que até nascera de outro efémero amor de juventude.
3. Luamanda está orgulhosa de parecer mais nova do que o é de facto. Olhando para o passado, sabia-o fértil em muitas aventuras amorosas desde os onze anos. Amara jovens e velhos, e até outras mulheres, de todos colhendo gratas alegrias, exceto na relação com um crápula que, no momento da rutura, lhe violentara o sexo com um objeto perfurante. Chegada a idade mais avançada ainda se sente suficientemente inexperiente para prosseguir na recolha de inéditas descobertas dos sentidos.
4. Praia de Copacabana. Desde criança Cida vivia uma permanente sensação de urgência. Aos 29 anos exige dos amores, que sejam breves. Mas lá vem o dia em que decide não ir trabalhar, reservando tempo para si.
5. Benícia tivera as gémeas tardiamente, quando já nem se julgava capaz de engravidar. Zaita falava lentamente e em tons baixos, ao contrário da irmã, Naita, decididamente espalhafatosa. Zaita tinha nos modos um quê de doçura, de mistérios e de sofrimento. E é ela uma das vítimas do tiroteio entre gangues da favela numa tarde em que saíra à procura da irmã e da boneca que, erradamente, julgara ter sido roubada.
6. Aos 15 anos um menino de rua aparece morto no tugúrio, que partilhava com outro da sua idade. À dor lancinante no caroço, que lhe crescera na boca, acrescentara-se o pontapé nos testículos que o parceiro lhe assentara numa fútil disputa. Nunca revelará assim quem lhe matara a mãe, uma prostituta cujo desaparecimento representara para ele uma ilusória libertação.

(S) «Zefiro Torna» de Monteverdi

quinta-feira, agosto 16, 2018

(DL) «Dora - Fragmentos de uma Análise de Histeria» de Sigmund Freud (4)


Apesar de recheadas de lacunas, enigmáticas e imprecisas, com amnésias e insinceridades conscientes ou inconscientes  - como acontecia com os pacientes definidos como «histéricos» - as palavras de Dora durante o tratamento permitiram a Freud recolher dados fragmentários dos problemas recalcados, que complementou com informações obtidas junto dos familiares, sobretudo do progenitor, o que nos dias de hoje seria inaceitável.
Quando se dispõs a descrever o caso, Freud articulou os elementos biográficos e a descrição dos sintomas com comentários da sua lavra, ora correspondendo à formulação de hipóteses, ora integrando-os nas próprias teorias.
Dois sonhos relatados por Dora incitaram-no a aprofundar o que já redigira sobre o assunto, chegando a ponderar na redação de um  ensaio, que intitularia «Sonho e Histeria», mas acabou afinal pela opção de «Fragmento de uma análise da Histeria», quando depararou com o abandono da terapia pela paciente apenas onze semanas passadas sobre o início da cura. Essa fuga seria explicada pela técnica utilizada por Freud, demasiado ativa, ou seja intrusiva, junto da adolescente, depressa assustada pelas revelações, que propiciava ao médico e a si própria.
Põe-se então a questão de encontrar neste texto muito denso a complexa montagem que pressupõe um nível elevado de elaboração a partir do que efetivamente terá acontecido durante as sessões. Como extrair deste magnifico puzzle as bases de uma nova ciência em vias de se afirmar?
Há três orientações principais, que podem discernir-se. Na época elas ainda não estavam suficientemente teorizadas, pelo que fica testemunhado o génio de Freud e a sua admirável capacidade criativa.
A primeira corresponde à fixação oral de Dora, que levou Freud a apelidá-la de «sugadora» e a criar o conceito de «compensação somática».
A segunda explora o complexo de Édipo e o papel da bissexualidade psíquica nesse mesmo conceito, fator primordial e estruturante das identificações histéricas. Freud ver-se-ia aqui desafiado pela natureza da homossexualidade.
A terceira tem a ver com o conceito de transferência, sentindo que nunca conseguiria controlar essa opção estratégica de Dora no desenvolvimento dos sintomas.

quarta-feira, agosto 15, 2018

(DIM) O que as viagens ensinam


(«My Blueberry Nights» de Wong Kar-wai, 2008)
Trezentos dias redondos contados um a um por Jeremy. Tinham vindo postais do Tennessee, do Arizona e do Nevada com estórias, que o tinham feito sonhar, mas a presença do corpo ia sendo adiada por mais que o lugar reservado ao balcão parecesse aposta fútil, porque quase por certo frustrada.
Nem a regressada Katya tinha-o feito vacilar. As palavras implícitas traziam a esperança de se ver convidada a recolher as chaves de casa, voltando a ocupá-la como outrora, quando a havia amado. Mas redarguíra-lhe o quanto a ausência torna desconhecidos quem antes se julgavam geminados pelos afetos. Um último beijo, quase furtivo, nos lábios, e adeus bela russa, que já tens um avião à tua espera para o reencontro com a mãe, essa mulher cada vez mais parecida contigo, porque os anos passam e a genética assemelha os traços herdados no berço.
Ao regressar da  longa viagem, Elizabeth não deixara de começar por espreitar o primeiro andar partilhado com quem julgara vir a viver para sempre. O anúncio de disponível para alugar retirara-lhe as derradeiras dúvidas, se é que as tinha. Porque muito mudara nessas semanas em que tantas e tão diferentes pessoas lhe tinham habitado os dias. Como esse Arnie, inconformado com a desafeição de Sue Lynne, a mulher por quem se enamorara perdidamente tão só a conhecera com dezassete anos, ao mandá-la parar num controle de trânsito. Quando o álcool em excesso deixara de lhe aliviar a dor atirara o carro contra um poste, no mesmo sítio em que a vira pela primeira vez. Ou essa Leslie, viciada no poker, e decidida a demorar o mais possível no trajeto até Las Vegas para ir ao encontro do progenitor, a quem roubara o tão adorado Jaguar. Elizabeth, que lhe servira de motorista, confirma-lhe a chegada demasiado tardia, porque o hospital onde ele estivera internado, só lhes pode devolver os pertences ali deixados por um corpo entretanto remetido para a morada derradeira.
É uma Elizabeth diferente a que se volta a sentar no balcão do restaurante de Jeremy. Com uma fome insaciável, sobretudo da tarte de mirtilos, aparentemente sem outra cliente a apreciá-la, que não ela. Um comer até fartar ou melhor, concluído no irresistível sono com a cabeça tombada no tampo, mesmo ao lado do prato com os restos da refeição. E com uns lábios ainda por limpar. Ardil óbvio para que sejam os de Jeremy a colar-se-lhos para um final feliz. 

(DIM) Aqui e Agora


(«Here and Now», série de Alan Ball)
Eu espectador me confesso desconcertado com o que deparo numa família de Portland. Tim Robbins, o patriarca, acaba de passar os sessenta, sempre andou a dar aulas de Filosofia a gerações sucessivas de alunos e conclui nada saber do que andou a transmitir-lhes. Porque, mais importante do que fazer perguntas dificilmente respondíveis, é sair dos anfiteatros e ir para a rua viver, colhendo tanto prazer quanto se conseguir.
Holly Hunter é a mãe de família sempre preocupada com a prole, compassiva com todas as suas opções de vida, exceto se elas indiciarem a réplica da loucura em tempos detetada no tio Ike, e de cuja degenerescência nunca voltou a recuperar. Compreende-se o pânico de ver Ramon viver algo de semelhante, dadas as alucinações a que se sujeita em torno dos números 11 11, embora o ADN não servisse de explicação, porque fora adotado durante uma viagem pela Colômbia. Ademais, ele e quase todos quantos contacta, estão frequentemente sob o estado alterado das substâncias alucinogénias.
Questionamo-nos, porém, com o ainda por esclarecer: como se compreende ter Ramon alucinado com uma mulher e um miúdo numa praia, sendo este último o próprio terapeuta com quem acaba de iniciar a psicanálise? E que o próprio pai adotivo também comece a ser assombrado pela mesma sugestão numérica?
Enquanto não  surgem as pistas para as correspondentes respostas acompanhamos as vicissitudes dos outros rebentos da prole, com a adolescente Kristen a perder a virgindade com uma máscara de cavalo na cabeça - proteção insuficiente para a clamídia que logo a apoquenta! -, a irmã negra a perder o gosto pelas perucas, quando sente na pele o racismo da polícia, ou o irmão vietnamita a compreender quanto do seu sucesso como autor de livros de autoajuda depende da tutela paterna.
O retrato da América trumpiana, através do quotidiano dos  Bayer-Boatwright, revelou-se tão incómodo para quem neles se viu espelhado, que não passou o crivo da primeira temporada. Não teremos a oportunidade de conhecer como eles evoluiriam numa realidade ainda dominada por tão execrável Administração.

(S) Um Paraíso Perdido


(«Paraíso Perdido» de Günter Attein, 2015)
Quem terá cometido o pior pecado? Adão ou Eva?
Os convidados da conferência no Vaticano terão sentido um estremecimento no âmago das convicções, mesmo que houvesse quem o disfarçasse num sorriso nervoso. Há um silêncio, como se o da música do compositor marcasse presença naquele instante de dúvida. Seguir-se-iam palavras blasfemas?
Arvo Pärt partilha, então, a conclusão a que chegou: se Eva facultara a Adão o fruto proibido, ele escusara-se a pedir perdão e a prometer nunca mais ser por ele tentado. Ao invés culpara Deus ao desculpar-se: «A mulher que me deste por companheira, ofereceu-me o fruto da árvore e eu comi-o».
Adão não reconhece a culpa, transferindo-a para Eva, que o seduzira, e para Deus, que lha dera por companheira.
A espiritualidade inerente aos sons que compõe decorre das conjeturas formuladas a partir dos textos bíblicos. Os passeios pelas florestas estónias permitem-lhe a reflexão, a escolha dos caminhos por onde conduzir as notas a afixar na pauta, mas sobretudo os silêncios entre elas. Constituem orações prenhes de pureza e de beleza. Há quem neles pressinta sofrimento, talvez porque o rosto do criador o insinua, mas ele apressa-se a considerar que transcendência é experiência individual vivida por cada um como melhor lhe convier. Ele apenas pretende ajudar quem se dispuser a ouvir-lhe as obras como alternativas a este tempo de ruído.
A paixão de Adão ganha, porém, sentido mais intenso graças à encenação de Robert Wilson. Apesar de provir de cultura diferente, a compreensão do que a música sugere, traduz-se no encantamento do que se testemunha em palco, cruzando-se a verticalidade do tempo com a horizontalidade do espaço. Perante o milagre do que os olhos veem e os ouvidos escutam, a apneia quase se torna obrigatória, porque está-se na experiência única de, mesmo desacreditando em Deus, quase se desejar a sua existência para que a beleza atinja dimensão tão extrema.

(DL) Pode-se separar a obra da personalidade de quem a criou?


A morte de Naipaul veio reavivar uma questão, que tenho por pertinente: apesar de o reconhecer escritor de mérito, podemos dissocia-lo do feitio execrável, que sempre revelou? Será que o conteúdo da obra pode autonomizar-se dos comportamentos de quem a escreveu?
Pode-se dizer que o autor de «Uma Curva no Rio» não manchou a biografia na dimensão de Louis Ferdinand Celine, conhecido colaboracionista nazi durante a Ocupação da França e autor de textos repulsivos contra os judeus cujo martírio apoiou com entusiasmo. Nesse sentido nunca pude entender o entusiasmo de Baptista Bastos pelo romance «Viagem ao fim da Noite», mesmo considerando o autor um crápula.
Naipaul foi conhecido pelo seu racismo social e pela misoginia indecorosa, que comportara fama de praticante da ignóbil violência doméstica. Proveniente de uma família pobre radicada na ilha da Trindade, ambicionou tornar-se num grande escritor, fez por isso, mas nunca deixou de desprezar os que tinham a mesma origem social e se haviam revelado incapazes de apanharem o mesmo ascensor, que lhes propiciasse idêntica fama e proveito.
Daí a questão por esclarecer: será possível ler-lhe os celebrados romances e esquecer quem os criara?

segunda-feira, agosto 13, 2018

(DIM) Ansiemos pela Retrospetiva de Ozu, atualmente em exibição nos cinemas franceses


Quando em maio de 1978 a França descobre um filme a preto-e-branco intitulado «Viagem a Tóquio», os cinéfilos europeus começaram, enfim, a valorizar uma obra datada de 1953, realizada por Yasujirō Ozu, entretanto falecido quinze anos antes.
«Viagem a Tóquio» conta a visita aos filhos, entretanto radicados na capital, por um casal de anciãos, que se sentem desenquadrados com os novos valores e costumes. É uma história familiar, com recurso intenso aos planos fixos em cenários interiores, mas focados quase sempre nos rostos dos personagens.
Era um Japão muito diferente do que os europeus se tinham habituado a conhecer nos frescos históricos de Akira Kurosawa. Pelo contrário deparavam-se com o país no presente, em acelerada transformação,  mormente nas estruturas sociais.
Nas últimas semanas vários filmes de Ozu regressaram aos ecrãs franceses, agora em versões restauradas, e não me admiraria, que, com o atraso habitual, viessem a seguir projetar-se nos cinemas ainda geridos por Paulo Branco ou no Ideal Paraíso. A assim acontecer, serão, obviamente de visão obrigatória.
Ozu assinara 54 filmes entre 1927 e 1962, marcando a história do cinema com a constante preocupação de apresentar um retrato sensível e poético do quotidiano através de famílias confrontadas com problemas insolúveis, como o da irreversibilidade do tempo ou as fraturas suscitadas pela ocidentalização do país. A sua forma de filmar, quase ao nível do chão, convidava o espetador a ver-se como membro da família, limitando-se ao papel de observador silencioso das vicissitudes por que ela passava.
Os núcleos familiares tinham, amiúde, três gerações a partilharem o mesmo teto, e a libertarem-se dos traumas herdados da Segunda Grande Guerra, ainda tão presente nas suas memórias. Elas olhavam inevitavelmente para direções diferentes e quase nem pareceriam falar a mesma língua.
Nos filmes da fase mais avançada da sua obra, Ozu mostra como a entrada da televisão nos lares japoneses ocasiona uma revolução cultural, que banaliza a realidade de homens engravatados a saírem em grupo das estações de metro ou as mulheres a abandonarem a condição tradicional de donas-de-casa, entrando em força no mercado do trabalho. Se Ozu revela uma indisfarçável ternura por esse mundo novo, não ilude a melancolia pelo que tinha o seu fim anunciado.
A afeição que colheu junto dos amantes da sétima arte, fez de Ozu um cineasta indispensável para compreender o que é o cinema, não só por ser um dos seus grandes formalistas, mas por se reconhecer imediatamente o seu estilo tão-só se vejam alguns planos, poucos, de um qualquer dos seus filmes. Ele inventou a sua própria gramática, feita de uma aparente simplicidade, mas, de facto, bastante complexa, quando a analisamos mais aprofundadamente.

(DIM) «O Quê» de Roman Polanski (1972)


Perante as primeiras cenas deste filme de Polanski confesso o meu desconcerto: não só desconhecia, que o realizador polaco rodara-o em 1972 numa mansão de Carlo Ponti na Riviera, como não esperava uma comédia soft porno, em que todos os motivos são aproveitados para que Sidne Rome ostente os seus atributos para gente estimável como Marcello Mastroianni ou Adriano Celentano.
Começa-se com uma violação quase consumada, quando Nancy, uma norte-americana a viajar à boleia por Itália, vê-se assediada por três energúmenos, dois dos quais no seu entusiasmo quase se sodomizam entre si. Escapando-lhes, mesmo sem resgatar a bagagem, faz-se acolher numa luxuosa vivenda à beira-mar, onde os hóspedes rivalizam em bizarria. Poderia ser uma situação bunuelliana, mas Polanski não arrisca ir tão longe na lógica disruptiva da estória, mesmo não tardando a apresentar-nos Mastroianni vestido com uma pele de tigre e a fazer-se açoitar por um chicote empunhado pela bela de serviço com alguma timidez.
Há um proxeneta reformado, um bigodaças excessivamente nervoso, um priapo capaz de sucessivas ejaculações na namorada, um casal de lésbicas a passearem-se nuas, mas ostentando enormes chapéus, um padre, e outros figurantes ocasionais. Pelos corredores, quase sempre meio-despida, Nancy vai fazendo figura de uma Alice caída num universo, que não sendo o das maravilhas, não deixa de, incessantemente, a surpreender, na elucidativa exibição dos principais delírios fantasmáticos dos machos latinos. Às tantas somos levados a crer que a frequência com que os personagens desses anos 70 se drogavam, contaminou o argumento de Gérard Brach que, ao contrário de Polanski, muito se deliciava com esta sua criação.
No clímax desta viagem singular - mesmo que cingida ao espaço da vivenda e suas adjacências - Nancy foge completamente nua, perseguida por todos os convidados do anfitrião, o velho Joseph Noblart a quem causara fatal apoplexia com a exibição dos seios e, sobretudo, da sua «origem do mundo».
Polanski aterrou neste projeto, quando a rodagem de »Macbeth» ficara a marcar passo, e antevia a possibilidade de ganhar algum dinheiro com uma coisinha ligeira e erótica. Jack Nicholson esteve quase a vir de além-Atlântico para participar, mas reservar-se-ia para o filme seguinte do realizador, esse «Chinatown» de bem mais grata memória. O resultado foi pífio, muito menos interessante do que «Por Favor Não me morda o Pescoço», em que o realizador já testara as competências na comédia.

domingo, agosto 12, 2018

(DL) «Olhos de Água» de Conceição Evaristo (I)


Há poucas semanas chegaram-me à mão diversos livros de Conceição Evaristo, uma das escritoras mais relevantes da atual Literatura Brasileira, como se comprova na recente candidatura para aceder à Academia Brasileira de Letras, que faria todo o sentido, não só por ser mulher e afro-brasileira, mas sobretudo pela abordagem da difícil existência da população das favelas, cuja voz faz ouvir em romances, poemas e contos.
Datado de 2014, «Olhos de Água» constituiu elucidativa introdução ao seu universo narrativo, credibilizado por ela própria ter nascido num ambiente desfavorecido de Belo Horizonte e, muito cedo, haver sobrevivido à custa do ofício de empregada doméstica, só vindo a formar-se academicamente já em adulta após árduos estudos em horário pós-laboral. A origem social privilegiou-lhe a obsessão pela discriminação racial, de género e de classe. Sem sentimentalismos os textos abordam a latente violência em quem lhe tenta resistir e, quiçá, encontrar oportunidades para momentos de celebração da vida.
No conto, que dá título a esta coletânea, a narradora lembra a noite em que acordara repentinamente com a dúvida quanto a qual seria a cor dos olhos da progenitora. Ela, que fora a mais velha das sete filhas, tinha presente como a mãe brincava com elas nos dias de míngua de alimentos, quando tal cumplicidade visava distraí-las da fome. Decidida a esclarecer a questão, que lhe dera tão inesperado sobressalto, volta à terra natal para quem a reencontra com um intenso choro de felicidade.
Esclarecida a dúvida, importa-lhe doravante conhecer qual a cor dos olhos da filha e também os dela própria. Não é difícil ver neles, mais do que a cor, a natureza da identidade de quem por eles comunica.
«Ana Davenga» é história típica do morro. Há um chefe de bandidos, que vive com Ana, cuja beleza causa indisfarçável efeito em todos quantos conhecem. Por aceder a tão encantatório ser, ele chora na hora do clímax de prazer, o que leva a companheira a reconhecer nele algo da criança, que fora. Mas, na noite em que a polícia vem prendê-lo, decide resistir e ambos acabam mortos pelas balas assassinas dos invasores.
Em «Duzu – Querença» encontramos uma mendiga, que viera ainda menina para a cidade, chegando de comboio para logo ser enfiada num bordel. Acabara por não cumprir a ambição do pai que a incumbira de trabalhar, estudar e sair do ciclo de pobreza da família. Agora, muitos anos depois, sabia ter nove filhos espalhados pelos morros da cidade, mas os dias de velhice eram, sobretudo, assombrados pelos delírios de alucinadas congeminações.
Em «Maria» conhecemos uma empregada doméstica, que tivera o infortúnio de apanhar um autocarro para melhor carregar os restos do banquete, que servira para a patroa e cujos restos lhe haviam sido dados como paga complementar do bom serviço. O contentamento interior via-se acrescentado das notas, que bastariam para a compra dos remédios para os filhos engripados.
A tragédia acontece quando o autocarro é assaltado por dois ladrões, um dos quais fora em tempos seu amante, e que a poupa da espoliação imposta aos demais passageiros. Tão-só escapam com o pecúlio do roubo e o motorista não consegue evitar que seja mortalmente linchada, porque erradamente considerada cúmplice do golpe.

sábado, agosto 11, 2018

(DIM) «No Crepúsculo de uma Vida» de Sylvain Biegeleisen


Não sou um entusiasta do tema dos amores maternais ou filiais. Não tendo tido grande afeto por uma progenitora de quem apenas recebi a vida e uma enorme vontade de tão depressa quanto possível me libertar do seu diktat, consideraria difícil que um filme sobre a espantosa empatia entre um filho e uma mãe moribunda me causasse grande efeito. Um bom exemplo fora «Mãe e Filho» de Alexander Sokurov que, há vinte anos, causara um enorme clamor na crítica internacional, e me deixara quase indiferente por muito que a valia estética merecesse alguma atenção.
E, no entanto, à medida que este filme evoluía, sentia-o como um dos melhores vistos recentemente. Porque Sylvain não dramatiza a circunstância da progenitora estar nos últimos meses de vida, integrando-os no curso natural de uma existência, que se conclui inevitavelmente dessa forma, mas dando-lhe compensações enquanto é possível: canta-lhe temas de Brel, acende-lhe cigarros, serve-lhe copos de vinho, confeciona-lhe sopas e, sobretudo, tenta manter um diálogo estimulante, quase nunca sobre reminiscências perdidas, mas sobre o que sente no presente essa iminência do fim. «Viver, significa abrir os olhos fechados!», afirma Diane com a autoridade dos seus 94 anos.
Não há aqui lugar para as detestáveis lamechices a que recorrem os habituais cultores do género, quando anseiam por acicatar a sensibilidade dos espectadores à conta dos efeitos com os levem a recorrer aos lenços para enxugarem as lágrimas comovidas. Aqui, pelo contrário, Diane e Sylvain falam sem problemas do dinheiro, que ele encaixará com o filme por ambos concretizado, decidido quando os médicos terão previsto apenas alguns dias de vida, e afinal prolongados pelos meses em que ela resiste no quarto, que serve de quase único cenário, porquanto até os belíssimos planos de árvores e nuvens no céu, que separam as várias takes, adivinham-se colhidos algumas vezes da janela do quarto.
Não há qualquer nostalgia na admirável Diane, que diz construir a vida orientada para o futuro, não para o passado, querer falar da vida e não da morte. «As pessoas não veem mortos suficientes na televisão?» pergunta. E, no entanto, pela idade, não é difícil imaginar as dificuldades, por que terá passado quando conseguiu sobreviver ao Holocausto.
O filme é uma admirável partitura a quatro mãos, que se acariciam, dançam juntas e ritmam a obra. As mãos de uma velha senhora, que aquecem as do filho, vindo da rua, a as quais sopra e aperta. Apontando para cima como sinal de força: «Há sempre algo que por que valha a pena lutar. Eu quero continuar a lutar.»
Sylvain procura discernir qual o segredo dessa força em querer viver, quando o corpo já está tão fragilizado: «Como consegues manter-te tão em forma, mesmo acamada?». E, ela com um sorriso zombeteiro: «Não sou obrigada a contar-te tudo!»
Se Sylvain tenta filosofar sobre a vida e a morte, como se existisse um contrato implícito desde o nascimento até ao seu desenlace, a mãe desconversa poeticamente, abalando quaisquer dúvidas e receios, como se imitasse Harpo Marx numa inocência sem idade.
A própria ideia de espera é por ela descartada: «A espera de quê? É fútil perguntá-lo!». Desconcertando o próprio filho ela persiste focada no futuro apreciando cada segundo remanescente entre duas baforadas de fumo do cigarro, que agarra firmemente entre os dedos.
Quando Sylvain lamenta não haver quem nos possa ensinar a viver os últimos momentos, Diane riposta-lhe: «Ainda bem! Para que serviria sabê-lo?»
«Para fazer as coisas corretamente!»
«Fazer o correto significa ter essa  preocupação durante toda a vida e não no mês ou meses antes do fim»
A geração de Diane fora a do silêncio. A maioria dos judeus belgas veio da Europa Oriental no início do século XX, fugindo do antissemitismo e trabalhando arduamente para integrar-se. Duas décadas depois teve de recomeçar de novo, reconstruindo-se a partir das ruínas deixadas pela Ocupação nazi. Terá sido uma geração, que mimou os filhos, os considerou preciosos. Eis o que explica o amor que liga Sylvain e Diane e faz deste documentário um jubilatório prazer.