terça-feira, maio 22, 2018

(S) «A Childrens Suite» de André Waignein

(DIM) «Rendez-vous» de André Téchiné (1985)


Em 1985 o Prémio de Realização do Festival de Cannes foi para este filme de André Téchiné, que reivindicava a associação do realismo típico de um certo cinema francês com uma forma de romantismo. Mas ele ficaria para a História do Cinema como aquele que revelaria Juliette Binoche, aqui com 21 anos, e em certa medida Lambert Wilson, como atores a ter em conta doravante.
O realizador abordava aqui um dos seus temas preferidos: a difícil adaptação de alguém vindo da província para a grande cidade, que voltaria a explorar na década seguinte com «J’embrasse pas» ou «Alice et Martin». Tínhamos assim uma rapariga muito jovem, Nina, vinda do sudoeste francês para conquistar Paris, convencida de aí se tornar atriz.  Alojando-se em casa de Paulot e de Quentin, desprezará o amor terno que o primeiro lhe promete para se entregar ao segundo, tenebroso e ambíguo, com quem lhe adivinhamos rápido transe para o Inferno, seja lá o que isso for.
A iniciação por que Nina passará será pois tripartida: um pretendente apaixonado, que a respeita, um amante vampírico que a avilta e um mentor, bem mais velho, que será quem, à falta de a fazer realizar-se como mulher, a torna atriz. Como é também habitual no cinema de Téchiné, pode-se aqui detetar um triângulo amoroso, confirmando-se a sua apetência pelas geometrias dos sentimentos. A fórmula aqui cumprida é a da situação A ama B, que ama C, que não é capaz de amar ninguém, nem sequer ele mesmo, já que é dado a pulsões suicidárias. Para Quentin Nina é um mero objeto sexual, possibilitando ao espectador a análise psicanalítica da razão por que ela se dá a tal sujeição. Mas a morte dele num brutal acidente libertá-la-á, mesmo que não deixe de ser assombrada pelo seu fantasma. Compreende-se então a moral sugerida pelo realizador: quem perde, ganha, cada sofrimento, rotura ou luto significa uma vitória num outro ângulo da realidade, o da expressão artística. Mesmo que saia a perder quem apenas pretenderia viver.
Num filme amargo e incómodo, com planos muito em cima dos atores para sugerir a claustrofobia em que vivem num ambiente urbano e frio, todos os personagens são antipáticos ou, no mínimo indiferentes. E se alguns se escandalizaram com a excessiva nudez de Binoche, há que reconhecer a nula sensualidade dessa exposição, porque o corpo surge como  um mero agente neutro numa narrativa isenta de sentimentos que o possam valorizar.

(DL) O legado indispensável de Simone de Beauvoir


Uma das notícias com impacto nos meios literários franceses das últimas semanas foi a tardia consagração da escritora Simone de Beauvoir, enfim entrada na prestigiada coleção da Pleiade através das suas Memórias. Romancista e teórica do feminismo, reconhece-se-lhe a permanente luta pela liberdade e busca da verdade, à custa de violentos ostracismos e agressões.
Nascida em 1908 numa família burguesa, que lhe proporcionou uma infância feliz, viu o pai falir quando tinha oito anos, alterando-se-lhe subsequentemente a qualidade de vida até então usufruída. O futuro ficaria tão condicionado, que lhe seria vedado aquele que, comummente, era o das meninas da sua classe social: tornarem-se prendadas para virem a ser esposas irrepreensíveis de pretendentes bem colocados socialmente. Não podendo garantir-lhe um dote, que a configurasse como uma noiva apetecível, o pai insistiu para que estudasse e conseguisse por si mesma vir a sustentar-se. Segundo as suas palavras a filha Simone teria “cérebro de homem”. Essa lição precoce levá-la-ia a sempre defender que a emancipação feminina passaria obrigatoriamente por cada mulher alcançar liberdade económica relativamente ao conjugue ou parceiro.
Descobriu a Literatura com maiúscula, quando tinha 16 ou 17 anos, ao ler André Gide e Marcel Proust, sentindo que o exercício da leitura não se assemelharia à visita de um museu ou de um monumento, antes estimulando o questionamento do seu âmago e alimentando o prazer de viver. Os livros transformá-la-iam em quem viria a ser.
Aos 21 anos conheceu Jean Paul Sartre a quem se ligou até ao fim dos seus dias apesar de ambos experimentarem relações amorosas com outros parceiros, que não punham em causa a relação cúmplice que sempre mantiveram. Nelson Aigren, um dos seus mais duradouros amantes, insistiu em que se casassem, mas ela sempre recusou tal hipótese por descrer nos benefícios da instituição conjugal. Mais polémica foi a relação íntima com uma das suas alunas no Liceu Molière, que redundou no seu despedimento com o correspondente escândalo à mistura. A irrupção imediata da Segunda Guerra acabou, porém, por secundarizar esse episódio.
Em 1949 publicou «O Segundo Sexo» onde inseriu a conhecida fórmula: “não se nasce mulher, torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, económico define a fêmea humana na sociedade.” Contra uma tão veemente proposta de libertação das mulheres dos constrangimentos de uma sociedade patriarcal e perante a poderosa defesa da igualdade entre géneros, levantaram-se alguns dos intelectuais conservadores do pós-guerra, que consideram o livro abjeto, com destaque para François Mauriac e Albert Camus. Este último denunciou-se na verdadeira natureza do seu pensamento, apesar de, ainda hoje, continuar a ser incensado por uns quantos autoproclamados progressistas, que lhe devotam uma admiração elucidativa quanto ao seu presente alinhamento ideológico.
O ensaio em causa impô-la como um dos principais vultos intelectuais do feminismo, condição que  reiteraria já no início dos anos setenta, quando foi uma das mais notórias subscritoras do Manifesto das 343 que, confessando ter desrespeitado a lei abortando, exigiam que esse direito passasse a ser reconhecido como legítimo, algo que logo viria a verificar-se.
Quando, aos 78 anos, morreu em Paris, ela deixou um legado de indubitável importância sintetizado nestas palavras crepusculares: “Não quis casar, nem ter filhos. Não quis ter uma ‘vida interior’, que costuma ser a pior ameaça contra a condição feminina. Tinha escapado a diversas servidões. (...) Para cada mulher é a história da sua vida, em particular a da infância, que a determina como mulher, que nela cria algo que não chega a ser uma essência e que se designa por ‘eterno feminino’ ou ‘feminilidade’. (...) Eu constatei a verdade sobre a condição feminina. E consegui-o durante a escrita de «O Segundo Sexo». É um trabalho militante e satisfaz-me que tenha sido utilizado por militantes, porque tem esse objetivo. Mesmo que, na altura de o escrever, não tenha tido disso consciência”.
Importa concluir que a Pleiade não conta inserir esta obra fundamental do século XX nas suas coleções...



domingo, maio 20, 2018

(DIM) «Janela Indiscreta» de Alfred Hitchcock (1954)


Amanhã à tarde a Cinemateca exibe um dos grandes filmes do mestre Hitchcock, que fazia com ele a demonstração prática de como era possível manter a atenção dos espectadores apesar de não se sair do campo de visão do protagonista. James Stewart interpreta o papel de um fotógrafo imobilizado por um acidente, que lhe mantem a perna engessada, não lhe dando outro recurso para se distrair que não o de ir bisbilhotando o que os vizinhos vão fazendo. Recolhe assim fundadas suspeitas de um crime, que procura denunciar apesar do risco a que logo se vê exposto dado o interesse do assassino em o silenciar.
Na História do Cinema este é título incontornável quando se procura um título ilustrativo para uma discussão sobre o voyeurismo pondo em contraponto o direito à privacidade de quem é espiado e a justeza de se punir um homicida.

(S) «Excalibur» de James Swearingen

(DIM) «O jazz: uma arma secreta» de Hugo Berkeley (2017)


No romance do Afonso Cruz, que comecei agora a ler («Nem Todas as Baleias Voam») este caso é relatado logo nas primeiras páginas: embora tenha sido secundarizado na História da Guerra Fria, o jazz foi utilizado pelos Estados Unidos como arma de arremesso contra o inimigo soviético, contratando os principais talentos de tal género de música para veicularem os valores americanos no outro lado da Cortina de Ferro.

A ideia surgiu em 1956 e pretendia conquistar quem vivia sob a tutela de Moscovo para as mensagens sub-repticiamente inoculadas pelos seus «Jazz Ambassadors: Louis Armstrong, Duke Ellington , Dizzy Gillespie ou Dave Brubeck, que viram as suas digressões generosamente financiadas para que, com as suas orquestras constituídas por brancos e negros, procurassem desmentir um dos principais argumentos soviéticos, o da segregação racial. Ora, muito embora todo o sul dos Estados Unidos estivesse a ferro e fogo com o Ku Klux Klan em força a perseguir e matar os que contestavam a segregação racial, os músicos convidados pelos ideólogos de Eisenhower prestaram-se ao frete de aparentarem provir de um país muito diferente do real, dando-se a tal papel sem quererem entender o quanto estavam a ser utilizados como meros peões de um jogo de ambições bem mais latas.
O documentário de Hugo Berkeley aborda precisamente essa questão: porque aceitaram tais artistas, também eles vítimas dessa discriminação no seu país, acederam a dar tão falsa imagem? Só quando, já na segunda metade dos anos sessenta o Movimento dos Direitos Cívicos ganhou incontornável dimensão é que eles se lhe juntaram redimindo-se tardiamente de tão comprometedora cumplicidade.



(DL) Os comprometedores pecadilhos de um filósofo


Quase setenta anos passados sobre a morte do filósofo Alain, foram publicadas há pouco tempo as até então desconhecidas memórias, que levantam sérias reservas sobre um pensador cujas ideias tinham sido tão aclamadas no período compreendido entre as duas guerras mundiais por estar conotado com as ideias de esquerda reivindicando-se radical-socialista e pacifista. A surpresa foi descobrir nestes escritos inéditos o quão opostos eram os seus propósitos pois não só se revelava antissemita como entusiasmado com a leitura do «Mein Kampf» em 1940, quando metade da França estava sujeita à Ocupação e a outra liderada por um governo fantoche a soldo dos nazis.
Seguindo a habitual metodologia de aprofundar o tema da sua investigação de fio a pavio - ou seja tudo quanto esse autor terá escrito e grande parte do que sobre ele outros comentaram - Michel Onfray assinou um ensaio pertinente. Em «Solistice d’Hiver» explica como Alain pegava num caso qualquer, o pensava no que significava nas várias camadas de leitura e daí partia para uma reflexão mais abrangente, alargada na generalização às conclusões a que chegara. Ao ler as muitas páginas das Memórias, Onfray descobriu que o antissemitismo de Alain germinara logo na entrada da École Normal Supérieure por ai encontrar colegas judeus muito mais dotados do que ele. Igualmente elucidativa a antipatia por Bergson e Einstein, por causa da sua origem judaica.
Se em 1940 ainda era possível cometer o erro de análise, que Alain então fazia devido ao prestígio, que Pétain ainda detinha, à antipatia por De Gaulle, e sobretudo o imperativo de não se repetir a carnificina de 1914-18, que conhecera por se ter então alistado para os combates nas trincheiras, Alain deveria ter capacidades de distanciamento, que o livrassem das suspeitas de simpatias para com os ocupantes.. Mas  o preconceito perduraria, mesmo que ao contrário de Céline, nunca tenha dado conhecimento público do que efetivamente pensava, nem colaborado de facto com as autoridades de Vichy.
A questão levantada pelo conhecimento destes seus escritos pessoais é se eles desqualificam os demais textos, algo que ninguém se atreveu a propor até agora. Mas fica a mancha, que levará os estudiosos a nunca mais conseguirem  analisar-lhe o pensamento sem tomarem a devida nota da predisposição antijudaica, que , desde cedo alimentara lá bem no fundo de si.

sábado, maio 19, 2018

(DIM) «The Kingdom: How Fungi Made Our World» de Annamária Talas (2017)


Os cogumelos são muito simpáticos, não só pelos prazeres gastronómicos que propiciam, mas também por na arte - mormente na escultura e na cerâmica - concretizarem projetos estéticos muito interessantes. Mas, cientificamente, também se revelam fascinantes por serem motores da evolução com os seus prodigiosos poderes. É que, de facto, constituem uma das chaves para o entendimento da vida na Terra ao terem sido os primeiros organismos a surgirem no planeta há milhões de anos.

Sendo dificilmente classificáveis - nem plantas, nem animais - constituem um mundo à parte. Se os comestíveis são melhor conhecidos a sua diversidade surpreende integrando milhões de espécies que vão das leveduras até organismos pluricelulares.
O documentário de Tálas recorre a impressionantes imagens macro em acelerado e a animações tridimensionais para recuar até ao início da evolução dos ecossistemas terrestres mostrando como os cogumelos criaram o atual, aquele que conhecemos e dando a conhecer os mais recentes contributos científicos na área da micologia, com incidência na produção de álcool ou de pão, na farmacologia (mormente nos antibióticos e nos anti-inflamatórios) e na decomposição dos dejetos.
A ciência continua muito atenta às virtudes dos cogumelos, até para corresponder ao seu lado sombrio, o constituído pelas letais infeções fúngicas de que é exemplo o cryptococcus potenciado pelo aquecimento global do clima terrestre.
(documentário que o canal ARTE exibe esta noite)

(S) "Minuet and Badinerie" de J. S. Bach

(DL) Uma obra ilustrativa dos tempos que vivemos


Esta semana ficou marcada literariamente pela morte do escritor Tom Wolfe em Nova Iorque. Tinha 88 anos e notabilizara-se como jornalista ao criar uma nova tendência informativa focalizada na descrição dos factos sem arriscar juízos morais ou ideológicos: o «new journalism». Depois começara a escrever romances dos quais o mais conhecido foi «A Fogueira das Vaidades», que Brian de Palma passou ao cinema, por ilustrar a cupidez e a ambição desmedida das élites financeiras nos tempos de Ronald Reagan na Casa Branca. Mas, pessoalmente, agradeço-lhe um outro título anterior, «The Right Stuff», que fundamentou um dos meus mais bem-amados filmes dos anos oitenta.
Entre 1979 e 2013 Wolfe só publicou cinco grandes romances , complementados por um torrencial fluxo de artigos de imprensa e de ensaios bastante elucidativos quanto ao seu pensamento conservador. Embora a abordagem tão ciosa da forma precisa como procurava ilustrar a verdade da época em que situava as histórias, fizessem dos seus livros  óbvias referências sobre cada uma delas. Por exemplo em «Eu, Charlotte Simmons» oferecia uma análise sobre as universidades norte-americanas numa época em que o politicamente correto ganhava contornos quase inquisitoriais e se afirmava a libertação dos costumes. Daí que, numa entrevista, dada aquando de uma das suas viagens a França para apresentar as suas obras, ele se dissesse filiado nas influências de dois escritores franceses, explicando-o assim: “Sempre me considerei muito objetivo, mesmo quando esse modo de estar não era uma moda. O que aprecio em Balzac ou em Zola é o seu amor pela verdade, mesmo sobrepondo-se aos seus posicionamentos políticos. Balzac era monárquico, mas o que escreveu contribuiu para o advento da Revolução de 1948, que derrubou essa forma de regime. (...) Gosto de ver escritores com ego bastante para se dissociarem de partidos políticos, preferindo descrever o que efetivamente veem.”
Não sendo propriamente um entusiasta da obra, nem tampouco do seu estilo, reconheço o interesse na leitura da obra de Wolfe como forma de melhor interpretar o período histórico de que ele ambicionou ser um dos principais cronistas.

(S) «Os Dois Granadeiros» de Robert Schumann

quinta-feira, maio 17, 2018

(DIM) «De Tanto Bater o meu Coração Parou» de Jacques Audiard (2005)


É a história de um regresso à vida, da redenção de um homem confrontado com a loucura do mundo exterior e com a sua própria brutalidade. É também a história de um homem  que se torna adulto. E como esse tipo de situação engendram dialética entre contrários o filme alternará entre estados reativos bipolares, porque o protagonista estará dividido entre um mundo belo, sério e artístico, e  um outro, horrível, sujo, feito de negócios escuros. O ritmo das sequências ora funciona à base de calmantes, ora de estimulantes.
Remake de um filme norte-americano dirigido por James Toback em 1978 - «Fingers» -, que tinha Harvey Keitel como protagonista, as opções de Audiard e do seu coargumentista acabam por ser muito diferentes da desse antecessor de culto, ainda assim de pouca valia cinematográfica. Inicia-se com planos fechados, cortes rápidos, diálogos insanos e tagarelas. A câmara ao ombro segue Thomas nas ações crapulosas de expulsar sem abrigo e refugiados das casas que quer negociar. Aos 28 anos há algo de mafiosa violência na forma como gere os negócios não hesitando em colocar ratos num prédio, que pretende desvalorizar para vir a ter com ele maior lucro ou agredindo sem escrúpulos os que com ele estão endividados.
Entramos num universo violento em que os fortes não mostram qualquer compaixão com os mais fracos, sujeitos a uma odiosa brutalidade. Autista em relação aos outros, Thomas ouve música eletrónica e usa um capacete que de tudo à volta o isola. É um mundo niilista  habitado por pobres e oportunistas, por fracassados e estrangeiros, sobretudo por gente desiludida sem luz ao fundo do túnel para os seus vazios existenciais.
Um encontro inesperado abre a Tom a possibilidade de reatar com uma outra realidade, que era a sua enquanto a mãe vivera até dez anos atrás. Conhecera-se-lhe talento musical e abre-se-lhe a oportunidade para uma audição, que volte a franquear-lhe as portas para essa alternativa. O filme muda de ritmo, acalma em planos mais abertos e demorados, porque ele inicia a preparação para esse exame com uma professora asiática, que não fala francês. Que importa se a música se torna no seu elo de comunicação? Cada nota representa uma palavra, cada timbre um estado emocional. Está assim lançada essa tal dialética entre o ser-se uma coisa e aspirar-se a uma identidade totalmente diferente.
Houve, porém, quem não apreciasse o desenvolvimento desta ideia da redenção pela arte, tornada linguagem de cumplicidade entre quem não se entendia e antítese de uma barbárie que se teria tornado a imagem de marca da civilização do novo milénio. Nessa abordagem depreciativa critica-se a Audiard a ambição de dar a uma história ao jeito dos grandes artesãos do passado - Jacques Deray ou Pierre Granier-Deferre - uma vestimenta excessivamente psicológica, quando tudo se tornaria bem mais ligeiro se se ficasse pelo seu tratamento simplificado. Outros críticos teriam acentuado a misoginia da narrativa, já que remete as mulheres para o papel de vítimas, de objetos decorativos ou a não falarem língua que se entenda (que melhor utopia para quem detesta ouvi-las?), enquanto não ilude o fascínio pelos «gajos» (os «mecs») heterossexuais, de camisas suadas e cheiro a álcool enquanto conduzem carros vistosos e tratam as companheiras abaixo de cão. Longe vão os tempos dos «dandies» da «nouvelle vague», que vagueavam sem objetivo definido por Paris, que então era parte integrante dos personagens da história, e aqui reduzida a cenário semiobscurecido e neutro, apenas espaço de encontros com quem virá influenciar o curso dos acontecimentos. A luz substitui-se a esse exterior citadino, porque é ela que ilumina os rostos e subexpõe os planos.
São opiniões pertinentes, mas que não tiram os méritos a um filme claramente influenciado pelo cinema de Cassavetes e de Martin Scorcese, mesmo que balizado nos que são os mais comuns temas dos filmes do realizador: o que é um herói? Como sê-lo e como deixar de o ser?
Ao contrário do cinema de Hitchcock, construído em função de uma ideia crescente de suspense, Audiard evita que o espectador entre ecrã adentro, limitando-se ao papel de testemunha, olhando, ouvindo, examinando, mas sem criar empatia com quem nele intervém. Para isso contribui a descontinuidade da montagem, que causa desconforto, interrompendo bruscamente os planos-sequência e se furta aos raccords mais canónicos. Objetivo que a música da banda sonora também acompanha, quer quando é eletrónica, quer quando o piano adota temas de Bach, mais próximos da lógica matemática e racional de uma vertente da sua obra, do que da outra, que pré-anunciava o romantismo.
Quando chegamos ao final do filme sentimos que Thomas evoluiu indecisamente entre a cólera e a melancolia, entre o pai bronco e a mãe sensível. Detestável quando o filme começa, ele irá humanizar-se e sairá engrandecido no final, quando compreende a impossibilidade de matar quem tanto odiara. Porque entretanto descobrira a beleza, as mulheres e a música, mudando-lhe o âmago da personalidade. Quando surge o genérico final ficamos com a convicção dele se ter tornado, enfim, dono de si mesmo.

(DIM) «As Boas Condições» de Julie Gavras (2017)


Durante quinze anos a realizadora acompanhou oito adolescentes, que viviam em bairros privilegiados e frequentavam o muito chique liceu Victor-Duruy, sendo-lhes expetável a integração nas elites futuras com todos os estereótipos inerentes. Filhos de joalheiros, de publicitários ou de diretores financeiros, nasceram em berços de ouro, mas, em contraponto, condicionados pela obrigatoriedade de virem a imitar os progenitores no sucesso social e profissional.
O que mais interessa a Julie Gavras é o quanto lhes é moldado o pensamento pela ambiência em que vivem, mormente no que lhes é transmitido enquanto testemunho a perpetuar. Apanhando-os com 16 anos, a realizadora foi entrevistando-os ano a ano até se tornarem trintanários. Capta assim a dinâmica da reprodução das élites.
Beneficiando de condições excecionais para concretizar o projeto e contando com a colaboração ativa dos seus entrevistados, que lhe vão confidenciando as paixões, as viagens, os espaços em que vão habitando ou os sítios onde trabalham, Julie Gavras encaixa cada fragmento no puzzle ilustrativo de uma classe social raramente revelada cinematograficamente na efetiva dimensão. Daí que o filme seja interessante documento histórico sobre uma época de mudança, que testa os recém-chegados ao mundo do trabalho quanto a revelarem-se ou não fiéis à sua «boa condição».

(S) A Abertura de «Os Caçadores» de Carl Weber

quarta-feira, maio 16, 2018

(DIM) «Maltese - Il romanzo del Commissario» de Patrizia Massa e Francesco Morbilli (2017)


Convenhamos que Dario Maltese leva tempo demais a concluir o que pressentíamos como óbvio: quem comandava os cordelinhos da Mafia em Trapani, a cidade onde nascera e para onde decidira voltar quando o melhor amigo acabara de aí ser assassinado, era um antigo amigo do pai, alguém em quem depositava quase ilimitada confiança. Mas a série que a RAI  produziu em 2017 e que os argumentistas procuraram credibilizar, baseando-se em casos reais efetivamente ocorridos na metade ocidental da Sicília nos anos 70 e 80, é quase perfeita na recriação da época e nas interpretações de todos os atores. Até na maior lentidão com que tudo ocorre, porque ainda não existiam os telemóveis com que se facilitariam as comunicações e melhor se coordenariam as ações, quer policiais, quer delinquentes.

O que causa fácil empatia entre quem vê a história e quem a congeminou é essa sensação de impotência perante forças demasiado poderosas para serem beliscadas. Quem não sentiu essa frustração de ver a injustiça perpetrada à sua frente e nada fazer, porque seria fútil suicídio? Personagens secundários por quem nos é sugerida a simpatia morrem barbaramente e suscita-se a tensão latente de acabarmos por ver atingido o protagonista com que facilmente nos identificamos.
Os argumentistas colam facilmente os personagens fictícios aos reais, que nesses anos de chumbo acabaram assassinados pela Cosa Nostra. Não chegam, porém, a aludir explicitamente a essa personalidade sinistra chamada Giulio Andreotti, que tinha tanto de beato, quanto de cúmplice com quem, nesses anos, geria todo o tráfico de droga no sul da Itália, embora o político de Roma vindo expressamente à Sicília para se reunir com os cúmplices possa alvitrar alguma semelhança. Preferindo homenagear os juízes tombados na tentativa de capturar os chefes mafiosos,  os autores evidenciam esse tipo de conivências comprometedoras através do procurador, que obstaculiza tanto quanto possível o trabalho de Maltese, e do presidente da Câmara, um arrivista sem escrúpulos, cioso de operar uma revolução no equilíbrio de forças na organização criminosa: a aristocracia, que tudo comandara até então, vê-se substituída pelos antigos sicários, subitamente conscientes da fragilidade de quem só ostentara a sua força através das ações a eles encomendadas.
É essa uma das maiores virtudes da série que apanha a trama exatamente na altura em que os velhos poderes, já desgastados, estão a ser derrubados pelos que se sentem com argumentos para potenciarem os lucros com violência ainda mais execrável, porquanto nem as crianças poupa. Repete-se a fórmula lampedusiana de se mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. E não deixa de ser habilidosa a manobra de diversão criada pelos criadores da história, quando, até ao fim, nos  insinuam a possibilidade de existir um infiltrado entre os colaboradores mais próximos do comissário Maltese.
Se «Gomorra» era eficiente na demonstração de comportamentos mafiosos, «Maltese» sobrepõe-se-lhe na capacidade de não lhe glorificar os feitos, nem lhe atribuir razões merecedoras de simpatia. Eticamente revela-se mais irrepreensível do que as histórias baseados no romance de Roberto Saviano...

«Tea Bag, o sorriso da esperança» de Henning Mankell


“E agora que irei fazer?” terá pensado Jasper Humlin ao sair da Estação Central onde se despedira das três raparigas. Estava convencido de que nunca mais as veria. Nem Tea Bag, a nigeriana, que atravessara o norte de África e toda a Europa para chegar a essa Suécia onde fora convencida de que lhe dariam finalmente existência. Ou a gorda Leyla, muçulmana ferreamente vigiada pelo pai e pelos irmãos, mas que deles se decidira a fugir para encontrar o amor nos braços de um sueco tão tímido quanto voluntarioso. Ou Tanja, que viera da Rússia profunda, iludida pela possibilidade de encontrar a ocidente um emprego capaz de lhe garantir uma vida menos miserável do que a conhecida até aí, mas logo enredada na rede de prostituição de que, recentemente, andava fugida.

Conhecera-as graças a Pelle Tornblom, o amigo de Gotemburgo, que possuía um ringue para treino de boxeurs amadores, e logo ansiara fazer delas as protagonistas do seu novo romance, aquele que pretendia efetivamente publicar em vez do policial que o editor, Olaf Lundlin, queria vê-lo escrever. Para quê perder tempo em intrigas com criminosos e detetives à mistura, se as experiencias  das refugiadas se revelavam muito mais interessantes e coladas à realidade? De uma vez por todas tinha de impor a sua vontade contra todos os outros, até então decididos a condicionarem-lhe todos os passos. Provavelmente teria de rescindir com a editora em que sempre publicara os poemas, agora comprada por empresa petrolífera francesa disposta a garantir rápido retorno do investimento. Por isso, a ele que nunca vendera mais do que mil exemplares de cada um dos seus livros, era exigido uma historieta vendável, que alcançasse os pináculos das listas de livros mais vendidos.
Andrea também seria provavelmente descartável, porque pretendia um filho e uma relação mais estável e ele não estava preparado para lhe oferecer nem uma coisa nem outra. E que dizer de Anders Buren, o vigarista a quem confiara a gestão de todas as poupanças e as reduzira a quase nada com as suas apostas em ações de empresas em contínua perda de valor. Até o próprio Pelle o forçara a iniciar as aulas de Escrita Criativa às raparigas, que concentrara nas suas instalações, verificando-se o paradoxo de a ideia para o seu novo título não lhe ter surgido do nada, antes espicaçada pela iniciativa do amigo.
Só não poderia prescindir de Märta, já que era sua mãe, não sendo possível dissocia-la de tal condição. Mas que dizer de uma octogenária, que criara com as amigas, igualmente do seu escalão etário, uma empresa para vender sexo pelo telefone, passando as noites a gemer convictamente de forma a garantir os orgasmos dos clientes dispostos a pagarem-lhe para a ouvirem?
Quando «Tea Bag e o sorriso da esperança» se conclui é tudo isto que podemos imaginar: Mankell deixa em aberto o futuro do protagonista, que é uma espécie de seu alter ego, porquanto não podemos esquecer que foi autor prolífero de romances policiais (mormente os protagonizados pelo detetive Wallander), expediente apropriado para ganhar o sustento e subsidiar as atividades culturais desenvolvidas em Moçambique. Como não ver em Jasper um seu irmão gémeo, bem mais renitente em escrever best sellers  do que ele próprio?