terça-feira, julho 24, 2018

(S) Nadah Al-Shazly e Kareem Samarah: «Speak to me»

(DIM) Carros, aviões, gasodutos e campos de refugiados

Às terças-feiras o horário nobre do canal franco-alemão ARTE é dedicado a temas de atualidade, propondo-se esta noite quatro documentários.
«Volkswagen, as desgraças de um gigante da indústria automóvel» foi rodado em 2016 por Achim Scheunert e Andreas Wimmer, quando o grande grupo automobilístico estava em plena tormenta devido á revelação do falseamento dos testes antipoluição nos seus motores de combustão. Mostrando as reações suscitadas pela participação da marca no Salão Internacional de Detroit  nesse mesmo ano, vai-se concluindo que, contrariamente, ao defendido de início, a fraude não resultara da ação de uma restrita equipa de engenheiros, mas de uma cultura há muito instituída pela direção do grupo.
Onze milhões de veículos estariam implicados  no caso e as consequências na queda abrupta do valor bolsista da empresa logo se fizeram sentir até pela pesada multa de 22 mil milhões de dólares aplicada pelas autoridades norte-americanas.
Graças a raros documentos de arquivo, os realizadores revelam a história sombria da Volkswagen, que Hitler sonhara transformar no automóvel do povo exportável para os quatro cantos do planeta.
O documentário seguinte, «A saga dos Douglas DC-3», realizado por Peter Bardehle e estreado agora, debruça-se sobre a história do primeiro avião  moderno pensado para o transporte de passageiros. Criado em 1936 na Califórnia, construíram-se 16 mil aparelhos até 1936, alguns dos quais ainda voam atualmente para as regiões polares ao serviço de diversas expedições científicas.
Na história dos DC-3 conta-se o envolvimento na logística do desembarque aliado  nas costas francesas e, depois, no abastecimento de Berlim durante o bloqueio soviético. Razão para merecer o culto de uns quantos entusiastas, que pagam fortunas para manterem em perfeito estado de utilização muitos dos remanescentes de tão duradoura existência. Uma empresa no Wisconsin é uma das principais especialistas nesse tipo de trabalho.
O terceiro documentário da noite ganha particular acuidade depois da recente acusação de Trump quanto à subserviência da Alemanha de Angela Merkel em relação ao gás natural fornecido pelos russos. «A guerra dos gasodutos» de Christian Schulz, datado de 2017, interroga se o Nord Stream 2, gasoduto em construção nas águas profundas do mar Báltico, servirá de via preferencial de exportação de tal fonte de energia a toda a Europa, que já importa da mesma origem um terço das suas necessidades. A questão pertinente é aferir se essa dependência energética ainda pode acentuar-se mais, expondo o continente a eventuais retaliações do Kremlin em caso de litígio político.
Com uma extensão de 1250 quilómetros a canalização em causa liga São Petersburgo à cidade alemã de Lubmin e poderá movimentar anualmente 110 mil milhões de metros cúbicos de gás natural  prejudicando as expetativas norte-americanas que ansiariam por abocanhar uma boa parte do negócio em causa. Daí que espicacem a Ucrânia para que se faça porta-voz dos seus interesses tanto mais que, com o NordStream 2 em ritmo de cruzeiro evaporam-se as receitas significativas, que o regime de Kiev aufere pela atual passagem do gás russo pelo seu território.
A concluir há mudança de área geográfica com «Zaatari - Sobreviver num campo de refugiados», assinado por Paschoal Samora em 2017, que retrata o quotidiano de um campo de refugiados na Jordânia, onde se acumulam oitenta mil foragidos da guerra na Síria. Como Mohammad, pintor de nomeada em Homs, que ilude o tédio usando os pincéis e as trinchas para decorar os contentores dos vizinhos.  Ou Moubarak, que percorre o campo com o seu carrinho de vendedor ambulante.  Ou Mader, que criou o seu próprio jardim.
São vidas suspensas, mas denotando notáveis capacidades de resiliência, enquanto não encontram novos rumos ou reencontram os antigos, que lhes devolvam a sensação de alguma normalidade.

segunda-feira, julho 23, 2018

(DIM) «Nos Idos de Março» de George Clooney (2011)


É um filme sobre a perda da inocência. Mas não dando lugar a sentimento mais lúcido e eticamente irrepreensível, pelo contrário largando à desfilada os piores defeitos de quem se confronta com a excecionalidade dos factos.
Stephen Meyers (Ryan Gosling) é um jovem assistente do chefe de campanha do governador Morris, que se prepara para as primárias democratas no Ohio contra o senador Pullman, por essa altura mais adiantado no número de delegados ao Congresso. Da vitória naquele Estado depende a possibilidade de Morris ainda conseguir o passaporte para a Casa Branca. Apesar da imprevisibilidade do futuro próximo Stephen trabalha na campanha por convicção, porque Morris é um político carismático, que muito admira.
Numa ausência do seu chefe - Paul, interpretado por Philip Seymour Hoffman - Stephen é convidado para um encontro quase clandestino com Tom Duffy (Paul Giamatti), que comanda a campanha oposta e o pretende convidar para mudar de equipa.
Stephen demora demasiado a contar a Paul esse encontro, que se torna num embaraço, sobretudo quando uma jornalista curiosa fica a saber dele. 
O mundo quase perfeito de Stevie começa a ruir por todos os lados: descobre que a colaboradora da campanha com quem dormira nos últimos dois dias, também tivera episódica relação amorosa com Morris e dele engravidara. Paul despede-o por considerar desleal o ter-se atrevido a aceitar o convite de Duffy. Este, depois de o ter aliciado em vão não o aceita, quando lhe surge com a promessa de uma estória bombástica, que acabaria com a carreira política do ex-patrão. E Molly aparece morta no quarto do hotel, havendo dúvidas se se suicidara, se ingerira acidentalmente dose excessiva de medicamentos.
Quando parece condenado a procurar emprego numa outra atividade, que não a política, Stevie joga a cartada decisiva, que vira o jogo a seu favor: tendo uma gravação e um bilhete comprometedores para Morris, exige-lhe o despedimento de Paul e a chefia da campanha, sem esquecer o convite do corrupto Thompson para vive –presidente.
Se o filme começava com Stevie a fazer testes de som num palco onde o candidato iria discursar nesse mesmo dia, também acaba com o mesmo tipo de cena, mas o rosto dele endureceu entretanto, nada restando da alegria inocente com que despachava a tarefa anteriormente.
Num filme cujo argumento acaba por não poupar quem quer que seja quanto às suas comprometidas atitudes, «Nos Idos de Março» é um dos títulos mais interessantes de entre os que George Clooney assinou.

domingo, julho 22, 2018

(DL) Rosa Montero diz que os homens são bichos absurdos


Na crónica deste fim de semana no «El Pais» a escritora Rosa Montero questiona-se sobre a moda do balcooning, que tem causado mortes e ferimentos graves na coluna vertebral aos jovens vindos maioritariamente de Inglaterra  para alojarem-se nos hotéis de Maiorca e onde intentam passar de varanda para varanda, ou atirarem-se de uma delas diretamente para a piscina. O que ela mais estranha é ocorrerem nessa ilha das Baleares quase todos os acidentes desse tipo rastreados a nível mundial. Como se o lugar em si potenciasse a súbita estupidez dos envolvidos em tais práticas. Cita por isso Aristóteles, que dizia haver sempre um recanto de burrice até no cérebro dos homens mais sapientes.
Designando a espécie humana como bicho absurdo ela anota os paradoxos dessa coincidência entre as imbecilidades e as manifestações mais notáveis do seu talento: “que nos passa pela cabeça, que cabo se nos desliga, para que a cegueira de um determinado momento, nos leve a fazer algo? Conduzir com álcool a mais. Dizer algo de irreversível a quem amamos. Saltar uma resvaladiça cascata ou correr em Madrid no mês de agosto ás três da tarde para nos convencermos de sermos ainda jovens. Fazer amor sem proteção numa circunstância arriscada. Podemos cair numa qualquer destas asneiras e em muitas mais, mas ao mesmo tempo estarmos a inventar a cura contra o cancro”.

sexta-feira, julho 20, 2018

(EdH) As breves derrotas de uma cultura antes de se declarar vitoriosa


É curioso que, nos últimos dias, tenha dado com a mesma tese, enunciada por pessoas tão diferentes quanto o parecem ser o realizador Paul Schrader ou a escritora Celeste Ng: em meados dos anos 70 julgáramos próximos os cenários de utopias, que configurariam uma outra cultura, e afinal foi outra, a que lhe era contrária, a prevalecer. O que faz de nós derrotados de uma batalha de valores, que está longe de estar definida, porque a guerra correspondente está por resolver. Basta pensar que estamos num mundo mais desigual e ecologicamente insustentável para concluir pela continuidade de uma disputa concluída com um de dois cenários: ou a distopia de um planeta condenado a um devir apocalítico, ou a utopia de uma outra via consagrada num outro sistema económico e numa efetiva humanização das decisões políticas.
Quando maio de 68 e outros movimentos mostraram que debaixo das pedras da calçada poderia encontrar-se a paradisíaca praia, o capitalismo engendrou uma ilusão consumista suficientemente forte para pôr os explorados de então a distraírem-se do foco da sua missão e a passearem-se aos fins de semana nos centros comerciais, mesmo sem dinheiro no bolso para comprar o que quer que fosse.
Nos anos seguintes, esgotada essa miragem de tudo estar ao alcance de todos, surgiram outras falácias embaladoras: a possibilidade de todos serem acionistas, mesmo continuando a verem as mais valias do seu trabalho a serem esbulhadas nas fábricas ou nos escritórios. As Bolsas teriam uma capacidade de crescimento tão imparável, que todos colheriam lucros da financeirização acelerada das economias.
Desfeitos esses oásis ainda vivemos outro: a sobrevivência dos jovens do Milénio residiria na potenciação da sua veia empreendedora. Encontrasse-se o nicho adequado e a riqueza não se mediria nos magros dólares ou euros remunerados pelos empregos precários, mas por muitos zeros. O problema atual é muitos constatarem que esses zeros continuam invariavelmente à esquerda e não à direita dos demais dígitos.
Vivemos, pois, no impasse de uma situação desfavorável, mas cientes da importância de a infletir, mudando-a decisivamente para o pós-capitalismo, derrotando o neoliberalismo na sua forma atual, a de uma total falta de escrúpulos dos plutocratas, que já nem sequer disfarçam o incómodo inerente aos formalismos da Democracia. 
Nesta altura eles parecem demasiado fortes para serem vencidos. E os que os deveriam combater demasiado alienados da sua condição para agirem em conformidade com os seus interesses. Mas quem já tanto viu acontecer neste recente meio século como pode manter-se pessimista perante a notável capacidade da História humana para se reinventar num sentido civilizacionalmente mais avançado?

quinta-feira, julho 19, 2018

(S) Jordi Savall & Hespèrion XXI: Folias Criollas

(DIM) O Portugal de... Mário de Carvalho, Lidia Jorge, Gonçalo Tavares e Mia Couto de 24 Abr 2018 - RTP Play - RTP

O Portugal de... Mário de Carvalho, Lidia Jorge, Gonçalo Tavares e Mia Couto de 24 Abr 2018 - RTP Play - RTP

(DIM) «No Coração da Escuridão» de Paul Schrader


Aos 71 anos, depois de assinar tantos argumentos e realizar muitos filmes mais, Paul Schrader criou aquela que poderá ser a sua melhor obra, porque o reconcilia com a indignação patente nos primeiros títulos que o tornaram conhecido: não só de «Taxi Driver», que escreveu para Scorcese, mas sobretudo «Blue Collar», «Rapariga da Zona Quente» ou «American Gigolo», todos eles retratos desencantados de uma América, mais de pesadelo, que de agraciada por Deus.
Deus teve (e  continua a ter) um lugar de destaque na vida de Schrader. Ele nasceu numa comunidade calvinista do Michigan, nunca tendo visto um filme até aos dezoito anos, porque assim o impunham os austeros costumes locais. Depois, quando os começou a descobrir, a escolha não podia ser melhor: Robert Bresson, Ingmar Bergman, Carl Dreyer ou Jean-Luc Godard. Mesmo tendo deixado derivar a criatividade por outros universos, a influência de alguns daqueles inspiradores estão presentes no filme atualmente em exibição nos cinemas, e cuja descoberta muito se recomenda.
No papel principal está Ethan Hawke já tão distante do que lhe conhecêramos enquanto personagem impressivo de «O Clube dos Poetas Mortos». Aqui ele é Ernest Toller, um pastor protestante numa pequena comunidade rural, que vive atormentado pela corrupção do corpo, afetado por doença incurável, mas sobretudo a contas com um sentimento de culpa de impossível redenção. Antigo militar, empurrara o filho para  um alistamento, que equivaleria à sua condenação à morte no teatro de guerra do Iraque.
Ademais, nem sequer essa opção profissional pelo exercício religioso lhe serve de lenitivo, quando vem a descobrir que a sua própria igreja está de mão dada com multinacionais envolvidas em negócios diretamente relacionados com a destruição ambiental. Entre a vontade de resolver o que tanto o revolta, como o personagem de Robert de Niro no filme de Scorcese, ou de George C. Scott em «Hardcore», ou outro final mais simbólico, mas não menos definitivo, ao jeito de Bresson, Schrader assume ter decidido por algo a meio caminho entre uma e outra opção.
Ciente está ele de constituir uma carta fora do baralho na produção cinematográfica atual, encontrando crescentes dificuldades para financiamento dos seus projetos. Numa entrevista ele diz: “nos anos 60 pensávamos que estávamos a forjar uma nova cultura. Houve de facto uma nova cultura que estava a ser forjada, mas não era a nossa, era aquela que se opunha à nossa. Cinquenta anos depois, suprimiram-nos completamente.”
O desencanto de Schrader não o inibe de continuar a frequentar regularmente a igreja, justificando-se com Albert Camus: “Eu não acredito. Eu escolhi acreditar.”

quarta-feira, julho 18, 2018

(DL) Mário de Carvalho: «Burgueses somos nós todos ou ainda menos»


«Burgueses, somos nós todos ou ainda menos» - a nova coletânea de contos de Mário de Carvalho - vai buscar o título a um poema de Mário de Cesariny, que diz pertencermos a essa horrorosa condição desde pequenos. E, de facto, se ser-se português fosse medido exclusivamente através do comportamento dos personagens das onze histórias bem poderíamos considerar que Almada Negreiros tinha razão quando dizia os portugueses dotados de todas os defeitos só lhes faltando as qualidades. Porque os homens têm desabrida sexualidade, mesmo que a idade os torne impotentes ou a desatenção conjugal lhes adorne as cabeças com os tão temidos chifres. As mulheres, por seu lado, também não se revelam mais virtuosas, porque facilmente estimuladas pelas tentações da carne.
Há o viúvo inconsolável com a tardia descoberta das aventuras adúlteras da defunta, não vendo mitigar-se-lhe os instintos homicidas.  Ou o medíocre professor, que entretém o tédio de um jantar de negócios lembrando as circunstâncias em que se deitara com duas das afetadas convivas. Ou o emigrante afastado da cidade durante décadas que vem à procura dos amores passados, concluindo que só lhe restam velhas com achaques, ébrias ou incontinentes. Ou a surpresa de encontrar entrevado um dos mais bem sucedidos colegas de escola a quem não deixara, porém, de secretamente o trair, mediante a ligação com a mulher com quem parecia formar um casal de sonho.  Ou ainda os efeitos das falências de BES e congéneres na sobressaltada existência de quem lhes confiara investimentos insensatos. Ou outras demonstrações de como o tempo constrói ruínas nos relacionamentos, mais do que os monumentos elogiados por Marguerite Yourcenar. Ou como os filhos dececionam os pais e vice-versa...
Tal como no título anterior - «Ronda das Mil Belas em Frol» - o sexo está presente em quase todas as histórias, mas eivado de preconceitos e de preocupação com as aparências. Quase meio século depois  da Revolução de Abril, a geração que era jovem nessa época não se conseguiu livrar de toda a canga conservadora transmitida pela educação judaico-cristã.
Mas, mais do que as intrigas, invariavelmente, orientadas para comportamentos de gente medíocre, com quem não sentimos qualquer empatia, há a maravilhosa escrita de Mário de Carvalho, um dos autores vivos que melhor escreve na língua portuguesa, não só pelo recurso a um riquíssimo léxico, mas também por o desenvolver em histórias feitas com frases muito curtas, depuradas de injustificadas adjetivações. Se é consensual a tese de se necessitar de enorme talento para ser bem sucedido como contista, Mário de Carvalho há muito demonstrou que o tem de sobra, suscitando prazer a sua leitura.

(S) «En Belén Tocan a Fuego»

Este é um dos temas que o Coro Gandaia já está a preparar para o seu espetáculo de Natal!

terça-feira, julho 17, 2018

(DL) «Vou-me embora» de Jean Échenoz


Francófilo por muitas e boas razões - a começar por provirem do Hexágono muitas das propostas literárias, cinéfilas e filosóficas mais interessantes na época em que a cultura me começou a interessar -  é nessa língua que continuo a descobrir novos livros e autores, mesmo constatando que de outras paragens chegam propostas ainda mais aliciantes. O Nobel atribuído a Le Clézio e a Modiano alegrou-me enquanto reconhecimento de elementar justiça, só tendo ficado mais feliz quando a Academia Sueca consagrou José Saramago. De passagem teria ficado fulo se houvesse dado o prémio a Lobo Antunes, que continua a não se poupar nos insultos ao defunto, por quem mantém ignominiosa inveja (vide a vergonhosa crónica, que assina esta semana na «Visão»!).
Na literatura francesa atual continuam a existir - além dos dois citados - muitos outros, que me dão enorme prazer, quando os leio. Jean Échenoz é um deles, sobretudo quando se dedica à recriação da biografia de personalidades reais (Maurice Ravel, Emil Zapotek). Mas, mesmo quando é outro o projeto, tem-se por garantida uma estória consistente, criada com um estilo elegante sem deixar de se revelar sóbrio na expressão.
Em «Vou-me embora», oitavo romance, que lhe garantiu o Prémio Goncourt em 1999, seguimos as vicissitudes por que passa um galerista quase falido e com o coração a fraquejar - Félix Ferrer - quando é aliciado para dar a volta às dificuldades mediante o resgate de um tesouro de peças inuit num navio há muito encalhado no Ártico canadiano. Sem perder o fulgor literário, o romance explora os recursos do género policial com a manipulação, o roubo da fortuna, a morte de um homem e a perseguição Espanha adentro, sempre com a surpresa a funcionar como estímulo para manter o entusiasmo pela leitura.
Echenoz não nos faz partilhar a psique dos personagens: em Ferrer apenas suspeitamos das inquietações relativas ao possível abreviamento da vida (o que quase chega a suceder!).  Ao leitor destina outro papel: o de se ver interpelado, cúmplice de confidências ou desestabilizado, porque, de um momento para o outro, há quem mude de estatuto, até mesmo de sentido, que julgava ocupar na narrativa. Se chegamos a suspeitar de algo de absurdo a inserir-se na história, acabamos, mais adiante, por compreender a razão de ser. E se, nalgumas alturas, o autor parece demorar-se demasiado em explicações científicas, logo no-las relativiza com alguma desconcertante observação poética.
Há, ademais, as piscadelas de olho aos habituais leitores, que encontram lugares anteriormente já presentes noutros romances, mesmo que a descrição no-los faça imaginar diversa da de antes. É o caso do hotel Albizzia, rodeado de plátanos em «Um Ano» e agora contando com um bosque de eucaliptos onde os estorninhos fazem concerto ruidoso à beira de um jardim de mimosas.
Ao chegarmos às últimas páginas sentimos que Félix Ferrer andara todo o romance à procura de uma nostalgia com o seu quê de desesperada. O ir-se embora, declarado no começo e no final do livro, mais não é do que a constatação de ser a partida para algum lugar a única solução para um universo onde quase todos desconhecem para onde os andam a empurrar.

(DIM) «Oleg y las raras artes» de Andrés Duque (2016)


Foi mesmo a tempo que o realizador venezuelano preparou e rodou este filme sobre um pianista e compositor russo particularmente icónico no seu país pois, apesar de proibido de atuar em público durante o regime soviético, usufruiu depois o privilégio de, todas as segundas-feiras, ter abertas as portas do Hermitage para tocar durante umas horas no piano, que pertencera ao ultimo dos czares. Até que, pouco depois da rodagem do filme, sucumbiria à sua já proveta idade (89 anos).
Oleg Karavaychuk revelara-se talentoso desde muito cedo: aos sete anos atuou tão convincentemente perante Estaline que, agradado com a arte do petiz, impediu a projetada deportação do pai dele para um gulag. Talvez por isso, se as opiniões por ele expressas a respeito de Putin são bastante negativas, já tomam sentido oposto quando se trata daquele que foi vilipendiado como um dos mais mal afamados ditadores do século XX. O que confirma o que eu próprio constatei, quando andei pela URSS na segunda metade dos anos 70: encontrei imensa gente a criticar Brejnev, depreciando-o em comparação com a genuína admiração pelo «pai dos povos». E, tanto quanto se vai sabendo, esse sentimento continua arreigado em muitos russos, que associam esse político à época de maior grandeza conhecida pelo seu país na sua História recente.
Eremita voluntário, Oleg correspondia à figura emblemática do misantropo, que teimava viver distante de todos os vizinhos, isolando-se numa ilhota onde não dispunha de eletricidade, nem de água potável. Andrés Duque empenhou-se em entrar-lhe nos espaços preferidos e ouvi-lo no muito que tinha para revelar...

segunda-feira, julho 16, 2018

(S) «A Love Supreme», John Coltrane

(DIM) «Lauren Bacall, sombra e luz» de Pierre-Henry Salfati (2017)


Ao pensarmos em Lauren Bacall é inevitável vê-la como metade do casal mítico, que formou com Humphrey Bogart com ele partilhando títulos fundamentais do filme negro da década subsequente ao final da Segunda Guerra Mundial. Além de «Ter ou Não Ter» - em que se conheceram e caíram literalmente nos braços um do outro, apesar dela apenas ter 19 anos e ele 44! - , deve-se-lhes creditar os imprescindíveis À Beira do Abismo», «O Prisioneiro do Passado» e «Key Largo». Era a época em que a apodavam de «The look», devido ao olhar magnético, acompanhado da voz grave.
Com a morte de Bogart, em janeiro de 1957, viu-se abandonada pelos estúdios de Hollywood, que não lhe reconheciam o talento e já contavam com novos e atraentes rostos para servirem de sedutoras no grande écrã. Ou estariam os donos dos estúdios a nela punirem a corajosa oposição às atividades do senador McCarthy, que havia encabeçado com Bogart, ficando protegida de retaliações pelo facto dele ser demasiado popular para se ver alvo de represálias?
Vingar-se-ia da afronta com uma trabalhosa, mas brilhante, ressurreição na Broadway, onde os seus desempenhos mereceram sucessos comerciais e prémios prestigiados.
Através de extratos de filmes, de imagens de arquivo e de entrevistas em ocasiões diversas, o documentário vai procurar Betty por trás da máscara de Bacall. Ao encontro, pois, da rapariga tímida e vulnerável, que não se conseguia ver no papel de mulher fatal com nervos de aço tal qual a formataram os realizadores com que se iniciara perante as câmaras.
Desaparecida em 2014, Bacall revelou até ao fim um humor lúcido ou não tivesse a correr em si os genes da sua origem judaica.

domingo, julho 15, 2018

(S) Claudio Abbado a dirigir a 2ª Sinfonia de Mahler há 15 anos

(DL) Os preconceitos que Hemingway e Capa tiveram de enfrentar quando quiseram visitar a URSS


Ainda mal tinha acabado a Segunda Guerra Mundial e já a Casa Branca andava ansiosa por começar um novo conflito, desta vez contra os soviéticos, sobre quem pretendia aproveitar a momentânea superioridade garantida pela bomba nuclear. Pudesse arranjar um argumento consistente para que prosseguisse o esforço militar, que dera fôlego à sua economia com pujantes indústrias a garantirem muitos milhares de postos de trabalho, e poria aviões e tanques a avançarem para um país exaurido, onde o esforço da reconstrução se adivinhava gigantesco. Daí estar a iniciar-se em força a atividade das Comissões incumbidas de identificar e ostracizar eventuais simpatizantes da causa comunista não só em Hollywood, mas em todo o setor público da economia e da administração norte-americana.
Quando John Steinbeck e Robert Capa engendraram o projeto de irem visitar a União Soviética e de lá trazerem um relato tão honesto e objetivo quanto possível sobre como os antigos aliados estavam a recuperar dos danos humanos e materiais causados pela guerra, sentiram o clima hostil dos compatriotas relativamente aos que pareciam complacentes, senão mesmo coniventes com o «perigo vermelho». Por isso uns não hesitavam em suspeitá-los de terem sido comprados por Estaline, enquanto outros apostavam na possibilidade de se verem expeditamente torturados e mortos logo à chegada a Moscovo.
Ao contestarem essas reações, Steinbeck e Capa usavam os argumentos da maiêutica socrática para confundir os interlocutores com ironia, desmascarando-lhes os preconceitos. Confirmando o que pressentiam, os russos com que confraternizariam nas semanas seguintes não eram muito diferentes dos que tinham visto acometidos de sintomas agudos de «moscovite». Com a diferença de ser genuína a preocupação quanto a ser garantida a paz, porque estando tão próximos os efeitos da guerra, não quereriam voltar a revivê-los a pretexto de uma qualquer guerra fria.

sábado, julho 14, 2018

(S) O Estudo opus 10 nº 12 de Chopin

(DIM) «Altamira» de Hugh Hudson (2016)


Em 1878 um latifundiário espanhol particularmente dado às coisas da ciência, Marcelino Sanz de Sautuola, viu a filha de oito anos descobrir as pinturas rupestres numa gruta situada na sua propriedade e em cujo interior ainda não se aventurara. Há um par de anos os seus descendentes - a família Botin, que é uma das ricas do país vizinho - quis homenageá-lo não olhando a meios para que a intenção fosse cumprida com sucesso. Para tal foram buscar o veterano Hugh Hudson e deram-lhe como protagonista da história o mais internacional dos atores espanhóis - Antonio Banderas.
O resultado não é famoso do ponto de vista cinematográfico, pois se Hudson nunca se revelou mais do que esforçado artesão, a idade não lhe deu o talento antes comprovadamente ausente. Mas o filme tem três aspetos, que recomendam a visão se nos decidirmos a gastar hora e meia com uma proposta a que não imponhamos grandes padrões de exigência: por um lado ficamos a conhecer as circunstâncias e quem esteve envolvido na descoberta de um dos mais importantes legados da arte paleolítica datados de há 35 mil anos; depois há a denúncia da atitude sempre cega da Igreja, disposta a mover todas as influências e a abandonar quaisquer escrúpulos para manter credíveis os dogmas em que ela própria já não acredita; e, a terminar, a reação invejosa e incompetente de certos cientistas, que contrariam os próprios valores, quando está em causa a possibilidade de se afastarem da ribalta para darem o centro do palco a quem julgam aquém das suas competências. Adotar a racionalidade dos métodos científicos como forma de olhar para os resultados das suas experiências não torna menos emotivos no pior sentido os que com eles se ocupam.
Explica-se assim que Marcelino de Sautuola tenha morrido amargurado doze anos depois da descoberta da gruta, que adivinhara capaz de pôr em causa muito do que se julgava até então saber sobre a vida dos homens pré-históricos. Ostracizado pelos vizinhos seria a título póstumo, que veria reposta a credibilidade injustamente perdida.

sexta-feira, julho 13, 2018

(DIM) «Aconteceu no Oeste» de Sergio Leone, (1968)


Esta noite o Cineclube Gandaia apresenta um belíssimo filme de Sergio Leone. Ao ar livre, na Praça da Liberdade na Costa da Caparica, anuncia-se uma excelente noite de Cinema com maiúscula.
A história de «Aconteceu no Oeste» conta-se em poucas palavras: quando estava a preparar uma festa para a mulher, Bet McBain é assassinado juntamente com os três filhos. A viúva e herdeira das terras tem então de enfrentar Morton, que as ambiciona e para tal encomendara o crime.
Após o sucesso estrondoso de «O Bom, o Mau e o Vilão» Sergio Leone pretendia rodar outro tipo de filmes, que não westerns. Por isso começou a preparar a adaptação de «The Hoods» de Harry Grey, que só muito mais tarde, quando ultrapassou o problema dos direitos autorais, concretizaria com o título «Era uma Vez a América». No entretanto, vê-se forçado a aceitar a proposta de Paramount, que lhe paga principescamente para que rode ainda mais um western.
Com carta branca para desenvolver aquele que entende vir a ser o canto do cisne do género cinematográfico, que criara - o western spaghetti - Leone decidiu inovar, recorrendo para tal à colaboração dos ainda inexperientes Dario Argento e Bernardo Bertolucci. Em vez do tom épico dos filmes anteriores, Leone estava decidido a ilustrar com a maior simplicidade possível o conflito de terras e de vingança. Em vez dos protagonistas truculentos dos filmes anteriores, os de «Aconteceu no Oeste» seriam severos e misteriosos, com destaque para o veterano Henry Fonda, que nos habituáramos a ver em personagens simpáticos e aqui se revela um assassino cruel, ou para o intelectual Jason Robards, vestido de Cheyenne, um bandido com coração piegas.
Se em «Por um Punhado de Dólares» Leone já demonstrara o interesse pelo cinema japonês - uma versão oficiosa de «Yojimbo» de Akira Kurosawa - em «Aconteceu no Oeste» reitera-o através da lentidão da narrativa, da gestualidade dos personagens e do equilíbrio sonoro entre os ruídos e os silêncios. Vide a cena de abertura, quando três assassinos a soldo esperam por Charles Bronson na estação ferroviária. Ou quando a banda sonora reverbera o canto das cigarras, que subitamente se calam, quando se perspetiva a destruição da família McBain. Ou, mais interessante ainda quando Cheyenne vai ameaçar Claudia Cardinale a sua casa, e ela, após um longo confronto de olhares com o bandido, o invetiva com vigor. Pouco habituado a tal reação, Cheyenne apaixona-se assolapadamente.
O filme enche-se, igualmente, de referências laudatórias a John Ford e a alguns dos seus mais conhecidos filmes: «O Homem que matou Liberty Valence» ou «A Desaparecida». Mas elas tornam-se ainda mais óbvias, quando, entre os três assassinos está Woody Strode, um dos atores fetiche do realizador norte-americano, que lhe dera o principal papel de «O Sargento Negro».

(S) Kamasi Washington: «Truth»