Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
quarta-feira, junho 20, 2018
terça-feira, junho 19, 2018
(AV) Schiele no centenário da sua morte
Este é o ano do centenário da morte do pintor Egon Schiele, que está a motivar exposições e evocações da sua obra sem que os ecos de tais comemorações cheguem a este cantinho à beira-mar plantado. É pena porque ele criou uma das mais audaciosas e fulgurantes obras do século XX, interrompida pela morte prematura, quando apenas contava 28 anos. O seu legado artístico foi, porém, suficiente para ser reconhecido como aquele que pintava a luz dos corpos.
Alain Fleischer, autor de uma obra de referência sobre o pintor - «Le dernier tableau de Schiele» (2008) - refere como ele contribuiu para a imagem trágica do fim de uma época em Viena, em vésperas da implosão do império austro-húngaro. Como se a sua morte fizesse parte de um terramoto histórico, que viraria do avesso todos os equilíbrios políticos existentes na época em que viveu.
A capital austríaca era sinónimo de cosmopolitismo com saberes e artes a revelarem um enorme dinamismo, uma incomparável criatividade. Músicos, pintores, psicanalistas, filósofos, escritores: viviam ali alguns dos maiores talentos de então. Mas, ao invés, a burguesia local era de uma atroz hipocrisia, porque a prostituição, inclusive a infantil, constituía um fenómeno social de grandes dimensões. As esposas vienenses não eram chamadas a servir a libido dos esposos, que lhes preferiam as meretrizes dos bordéis. E, no entanto, olhariam para as obras e os comportamentos de Schiele como justificando a sua veemente indignação. Será que adivinhariam nas modelos a que ele recorria - nesses mesmos prostíbulos - aquelas com quem os maridos fornicavam antes de regressarem ao reduto caseiro para retomarem a pose de irrepreensíveis chefes de família? Não é por acaso que se conota essa época com a expressão do primado das públicas virtudes em concomitância com os vícios privados.
Valia a Schiele o conforto dos amigos, nomeadamente de Klimt que, sendo mais velho, lhe serviria igualmente de mentor. Foi por seu intermédio, que o jovem artista conseguiu escapar à miséria extrema e aceder a um relativo desafogo, insuficiente no entanto, para o poupar a si e à esposa do trágico fim que os esperava. De facto, o casal Schiele ficou incluído no extenso rol de vítimas da gripe espanhola que, há um século, levou tantos artistas, incluído o nosso Amadeo de Sousa Cardoso.
Sem desvalorizarem a qualidade dos quadros do artista, alguns críticos preferem os desenhos por neles ser notável a representação da magia dos corpos através de linhas traçadas com uma segurança, que excluía qualquer retoque. Mas também dão assinalável importância ás aguarelas onde o enchimento com cor só acontecia após o traçado do desenho a marcar-lhes as fronteiras. Também nelas a prévia definição do que seria o motivo da obra através de linhas fundadoras, antecedia o recurso às cores.
Essa opção poderá explicar-se no convívio infantil do futuro artista com as linhas ferroviárias, que lhe passavam á porta de casa e davam emprego ao progenitor. Nunca mais essa orientação para compor o enquadramento visual o abandonaria.
A razão porque as suas obras causavam tanta histeria nalguns meios vienenses tinha a ver com a importância por ele atribuída ao sexo feminino nos seus nus. Quase sempre os corpos parecem subalternizar-se para possibilitarem a tendência do espectador para esse centro de atenção entre as pernas da mulher representada. Como se Schiele apressasse as pinceladas de todo o quadro para se concentrar, deleitado, nessa zona específica.
(DIM) «Bernadette Lafont: Et Dieu créa la femme libre» de Esther Hoffenberg (2017)
Antes de ver o documentário, que Esther Hoffenberg realizou em homenagem a Bernadette Lafont a imagem mais imediata, que dela tinha era vê-la a partilhar a cama com Françoise Lebrun e Jean Pierre Léaud em «La maman et la putain» de Jean Eustache, muito embora lhe recordasse a presença em dezenas de outros títulos do cinema francês entre os anos sessenta e já este século.
O retrato agora dado em pouco mais de uma hora recorda-a como atriz audaciosa e livre, orgulhosa de ser um dos mais significativos símbolos da Nouvelle Vague e do feminismo, sem nunca descurar um enorme apetite por viver intensamente.
Os primeiros filmes - «Les Mistons» de Truffaut, ou «Le Beau Serge» de Chabrol, ambos de 1958 - revelaram-na como espantosa na insolência e sensualidade. Na década seguinte essas características ganhariam espessura, porque á beleza acrescentaria a audácia com que assumiria o discurso feminista, mesmo que arriscando ser vista como excêntrica. A coragem com que abraçou o projeto de Eustache para o filme que se tornaria num enorme escândalo, demonstraria, para quem disse duvidasse, uma personalidade segura de si e decidida a fazer o que lhe dava na vontade. Não surpreendeu assim, que ela fosse uma das centenas de signatárias do documento em que intelectuais reconheciam ter abortado clandestinamente, razão fundamentada para exigirem a aprovação da lei da Interrupção Voluntária da Gravidez que, efetivamente, logo se garantiria.
A realizadora recorreu ao testemunho das netas e de cúmplices no ofício (Bulle Ogier, Jean-Pierre Kalfon, entre outros) para complementar a análise do percurso da atriz, também desvendada por imagens de arquivo e extratos de entrevistas desde quando era jovem até ao seu crepúsculo, quando a morte já se aproximava.
Num desses documentos de arquivo é possível ver François Truffaut nos bastidores da rodagem de «Une Belle Fille comme moi» (1972) a compará-la a ... um homem, Michel Simon, de quem ela replicaria a truculência, a vitalidade tão explosiva, quanto transgressora. Para os cineastas da Nouvelle Vague Bernadette Lafont era muito mais do que uma inspiração.
(DL) O que está em causa quando nos querem impingir Orwell sob a forma de romance ou de filme?
Esta semana o canal franco-alemão ARTE exibiu em horário nobre a versão animada de «O Triunfo dos Porcos», realizada em 1954 por dois dos principais realizadores de animação do pós-guerra. A quase três quartos de século de distância da publicação do romance, que lhe deu origem, é bom que compreendamos as razões, porque, com exagerada frequência, ele costuma ser difundido. Lembrando, nomeadamente, que quando o espião Carlucci por aqui andava a sabotar o quanto lhe era possível o curso da Revolução de Abril, esta fábula sobre animais sujeitos a um ditador numa quinta aprazível colhia exagerado destaque junto dos que ansiavam por esmagar os anseios de utopia e reencarreirar o país para a lógica dos negócios «as usual».
Porque será que a CIA se empenhou tanto na passagem ao cinema do romance de George Orwell sobre o estalinismo, subsidiando-o principescamente? Por fervor democrático? Balelas! Nessa década a agência de espionagem norte-americana estaria envolvida em diversos golpes de estado destinados a impor ditaduras simpáticas aos olhos imperialistas da Casa Branca desrespeitando a vontade democrática dos respetivos povos.
Na realidade o que a CIA pretendia era a depreciação, tão maniqueísta quanto possível, do comunismo como solução política preferida das classes mais exploradas para verem melhoradas as suas condições de vida. E o livro do antigo trotsquista, que andara pela Guerra Civil Espanhola e depois regressara à Inglaterra a execrar tudo quanto antes acreditara, prestava-se na perfeição aos objetivos da agência sedeada em Fort Langley.
A História tem sido fértil em demonstrar-nos que os mais veementes críticos de uma qualquer fé são sempre os que nela terão acreditado piamente e com igual fervor ao demonstrado quando a decidem execrar. A atual direita comentadeira nacional está pejada de antigos maoístas e marxistas-leninistas, que olham para os seus passados como se nele tivessem andado de mãos dadas com o Diabo.
Em 1945, quando escreveu o romance, que lhe daria tão bom acolhimento nos corredores da espionagem norte-americana, Eric Blair (o verdadeiro nome de Orwell) já tinha a morte agendada pela tuberculose, que o levaria de vez em 1950. Mas ainda utilizaria os últimos anos de vida para prosseguir nesse afã ideológico, criando o outro romance, que os mesmos interesses ideológicos promoveriam como obra-prima, apesar de, literariamente, ser coisa banal: «1984».
É por isso mesmo que o filme de Batchelor e Halas tem esse pecado original: é mera obra de propaganda, decerto muito bem construída, mas destinada a cumprir o desígnio de, diabolizando o comunismo, contribuir para o prolongamento de um sistema económico execrável, fundamentado na injustiça e na exploração da maioria em proveito de exíguas minorias plutocratas.
Significa isso a necessidade de promover uma redenção do modelo estalinista de implementação do projeto marxista? Claro que não: o que correu mal na antiga União Soviética - mormente com os julgamentos como meros alibis de execuções praticamente sumárias, com os gulags e a privação de liberdades fundamentais - tem de ser perspetivado criticamente dentro do contexto em que aconteceu, para evitar que se replique em situações futuras semelhantes. Mas a verdade é que a diabolização do estalinismo é feita com um ênfase, que não se verifica com o catolicismo, apesar dos crimes da Inquisição continuarem a ecoar nas campanhas em que vemos os seus prosélitos alinharem sempre que têm a oportunidade de causar dano na evolução civilizacional (vide o caso recente do direito á morte assistida!), ou com o capitalismo em geral, cuja responsabilidade nos genocídios e na miséria homicida em quase todas as latitudes, causou e continua a causar mortes a uma escala nunca atingida pelo sistema alternativo, cuja emergência procura evitar. A própria ameaça à viabilidade de vida humana no planeta decorre da continuação dessa acelerada corrida para o abismo promovido por um capitalismo cego, que continuará a apostar no contínuo crescimento da produção de mercadorias por muito que isso implique o esgotamento das riquezas naturais e o aumento das catástrofes humanitárias decorrentes das alterações climáticas.
Não foi por acaso que Orwell escolheu um porco para personificar o tirano da história Tendo em conta a desafeição religiosa de judeus e muçulmanos por tal animal essa opção era oportuna numa altura em que muitos dos intelectuais afetos ao marxismo provinham da primeira daquelas culturas e as lutas independentistas do Terceiro Mundo radicavam em grande parte nas da segunda.
É certo que a luta de todos os animais da quinta contra o déspota é incitada pelo porco ancião, o que legitimaria a leitura da usurpação da utopia inicial sem propriamente a pôr em causa, mas não fica sugerida a inevitabilidade dessa ocorrência dentro da dinâmica de um processo, que se pretendia transformador?
É por tudo isso que, quando vemos grandes incentivos à leitura dos romances derradeiros de Orwell ou à apreciação cinéfila das suas várias adaptações deveremos ter em conta o que está em causa.
(DL) «Artana! Artana!» de Didier Daeninckx
Erik Ketezer, veterinário da Normandia, vivera a infância num arrabalde comunista de Paris.
Muitos anos depois irá descobrir uma cidade completamente transformada, quando ali regressa para investigar a morte do irmão de uma amiga. Em vez do ambiente caloroso do passado depara com uma distopia diretamente relacionada com o tráfico de droga, que ali encontrou um poderoso quartel-general, porque comandado da própria sede da autarquia.
Reinam a impunidade, o nepotismo, os empregos falsos, os subornos, os abusos. Em contrapartida os equipamentos municipais estão num acelerado de degradação, o lixo não é recolhido das ruas, os elevadores dos prédios há muito deixaram de funcionar e, por todo o lado, veem-se ratos a esgueirarem-se sem serem incomodados.
Trata-se do resultado da eleição para presidente da Câmara de um crápula, que conjugara o apoio dos traficantes de droga e dos islamitas. O que aqui se descreve é um exemplo eloquente dos territórios esquecidos pela República!
segunda-feira, junho 18, 2018
(AV) O MONA - Museu de Arte Antiga e Moderna de Hobart
No único verão que passei na Austrália, percorrendo-lhe a costa norte e toda a do Queensland a leste, nunca me aproximei sequer da Tasmânia. Situada mais a sul, a ilha era entendida até há pouco tempo pelos próprios australianos como os confins do seu território, sem nada de especial, que recomendasse a visita. E, no entanto, desde 2011, esse desinteresse deixou de fazer sentido, porque Hobart, a sua capital, passou a contar com um Museu fascinante: o Mona – Museum of Old and New Art.
Criado por um génio das matemáticas, que utilizou o engenho para ganhar dinheiro em casinos de todo o mundo, conta com dotações financeiras privilegiadas do seu patrono. Daí que alguns curadores percorram os cantos do mundo para angariar novas peças para a coleção.
O acesso faz-se de barco a partir do cais do outro lado da baía. Tão só chegados á margem onde se situa o museu, os visitantes têm de subir mais de 400 degraus para acederem ao elevador, que os mergulhará nas entranhas da Terra, até às profundidades onde outrora se procedia á extração mineira.
Ainda antes de acederem às salas de exposição, os visitantes são convidados a passarem pelo bar para se dessedentarem. Logo entram num amplo espaço onde se projeta uma cascata de palavras, todas elas integradas na lista dos que, nessa altura pesquisam a internet. Essas palavras mais frequentes nas buscas a nível mundial muito esclarecem sobre as idiossincrasias coletivas nos tempos atuais.
Nenhuma peça está identificada, quer quanto ao título, quer quanto ao autor, misturando-se as épocas nas que se apresentam nas várias salas - a ideia é possibilitar a apreciação sem os preconceitos suscitados pelas informações que sobre elas se afixasse,! - mas algumas são mais facilmente identificáveis e tidas como importantes na identidade do Museu
«Snake», obra de Sidney Nolan, datada de 1970-72, é uma homenagem à cultura aborígene, abrangendo as paredes de uma vasta sala onde as centenas de quadros compõem o efeito de evocação do ofídio, tão simbólico nas crenças primitivas de quem habitava a ilha antes da chegada dos ingleses.
Há também a «Galeria de tecidos com caixão de Iret-Heru-Ru», do final da 26ª dinastia, c. 600–525 aC.
Noutra sala vê-se a «Biblioteca Branca» de Wilfredo Prieto, de 2004-2006, com lombadas brancas a evocarem uma cultura dominada pelo vazio de ideias, de conhecimentos, de emoções.
«A Cloaca Professional» de Wim Delvoye (2010) recicla todos os restos de comida do restaurante do museu, processando-os quimicamente nos dias seguintes como se percorressem todo o sistema digestivo e concluindo no incontornável desenlace. E há, enfim, o «Carro Gordo» de Erwin Wurm (2006), que revela o lado kitsch da sociedade de consumo, que agiganta na sua gula tudo quanto possa abocanhar. Daí esse Porsche vermelho adiposo, sem a elegância glamourosa do modelo original.
Com esta nova instituição cultural Hobart viu crescer o número de turistas que visitam a cidade e garantem quase quatrocentas mil entradas anuais nas suas vastas e labirínticas salas.
domingo, junho 17, 2018
(DL) Recordar Urbano Tavares Rodrigues pelas imagens de Possidónio Cachapa
Só dez anos depois de estreado é que consegui ver o «Adeus à Brisa», filme que o Possidónio Cachapa realizou com o apoio de Cláudia Varejão na câmara, para homenagear Urbano Tavares Rodrigues numa altura em que, já muito adoentado, ele mal saía de casa.
Compreende-se, pois, que todas as intervenções do escritor - que não naturalmente as de arquivo! - tenham sido circunscritas a esse espaço fechado no qual recordou as diversas fases da vida desde a infância partilhada com o irmão Miguel na quinta da família no Alentejo até ao júbilo suscitado pela Revolução de Abril sem esquecer de permeio as vicissitudes do seu antifascismo, que o levaram à prisão, á tortura e a uma contínua perseguição pelos esbirros do salazarismo.
Nessas conversas com o realizador, cuja presença só se adivinha por trás da câmara, Urbano não evita o que mais lhe terá sido doloroso: as divergências com os seus próprios camaradas no Partido, sobretudo porque nem esteticamente se sentiu alguma vez próximo dos neorrealistas, nem a União Soviética se lhe afigurou como um paraíso na Terra, já que as viagens ali efetuadas tinham-lhe servido para constatar as grandes diferenças entre a realidade e a que era descrita pelas guias disponibilizadas para lhe mostrarem aquilo que o regime mais gostaria de enfatizar.
De permeio surge Miguel a reconhecer que o irmão aderira aos ideais comunistas mais pelo coração do que pela razão, enquanto João de Melo lembra como era Urbano o que maior entusiasmo denotava no dia 28 de abril de 1974, quando o vira na Estação de Santa Apolónia, à chegada de Mário Soares e de Tito de Morais vindos do exílio.
Acabando por desaparecer em agosto de 2013 Urbano deixou uma vasta obra, que merece ser lida e relida, porque, além de muito bem escrita, testemunha o que foram os anos negros do salazarismo, embora também se tenha alargado para temas históricos ou transversalmente mais universais, que lhes obvia o risco de virem a parecer excessivamente datados.
De Urbano fica a memória do corajoso lutador, que nunca virava a cara a uma boa disputa física com quem o ofendia ou se lhe revelava um crápula, mas ao mesmo tempo simpatiquíssimo no trato a ponto de, muitas mulheres, o recordarem como um terno sedutor.
(P) Excelente teatro para ver na Costa da Caparica
Meses atrás quando a Associação Gandaia decidiu reativar o projeto de contar com um grupo de teatro amador, que pudesse oferecer espetáculos de qualidade não só à população da Costa da Caparica, mas também de toda a zona metropolitana da capital, que, amiúde, se desloca para assistir às suas propostas culturais, imaginei as enormes dificuldades, que se colocariam à encenadora Christiane de Macedo, porquanto disporia de menos atores e atrizes do que desejaríamos e todos eles rigorosamente amadores, mesmo que entusiasmadíssimos com a possibilidade de revelarem os dotes histriónicos em palco.
Semanas a fio pude testemunhar a determinação com que todos encararam o desafio, cruzando-me com eles quando comparecia aos ensaios do Coro ou às sessões semanais do Cineclube. O pouco que ia sabendo referia-se à criação coletiva de um texto, que espelharia uma visão crítica sobre a sociedade atual. No demais só o grande entusiasmo da Christiane, confiante quanto a estar em preparação uma excelente surpresa para quem comparecesse à estreia do espetáculo.
No entretanto uma peça representada pela própria encenadora - um one woman show sobre as diferentes facetas da personalidade feminina - confirmaram-nos o que dela começáramos por saber: que é atriz carismática e com muita tarimba no teatro brasileiro, senhora de um talento que mereceria acolhimento noutros palcos nacionais que não só o da Costa da Caparica.
Nesta sexta-feira o seu labor enquanto coordenadora da criatividade dos sete atores e atrizes, cuja direção se revelou irrepreensível, a Christiane excedeu em muito as minhas expetativas. O que se viu em palco nem parecia representado por amadores, porque todos poderiam medir-se em mestria com os de qualquer companhia profissional. E a peça em si tem um conteúdo sarcástico muito incisivo sobre algumas das principais idiossincrasias nacionais sem deixar de se revelar muito divertida.
Tratou-se de uma primeira apresentação, estando previstas mais oito de acordo com o cartaz ao lado. Vale a pena anotarem nas agendas essas datas para que sejam tão agradavelmente surpreendidos quanto me senti, tanto mais que, espectador assíduo de teatro, raras vezes me vi tão compensado nos últimos tempos como agora sucedeu.
À Christiane, aos atores e atrizes, e à Olga, ao Henrique e ao Nuno, que cuidaram do apoio técnico, só posso endereçar os meus mais vibrantes parabéns!!!
quinta-feira, junho 14, 2018
(DIM) «Um dia inesquecível» de Ettore Scola (1977)
Em 6 de maio de 1938 Hitler fez uma importante visita de Estado a Roma, fazendo-se acompanhar dos principais responsáveis do poder nazi. Na iminência de atacar os Sudetas, ele pretendia reduzir ao máximo a oposição das demais potências europeias, sendo-lhe essencial garantir a neutralidade de Mussolini. Este já ocupava o poder em Itália há dezasseis anos e viu na visita a possibilidade de coreografar uma enorme receção a quem já considerava um aliado. As cerimónias para tal organizadas foram das mais impressionantes, a que a cidade eterna assistira desde a sua tomada do poder. E, entre os muitos miúdos, que desfilaram perante o führer estava um petiz de oito anos chamado Ettore Scola todo ufano pela sua condição de balilla.
Foi essa experiência pessoal, que ecoou no realizador, quando procurou matéria narrativa para o filme subsequente a «Feios, Porcos e Maus». O tema deveria ser o do encontro entre duas solidões, que ele personificou numa dona-de-casa convencida das virtudes do papel a ela imposto pelo regime fascista e num homem de meia idade em vias de ser deportado pela não conformidade dos seus comportamentos políticos e sexuais. Tendo como fundo sonoro a transmissão radiofónica das cerimónias às quais compareceram quase todos os habitantes da cidade, Antonietta e Gabrielle vão conhecer-se, disputar-se nas diferenças que os começam por opor, mas aproximar-se o suficiente para viverem uma brevíssima relação amorosa. Ela, que é o elo mais fraco da típica família fascista, comandada por um bruto machista, reduzida á função de parideira de muitos filhos e quase não fazendo outra coisa que deles cuidar, irá evoluir da inconsciência primitiva para a contestação, mesmo que íntima, de todas as suas crenças ideológicas. Numa das cenas finais, quando Gabrielle é levado pela polícia para a ilha onde ficará enclausurado, ela vê-o do seu andar, lembrando-nos uma princesa agrilhoada numa torre, a pedir que a venham libertar. Razão para esperarmos que, tão só derrubado o fascismo, as Antoniettas de então tenham encontrado outros redentores, que não esses «chefes de família» abjetos, graças aos quais a ditadura perdurara mais de vinte anos.
Trata-se, pois, de um filme extremamente atual à luz do que vem acontecendo em Itália com a mentalidade fascista a reinstalar-se no quotidiano e a condenar o que é diferente do que institui como normativo. Mormente relativamente a esses náufragos do «Aquarius» a cuja má sorte o novo governo respondeu com a sua atitude assassina, desumana.
Para concretizar o projeto Scola seguiu os princípios do teatro clássico com o respeito pela unidade do espaço, da ação e do tempo. Traduziu-o em filme, mas não seria complicado que um qualquer encenador decidisse adaptar a história para um palco teatral.
O cenário escolhido também revela uma inteligente lucidez: o filme foi rodado num edifício romano, que corresponde ao paradigma da arquitetura fascista da época da sua construção com a possibilidade de, do seu espaço, a porteira vigiar tudo quanto nele se passa. Ora sabe-se de sobra como os regimes ditatoriais sempre gostaram de contar com a colaboração ativa desse tipo de profissões incumbidas de acompanharem ativamente a vida de quem habita as adjacências do seu espaço.
A forma como a câmara tudo capta também acentua essa sensação de opressão. Ora espreita Antonietta e Gabrielle por trás de janelas, ora deles se aproxima de súbito como que querendo apanhá-los em falso, ora muda de espaços com a rapidez furtiva dos pides e delatores. E, porque se vive numa tremenda cinzentude a cor do filme foi trabalhada para esbater o cromatismo das cores, aproximando-as tanto quanto possível do preto-e-branco.
Acresce, a concluir, o facto de Scola atribuir a Sophia Loren e a Marcello Mastroianni a interpretação de personagens nos antípodas dos que, habitualmente, se lhes colava, porquanto não só desfeia quem era ainda um sex-symbol consagrado, como incumbia o parceiro de ser o contrário do macho latino de tantos e tantos filmes da década anterior.
quarta-feira, junho 13, 2018
(DIM) «Morreu um homem» de Olivier Cossu (2017)
Em 1950 uma sucessão de greves afetou a cidade francesa de Brest, em plena fase de reconstrução, quando os operários da construção civil exigiram aumento dos salários e foram violentamente reprimidos pela polícia de choque. Em 17 de abril, um deles, Étienne Mazé, caiu assassinado durante uma manifestação, aumentando a determinação dos sindicatos em prosseguirem a luta e recorrerem a outra arma, a das imagens. Para tal solicitaram a um cineasta, René Vautier, que cubrisse os acontecimentos, nomeadamente à solidariedade operária com os que exigiam «pão, paz e liberdade».
O filme mudo de Vautier, tendo um poema de Paul Éluard como referência inspiradora - “Um homem morreu não tendo por defesa senão os seus braços bem abertos para a vida” - depressa se deteriorou com as más condições de itinerância em que era projetado. Por isso este filme de Cossu é uma espécie de resgate dessa memória, ao mesmo tempo que constitui exemplo eloquente quanto à possibilidade de recorrer à animação como forma de enriquecer o cinema militante com novos títulos.
(DL) «Zao» de Richard Texier
Zao Wou-ki morreu aos noventa e dois anos em 2013 e, nos próximos sete meses, tem a sua obra em exibição num dos principais museus parisienses. Artista dotado era igualmente um homem extremamente bom, sempre atento ao que podiam ser as inquietações e necessidades dos que o rodeavam, mesmo que figurantes anónimos onde ele era celebrado e recebido com todas as honras. Como daquela vez em que, hóspede do rei de Marrocos, mandou parar o carro que o transportava para um banquete, porque, preocupado com o almoço do mordomo dessa residência, demasiado longe de tudo para que ele pudesse ir procura-lo ali perto. Dessa vez só aceitou a comparência ao evento programado, quando com ele se comprometeram a trazerem a refeição a quem ali ficaria à sua
espera.
Outro pintor, o francês Richard Texier conheceu-o em Marrocos nos anos 90 e logo compreendeu o quanto tinham em comum. Daí a pintarem frequentemente em conjunto foi um passo natural, sobretudo porque a partilha do local de trabalho dava, igualmente, oportunidade para falarem de tudo quanto mais os estimulava. Foi assim que compreendeu a personalidade do amigo, incapaz de aceitar que um ser fosse reduzido a manter-se como sombra invisível na paisagem. A presença do Outro era o acontecimento mais importante na sua vida.
Cinco anos depois da morte do artista, Texier publicou este testemunho comovido, procurando perenizar o amigo na memória dos que, não o tendo conhecido diretamente, lhe podem colher a influência através deste relato na primeira pessoa.
Subscrever:
Mensagens (Atom)












