sábado, agosto 11, 2018

(DIM) «No Crepúsculo de uma Vida» de Sylvain Biegeleisen


Não sou um entusiasta do tema dos amores maternais ou filiais. Não tendo tido grande afeto por uma progenitora de quem apenas recebi a vida e uma enorme vontade de tão depressa quanto possível me libertar do seu diktat, consideraria difícil que um filme sobre a espantosa empatia entre um filho e uma mãe moribunda me causasse grande efeito. Um bom exemplo fora «Mãe e Filho» de Alexander Sokurov que, há vinte anos, causara um enorme clamor na crítica internacional, e me deixara quase indiferente por muito que a valia estética merecesse alguma atenção.
E, no entanto, à medida que este filme evoluía, sentia-o como um dos melhores vistos recentemente. Porque Sylvain não dramatiza a circunstância da progenitora estar nos últimos meses de vida, integrando-os no curso natural de uma existência, que se conclui inevitavelmente dessa forma, mas dando-lhe compensações enquanto é possível: canta-lhe temas de Brel, acende-lhe cigarros, serve-lhe copos de vinho, confeciona-lhe sopas e, sobretudo, tenta manter um diálogo estimulante, quase nunca sobre reminiscências perdidas, mas sobre o que sente no presente essa iminência do fim. «Viver, significa abrir os olhos fechados!», afirma Diane com a autoridade dos seus 94 anos.
Não há aqui lugar para as detestáveis lamechices a que recorrem os habituais cultores do género, quando anseiam por acicatar a sensibilidade dos espectadores à conta dos efeitos com os levem a recorrer aos lenços para enxugarem as lágrimas comovidas. Aqui, pelo contrário, Diane e Sylvain falam sem problemas do dinheiro, que ele encaixará com o filme por ambos concretizado, decidido quando os médicos terão previsto apenas alguns dias de vida, e afinal prolongados pelos meses em que ela resiste no quarto, que serve de quase único cenário, porquanto até os belíssimos planos de árvores e nuvens no céu, que separam as várias takes, adivinham-se colhidos algumas vezes da janela do quarto.
Não há qualquer nostalgia na admirável Diane, que diz construir a vida orientada para o futuro, não para o passado, querer falar da vida e não da morte. «As pessoas não veem mortos suficientes na televisão?» pergunta. E, no entanto, pela idade, não é difícil imaginar as dificuldades, por que terá passado quando conseguiu sobreviver ao Holocausto.
O filme é uma admirável partitura a quatro mãos, que se acariciam, dançam juntas e ritmam a obra. As mãos de uma velha senhora, que aquecem as do filho, vindo da rua, a as quais sopra e aperta. Apontando para cima como sinal de força: «Há sempre algo que por que valha a pena lutar. Eu quero continuar a lutar.»
Sylvain procura discernir qual o segredo dessa força em querer viver, quando o corpo já está tão fragilizado: «Como consegues manter-te tão em forma, mesmo acamada?». E, ela com um sorriso zombeteiro: «Não sou obrigada a contar-te tudo!»
Se Sylvain tenta filosofar sobre a vida e a morte, como se existisse um contrato implícito desde o nascimento até ao seu desenlace, a mãe desconversa poeticamente, abalando quaisquer dúvidas e receios, como se imitasse Harpo Marx numa inocência sem idade.
A própria ideia de espera é por ela descartada: «A espera de quê? É fútil perguntá-lo!». Desconcertando o próprio filho ela persiste focada no futuro apreciando cada segundo remanescente entre duas baforadas de fumo do cigarro, que agarra firmemente entre os dedos.
Quando Sylvain lamenta não haver quem nos possa ensinar a viver os últimos momentos, Diane riposta-lhe: «Ainda bem! Para que serviria sabê-lo?»
«Para fazer as coisas corretamente!»
«Fazer o correto significa ter essa  preocupação durante toda a vida e não no mês ou meses antes do fim»
A geração de Diane fora a do silêncio. A maioria dos judeus belgas veio da Europa Oriental no início do século XX, fugindo do antissemitismo e trabalhando arduamente para integrar-se. Duas décadas depois teve de recomeçar de novo, reconstruindo-se a partir das ruínas deixadas pela Ocupação nazi. Terá sido uma geração, que mimou os filhos, os considerou preciosos. Eis o que explica o amor que liga Sylvain e Diane e faz deste documentário um jubilatório prazer.

sexta-feira, agosto 10, 2018

(DL)  «Dora - Fragmentos de uma análise de histeria» de Sigmund Freud (3)


Ao iniciar o tratamento de Dora, Freud já estabeleceu qual seria a regra fundamental, que o guiaria no processo: a paciente deveria dizer tudo quanto lhe viesse à mente para que sobressaíssem na associação livre das suas palavras, os aspetos mais obscuros da neurose. A hipnose, que fora ferramenta fundamental em tratamentos anteriores, deixava de ter cabimento na estratégia do analista. O objetivo passava a ser o de trazer ao consciente o que o inconsciente escondia, detetando as resistências demonstrativas do seu recalcamento.
Em 1894, num ensaio dedicado ás psiconeuroses defensivas, Freud introduzira o conceito de «conversão histérica» para definir a transposição de um conflito psíquico para sintomas psicossomáticos que, em si mesmos, ganhariam um importante valor simbólico quanto à origem dessas representações recalcadas.
Em 21 de setembro de 1897 anunciara, em carta, a Fliesse, que renunciava à teoria de sedução, que desenvolvera nos «Estudos sobre a Histeria», em que se concebia a atração pelo perverso progenitor, que o levaria a conotar a primeira geração com essa devassidão e a segunda com o histerismo. Doravante seriam os fantasmas a ganharem uma influência relevante, hipótese que aprofundaria ao longo da cura de Dora.
O inesperado abandono da terapia pela paciente deixa Freud privado de quem lhe dava sustentáculo ao desenvolvimento do trabalho. Pressionado pelo desejo de compreender dedica quinze dias a redigir o texto sobre tudo quanto nele compreendera, ou pressentira, mas cometendo um elucidativo erro de datação, porque situa as sessões com Dora em 1899, quando elas tinham ocorrido no ano seguinte. Não estaria, ele próprio, a fazer a catarse do enorme fracasso, que constituíra a publicação do seu tratado sobre a «Interpretação dos Sonhos», e que tanto o ferira?
Por razões de confidencialidade, Freud demora a publicar o caso de Dora só o fazendo em 1905. Condicionava-o o dever de proteção da privacidade da sua paciente, muito embora sentisse a urgência científica de o dar a conhecer. Esse é um período da sua vida em que sofre por causa ceticismo com que os colegas apreciavam as suas ideias. Razão bastante para os tentar convencer com as novas descobertas e hipóteses, que lhe garantissem acrescida credibilidade, mesmo se à custa das reações escandalizadas dos menos capazes em se abrirem a interpretações distintas de todas quantas até então haviam sido formuladas. Daí que, no preâmbulo do ensaio, decida responder por antecipação às críticas que, a seu respeito, adivinha virem a urgir por parte dos detratores.

quinta-feira, agosto 09, 2018

(DIM) «Mangelexemplar / A vida de pantanas» de Laura Lackmann (2015)


Tudo corre mal na vida de Karo, quando a juventude já lá vai e os quarenta ameaçam aproximar-se rapidamente: perdeu o emprego, separou-se do companheiro e zangou-se com a melhor amiga, que a acusou de egoísmo.
De súbito vê-se ameaçada de solidão, sem ninguém que a apoie. Recorre por isso a uma psicoterapia, embora lhe seja difícil acatar as orientações da especialista, porque crescem em catadupa as dúvidas interiores. Discutindo com os familiares e com o seu «eu interior», Karo procura as razões para os seus males, evitando a rendição ao estado depressivo.
Adaptado de um romance de Sarah Kuttner, que teve grande sucesso na Alemanha, a realizadora Laura Lackmann assina a primeira longa-metragem num tema em que se sente identificada. Também ela acometida de angustias,  recorre ao humor como forma catártica de pôr a protagonista a superar as dificuldades, que a levam a comportamentos frequentemente execráveis. Como forma de autoterapia? Provavelmente!
(o filme pode ser visto amanhã à noite no canal franco-alemão ARTE)

(DL) «Dora - Fragmentos de uma análise de histeria» de Sigmund Freud (2)


Freud publicou cinco grandes casos de psicanálise, sendo um deles o caso Dora, que deu a conhecer em 1905. Além da descrição de tudo quanto nela observara, desenvolve teorias, que justificam as opiniões de quem o considera uma adequada introdução para quem quiser conhecer a psicanálise.
Freud não enjeita as dúvidas e os limites que o acometeram, quando estava a deparar com um conjunto de sintomas sobre os quais sentia a necessidade de desenvolver hipóteses inovadoras em comparação com as que até então se colocavam. Ele próprio assombrado por pulsões homossexuais, compreende a pluralidade de transferências utilizadas por Dora para não reconhecer no consciente o que se passava nas profundezas da mente.
Logo de início, porém, Freud alerta para a dificuldade do que nos propõe como leitura, porque o texto agrega diversos fragmentos redigidos em épocas e contextos distintos. Daí o título «Fragmentos de uma análise de histeria».
Nos últimos anos do século XIX, quando já estava a elaborar as suas teorias, Freud envolveu-se numa fecunda atividade intelectual. Com o professor Josef Breuer partilhou, a partir de 1882, um estudo aprofundado de sintomas psicológicos, que os levou a publicar o ensaio «Estudos sobre a Histeria» em 1895, onde defendiam a correlação dos problemas dos pacientes com reminiscências que os atemorizavam. Distanciam-se quando Freud enfatiza a interligação das neuroses com a sexualidade infantil, algo que Breuer, perplexo, recusa-se a aceitar. Ainda assim apresenta-lhe um colega berlinense, Wilhelm Fliess, que o substituirá como cúmplice preferencial das reflexões de Freud na direção para que lançava a sua fundamentação. Até 1902, Freud e Fliesse estabeleceram uma viva correspondência, feita de reflexões intimas e especulações teóricas.
Nessa época Freud tratava de Philipp Bauer, rico industrial a quem a sífilis causara graves perturbações neurológicas. Já se tornara um paciente de longa data do médico vienense, quando lhe apareceu com a filha, Dora, então com dezasseis anos, porque ela queixava-se de tosse permanente e de enxaquecas.
Só dois anos mais tarde, é que Ida Bauer - verdadeiro nome de Dora - passou a frequentar regulamente o consultório de Freud porque, além dos sintomas anteriores, passara a ter crises de afonia e desmaios impressionantes.  Notoriamente deprimida, os pais também reclamavam contra perturbações no seu carácter.
Freud diagnostica-lhe uma ligeira histeria e começa com o correspondente tratamento em outubro de 1900. Depois de Emmy von N., Miss Lucy R., Katarina e Elizabeth von R. - que já abordara sumariamente nos seus «Estudos sobre a Histeria» - Dora permite-lhe completar o estudo da estrutura da histeria, da formatação da psique e do papel dos fantasmas.
Dissociando a histeria dos estados degenerativos em que até então a tinham arrumado, avançou com o método inovador da associação de ideias sobre tudo quanto surgia na mente da paciente. Ensaiava assim uma cura baseada nas palavras.

terça-feira, agosto 07, 2018

(DIM) À descoberta de dois títulos de Steven Soderbergh


Desde «Sexo, Mentiras e Video», em 1989, tenho acompanhado grande parte da filmografia de Steven Soderbergh, porventura o realizador mais interessante de quantos habitam o mainstream cinematográfico norte-americano. No entanto, por circunstâncias várias, que não vêm ao caso, perdera a oportunidade de ver dois filmes da década transata, agora descobertos em poucos dias: «Solaris» (2002) e «Che» (2009).
Sobre o primeiro confirmo o que antevia: gosto tanto da versão realizada por Andrei Tarkovski em 1976, que nenhuma outra me poderia convencer. A de Soderbergh é um bom filme, trata com competência a capacidade do oceano do planeta exacerbar os complexos de culpa dos astronautas presentes na sua órbita, mas sem alcançar a dimensão de grande obra de arte atingida pela abordagem do realizador soviético. Ainda assim, quem quiser refletir sobre o que Soderbergh sugere, encontra muitos dos aspetos mais interessantes levantados pelo romance de Stanislas Lem, que lhe esteve na origem: o que somos? Uma projeção de nós mesmos ou aquela que outros criam ao entrarem no nosso círculo social ou afetivo? Como é que um oceano extraterrestre encontra a chave para abrir a porta dos nossos mais escondidos pensamentos? E o que se torna preferível: viver numa realidade dolorosa ou numa existência virtual porventura localizada dentro do nosso próprio cérebro?
Com «Che» a desilusão assume outra natureza, porque tem a ver com a expetativa frustrada de ver a gesta revolucionária cumprida entre a Sierra Maestra e Havana colorida num tom épico. Ora não gostei de ver parte significativa do filme gasta em combates confusos, muitas vezes deixando-nos à deriva entre quem pertence a um ou outro lado da contenda. Nesse sentido, mais do que um biopic, cumpre os preceitos do filme de guerra. Podemos considerar engenhosa a opção narrativa de alternar a evolução da guerra civil, que se saldaria com a vitória dos «barbudos», com a intervenção de Che nas Nações Unidas em dezembro de 1964 e as entrevistas por ele facultadas nesses dias a vários órgãos da comunicação social norte-americana, mas embora nada ponha em causa a sua grandeza, também nada lhe acrescenta. De qualquer forma Benicio del Toro, que também produziu o filme, teve nele o mais impressivo papel da sua carreira.
Num e noutro título, Soderbergh não terá encontrado o doseamento mais acertado entre o cinema de grande espetáculo, que foi obrigado a respeitar para cumprir as expetativas dos produtores, e a ambição artística de os tornar mais do que produto rapidamente consumido  e logo esquecido, como são quase todos quantos provém da indústria cinematográfica do outro lado do Atlântico. Foi pena, porque, quer noutros filmes, quer nas séries televisivas em que se vem empenhando, sabemo-lo capaz de bem melhor.

(DL) Os Homens Ricos e as Mulheres Bonitas


É porventura um pecado de que me devo penitenciar, porventura com uma tardia correção: nunca li um único romance de Jane Austen. O mais que de um deles - «Orgulho e Preconceito» - me  aproximei foi através de um série inglesa em que Colin Firth envergava as vestes do Mr. Darcy, por quem Elizabeth Bennett ridiculamente suspirava. Na época essa abordagem ajudou a convencer-me do carácter xaroposo do universo ficcional da escritora, que pouco teria de concreto para me atrair à sua leitura.
Terei feito mal, pois um dos papas da crítica literária (Harold Bloom) não poupou nas palavras para incensar o talento literário da autora. Só quando o soube fiquei ciente de, mais cedo ou mais tarde, vir a aferir a minha reação a um universo, que se revela bem mais realista do que julgaria nele encontrar, porque reflexo rigoroso do que era a vida na Inglaterra novecentista numa classe social acima da que Dickens se fazia arauto. Afinal aquele respeitado literato, que tem pugnado pela óbvia superioridade de Saramago em relação ao invejoso, que andará até ao fim da vida a vituperá-lo por lhe ter sonegado o Nobel, tem de ser merecedor da maior das confianças.
Uma possível introdução  à obra da escritora inglesa pode ser o romance de Helena Vasconcelos, publicado no ano transato, e cujo título singular é retirado de uma das frases-chave de «Mansfield Park»: «Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas que os Mereçam».
Através de Ana Teresa - uma jovem particularmente rendida a Austen, sobre quem se especializa - são-nos transmitidas muitas informações sobre a respetiva biografia e obra, ao mesmo tempo que se acompanha uma narrativa a interligar os dois tempos, o da atualidade e o da Inglaterra em que a escritora viveu. Será possível refletir num contexto tão diferente os valores de uma época particularmente conservadora nos usos e costumes, sobretudo no que ao amor e ao sexo diz respeito?
Numa entrevista de apresentação do seu romance, Helena Vasconcelos considera Jane Austen uma feminista avant la lettre, que não quis casar para se dedicar mais porfiadamente à escrita, desconhecendo até à morte as alegrias propiciadas pelos estímulos eróticos na carne. Mas se ignorava tudo sobre o que as personagens femininas dos seus romances parecem procurar não deixou de analisar aplicadamente a época, dela reportando muitos motivos de crítica, senão menos de mordacidade feroz.
Suspeito que, entre o original e a sua cópia, pendo necessariamente para o primeiro: mais valerá ler Jane Austen do que o ambicioso e o heterogéneo romance de Helena Vasconcelos. A leitura das primeiras páginas não me entusiasmou, mas tenho de consciencializar se reajo ainda de acordo com o preconceito antirromântico ou se, bem vistas as coisas, elas nada parecem adiantar relativamente a um percurso literário, que começa tarde e um bocado torto...

sábado, agosto 04, 2018

(DL) «Dora - Fragmentos de uma análise de histeria» de Sigmund Freud (1)


Foi em 1891, que Freud foi viver para o número 19 da Berggasse em Viena aí recebendo numerosos visitantes. Nos homens contavam-se muitos dos seus discípulos. Mas eram sobretudo mulheres, quer pacientes, quer futuras analistas, com as quais Freud muito viria a aprender, pois muito contribuiriam para lhe enriquecerem os trabalhos.
Viena era, nessa altura, uma metrópole em efervescência. Tinha pintores, escritores, cientistas e filósofos a redesenharem o entendimento sobre o ser humano. O pai da psicanálise vivia, porém, à parte desse bulício, embora viesse a contribuir, e muito, para ele, com as suas novas teorias. Eram, no entanto, memoráveis as quartas-feiras em que reunia um pequeno comité de amigos e colegas para criar o que viria a crismar-se de psicanálise. Os pacientes, em número de cento e trinta, já estavam a franquear a porta do seu consultório para estenderem-se no célebre sofá, rodeados de livros e estátuas antigas.
Se ulteriormente viria a ter relações tumultuosas com a maioria dos discípulos (Adler, Jung, Rank ou Ferenczi) as que estabeleceria com as mulheres nunca assumiriam tal conflitualidade, não só por elas contribuírem para uma indisfarçável feminização do seu pensamento, mas também por lhes admirar a inteligência, sobretudo nos casos de Sabina Spielrein, Lou-Andreas-Salomé ou Maria Bonaparte, a quem instou a tornarem-se analistas.
Em outubro de 1901 recebeu uma certa Dora no seu consultório, Era uma rapariga de 18 anos, enviada pelo pai, que esperava vê-la curada dos fantasmas sexuais que a obcecavam, tanto mais que não largava as leituras de conteúdo pornográfico.
Durante onze semanas o tratamento iria evoluir da identificação com uma trivial história familiar para uma tragédia marcada pelo sexo, pelo amor e pela doença.
Quatro anos depois, já distanciado de um tratamento, que acabara interrompido pela própria paciente, Freud redigiu sobre ele o texto mais ambicioso de todos quantos escreveu sobre os seus casos clínicos. Nele desenvolveu teses inéditas sobre a histeria, a bissexualidade e a transferência.
Na década anterior Freud e Breuer tinham colaborado na análise da histeria, mas cavara-se a distância entre ambos, quando o primeiro arriscou hipóteses, que colidiam com o puritanismo do colega, incapaz de aceitar a possibilidade de existirem pulsões sexuais desde a mais tenra idade das crianças.
O pai de Dora, Philipp Bauer, era um rico industrial acometido de perturbações neurológicas relacionadas com a sífilis, razão pela qual se tinha tornado paciente de Freud. A filha, cujo verdadeiro nome era Ida, desde os 16 anos que apresentava sintomas incómodos - tosse, enxaquecas - dois anos depois agravados com afonia e frequentes desmaios. Fora perante esses problemas, que Freud a começou a tratar. Além de instá-la a verbalizar tudo quanto lhe viesse à mente, trabalhando a decorrente associação de ideias, escusou-se a recorrer à hipnose, que até então lhe parecera particularmente útil. A intenção era trazer ao consciente o quanto se ocultava no inconsciente, analisando as resistências exprimidas no recalcamento das pulsões mais escondidas.
Há quem considere este relato tão essencial para o conhecimento da psicanálise quanto o foram «A Interpretação dos Sonhos» e «Três Ensaios sobre a Teoria Sexual».

sexta-feira, agosto 03, 2018

(S) «Folias de Espanha»: um concerto de Jordi Savall

(DIM) «Meu Querido Inimigo» de Gjergj Xhuvani (2004)


O atual cinema albanês é-nos quase desconhecido, razão porque este título disponível no you tube pode ser interessante de descobrir, mesmo apenas tendo disponível a versão original sem legendagem.
Um bom indício do seu interesse reside logo no genérico e nas cenas iniciais, acompanhadas com a 7ª Sinfonia de Chostakovich, perfeitamente ajustada à chegada dos invasores alemães a uma vila até aí ocupada pelos italianos. Como, derrubado Mussolini,  os nazis viram esse aliado mudar de trincheira, passaram a considerar inimigos os soldados até então considerados seus cúmplices. Razão porque um deles, deixado para trás por estar hospitalizado, pede ajuda a Harun para que possa por ele ser escondido na sua quinta. Desconhece que, na cave, irá encontrar, na mesma situação, um guerrilheiro comunista a ambos juntando-se um ourives judeu decidido a escapar à fatal transferência para um campo de concentração.
A família do merceeiro, junto de quem os alemães se irão em breve abastecer, conta igualmente com dois irmãos dele, o impotente Sami, incapaz de satisfazer os apetites sexuais da mulher, e Vasian, um historiador casado com Gerda, uma alemã indefinida quanto à simpatia ou antipatia relativamente aos seus compatriotas invasores. Mas todos eles obedecem à matriarca, que tudo decide, inclusivamente essa perigosa forma de resistência de esconder quem os alemães possam passar pelas armas.
As relações entre os três clandestinos é tensa, mas também com eles irá interagir a frustrada mulher de Sami, que se impacienta por ele passar o tempo a tocar acordeão, e sente atração pelo italiano. Mas também Harun tem de se aprimorar na duplicidade, porque o responsável alemão pela logística, sempre acompanhado de um tradutor colaboracionista, ora o insta a encontrar os bens alimentares de que necessita como até o visita na quinta, suscitando justificado receio, quer nos que estão escondidos, quer nos que os escamoteiam aos olhos inimigos. No entanto o oficial em causa está, sobretudo, interessado em Gerda, cujas reações ambíguas nos levam a pensar se será por ela, que a tragédia será despoletada.
Esse perigo iminente nunca se confirma e, com a evolução do conflito, passam a ser os alemães a terem razão para sentirem medo.: o oficial alemão será morto num atentado da Resistência, quando pretendia despedir-se galantemente da compatriota antes de iniciar a debandada para linhas mais recuadas.
A vitória aliada não tarda e tem um efeito inesperado para Harun: ele que ajudara os opositores à Ocupação, mesmo aparentando fazer bons negócios com os nazis, é levado no final para ser julgado como colaborador. Foi para o homenagear, já que ele replica o sucedido com o próprio avô do realizador, que Xhuvani concretizou este projeto.

quinta-feira, agosto 02, 2018

(DL) As dúvidas de John Steinbeck durante um sarau de poesia em Tbilissi


Ao ocorrer a queda do muro de Berlim uma das expetativas, que vi goradas, foi a da evolução política ulterior em países em que o gosto pela cultura era um facto. Lembrava-me de passear por Tuapse a meio da tarde e ouvir a propagação dos sons dos músicos, que ensaiavam reportórios no seu Conservatório. Em Leninegrado, uma acelerada caminhada ao longo do Neva constituía uma viagem ao passado, com monumentos adornados de cúpulas douradas a imporem a atenção a cada passo. Nessa época as emissões televisivas nada tinham de semelhante com as conhecidas a ocidente, dando justo destaque, em horário nobre, a bailados, peças de teatro ou filmes de grandes realizadores soviéticos.
Afinal a atração pelo consumo falou mais alto e os cultos cidadãos da Europa de Leste tornaram-se presa fácil das ilusões capitalistas e de doutrinas opostas àquelas em que haviam sido educados, como se comprovam nos governos hoje estabelecidos em Budapeste, Varsóvia, Praga ou Bratislava.
No périplo por várias repúblicas soviéticas Steinbeck comprovou esse inusitado interesse pela cultura, particularmente quando compelido a participar em saraus de poesia como lhe aconteceu uma noite em Tbilissi. Para os interlocutores constituiu um choque que nos Estados Unidos não se desse tão efetiva importância aos escritores, quanto a que ali se lhes atribuía, sendo considerados autênticos arquitetos da sociedade, e merecendo túmulos mais majestosos nos cemitérios do que os concebidos para albergar despojos de vários reis.
O escritor conforta-se com uma consideração pertinente: embora dissociados do poder político, os seus pares norte-americanos tinham criado obras inesquecíveis ao colocarem-se no papel de críticos dos males sociais. Ao contrário, na União Soviética, há trinta anos formatada pela Revolução bolchevique, nenhum autor se conseguira equiparar aos grandes romancistas do século anterior - Dostoievski, Tolstoi. Talvez porque ser arquiteto das almas revolucionárias não se coadunasse com a Literatura com maiúscula?

quarta-feira, agosto 01, 2018

(DL) Os efeitos da guerra e a veneração por Lenine em 1948


Era natural que, estando o fim da guerra ainda tão próximo, Steinbeck e Capa tenham encontrado muitos dos seus efeitos práticos, quando viajaram pela União Soviética em 1948. Os transportes em que se deslocavam eram básicos, primando pela operacionalidade em detrimento do conforto ou da aparência. Por exemplo na viagem entre o aeroporto e Estalinegrado tomaram um velho autocarro cujas molas da suspensão inexistiam, podendo-se imaginar os solavancos decorrentes do percurso por uma estrada irregular cheia de buracos. Ainda assim, o relato literário da experiência exime-se de comparações com a realidade norte-americana onde a possibilidade de tal ocorrer seria quase nula, havendo até uma complacência perante algo encarado como pitoresco.
Nesse percurso também presenciaram o labor dos que recolhiam a sucata remanescente da intensa batalha ali ocorrida e cuja reciclagem garantiria material para manter em funcionamento as fábricas de metalurgia. Tratava-se da demonstração prática de um sistema político e económico, que tinha horror ao desperdício e tudo procurava reutilizar como forma de recuperar tão rapidamente quanto possível da destruição em que toda a sua parte ocidental do país fora sujeita.
Noutra perspetiva, o escritor e o fotografo testemunharam o orgulho de homens e mulheres que, acompanhados dos filhos, lhes mostravam o equipamento militar alemão capturado provavelmente graças ao seu esforço. E, na mesma lógica as famílias faziam filas para homenagearem, de uma forma que Steinbeck consideraria «religiosa», a múmia de Lenine. Tendo em conta que o regime distanciara-se da igreja ortodoxa, defendendo que os fenómenos religiosos equivaliam a uma alienante forma de ópio para manter o povo na ignorância, revelava então grande sucesso na capacidade de transferir para a iconografia do líder de 1917 a pulsão dos russos para o transcendente.
Nesse sentido compreende-se a vontade política atual de encerrar definitivamente o mausoléu, poupando o cadáver de Lenine ao desfile quotidiano de turistas, que o vão ver por curiosidade mórbida sem qualquer identificação ideológica com quanto ele representava. Mas há setenta anos essa exposição fazia todo o sentido, porque o respeito e admiração por Lenine estava interiorizado nos que formavam tais filas.