quarta-feira, junho 13, 2018

(DIM) «Morreu um homem» de Olivier Cossu (2017)


Em 1950 uma sucessão de greves afetou a cidade francesa de Brest, em plena fase de reconstrução, quando os operários da construção civil exigiram aumento dos salários e foram violentamente reprimidos pela polícia de choque. Em 17 de abril, um deles, Étienne Mazé, caiu assassinado durante uma manifestação, aumentando a determinação dos sindicatos em prosseguirem a luta e recorrerem a outra arma, a das imagens. Para tal solicitaram a um cineasta, René Vautier, que cubrisse os acontecimentos, nomeadamente à solidariedade operária com os que exigiam «pão, paz e liberdade».
O filme mudo de Vautier, tendo um poema de Paul Éluard como referência inspiradora - “Um homem morreu não tendo por defesa senão os seus braços bem abertos para a vida” - depressa se deteriorou com as más condições de itinerância em que era projetado. Por isso este filme de Cossu é uma espécie de resgate dessa memória, ao mesmo tempo que constitui exemplo eloquente quanto à possibilidade de recorrer à animação como forma de enriquecer o cinema militante com novos títulos.



(S) Um tema dos Black Santiago (jazz beninense)

(DL) «Zao» de Richard Texier


Zao Wou-ki morreu aos noventa e dois anos em 2013 e, nos próximos sete meses, tem a sua obra em exibição num dos principais museus parisienses. Artista dotado era igualmente um homem extremamente bom, sempre atento ao que podiam ser as inquietações e necessidades dos que o rodeavam, mesmo que figurantes anónimos onde ele era celebrado e recebido com todas as honras.  Como daquela vez em que, hóspede do rei de Marrocos, mandou parar o carro que o transportava para um banquete, porque, preocupado com o almoço do mordomo dessa residência, demasiado longe de tudo para que ele pudesse ir procura-lo ali perto. Dessa vez só aceitou a comparência ao evento programado, quando com ele se comprometeram a trazerem a refeição a quem ali ficaria à sua
espera.
Outro pintor, o francês Richard Texier conheceu-o em Marrocos nos anos 90 e logo compreendeu o quanto tinham em comum. Daí a pintarem frequentemente em conjunto foi um passo natural, sobretudo porque a partilha do local de trabalho dava, igualmente, oportunidade para falarem de tudo quanto mais os estimulava. Foi assim que compreendeu a personalidade do amigo, incapaz de aceitar que um ser fosse reduzido a manter-se como sombra invisível na paisagem. A presença do Outro era o acontecimento mais importante na sua vida.
Cinco anos depois da morte do artista, Texier publicou este testemunho comovido, procurando perenizar o amigo na memória dos que, não o tendo conhecido diretamente, lhe podem colher a influência através deste relato na primeira pessoa.

(S) A música da Picoby Band D'Abomey

(DIM) «Abril e o mundo extraordinário» de Christian Desmares e Franck Ekinci (2015)


O que poderia ter acontecido se, descoberta a máquina a vapor, e com ela o início da Revolução Industrial, nenhuma outra inovação tecnológica houvesse visto o dia desde então? É esse o pressuposto de partida deste filme de animação, que remete para a estética gráfica de Tardi, um dos nomes maiores da banda desenhada francesa.
A distopia apocalítica passa-se em Paris no ano de 1941 quando, em vez das tropas invasoras de Hitler, reina Napoleão V, cuja polícia persegue Avril, uma rapariga apostada em encontrar os pais, um casal de cientistas desaparecidos quando trabalhavam num soro da invisibilidade. A acompanhá-la na investigação está o gato Darwin e um miúdo da rua, Julius.
Sucedem-se as mirabolantes cenas de ação numa atmosfera, que lembra os romances futuristas de Julio Verne, mas que não impedem o espectador de equacionar o quão volúvel é a realidade, bastando situações aparentemente irrelevantes para todas as certezas se esfumarem. O que aqui se mostra é a necessidade de não atender apenas ao que mais releva nos noticiários do quotidiano, porquanto o futuro se encarrega de ilustrar o quanto mais teria valido constatar o que apenas parecia merecer alguma nota de rodapé.

segunda-feira, junho 11, 2018

(EdH) Cabora Bassa: a miopia de um fascismo ordinário em iminente estertor


Na época marcelista, quando o fascismo luso dava sinais de acelerada degenerescência, não passava semana alguma sem que se ouvissem elogios enfáticos ao projeto de Cabora Bassa. Os locutores do regime multiplicavam-se em adjetivos demonstrativos da determinação colonialista em manter as colónias e nelas investirem fortunas, que possibilitariam o seu desenvolvimento.
Acordando tarde para a inevitabilidade das dinâmicas independentistas dos movimentos de libertação africanos, o regime prometia investimentos de uma dimensão, que em nada se assemelhavam aos ali aplicados nas décadas anteriores, quando apenas a exploração das riquezas mais rentáveis estavam em equação.
Entre os séculos XVI e XVIII os portugueses tinham ocupado parcialmente a bacia do rio Zambeze, confrontando-se com as aristocracias locais e com os mercadores árabes pelo controle do negócio do ouro e dos escravos. Depois as matérias-primas exploradas viriam a ser a borracha, o carvão, a copra e as oleaginosas.
Em 1891, consumado o Ultimato, que cerceou as veleidades da monarquia lusa relativamente às terras englobadas no Mapa Cor-de-rosa, a exploração da bacia do rio fora negociada entre quem a reivindicava como exclusivamente sua: as coroas portuguesa e britânica.
No meio século seguinte o equilíbrio entre as potências coloniais não se alterou ate que, após a II Guerra Mundial, foi concebido o grande plano hidroelétrico de Cabora Bassa para regular os caudais do rio, regar as culturas e exportar energia para os «países «amigos» - a Rodésia e a África do Sul. Nas sucessivas fases do seu desenvolvimento, o ambicioso projeto pretendia fixar um milhão de colonos na região, impedindo que a cada vez mais ativa Frelimo descesse para o centro e o sul do país.
A importância de levar por diante o projeto não foi consensual dentro do regime: alguns consideravam inútil tal despesa, porventura cientes da inevitabilidade do rumo para onde a História evoluiria. Eram, porém, mais numerosos os que se iludiam com a possibilidade de ela retroceder conquanto pusessem rapidamente a barragem a reter as águas, a central hidroelétrica a produzir energia e os colonos brancos a imporem um crescimento económico, que bastasse para cativar em seu apoio as populações nativas a quem dariam emprego remunerado. Baltasar Rebelo de Sousa, o pai do atual inquilino de Belém, era um dos mais entusiastas promotores dessa perspetiva colonialista.
A partir de 1969, quando se assinaram os contratos com a empresa construtora e com a que viria a explorar o novo equipamento, e sobretudo a partir de 1972, quando o porto da Beira já conhecera obras de monta para receber as peças de enorme dimensão importadas da Europa para a montagem no local, as obras ganharam ritmo significativo. Mas, politicamente, e sobretudo a nível militar com o rotundo fracasso da Operação Nó Górdio com que Kaulza de Arriaga julgara possível vencer a guerra, a situação conheceu sucessivos agravamentos: em julho desse mesmo ano de 1972, a Frelimo já avançara para Tete e para as até então inexpugnáveis províncias de Manica e Sofala. Em breve a própria Cidade da Beira já estava a contas com as ações de guerrilha, que intimidavam a população. Ademais, a nível internacional, o regime via-se acossado pelo escândalo provocado pelas chacinas perpetradas pelos Comandos em Mukumbura e Wiriamu, que se haviam saldado por centenas de mortes nas populações africanas. As denúncias do Padre Hastings nas Nações Unidas transformaram a viagem de Estado de Marcelo Caetano a Inglaterra num doloroso calvário para um político enfim desmascarado como inábil na condução do fim de um regime ao qual prometera aligeirar os mais hediondos contornos, mas de cuja substância nada de essencial alterara. A suspeita em como seria menos radical na autocracia, possibilitando uma ilusória primavera, revelara-se mera ilusão...
O Acordo de Lusaca reconheceu a independência do novo estado moçambicano, com a correspondente titularidade dos equipamentos, então ainda em fase de montagem. Os empréstimos contraídos para a construção continuariam a ser responsabilidade de quem os contraíra, ou seja do estado português. Mas, devido à Guerra com os terroristas da Renamo, só na década de 90 se concluíram os trabalhos e se iniciou a produção de energia. Os que tinham imaginado a obra não poderiam imaginar que ela levaria tantos anos a concluir-se, mudaria de nome para Cahora Bassa e serviria de imprescindível valência de desenvolvimento de Moçambique enquanto estado independente.

(S) O Concerto para Piano nº 3 de Bela Bartok

(DIM) «Lisboa: crescer sob um céu inconstante» de Catarina Mourão (2003)


Quinze anos depois de ter sido rodado, este filme de Catarina Mourão - encomendado pelo canal franco-alemão ARTE para uma das suas noites temáticas - serve, sobretudo, para comparar o que era o Portugal do início do milénio com o que existe atualmente. Na época, a euforia da Expo 98 já passara, deixando como efeito mais óbvio uma cidade gentrificada, habitada por muitos africanos das ex-colónias e brasileiros, que aqui haviam sido atraídos pelas oportunidades de trabalho.
Tendo três jovens como protagonistas - um trabalhador nos cacilheiros, um desenhador e uma advogada estagiária - vemo-los contar quão escassas eram as oportunidades para se autonomizarem das respetivas famílias, ao mesmo tempo que sentiam muito próximo o problema das drogas, que fazia então de Portugal o segundo principal consumidor europeu.
Havia indignação com o conservadorismo coletivo, demasiado condicionado pelos valores do salazarismo, apesar de terem decorrido quase trinta anos desde a Revolução de Abril. A Igreja, que fora dileta cúmplice da ditadura ainda revelava tal importância, que a sua militância fora decisiva para que o referendo sobre o aborto acabara de resultar na manutenção da sua ilegalidade. Como então esperar que o (des)governo de Durão Barroso mudasse o que quer que fosse no sentido mais positivo?
Afinal quinze anos terão bastado para minimizar os efeitos das drogas e legalizar a interrupção voluntária da gravidez. A gentrificação mudou de características com os turistas a substituírem os proletários, que tinham dado o corpo ao manifesto por uma bolha imobiliária, marcada pela construção desenfreada de novos bairros suburbanos. Mas, mesmo depois de uma fase entroikada, o país revela-se bastante melhor do que o de então. Sobretudo, porque a atual maioria parlamentar reabriu algo que, então, parecia inviabilizar-se: a esperança.
Só a Igreja Católica continua igual a si mesma, como se viu recentemente no debate sobre a eutanásia.

domingo, junho 10, 2018

(DL) «Florinhas de Soror Nada» de Luísa Costa Gomes


Não concordo propriamente com o que se diz na contracapa de «Florinhas de Soror Nada», o mais recente romance de Luísa Costa Gomes. De facto a vida de Teresa Maria, a protagonista, não terá tanto de singular, quanto ali se preconiza. Na geração de meninas nascidas antes da Guerra Colonial, criou-se uma tal adoração pelas santas mártires, que a obrigação em as imitar na devoção e nos sacrifícios era regra a cumprir. Não tinham tais histórias uma vertente erótica, que acertava em pleno nos devaneios a quem se impunham condutas castas, sem lhes evitar os pensamentos pecaminosos?
Entre a infância passada na casa onde pai e mãe eram quase invisíveis um para o outro, a puberdade num colégio de freiras donde se veria expulsa por indomada irreverência, a juventude rebelde, a vida adulta aburguesada e a velhice em acelerado processo de demência, o percurso de Teresa Maria afigura-se muito semelhante ao de outras mulheres da sua geração. A falta de novidade - até porque a sua existência quase nunca se relaciona com o contexto histórico a que as suas várias fases vão correspondendo - poderia tender para uma relativização do valor do romance, mas tudo se altera na forma como Luísa Costa Gomes a explora. Porque trata-se de uma obra muitíssimo bem escrita, com um frasear pouco canónico, mas respeitador de cada estado de alma sentido pela personagem em cada momento. A prosa ora evolui numa tranquila arquitetura da narrativa, quando se detém num ou noutro episódio em concreto, ora ganha uma vertiginosa sucessão de descrições quando o tempo se acelera e se precipitam acontecimentos atrás de acontecimentos.
Um dos artifícios de que Luísa Costa Gomes se socorre é o de um breve levantar do véu sobre o que mais adiante sucederá, logo regressando ao ponto de partida para o detalhado desbravar de tudo quanto irá suceder até ao reencontro com essa antecipada revelação. Não é lisonjeiro o papel dos homens ao longo da história, porque ora são violadores, ora se revelam abúlicos companheiros de jornada, que quase correspondem a mais uma peça de mobiliário numa casa dificilmente enquadrável no conceito protetor de lar. Nesse sentido há uma sugestão feminista, que prima pela subtileza, mais do que pelo recurso a estereótipos redutores.
É romance que dá prazer na sua leitura, sobretudo para quem, já entrado nos anos, faz corresponder muitas das situações descritas com as vividas num contexto social e político, que se foi forçado a partilhar. Para quem viveu as agruras de um fascismo ordinário (nos seus múltiplos sentidos!) e, depois, abdicou dos amanhãs que prometiam cantar porque valores mais altos - os da sobrevivência familiar - se impunham, «Florzinhas de Soror Nada» inspira um permanente diálogo entre o conteúdo e o balanço de vida que sugestiona em quem o lê...

sexta-feira, junho 08, 2018

(DL) Esta tarde é lançado o mais recente romance de Maria Alzira Cabral


Há muitos anos, quando era jovem e começava a descobrir os primeiros passos na vida a bordo dos navios mercantes de bandeira portuguesa (hoje espécie quase extinta!), conheci um eletricista dado a falar sempre em rimas e que, ao acabar os turnos na Casa das Máquinas, costumava despedir-se sempre da mesma maneira: «O meu nome é Avelar/ e quem por mim demandar/ na messe me vai encontrar!».
É em homenagem da sua memória - pois por certo, já há muito terá deixado o mundo dos vivos! - que digo: quem nesta tarde me quiser procurar, na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, me irá encontrar! Porque será ali que, pelas dezanove horas, ocorrerá o lançamento do romance «Um Deus de Pés Descalços» de Maria Alzira Cabral.
A autora atribuiu-me o privilégio, mas também a responsabilidade de lhe apresentar a obra, e o agrado por tal missão revela-se tanto mais fácil, quanto ela me deu um enorme prazer na sua descoberta. Porque, falando do que em todos nós é mais comum - a pertença a uma família - também se amplia nos temas ao que nos dita a sociedade: as alegrias e as tristezas, os entusiasmos e as revoltas pelas desigualdades, os amores e desamores. E como não ficar entusiasmado - eu a quem os amigos sempre conheceram a costela cinéfila! - com as constantes referências a filmes, que me foram tão ditosos como «O Feiticeiro de Oz», quando era miúdo e me pus a sonhar como poderia alcançar o outro lado do arco-íris, ou o «Blade Runner», que me fez temer distopias passíveis de olharem como subversivos os mais legítimos afetos, sem esquecer de permeio um dos mais belos e esquecidos filmes da história do Cinema, «O Ano Passado em Marienbad» onde a frigidez esfíngica de Delphine Seyrig ameaçava estilhaçar um tempo parado, que só nele deixaria prisioneiros quem com tão estática situação se sentiria confortado.
Emílio, que sonha com filmes, acaba por cumprir na escrita a vontade de dar razão à citação inicial de Claudio Magris. Com uma achega: não só ela colmata os espaços brancos da existência de quem escreve, como também o suscita em quem lê. É que um bom romance vem ao encontro da apetência genética para que nos contem histórias capazes de nos evadirem das rotinas e interroguem as quotidianas inquietações e aspirações. Abrindo portas, quando se fecham janelas, mesmo nas alturas mais complicadas, as que nos fazem sofrer, quando se iluminam soluções imprevisíveis, inesperadas.
Fica, pois, o convite para que venham conhecer uma escritora cujos romances revelam uma vida rica em experiências e emoções, e o quanto estas páginas me deram jubilatórios momentos. Os mesmos que justificam o encontro com muitos leitores...

(S) O Concerto para Orquestra que Bela Bartok compôs em 1943

quinta-feira, junho 07, 2018

(DL) «Tróia ao Entardecer» de Antonio Sarabia


Agora que a Feira do Livro está a propiciar a possibilidade de reencontrar livros editados há já algum tempo e, entretanto, devolvidos aos armazéns das editoras por não terem encontrado quem os comprasse aquando da sua publicação, vale a pena enfatizar a oportunidade de descobrir «Tróia ao Entardecer» do mexicano Antonio Sarabia, até pelo facto de ter passado agora um ano sobre a sua morte nesta Lisboa, que ele escolhera como voluntário exílio dos seus anos crepusculares.
Para quem aprecia as histórias da mitologia grega e as epopeias homéricas, este é romance de apreço garantido. Passado em Troia quando o cerco já dura há nove anos e a liderança do incompetente Agamémnon está a ser posta em causa pelo intrépido Aquiles, conta como protagonistas dois irmãos -  Timalco e Lisandro - tão parecidos um com o outro, que amam a mesma mulher e por isso se odeiam a tal ponto, que só o homicídio poderá romper o equilíbrio de os começarmos por encontrar nos dois lados opostos da batalha. Trata-se, pois, de uma história repleta de batalhas, amores e desamores, narrada com a sólida prosa de um autor imerecidamente esquecido no amado país onde quis viver os dias derradeiros.
Aqui fica um extrato elucidativo, que pode abrir o apetite para o tardio reconhecimento:
Chamavam ao mar poros, «o caminho», ou pontos, «a passagem», e foi por esse caminho, por essa passagem, que chegaram até às costas de Tróia. Também lhe chamavam pélagos, «a imensidão», ainda que, ao aproximarem-se, as suas naves o cobrissem até onde a vista alcançava. Nunca antes se vira uma expedição tão numerosa. Cerca de cem mil homens de armas em mais de mil e duzentos navios vindos de todos os cantos da Hélade4. Soldados valentes capitaneados pelos chefes mais ilustres do seu tempo. Todos decididos a terminar rapidamente, a invadir e a saquear a cidade das amplas ruas, empenhados em devolver a esposa infiel a Menelau, seu amo e senhor, para que se fechassem juntos nos aposentos do seu palácio e resolvessem a sós, e de uma vez por todas, os seus problemas conjugais. E quando tudo isso fosse conseguido, voltar de imediato à pátria, esbanjar o saque que aquele ilustre adultério, e a fulminante vitória na guerra, lhes proporcionara. Mas a sua vontade fraquejou quando divisaram as sólidas muralhas de Tróia. Com razão se dizia que as edificara o próprio Posídon, o que faz tremer a terra. Todas, menos as que davam para o mar, eram obra de Éaco, antepassado do próprio Aquiles que agora com eles se encontrava aos seus pés. Sitiaram-se essas muralhas, e, embora houvessem sido erigidas por mãos humanas, nem por isso houve muito êxito face a elas, pois passados a vontade e os teimosos esforços dos seus atacantes.
Nem uns nem outros estavam habituados a semelhante encarniçamento. Aquela campanha de nove anos parecia-lhes a todos descabida e absurda. Nas suas guerras locais nem sequer se davam ao trabalho de perseguir o inimigo, bastava fazê-lo fugir para o considerar vencido. Se não se conseguia esse objetivo dentro de um tempo razoável, suspendiam-se as hostilidades e cada um voltava para a sua casa quando chegasse o Inverno. Em Tróia, pelo contrário, os sitiados permaneciam invictos atrás dos seus muros e não havia maneira de impedir que recebessem ajuda, avios e mantimentos pelas portas que não estavam vigiadas. Passada a primeira surpresa, e as escaramuças iniciais onde não houve vencedores nem vencidos, os teucros, como se chamavam antes os troianos devido ao nome de um dos heróis que fundaram a sua estirpe, tinham continuado com os seus afazeres de todos os dias, habituando-se à presença dos agressores como o caminhante se habitua a uma pedra no interior da sua sandália. De vez em quando saíam e entabulavam combates, mas a maior parte do tempo mantinham-se sossegados, ocupando-se com os seus próprios assuntos, enquanto os invasores, que não se resignavam a permanecer ociosos, depois de verrumar e afundar a pique a frota troiana atracada na foz do rio Escamandro, vingavam-se urdindo incursões à Trácia e à Frigia e saqueando as vilas e as aldeias das costas vizinhas.
Com o tempo, além dessas razias que lhes proporcionavam mulheres, riquezas e víveres, os aqueus ou dânaos, como também eram denominados por serem descendentes de Dânao, o inventor da agricultura, resolveram fazer honra a esse nome e destinar uma parte do seu numeroso contingente a semear a terra. Dedicaram-se especialmente ao cultivo da cevada e do trigo para fazer pão, assim como a plantar um vinhedo e à criação de gado suficiente, reses, borregos e cabras, que provessem às suas necessidades durante o longo cerco. Rapidamente, ao amparo das longas naves pintadas de negro, propagou-se sob as imponentes muralhas de pedra que resguardavam Ílion uma heterogénea comunidade de tendas e choças de madeira, protegidas por uma tosca paliçada, do mesmo modo que uma abarrotada aldeola prolifera à sombra de uma rica metrópole. Mas nada paliava o ódio dos seus habitantes, que, quando não lutavam, se olhavam de longe como dois vizinhos rancorosos.

(S) O segundo andamento do Quarteto º 12 em fá maior de Antonin Dvorak

quarta-feira, junho 06, 2018

(DIM) «Feios, Porcos e Maus» de Ettore Scola (1976)


Em junho o Cineclube Gandaia inicia uma abordagem ao universo cinematográfico de Ettore Scola tomando como ponto de partida o filme com que ele ganhou o Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes de 1976.
Quando pegou no projeto, que resultaria depois neste filme, Scola anteviu-o como um documentário. A intenção seria a de mostrar a vida difícil de um lúmpen atraído para a capital italiana ou para as cidades industriais do norte de Itália, não só incapaz de encontrar empregos minimamente remunerados, como habitações dignas desse nome. A ideia de passagem à ficção aconteceu posteriormente comportando uma intervenção inicial de Pier Paolo Pasolini, que olharia para os espectadores diretamente nos olhos e os sensibilizaria para o genocídio cultural, que estava a acontecer desde que, em 1962, rodara «Mamma Roma»: a sociedade de consumo estava a estupidificar os explorados, insensibilizando-os para a consciência de classe, que deveriam manter para melhor reagirem às iniquidades a que se sujeitavam. O crime horrendo, que vitimou o realizador de «Saló ou os 120 dias de Sodoma» inviabilizou essa cena de abertura. Ficou só a sátira sórdida e amoral sobre o alucinante quotidiano de uma família miserável a viver num bairro da lata com vista para a cúpula da Catedral de São Pedro, mas nem por isso menos afundada no Inferno. Este é, de facto, um filme à medida da frase que Dante encontrou quando, guiado por Vergílio, foi conhecer as profundezas onde se castigavam eternamente os pecadores: ali à porta poderia deixar qualquer réstia de esperança, porque só depararia com a mais irremediável miséria humana.
Giacinto Mazzatella é o patriarca de uma família disfuncional, que vive de expedientes, prostituição e de outras variantes de atos delinquentes, e focalizada no milhão de liras por ele recebido a título de indemnização pelo acidente de trabalho, que o cegara de um olho. Temendo ser roubado ele passa o tempo a mudar o pecúlio de esconderijo até quase perder a lembrança de onde o guardara a última vez. O pior acontece quando se apaixona por uma meretriz obesa diretamente transferida do universo felliniano - uma referência tão constante de Scola, que a ele dedicaria o seu último filme! - e, de sovina passa a esbanjador em sua intenção. Razão para se ver alvo de atentado por quem o acusa de pai indigno e marido infiel.
Estamos nos antípodas da representação do operário dos filmes neorrealistas das décadas de 40 e 50. A honradez de outrora, quantas vezes complementada de um orgulho de classe, vê-se substituído pelo mero instinto de sobrevivência caracterizado por esta regra: quando nada se tem até os últimos laivos humanistas desaparecem das consciências, restando a brutalidade, a avidez e a concupiscência.
O resultado é vermo-nos continuamente desafiados por um espetáculo degradante, que nos incomoda e onde não se perspetiva qualquer redenção.

(S) Suitede "Aladdin" de Alan Menken

(DL) A Patagónia de Bruce Chatwin


É uma terra de extremos, cuja evocação logo faz disparar a imaginação. Situada na zona meridional da América do Sul a Patagónia foi uma das últimas regiões terrestres a conhecer a ocupação humana. É terra de desmesura nas suas dimensões, ventos, gelos e fogos vulcânicos. Têm estradas com retas infinitas direcionadas aos longínquos cumes andinos e aos lagos de um azul como não se encontra em mais nenhum lugar.
Em 1974 um jovem britânico de 34 anos - Bruce Chatwin - abandonou o quotidiano de especialista em História da Arte para demandar esses grandes espaços com que sonhava desde a infância. Durante seis meses percorreu mais de cinco mil quilómetros e conheceu paisagens grandiosas, a pretexto de uma busca interior, que refletiria no seu primeiro título em forma de livro - «Na Patagónia» - enquadrável num género, que viria a conhecer doravante um enorme sucesso comercial: a literatura de viagens.
Chegando às livrarias em 1977, o livro muito contribuiria para o progressivo prestígio da região, que se tornou no destino ideal para as novas gerações de aventureiros, também elas apostadas em perscrutar a magia da sua natureza selvagem. Sedu-los porventura as descrições de Chatwin a propósito de dias-e-dias de viagem por extensões infinitas sem encontrar vivalma, a não ser as silhuetas esquivas dos nandus ou as elegantes correrias dos guanacos.
Seguindo para norte, pela mítica estrada 40, que ladeia a cordilheira, Chatwin procurou detetar a presença dos fantasmas de outros antecessores, também eles entusiasmados com a descoberta de paisagens de cortar o fôlego. Em Esquel encontrou os traços do famoso Butch Cassidy cuja cabeça fora posta a prémio em 1901 nos Estados Unidos e se vira obrigado a refugiar-se tão longe. A cabana que ele e Sundance Kid construíram para fundarem um rancho ainda está de pé e pode ser visitada. Naquele lugarejo. onde procurou fazer-se esquecido pelo mundo, o antigo fora-da-lei encontrou semelhanças com a terra natal, no Utah.
Em Gaiman, já perto do oceano Atlântico, Chatwin encontrou uma pequena comunidade descendente de emigrantes do País de Gales, que lhe lembraram a primeira viagem de comboio, quando tinha nove anos. Mais do que o chá das cinco da tarde ou as casas feitas em tijolo vermelho foi o reencontro com as mais gratas reminiscências da infância, que entusiasmaram o viajante, tanto mais que passou o aí Natal  assistindo a uma cerimónia religiosa em inglês, que lhe acentuaram esse intimo regresso ao passado.
Outro momento mágico da viagem foi o que viveu nas margens do Lago Posadas, com uma plêiade de cores irreais, capazes de lhe sugerirem emoções com o seu quê de místico, de fantástico. Tanto mais que, muito perto, ficam alguns dos mais espantosos vestígios das antigas civilizações ameríndias.
A Patagónia influenciaria Chatwin de uma forma indelével, tornando-o num nómada sem vontade de se vir a fixar onde quer que fosse.

(S) Joyce DiDonato a cantar «Lascia ch'io pianga» de Haendel

terça-feira, junho 05, 2018

(DL) «As coisas que perdemos no fogo» de Mariana Enriquez


Mariana Enriquez nasceu em 1973 em Buenos Aires, durante a ditadura militar, e é a autora de «As Coisas que perdemos no fogo», livro editado entre nós no ano transato.  Apesar de ser uma antologia de contos inseríveis no género fantástico, por eles passam muitos ecos desse regime criminoso de que a Argentina só se livrou quando ela tinha dez anos.  Os monstros, sobrenaturais ou não, remetem para a crueldade então reinante de que uma das mais horríveis expressões foi a dos presos políticos torturados, assassinados e depois desaparecidos, seja por terem sido despejados no alto mar, seja em valas comuns ainda por identificar. Daí que, nalguns dos contos do livro, haja personagens a desaparecerem sem explicação.

Quando conta como foi a infância a escritora lembra a avó, cujas superstições a fascinavam por estarem relacionadas com as lendas e os animais mitológicos da região guarani.  Essas estórias eram-lhe mais gratas do que as da realidade, porque as sabia falsas comparativamente com as que tinham rostos e nomes efetivamente conectados com um sofrimento concreto. Pesadelos por pesadelos, antes os que desapareciam na espertina das horas diurnas, altura em que ouvia referências aos vividos por quem os pais manifestavam preocupação.
São também histórias onde os homens não são vistos com grande bonomia: se não são brutais ou repugnantes, mostram-se no mínimo como aborrecidos ou mesquinhos. E acabam, amiúde, de forma tão brusca, que nos interrogamos se não teria valido a pena a autora trabalhá-los um pouco mais para lhes atribuir a dimensão da novela ou do romance. Mas como não respeitar as opções narrativas de quem toma como referências os grandes nomes da literatura do sul dos EUA (Faulkner, McCarthy ou McCullers), mas sobretudo esse modelo de concisão chamado Júlio Cortazar?

segunda-feira, junho 04, 2018

(DIM) «A Caça» ou como o fascismo cresce célere numa pequena comunidade


Para Lucas os tempos difíceis começavam a passar. Se perdera o posto de professor na escola local, conseguira emprego no jardim de infância, dando-lhe os meios de recuperar a tutela do filho, Marcus, que a ex-mulher queria reter junto de si. Ademais Nadia, sua colega de emprego, demonstrava-lhe um interesse em vias de se tornar recíproco.
Eis, porém, que uma das alunas, filha do seu melhor amigo, conta a Grethe, diretora do infantário, ter visto o sexo ereto do professor e logo uma insólita histeria se gerar: não tarda que a mera exposição do pénis se converta em abusos sexuais não só a Klara, mas também a vários dos seus colegas, induzidos pelos pais a relatarem mentira semelhante, mesmo que não a entendam como tal. Pelo contrário, a vontade em ver a realidade de acordo com o preconceito é tal, que toda a aldeia põe-se acreditar na versão inicialmente imaginada na cabeça de Grethe e a defende sob o argumento de que «as crianças não mentem». Nesse momento retinam sinetas nos nossos cérebros, porque era essa a expressão mais comum utilizada pelos strechtes e pelas catalinas da Casa Pia, quando se criou a primeira conspiração - nunca desmascarada! - para decepar o Partido Socialista dos seus principais dirigentes. Ora, como se demonstra no filme, as crianças mentem de facto e conseguem ser bastante perversas no recurso à sua aparente inocência.
Se Lucas sempre estivera bem integrado na comunidade logo se vê alvo de um ostracismo doloroso: à exceção de Bruun, padrinho de Marcus, todos os amigos com quem partilhara caçadas, lhe viram as costas ou até o agridem, quando se mostra renitente a sair dos espaços, que frequentara até então. Nomeadamente no supermercado, local onde nem sequer querem deixar que ele ou Marcus façam compras.
Se a polícia liberta o suspeito - sobretudo porque as crianças ouvidas tinham contado pormenorizadamente como haviam sido molestadas na cave da casa, que nem sequer possuía esse tipo divisão - só a coragem com que impõe a sua presença ensanguentada aos vizinhos consegue demovê-los da imagem que dele haviam criado.
Um ano depois, a passagem de Marcus pela cerimónia iniciática de receção da sua primeira arma de caça mostra Lucas novamente integrado na coletividade, cumprimentando e sendo cumprimentado por quem o humilhara e agredira. Tememos o pior: será que, depois de nos causar tal indignação, vêm-nos convencer do happy end? Felizmente que não é assim: na primeira sessão de caça de Marcus um tiro perto de si alvoroça Lucas, que se imagina na mira de um inimigo por identificar. A imaginação traía-o, mas espelhava, igualmente, a sensação de insegurança de que nunca mais se livrará. Porque ninguém pode fiar-se na sua inocência para se ver livre da acusação coletiva das piores vilanias.
É essa a conclusão a retirar do filme «A Caça», que Thomas Vintenberg rodou em 2012 e deveria ser de visão obrigatória para quem menos defesas apresenta para funcionar como peão de manobras pérfidas do fascismo mais ordinário.

sexta-feira, junho 01, 2018

(DIM) «Life’s Rocky Start», um documentário de Doug Hamilton e Alan Ristko (2016)


O documentário, que aqui se referencia pelo respetivo link, é assaz interessante por uma conclusão, que os cientistas andam a aprofundar nos últimos anos: a enorme diversidade de minerais existente na Terra está estreitamente relacionada com o aparecimento da vida. Não tivesse ocorrido tal milagre e em vez das mais de quatro mil qualidades de minerais rastreados por todo o planeta, imitaríamos a pobreza detetada noutros bem conhecidos: em Vénus existem entre mil e mil e quinhentos, em Marte eles não vão além de quinhentos e em Mercúrio não chegam a trezentos e cinquenta.
Graças às colisões, às fusões, à tectónica das placas e às reações químicas, existem minerais desde que o planeta nasceu. No entanto, muitos deles surgiram graças ao aparecimento de organismos vivos e à subsequente produção de oxigénio. É essa a matéria de estudo de uma nova disciplina científica, a mineralogia evolutiva, que aborda toda a sua história desde a formação do planeta até ao surgimento dos primeiros microrganismos e à progressiva oxigenação da atmosfera.
O filme baseia-se, sobretudo, nos trabalhos de Robert Hazen, geofísico do Carnegie Institution em Washington, e nas viagens de estudo por ele cumpridas até ao Hawaii, à Austrália e a Marrocos. É no seu decurso que ele explica a razão porque os minerais não teriam encontrado viabilidade sem a presença da vida e como o seu processo de formação transformou a Terra como não sucedeu em qualquer outro planeta até agora conhecido.