segunda-feira, julho 09, 2018

(DL) As afinidades eletivas entre Claude Lanzmann e Simone de Beauvoir


Aproveitando o pretexto ditado pelo desaparecimento de Claude Lanzmann na semana transata, uma investigadora da Universidade de Chicago, Manon Garcia, publicou no «Libération» um texto sobre a assolapada relação amorosa, que o unira a Simone de Beauvoir, e se converteria em duradoura amizade até à morte da autora de «O Segundo Sexo» em 1986.
Lanzmann conheceu Simone na sede da revista «Temps Modernes», que Sartre dirigia e para cujas reuniões do comité de redação convidara o jovem repórter, então com 27 anos, quando ele acabara de publicar no «Le Monde» um conjunto de reportagens sobre a Alemanha de Leste. O filósofo rendera-se então ao talento do jovem jornalista.
Apesar de dezassete anos mais velha, Simone ficou, imediatamente, enamorada dele por lhe criar a sensação de reencontro com algo da perdida juventude. Entre 1952 e 1959, o casal vive uma paixão intensa, quer carnal, quer intelectual. Os grandes temas de então, e os textos que sobre eles escrevem, são escalpelizados entre fogosas partilhas do prazer dos sentidos.
Amiúde viajam a dois, outras vezes também levam Sartre, com quem se deixam fotografar na imagem desta página, colhida junto á Esfinge de Gizé. Se a guerra deixara Simone deprimida, Lanzmann devolve-lhe o gosto por viver, voltando a acreditar na felicidade absoluta.
A militância política de Lanzmann torna-se determinante na aproximação que Sartre e Beauvoir fazem ao Partido Comunista francês e ao combate ativo contra a guerra da Argélia, sobre a qual publicam  um elucidativo dossier sobre a tortura na «Temps Modernes».
Em 1959 a paixão esmoreceu, mas nem por isso Lanzmann e Beauvoir se distanciam: se se entusiasmaram um pelo outro como amantes, não se privam de manter a mesma atração como amigos sinceros. Jantam duas vezes por semana e viajam juntos regularmente. Partilham, igualmente, o trabalho na revista da qual Lanzmann se tornará diretor, quando Simone morre. Não sem ela ainda ter tempo para assistir ao longo documentário dele sobre os campos da morte da Alemanha nazi («Shoah»), relativamente ao qual escreve um dos seus mais belos textos.

domingo, julho 08, 2018

(DIM) «Cópia Conforme» de Jean Dréville (1947)


Dez anos depois este era o tipo de filmes que os críticos dos Cahiers du Cinema considerariam nulos de valor cinematográfico, apenas apropriados para a mentalidade conservadora da geração anterior. Mas esse «cinema à papa» tinha a função de divertir uma população ainda mal refeita de todas as vicissitudes passadas durante a Ocupação nazi. Para a maioria, que, ou colaborara com os invasores, ou se acomodara à sua presença, as comédias serviriam de lenitivo para a má consciência quanto á cobardia, que haviam revelado. Quanto à minoria, que resistira e vivera na clandestinidade ou nas diversas frentes de combate a intenção seria outra, a de possibilitar um futuro mais justo e igualitário, mas a Guerra Fria lançada pelos norte-americanos contra os soviéticos já estabelecera o ocidente europeu como coutada da NATO, razão para que todas as tentativas do Partido de Maurice Thorez para virar a seu favor a situação encontrava do outro lado uma resistência demasiado forte para ser vencida.
O filme de Jean Dréville é uma comédia tonta, como saíam aos magotes nos ecrãs dessa época, mas tinha uma qualidade não despicienda: a presença de Louis Jouvet, grande ator da época, apesar de ainda ser objeto de discussão a sua ambivalência perante as hordas de Hitler, uns afiançando quanto ao seu comprometimento indecoroso, outros apostando apenas na sua afirmação de apolítico, que em si mesma, constitui uma opção mais do que duvidosa.
Neste filme ele é Manuel Isamora, ladrão talentoso, que descobre ter um sósia, o que o leva a criar múltiplas identidades para melhor consumar os seus golpes...
Quem aprecia o filme refere sobretudo a qualidade dos diálogos de Henri Jeanson...

sábado, julho 07, 2018

(DL) «Evangelha», romance de David Toscana


Imaginativa a tese do romance de David Toscana, escritor mexicano nascido em 1961 e que viveu em Lisboa durante alguns anos: porque é um deus distraído, que delega nos anjos o cumprimento das suas diretrizes, Jeová fica quase em estado de choque, quando descobre ter saído do ventre de Maria uma menina, e não o seu projetado varão.
Não é o único dececionado, porque os três reis magos regressam a casa, levando consigo as prendas destinadas ao Rei dos Judeus, quando dão com Maria ufana por ter concebido a Rainha do seu povo. Porque Emanuel, a seu ver, tem tantas condições para cumprir a missão divina, quanto se tivesse saído de dentro de si um bebé do sexo masculino.
De imediato, a imprevista situação até constituíra vantagem para o recém-nascido: como a ordem dos soldados de Herodes era para matarem todos os varões de Belém com menos de dois anos Maria consegue fazer com que lhe poupem a filha ao exibir-lhe os atributos femininos. E poupa-se igualmente à imprevisível fuga para o Egito.
A rapariga crescerá disposta a cumprir o desígnio original passando tempos infindos nas tabernas a contar histórias bíblicas, em tenaz exercício de proselitismo, revelando o carácter forte de quem nasceu para escusar-se a obedecer e muito menos a calar.
No entretanto, sentado à direita do Pai, o espírito de Jesus desespera porque tarda a sua corporalização, revelando-se Gabriel demasiado incompetente para que a versão canónica da História se cumpra. Quando, enfim, o consegue, Jesus vai parar junto dos ameríndios vivendo curta existência devido à perigosidade das doenças locais.
Há também Jacob, o irmão de Emanuel, nascido das relações conjugais entre José e Maria, e eivado do ciúme por não ter sido o escolhido. Muito embora insista em que o chamem Jesus, a credibilidade é nula, jamais alcançando chegar aos calcanhares da irmã.
David Toscana revela um conhecimento profundo da mística cristã e é graças a tal competência, que pode denunciar-lhe as contradições e incongruências, muitas vezes com um humor inexcedível. Revelando-se um cético, ele próprio enaltece a falta de discernimento da Igreja Católica ao dissociar-se da existência de Adão e Eva para professar a veracidade do darwinismo. É que, se conclui nunca ter existido Eva, nem o correspondente pecado original, para que teria sido preciso mandar o Filho de Deus à Terra com o exclusivo fito de lhe dar a devida redenção?

quinta-feira, julho 05, 2018

(DIM) «Volt», um filme de Tarek Ehlail sobre refugiados


Em 2016 o problema dos refugiados ainda não punha em causa o governo de Angela Merkel, mas já sugeria abordagens múltiplas na cinematografia alemã. Uma dessas propostas foi «Volt» do germano-palestiniano Tarek Ehlail em que um polícia de intervenção  persegue e mata Hesham na sequência de violenta confrontação destinada a manter um cordão de separação entre o ininterrupto fluxo de refugiados e o resto da população.
Porque não houve testemunhas, que presenciassem as circunstâncias desse homicídio, Volt não é sujeito a qualquer inquérito judicial, nem sequer a uma mera sanção disciplinar. O pior é a consciência de culpa, que o começa a assaltar, sobretudo quando conhece a irmã do homem que matou.
Ao mesmo tempo, sem que nada fazer para o obstar, a situação social agudiza-se com a revolta suscitada pela morte que causou. O cenário em que tudo acontece é o de uma distopia muito próxima da atual realidade em que os refugiados dão o ensejo para a afirmação totalitária do poder político, cada vez mais refém do seu aparelho policial.

(S) Paco de Lucia, «Entre dos aguas»


Paco de Lucia nasceu muito perto do local onde o Mediterrâneo e o Atlântico se encontram, igualmente espaço de comunicação (ou de separação?) entre continentes. É que Tânger fica a apenas catorze quilómetros em voo de pássaro por cima do Estreito até pousar em terras africanas. Nas aldeias de casas brancas chegam areias finas trazidas por ventos impregnados de influências árabes e judias.  Não admira, pois, que o murciano tenha sempre sentido uma atração pelo mar, razão para, em 1973, ter criado «Entre dos aguas» com que ganhou reconhecimento internacional pela forma como inovava o flamengo.
Mas o mar estava, igualmente, presente em Algeciras, onde viveu em criança e  em cuja marginal passeava de mão dada à mãe, uma portuguesa de Castro Marim.  Nesses anos 50 ouvia-se flamenco um pouco por todo o lado, o que estimulou o petiz Paco a aprender-lhe os primeiros acordes com António, seu pai. O som era diferente do da restante Andaluzia, particularmente de Sevilha, que tendia a impor um cânone, que ele viria a contestar: o flamenco era uma cultura em permanente transformação, sendo estulta a obrigatoriedade de cingir-se aos quatro acordes mais comuns.
Em 1959, quando, com doze anos, ganha um importante prémio no festival internacional ai organizado, já anunciava que vinha para tudo mudar. E assim sempre sucedeu até morrer, inesperadamente, em 2014.

quarta-feira, julho 04, 2018

(AV) A Roma de Caravaggio

Situada no centro de Roma a monumental Piazza Navona tem não só grandes igrejas mas também enormes esculturas a decorarem-lhe as fontes. Tanto basta para ser tida como emblema da arte barroca na capital italiana, apreciando-se em tais monumentos a exuberância, os efeitos dramáticos e a grandeza desse movimento artístico.
No final do século XVI o bairro adjacente a esta grande praça era o das elites, dos comerciantes e dos negócios obscuros.  Tratava-se de uma rua movimentada em plena mutação política, religiosa e artística.  E aí se agigantou Caravaggio com a inovadora técnica do claro-escuro.
Apesar de nascido em Milão foi em Roma, que ganhou merecida notoriedade com a concretização da componente mais significativa da sua obra. Segundo Michele Cuppone  ele conseguiu que a dimensão celeste descesse até ás ruas de Roma.
A vida, a obra e tudo quanto a inspirou decorreu no pequeno quadrilátero entre o Campo di Fiore, a Piazza Santi Apostoli, o Panteão  e a Piazza dei Popolo, que continuam a circunscrever o polo mais turístico da cidade. Mas, na viragem de Seiscentos para Setecentos replicava o Forum da época imperial, aí se cruzando peregrinos, embaixadores, turistas, artistas, universitários e colecionadores de arte. A Piazza Navona era incontornável, não só pela beleza, mas também como quotidiano local de passagem, onde era explicito o fosso entre as diversas classes sociais, contrastada entre os muito ricos - pouco numerosos - e os mendigos ou as prostitutas.
Tinha apenas 23 anos quando chegara a Roma em 1594, quando a Igreja contrapunha a Contra-Reforma à Reforma protestante. Os Papas andavam a incitar os aristocratas para que se aproximassem do povo, ao mesmo tempo que censuravam as obras literárias e condenavam à fogueira quem considerassem herege.
Nesse ambiente ultrarreligioso havia que dar provas de cumprimento dos rituais católicos, pelo que as classes mais abonadas rivalizavam entre si quanto à ostentação do seu fervor. A Igreja sentia urgência em retocar a contestada imagem e recuperar o prestígio perdido. O estilo barroco decorre desse clima cultural, que ganhou expressão na construção de novas igrejas e era ideal para lhe servir de ferramenta estética impondo os seus ideais.
Testemunhando tudo isso  Caravaggio reagiu com o pendor naturalista da sua obra, tão fiel quanto possível ao que via à sua volta. Com os primeiros quadros aí criados tornou-se famoso, sendo procurado por cardeais e aristocratas, depressa convertidos em clientes, até mesmo em mecenas.
Razão para ir ao encontro dos desejos dos que lhe encomendavam telas, ajustando-se aos temas sagrados. Podemos apreciar-lhe a primeira encomenda ao visitarmos a pequena igreja de S. Luigi dei Francesi e nos detivermos nos três quadros dedicados à vida de São Mateus. Nela confirma-se a propensão para «contaminar» o tema místico à vida popular da época, que tanto o fascinava. Por isso o quadro à esquerda revela um São Mateus a cobrar impostos na taberna. As personagens representadas eram modelados de acordo com os transeuntes, que Caravaggio encontrava nas ruas e convidava para se deixarem transpor para a tela. Eram cortesãos, prostitutas, estafetas ou, não raro, os próprios amigos. Era como se traduzisse nos quadros a vida diária que testemunhava nas deambulações pelo bairro.
Na Basílica San Agostino figura a Madonna dei Pellegrini, considerada uma das suas obras-primas, profundamente humana na reprodução do sagrado.
No dealbar do século XVIII Caravaggio tinha uma carteira de encomendas bem preenchida, sendo admirado e enaltecido pela forma como justapunha sombras e luz nos quadros, inspirando-se na boémia noturna a que se entregava com entusiasmo na companhia dos amigos, e em que se confrontava com frequentes situações violentas. Mas o estilo também lhe fora sugerido por quanto aprendera ao conhecer a obra dos mestres do século anterior, particularmente Rafael e Ticiano.
Em 1606 envolve-se numa rixa com um membro de uma família poderosa na Via di Pallacorda,  a quem matou. Vendo a vida em perigo foge da cidade, à qual não voltaria, pois morreu no regresso quando, agraciado, para ela voltava...

terça-feira, julho 03, 2018

(S) Coro Gandaia

(DIM) «Atomic Homefront» de Rebecca Cammisa (2017)


Quem ainda tem alguma admiração pelo plutocrata Bill Gates bem pode ver este documentário, revelador da sua indesculpável responsabilidade na distopia em que vivem os habitantes de um condado de Saint-Louis, no Missouri, porque um aterro próximo das suas casas, está a provocar um tremendo desastre ambiental. Principal acionista da Republic, empresa, que gere essa lixeira, Gates escusou-se a qualquer entrevista para o filme de Rebecca Cammisa  ou para uma reunião com a Just Moms, organização comunitária, que luta pelos direitos de quantos veem a saúde afetada pela contaminação com os elementos radioativos ali depositados há muitas décadas.
Ao principio havia o Projeto Manhattan, que dotou os Estados Unidos com a sua primeira bomba nuclear. O enriquecimento do urânio importado do então Congo Belga foi concretizado numa enorme fábrica implantada no centro da cidade. Não suscita qualquer admiração, que muitos dos que aí trabalharam, tenham morrido de cancro. O pior é que os resíduos decorrentes dessa operação industrial foram colocados num aterro, onde numa zona muito próxima, acontece uma combustão lenta e subterrânea dos lixos urbanos ali depositados. A catástrofe anunciada - porque a distância entre esse fogo subterrâneo e os depósitos radioativos vai-se encurtando e já só distavam de duas centenas de metros há dois anos! - ocorrerá, quando tal distância se reduzir a zero catapultando em dimensão bastante superior as emissões de rádio, tório e outros compostos voláteis, que vêm causando danos irreparáveis na saúde das pessoas. Sobretudo nas que habitam junto á ribeira Coldwater para onde as águas das chuvas arrastaram grandes quantidades desses depósitos letais.
Para além da combatividade de um punhado de mulheres dispostas a exigirem a evacuação das casas e o realojamento em zonas mais seguras - quase todas elas não dispõem de meios próprios para resolverem por si próprias essa mudança de residência! - o documentário entrevista pessoas afetadas pela doença terminal, que as matou durante ou após a rodagem.
Impressiona, sobretudo, a facilidade com que os responsáveis pelo aterro ou as autoridades federais (pertencentes á Administração Obama) mentem descaradamente, sem qualquer pinga de vergonha na cara. Ou como se eximem sequer de ouvir quem lhes pretende solicitar ajuda para resolver um problema para o qual não contribuíram de outra forma, que não a de, numa altura em que o crime ambiental era um segredo bem guardado, decidirem adquirir casa num arrabalde aprazível da cidade.
Uma vez mais é a demonstração de como o capitalismo ao estilo norte-americano está organizado para satisfazer as exíguas clientelas dos dois partidos dominantes, sendo-lhe indiferente a má sorte dos seus mais carenciados cidadãos.

(DIM) «Infiltrado» de Brad Furman (2016)


Robert Mazur, polícia especializado em infiltrar-se em redes mafiosas, para as desmascarar e prender, escreveu um romance autobiográfico sobre uma operação, que decapitou uma boa parte da organização do colombiano Pablo Escobar, quando Reagan repetia a partir da Casas Branca a intenção de reprimir sem contemplações as redes de tráfico de droga. E, no entanto, elucida-nos uma das legendas finais que, nesse entretanto, a CIA servia-se de receitas dessa proveniência para financiar as operações dos Contras contra a Nicarágua. O que só demonstra o cinismo, senão mesmo a perversidade de uma superpotência, que ostenta públicas virtudes, para melhor esconder os vícios privados.
A história, ainda que bem estruturada, nada tem de surpreendente. Como de costume, o herói vive no dilema de arriscar a pele para satisfazer a obsessiva intenção de concretizar o melhor possível a sua missão, mesmo que isso implique a escassa atenção dedicada á família, nomeadamente à esposa em quem instila involuntários ciúmes. Mas há também a crescente empatia com os maus da história, por quem ele e a parceira da missão vão ganhando progressiva afeição. A tal ponto, que sentem compaixão, quando participam na emboscada fatal, concluída com a morte ou a prisão de muitos dentre eles.
O filme pareceu vocacionado para dar a Bryan Cranston a possibilidade de ser nomeado para os principais prémios cinematográficos, propósito em que não se terá visto bem sucedido. O que não admira tendo em conta o sucesso de outros títulos anteriores para darem com outra competência a explicitação de microcosmos similares.

(S) Olga Zinovieva e Rachel Nicholls a cantarem o Dueto das Flores da «Lakhmé» de Delibes

(DL) «As Fogueiras da Inquisição» de Ana Cristina Silva


Nunca é demais divulgar a barbaridade, que os nossos antepassados testemunharam, e em que provavelmente participaram, quando se tratou de perseguir e fazer queimar judeus. A História lusa, que o salazarismo tanto quis enaltecer como uma ininterrupta sucessão de heroicidades, foi, pelo contrário, marcada por bem mais frequentes indignidades.
Com «As Fogueiras da Inquisição», Ana Cristina Silva ofereceu-nos um romance envolvente sobre a criação do Tribunal do Santo Ofício no reinado de D. João III, dando carta branca a fanáticos para que identificassem, condenassem e queimassem todos os suspeitos de heresia, de bruxaria e de judaísmo. No entanto, a criminosa ação contra os judeus já vinha do reinado anterior quando uma conspiração bem engendrada propiciou o massacre de 1506, só travado pela tardia e ambígua ação de D. Manuel I.
É essa ignomínia, que placa evoca no Largo de São Domingos, verdadeiro epicentro dessa manifestação de homicida intolerância.
Começamos por encontrar a desditosa Sara de Leão aprisionada nos cárceres do Tribunal de Évora onde oficia o sinistro D. João de Bragança. Enquanto espera pelos interrogatórios ela evoca precisamente esse massacre a que, por quase milagre, escapara o avô. É no entanto a avó, Ester, quem ganha primazia na primeira parte do romance por a recordar como influente educadora dos ritos da herança familiar.
Se nos é dada uma panorâmica ajustada dos usos e costumes daquela época, a autora dá largas à vocação de psicóloga (atividade em que tem sido docente e investigadora) para detalhar os sentires das duas mulheres. Mas, igualmente, lhe aguça a imaginação a personalidade perversa do Inquisidor, a quem, com argúcia, a suspeita vai trocando as voltas, frustrando-lhe a vontade de lhe aplicar expedita pena, só conseguindo a prova da sua culpabilidade quando se excede nas intenções crapulosas a seu respeito.
Nos anos recentes dificilmente se consegue encontrar biltre de índole ainda mais detestável nos romances de autores portugueses. Se nos lembrarmos que, pelo menos desde Flaubert, sabemos quanto se identificam os autores com as suas personagens, é sempre desafiante ponderar a que recônditas circunvoluções cerebrais recorrem, quando as obrigações criativas os conduzem a congeminar tão execráveis criaturas. Sobretudo se nos recordarmos na proposta complementar de Freud, quando enunciou a tese de detestarmos nos outros aquilo que mais odiamos reconhecer dentro de nós.
«As Fogueiras da Inquisição» complementa bem o retrato dado por Richard Zimmler n’ «O Último Cabalista de Lisboa», quando a curiosidade nos estimula a conhecer o quotidiano dos nossos antepassados de há cinco séculos...

segunda-feira, julho 02, 2018

(DIM) Ciclo de cinema polaco na Cinemateca (I)


Há cem anos, o fim da Primeira Guerra Mundial significou o desaparecimento de alguns dos grandes impérios, que haviam determinado a história europeia até então. A Polónia, enquanto nação livre e independente, recuperou a independência, que já conhecera por três vezes no século anterior, todas elas depressa cerceadas por imposição de exércitos mais poderosos que o seu.
É para comemorar os cem anos dessa independência reconquistada, que a Cinemateca está a apresentar um ciclo de filmes representativos da sua produção, escolhendo um título representativo por cada um dos dez decénios considerados.
«Chamamento» é um filme mudo datado de 1929, assinado por Henryk Szaro, que morreu em 1942 durante a insurreição de Varsóvia. A história segue os padrões românticos da época, com o filho de um moleiro a converter-se em marinheiro, razão para se ausentar da aldeia durante doze anos. Quando, enfim, regressa encontra a noiva em vias de ceder às pressões familiares consorciando-se com um velho rico. Vendo-se obrigado a fugir o protagonista acaba por ser capturado por um bando de contrabandistas.
Estreada já com a guerra a incendiar o país - mas realizada antes dela eclodir! - «Desportista á Revelia» tem a realização de um especialista em comédias: Mieczyslaw Krawicz. A história é a de um triângulo amoroso entre uma rapariga, um campeão de hóquei e um cabeleireiro, que se veem obrigados a trocar de papéis por insistência dela. O resultado é uma sucessão de equívocos.
Do pós-guerra, mais precisamente de 1946, data «Canções Proibidas» e foi realizado por Leonard Buczkowski para coligir um conjunto de cantigas do período da ocupação nazi interligadas por uma narrativa básica, mas ilustrativa da tese de Zé Mário Branco em como elas são sempre arma poderosa contra os inimigos.
«Estas minhas filhas» de Kinga Dębska data de 2016 e aborda a dissolução de um universo familiar posto em causa por um derrame cerebral, que prende a mãe de duas quarentonas a uma cama de hospital. Uma dessas filhas é professora primária e a outra atriz de televisão. Uma, porque vocacionada para dedicar-se à sua própria família, a outra, porque prioriza a carreira artística, nenhuma surge disposta a prescindir das suas vidas para apoiarem a mãe doente e o pai muito fragilizado.

(S) Daniel Barenboim a tocar a Dança de Puck de Debussy

domingo, julho 01, 2018

(DIM) A boémia parisiense durante o século XIX


No final do século XIX havia quem comparasse Paris à antiga Babilónia quando os seus habitantes e os que vinham da província ou do estrangeiro passeavam-se pelas largas avenidas, atardando-se nos terraços dos cafés, e dando um pezinho de dança nos bailes ou nos cabarés, sempre acompanhados por galantes companhias. Fosse numa sala privada de um restaurante ou no luxuoso camarote de um teatro, num hotel confortável ou numa casa dedicada aos encontros amorosos, de noite ou de dia, raparigas anónimas, de porte ostentatório ou famosas cortesãs vendiam-se a quem melhor lhes pagasse, sob a complacente e corrompida vigilância dos polícias da brigada dos costumes.
No ensaio «Paris, capitale de l’amour: filles et lieux de plaisir à Paris au XIXe siécle», Lola Gonzalez-Quijano revela os muitos espaços dedicados à prostituição e ao engate, que caracterizavam a geografia urbana e fizeram da cidade de então a capital mundial do amor e do prazer.
Se esse ensaio tem a ver com os espaços boémios, o de Laure Adler intitulado «Les Maisons Closes, 1830 - 1930» incide a atenção nas prostitutas de tão diversas origens sociais e clientelas, umas vivendo folgadamente aceitando ficar «por conta» de generosos «benfeitores», outras não escapando à indigência, buscando magros rendimentos nas ruas mais miseráveis.
Classificadas segundo dezenas de designações de difícil tradução, porque as referenciavam, ora como cortesãs, raparigas em circulação, passeantes, visitadoras de artistas ou sopeiras, ora como cocotes, polvos aquáticos, vénus crapulosas ou semicastores, a todas Adler pretende devolver a dignidade, descrevendo-as com o merecido respeito, que a História esteve muito longe de lhes reconhecer. Mesmo um romance trágico como «Nana» de Émile Zola surge como muito distinto da realidade, porque o universo ficcional do autor era congeminado dentro da sua cabeça sem obrigatoriamente encontrar paralelo com o que uma investigação minimamente rigorosa lhe facultaria. Eram evidentes os limites do professado realismo do autor de «Germinal».
Sobre uma vertente de Paris, mais mítica do que verosímil, os dois ensaios acabam por complementar-se.